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Full text of "O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições"

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O POVO PORTUGUEZ 



NOS SEUS 



COSTUMES, CRENÇAS E TRADIÇÕES 



II 






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O POVO PORTDGDEZ 



NOS SEUS 





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POR 



lee vívants sont toujours et 
de plus en plus domines par 
les morte. 

A. GoMTB, Politique 
positive, t. II, p. 61. 



VOLUME II ^ 

CRENÇAS E FESTAS PUBLICAS, 
, TRADIÇÕES E SABER 

ÇOPUílíAá 



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LISBOA 



LIVRARIA FERREIRA— Editora 
432— Roa Áurea- 134 

1885 



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P. 1913 U 



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COIMBKA — IMPK£NSA DA UNIVERSIDADE 



o POVO PORTUGUEZ 



NOS' SEUS 



COSTUMES, CBENÇIS E TRADIÇÕES 



LIYRO n 

CRENÇAS E FESTAS PUBUCAS 

Em qualquer grupo humano a ordem social basêa-se 
no accordo dos sentimentos. A actividade é motivada 
pelas necessidades egoistas, e a capacidade especu- 
lativa é tao rara e absorvente, que aquelle que pensa 
torna-se inbabil para a vida pratica. A actividade, pela 
dependência do concurso subordina-se ao sentimento, 
como vemos pela ^ noção, dp .honrjí, e, o pensamento 
quando influe a^^ iransiormagão di^*)ipia época, é pelo 
sentimento que uuivèrsalisa as ideias abstractas. A 
acção commum, (pe^ di.stmgu<d. a vida publica ou de 
nação, tira o seu impulso - confiante das suggestões 
affectivas. Diz G0mto.;-^p $eryi^.'habitual do senti- 
menta exige alternativa^eatè á 'satisfação dos impul- 
sos e a communicação das emoções. ^ (1) As crenças 
são o élo principal da transição da vida domestica para 
a vida publica, representando sempre em todos os 

(1) Politique positive^ t. ni, p. 79. 



6 LIVRO II 

seus estados e transformações o esboço espontâneo 
de uma synthese aflfectiva. As crenças populares e 
nacionaes, que formam o objecto d'este livro, divi- 
dem-se em dois grupos : as crenças que são restos de 
religiões extinctas que pertenceram às raças que oc- 
cuparam a peninsula hispânica, mas que sobrevivem, 
máo grado o exclusivisnio das outras crenças que 
constituem a religião do estado, impostas ofiBcialmente, 
apropriando-se dos elementos mythicos e cultuaes 
anteriores já desnaturando-os, já perseguindo-os. {Fas 
et nefas.) 

O encontro d'estes dois grupos hierologicos deter- 
minado por diversas situações históricas provoca um 
terrível conflicto, em que a religião do estado sendo 
levada até ao canibaUsmo da Inquisição, os cultos decor 
hidos fortificaram-se na allucinaçâo patbologica da fei- 
ticeria e possessão demoniaca. Apesar porém d'esse 
eterno antagonismo, os dois grupos fusionaram-se 
como se vè pela persistência de certas praticas super- 
sticiosas nas próprias festas do cathoUcismo, consti- 
tuindo ambos ainda hoje a principal synthese affectiva 
do povo portuguez. 






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CAPITULO I 
Bases criticts da Hierologia 

Importância ethnica e histórica das Saperstições populares. — 
Estados mentaes e sociaes em que se elaboram ou persistem 
as superstições.— O ponto de vista de Hume, e sua applica- 
çáo por Buckle ao caracter supersticioso dos ^ovos peninsu- 
lares.-* Coordenação histórica das Superstições em : Cultos 
mágicos propiciatórios seguúdo o typo accádico, e Cultos 
mágicos esconjuratorios, segundo o typo egypcio. — Persi- 
stência de um fundo tradicional de superstições da Chaldèa 
transmittido á Grécia, a Roma, aos Árabes e populações da 
Edade media.— Nova interpretação das Fórmulas marcelli- 
cas, e a região da Aquitania como centro de irradiação das 
tradições oocidentaes.-- As vinte outo Fórmulas do palácio 
de NmiVe coincidem ainda com as superstições actuaes.— 
O Chaldaismo no século xi, e sua dissolução na Feiticeria.— 
Importância de descoberta dos hieroglyphos para a compre- 
faensão d'este problema. 

De todos os phenomenos sociaes que formam o 
objecto da Etbnologia, é a Superstição o mais difiScil 
de coordenar systematicamente, pela incalculável va- 
riedade de elementos descriptivoSi provenientes de 
diversos estados das concepções do espirito humano, 
dos successivos estádios de civilisação que se foram 
sobrepondo seg[undo a corrente histórica, circumstan- 
cias que actuam constantemente pela conservação das 
desegualdades sociaes e pelo conflicto das raças, tor- 
nando assim esta ordem de phenomenos um verda- 
deiro cahos moral. Golligir e comparar os dados 
descriptivos é fácil, e já não é pouco reconhecer o 
valor doestes factos indicativos de concepções primor- 
diaes sobre que se tem de organisar a psychologia 
^tbropolo^ica ; achar poréno nm principio d« coor* 



8 UVRO Ily CAPITULO I 

denaçSo racional no qae é apparentemente absurdo, 
é esse o intuito scientifico, sem o qual todo o esforço 
ficará reduzido a uma curiosidade banal. As Supersti- 
ções s3o o phenomeno capital da sobrevivência dos 
costumes; as sociedades transformam-se, mas esta 
força evolutiva que as impelle acha-se mais ou menos 
equilibrada com um instincto vago de conservação, 
que as leva a respeitar o passado. Esse instincto tem 
manifestações complexas que podem exprimir-se por 
um termo geral — a tradição ; no movimento integral 
de uma sociedade é o costume ; nos factos industríaes 
é o segredo e hereditariedade das profissões ou rotina; 
nas concepções racionaes é o mytho com todos os seus 
variados desdobramentos desde o conto até às meta- 
phoras inconscientes da linguagem ; nas crenças que 
constituem a hierarchia da religião elaborada pelo 
dogmatismo sacerdotal, é a parte popular que man- 
tém a immobilidade instinctiva, a que persiste a todas 
as modificações especulativas, exactamente como no 
phenomeno da linguagem o archaismo se contrapõe 
ao neologismo. 

O caracter de persistência ethnica da Superstição 
dá a este phenomeno uma alta importância para des- 
cobrir os estados primitivos do espirito humano, e ao 
mesmo tempo para deduzir da complicada accumulação 
de elementos extranhos nos mythos a sua simi)lici- 
dade inicial. Tornemo-nos mais claro com uma ima- 
gem : o mytho é como um ramo de arvore, que se 
reveste de folhas, de flores, de gomos e de fructos, 
segundo a estação, até que, passado o calor que pro- 
voca esse trabalho orgânico, as folhas amareliecem e 
caem e fica apenas um galho sêcco reduzido á sua 
simples structura. É assim a evolução do mytho, em 
que collaboram todos os estimules da evolução social, 
e sobre o qual desabrocham todos os elementos poé- 
ticos da imaginação de um povo ; por seu turno o 



BASES GRITIGAS DA HIEROLOGIA d 

mytho vae decahindo segando as modificações de novos 
interesses, e apenas vae persistindo o fundo primário 
qae o constituiu, em uma simplicidade não compre- 
hendida, por um afiêrro instinctivo dos mais atrazados 
pela auctoridade indiscutivel do passado. Â Supersti- 
ção é este ramo sêcco e desfolhado em relação à 
efflorescencia espontânea dos mythos ; o seu estudo 
presta-se a uma lúcida intelligencia dos mythos, cuja 
verdade não consiste na interpretação allegorica ou 
symbolica do seu sentido, mas na determinação dos 
elementos primários da sua forma. É certo que nem 
todos os mythos sãd religiosos, ao passo que as Su- 
perstições são sempre o vestígio da mina de uma 
religião quer na sua parte hierologica, a credulidade 
nos Espíritos malévolos, quer na sua parte litúrgica, 
os ritos propiciatórios das cerimonias auguraes. Pelo 
estudo das Superstições se chega á determinação das 
camadas sociaes juxtapostas pela unidade civil, mas 
profundamente separadas entre si por inaccessiveis 
distancias de capacidade mental ; dentro de um mesmo 
povo, em um elevado gráo de civilisação, é fácil des- 
cer até à inconsciência primitiva, recompor as conce- 
pções das sociedades rudimentares diante da natureza 
6 dos factos do espirito, e reconhecer até á evidencia 
que as forças de conservação servem de apoio ao 
maior numero, e que é sobre ellas que assenta o 
poder temporal e o espiritual todas as vezes que 
exploram o arbitrio e a mentira. As Superstições na 
sua persistência e no seu caracter temeroso ou mali- 
gno são um documento psychologico ; nas profundas 
raizes e analogias de povo a povo, e conservação 
secreta entre as camadas sociaes degradadas ou atra- 
zadas, são um documento proto-historlco pelo qual se 
pode recompor o estado social sobre que se desen- 
volveram as cívilisações progressivas. É preciso distin- 
guir o critério psychologico e o ethnologico. 



iO UVRO II9 CAPITULO I 

A forma e o sentimento que as Superstições apre- 
sentam» correspondem a um estado rudimentar da 
intelligencia do homem : o terror do desconhecido. Às 
forças da natureza não são previstas, a vida está 
exposta aos incalculáveis accidentes de um meio cós- 
mico ainda não adaptado ao bem estar do homem, e 
conjunctamente o meio social, onde preponderam as 
paixões egoistas e violentas, ainda não está discipli- 
nado na ordem pela submissão ao facto legal. O Fe- 
tichismo primitivo nasceu d'esse terror ; o seu desen- 
volvimento nas raças que o crearam produziu a reli- 
gião dos Espiritos, e uma vez decahido pela imposição 
de systemas religiosos superiores, conservou-se na 
forma de cultos mágicos, e entre as classes sem cul- 
tura mental na de Superstições. Por isso que ainda 
hoje o maior numero é o dos que soffrem os encargos 
sociaes, o trabalho e a obediência incondicional, e que» 
pela necessidade immediata da acção, não têm tempo 
nem capacidade de se desenvolverem pelo exercício 
do pensamento, é entre elles, o povo, que se conserva 
a Superstição com as mesmas condições da origem e 
por isso persistindo através das civilisações superio- 
res. Hume, no seu ensaio sobre a Historia natural da 
Religião^ accentúa com lucidez este ponto: «Os homens 
tornam-se mais supersticiosos à medida que experi- 
mentam um maior numero de accidentes. Os jogadores 
e os marinheiros são provas frisantes d'esta verdade, 
ainda que todos os homens os menos capazes de re- 
flectir se vejam entregues aos temores os mais ridí- 
culos, às superstições as mais frívolas.» (1) 

Este facto exemplifica-se melhor na vida coUectiva 
dos povos ; (2) a capacidade industrial e artística dos 



(K) Essais, t. III, p. 16. 

(2) O pensamento de Buckle, já antevisto por Hume, con- 
firma-se com as relações quotidianas; dos Esquimáos, diz q 



bâses criticas da hierologia 11 

povos peninsulares contrasta singalarmente com a 
retrogradação systematica que apresentam a Hespanha 
e Portugal durante os três últimos séculos da civili- 
saçâo da Europa. São na realidade extremamente 
supersticiosos, e essa tendência foi explorada pelo 
catholicismo, que, fusionando-se com o poder tempo- 
ral, checou quasi a impor-se como uma intolerante 
theocracia. Buckle comprehendeu admiravelmente a 
origem d'este atrazo das nacionalidades peninsulares, 
quando diz: «que as antigas civilisações tropicaes 
foram acompanhadas de phenomenos extraordinários, 
que qualifico como Aspectos da Natureza, os quaes, 
sobrexcilando a imaginação, estimularam a supersti- 
ção, e impediram que os homens se atrevessem a 
analysar aquelles ameaçadores phenomenos physicos; 
ou, por outras palavras, impedindo a formação das 
sciencias physico-naturaes. E é por certo bem inte- 
ressante o ver que nenhuma outra nação europêa é 
em taes Aspectos tão similhante ás tropicaes como a 
Hespanha. Nenhuma outra parte da Europa está, com 
eflfeito, tão claramente designada pela natureza como 
a Hespanha, para ser o assento e o refugio da su- 
perstição. — Entre as mais importantes causas physi- 
cas da superstição contam-se as fomes, as pestes, os 
terremotos e em geral a insalubridade do clima, cau- 

abbade Morillot : «A phoca, que apparece nas costas da Groen- 
lândia com os primeiros calores, e o principal recurso do Es- 
químáo. Também, quando ella falta, porque o verão tarda, uma 
fome cruel desvasta a ilha. É uma calamidade publica, e a 
superstição do povo dava-lhe outr'ora por causa a cólera de 
alguma divindade, os sortilégios que era preciso saber com- 
bater.» Mythologie et legendes des Esquimaux du Groenland. 
(Actes de la Societé de Philologie, t. iv.) «As pestes e outras 
cruéis epidemias, que muitas vezes assolam a Groenlândia, 
contribuem muito, comprehende-se, para fazer nascer e pro- 
pagar as abusões sobre os maleflcjos das feiticeiras.^ (Ib.. 
p.271.) ' 



12 LIVRO II, CAPITULO I 

sas qne abreviando o termo natural da vida, estimu- 
lam e augmentam o fervor com que se invocam os 
auxílios sobrenaturaes contra os males que se crêem 
de egual procedência. » Buckle, mostrando que a Hes- 
panha, mais do que nenhum outro povo esteve sem- 
pre sujeita a estes phenomenos extraordinários, deduz 
como effeito a deformaçSo do caracter nacional: 
€ Quando a isto se accrescentar, incluindo Portugal, 
que os terremotos tem sido desastrosos na península, 
e excitado todas as crenças supersticiosas, que tantas 
calamidades naturalmente provocaram, podemos for- 
mar uma ideia da inseguridade da vida e da facili- 
dade com que um clero astuto, artificioso, e cheio de 
ambição, soube converter esta instabilidade em instru- 
mento do augmento do seu poder pessoal.» O pro- 
cesso histórico de Buckle é pasmoso pela abundância 
dos documentos comprovativos. 

Em Portugal os factos são também eloquentes ; as 
pestes, os terremotos, e conjunctamente as fomes, 
apparecem desde a Edade media com um caracter 
periódico. E quando vemos no século xvi, em que a 
intelligencia portugueza attingiu o seu máximo esplen- 
dor na arte e na litteratura, ser n'esse século que o 
catholicismo se tomou mais obscurantista e intolerante 
pelo poder da Inquisição e pelo domínio dos Jesuitas, 
custa-nos a conciliar esta antinomia sem a intervenção 
de factores que estão fora da historia; de facto o 
século XVI foi perturbado por continuas pestes e por 
medonhos terremotos. Em 1512 succede um grande 
terremoto em Lisboa, de que falia Garcia de Rezende, 
e o fanatismo de D. Manuel recrudesce contra os 
pobres e activos Judeus; em 1531, começa a 7 de 
janeiro um terremoto que se continua por mais de 
cincoenta dias, terminando com um abalo final análogo 
ao terremoto de 1755; e D. João iii submette-se pouco 
depois ao estabelecimento da Inquisição. Em 1551, 



BASES CKITICAS DA HIEROLOGIA 13 

cae a 28 de janeiro uma chuva de sang[ue, e succede 
em Lisboa um terremoto em t]ue morrem duas mil 
pessoas ; pouco depois estabelece-se a censura contra 
os livros e fecha-se Portugal à conomunicaçSo intelle- 
ctual com a Europa. A peste grande de 1569 entrega 
o animo de D. Sebastião aos planos dos Jesuítas. Em- 
fim tudo conspirava para fazer regressar o espirito 
do povo portuguez a esse estado mental das supersti- 
ções, que augmentaram com o terror religioso dos 
tremendos processos inquisitoriaes de cárcere, tor- 
tura, procissões canibalescas e de fogueiras, que 
eram motivados com o fim de extin^ir essas mesmas 
superstições do demonismo, da feiticeria e do judaís- 
mo. O catholicismo provocava uma sobrexitação su- 
persticiosa sobre a qual reagia com uma barbaridade 
selvagem, reduplicando-lbe a intensidade. O estudo 
das Superstições populares portuguezas só pode fa- 
zer-se de um modo completo compilando como ele- 
mento descriptivo os assombrosos materiaes que se 
acham inclusos como peças de accusaçao nos volumo- 
sos quarenta mil processos que se guardam na Torre 
do Tombo. O simples trabalho de compilação só por 
si reclama uma vida inteira. 

Por aqui se vê a importância do critério ethnico 
no estudo das Superstições, que muitas vezes sSo o 
effeito de uma regressão, como se deve considerar a 
monomania hallucinada da Feiticeria e do Demonismo 
no século xvi em toda a Europa ; era o conflicto entre 
duas crenças, a dogmática e ofQcial contra a popular 
e poética. O conílicto é antiquíssimo, e já nas raças 
antigas o culto dos povos vencidos e escravisados era 
prohibido e só se praticava a occultas e com caracter 
magico. É essa uma das formas mais vigorosas da 
Superstição, ainda n3o reduzida ao seu automatismo 
consuetudinário. Este diverso vigor das crenças foi 
conhecido pelos escriptores antigos ; Yarrão estabe- 



14 LI\RO II, CAPITOLO I 

tecla trez espécies de theologia, a civil, a natural e a 
poética; de facto estas trez cathegorias do mesmo phe- 
ncnneno correspondem a uma simultaneidade de elabo^ 
ração social : A theologia cicil, adoptando as phrases 
de Varr3o, é a crença religiosa disciplinada em um- 
dade cultual, por um corpo sacerdotal, servindo de 
meio de unÉcação de uma sooiedade que attrnge o 
desen^^olvimento de nação. A theologia natural, é uma 
especulação da intellígencia, com tendência metaphj- 
sica sobre os factos do culto civil, estabelecendo para 
os atrazados uma conciliação allegoríca e interpreta- 
tiva, por onde se chegou á expressão abstracta de 
dogmas e ás primeiras contemplações philosophicas. 
A theologia poética é a persistência das concepções 
populares que nem entraram na unificação cultual, 
nem se prestaram ás especulações abstractas; as 
camadas populares, renovadas pelas guerras & pela 
escravidão, augmenlaram este fundo com cultos de- 
cahidos do seu destino social ou com religiões prohi- 
bidas na forma publica, transmittindo-se assim pela 
sua propría estabilidade mental e consuetudinária em 
superstSpão. 

Os povos da antiguidade, onde as superstições tive- 
ram maior desenvolvimento, são os Chaldeos e os 
Egypcios; todos os críticos reconhecem este facto, 
que tem a sua razão histórica. Nos deltas da Chaidéa 
as doenças pahidosas, os aluimentos do território pelas 
cheias, as incursões de outras raças que subjugaram 
o elemento accádico, provocavam um grande desen- 
volvinoento de cultos supersticiosos, uns fora das 
systematisações dogmáticas, outros supplantados peta 
relrgião dos povos vencedores, como se observa nas 
divindades solares substituídas por divindades luna- 
res. Na demonologia dá^Chaldêa, é um dos principaes 
espíritos elementares Urukti, o monstro dos charcos, 
do mar, do deserto, e do vento máo ; Tetal é o guer- 



BASES GRmCAS DA mEROLOGIA 45 

reiro ; IMuq c o vento do deserto ; Mm, os destra- 
dores, Maskm, o que ^nna as trapaças ; Nbmtar é a 
peste, eomo Nm-dar é a gnerra. A substHaiçSo da 
tbeogo&ia solar accadica pelo systema hinar babyio- 
nioo sigDífiea orna sobreposição de raças, e a deea- 
deneia de cuHos que ficaram coostituiodo o syslema 
magico da Cbaldéa. £ por isso que esla decadência 
ficou coDStitiiida em corpo sacerdotal magico, com- 
posto de trez classes : os Kharkmmn (ímprecadores 
(M escofijuradores^dos espíritos), os Hákamim, (euran- 
deipos, análogos aos Ghamans das tfríbus aftaicas) e 
08 Asêopkifa (pessoas de virtude, análogas ás mesas 
beatas.) Tal é áíiidia a pessoal magico das superstições 
poifluguesa». 

N<> %ypto dá-se tombem o mesmo phenomeno de 
deseuvohrimento dos cultos mágicos com egual impor- 
tância como na Gbaldéa ; o fetichismo popular primi- 
tivo conservasse* na uniflcaçSo politica a par dos cultos 
polytheistas subordinados pek) sacerdócio em triadas 
altegoricas e moraes. Esse fetichismo é^ mesmo um 
vestígio da independ^cia local dos antigos nomos ou 
cantões uniâoados em uma nacionalidade {AckorPhtu, 
Egj^pto) sob o predomínio religioso de Phtab. 

É certo que na religião dio Egypto se acham os 
restos de um^ culto solar, correspondente a uma pri^ 
mitiva popalaçao turaniana, e um culto lunar prepon- 
derantiet e peculiar do siderismo kuschita. A decadên- 
cia d''esse culto solav da importância religiosa é que 
o torna accessivel ás transformações da imaginação 
popular, que o tratou como objecto de poesia ; sobre 
os restos de mytiios solares se formaram os ele- 
mentos da epopèa osiriana, e a Magia tomou-se 
essencialmente medici&al, concepção correlativa á das 
causas occultas das doenças. A Religião no Egypto 
toca os dois extremos : a activa especulação mental 
que leva ao allegorismo mystioo, e a absoluta conser- 



16 UVRO II, CAPITULO t 

va^o nas superstições populares. Uma causa etbnica 
explica-nos o porquê fundamental do maior desenvol- 
vimento dos cultos mágicos na Chaldêa e no Egypto; 
estas duas grandes civilisações basearam-se sobre ubi 
fundo proto-hístorico de raças amarellas, cujo feti- 
chismo desenvolvido produz, como se observa na 
China, a religião dos Espiritos ; e ficando estacioná- 
rio, por qualquer causa histórica, conserva-se como 
superstição. Os gregos, os romanos, os judeus e os 
árabes reconheceram a Ghaldéa e o Egypto como as 
fontes de toda a magia. Sabe-se a influencia da civi- 
lisaçao accádica sobre as raças semíticas ; sabe-se que 
as raças áricas se desenvolveram também sobre um 
grande elemento ethnico turaniano ; é portanto natu- 
ral o poder determinar bases communs que expliquem 
a identidade das Superstições européas, e o chegar 
um dia a reduzil-as a uma certa unidade. Os Roma- 
nos trouxeram para a Europa as cerimonias magicas 
do Egypto, bem como os Árabes as formas magicas 
da Chaldêa, e ambos estes dois povos civilisados 
influíram no desenvolvimento das nacionalidades do 
Occidente. Antes da entrada da raça árica na Europa, 
já ella tinha sido occupada por povos da alta Ásia, de 
que os Bascos e Laponios são os representantes dege- 
nerados ; chame-se-lhe como quizerem, essa raça pro- 
to-historica persiste em grande parte ainda com cara- 
cteres anthropologicos e mais ainda com numerosas 
feições ethnicas. É d'esse elemento que vamos derivar 
as Superstições mais antigas e por isso as mais ge- 
raes da Europa, para o que a Península hispânica é 
um dos melhores campos de exploração. Por aqui 
passaram iberos, colónias egypcias, phenicias, cartha- 

Sinezas e maurescas, bem como celtas e romanos, e 
e todos ficaram detritos persistentes por onde se 
apura a unidade das superstições fortalecidas por 
effeito de regressões provocadas pelas assimilares 



BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA Í7 

da mesma raça em differentes épocas. Por este ponto 
de vista se determina o methodo para o estudo e 
classificação das superstições, até hoje irreductiveis a 
toda a coordenação em systema. 

O estudo das crenças dos selvagens baseado sobre 
as relações dos viajantes leva a recompor esse estado 
mental que os ethnologistas explicam* sob a forma de 
concepções animistas; o que para nós é um tropo 
mais ou menos poético da linguagem, para o selva- 
gem é uma realidade. As cousas têm uma alma, uma 
vontade, um influxo desconhecido sobre os actos 
humanos ; esta concepção produz um sentimento vago 
de terror, e a necessidade de applacar essas influen- 
cias malévolas por meio de actos que constituem um 
culto espontâneo. Tal é o Agouro; comprehende esse 
terror instinctivo do desconhecido, como se observa 
nas populações atrazadas^ e também as praticas de 
observância rigorosa que são formas rudimentares da 
superstição. O agouro, pela sua simplicidade, pela 
sua independência da interveòção de um qualquer sa- 
cerdócio, pertence a uma época social em que apenas 
existem cultos domésticos, variáveis de familia a fami- 
Ua, e em parte como segredo local ; a sua multiplici- 
dade não provém das especulações intellecluaes, como 
as que desenvolvem os dogmas superiores, mas da 
complexidade dos actos individuaes submettidos ao 
influxo do agouro. É por isso que a quasi totaUdade 
dos agouros são indicações de perigo pessoal, que se 
evita por actos negativos : in non faciendo. As super- 
stições comprehendem varias camadas ethnicas cor- 
respondentes a diversos estados do grupo humano ; 
a ter de seguir a sua evolução segundo a marcha das 
sociedades, o Agouro é a forma simples e primitiva 
anterior a toda a organisação de culto publico. £ entre 
os povos selvagens que se observa em toda a sua 
efflorescencia instinctiva este producto de apprehen- 
2 



18 irfW U« CAPITULO I 

s968 tanto mais fortes quanto o effoismo da eonsarva-^ 

S3o está mais próximo da animaudade» e quanto os 
[ados raeionaes estão longe de serem ampliados pela 
observação empirica. Ideias qae se tomaram base 
moral de religiões superiores, como a metempsychose 
e a immortalidade da alma, provieram da concepçio 
selvagem do animismo ; o terror dos mortos, que $6 
desenvolveu no culto dos maiores, e foi a primeira 
unificação moral da cidade, ainda se conserva no medo 
das almas do outro mundo, nas suas appariçoes e 
transmigrações, que formam o campo mais vasto dos 
agouros pc^ulares a ponto de ser recebido no catbo- 
licismo como um culto de suffragio. As relações inti- 
mas que existem entre os agouros dos selvagens e 
os dos povos civilisados da Eurqpa, em uma concor^ 
dancia pasmosa, devem explicar-se não só pela per- 
sistência tradicional, porque um grande numero de 
costumes e de actos cannibaes ainda se manifestam 
perturbando a ordem social como regressão à activi- 
dade primitiva, mas também pelo determinismo moral 
provocado pela mesma ordem de concepções expres* 
sas pela designação de animismo. É a sua extraordi- 
nária persistência, ou como diz Tylor, a sua sobrevi- 
vência, que faz com que o* Agouro mesmo albeio a 
toda a forma cultual ou religiosa seja considerado um 
elemento de superstição, por onde o estudo d'esta 
deve ser encetado. Como um pbenomeno de paleon- 
tologia moral esta parte das Superstições determina-se 
na sua maior amplitude e simpMdade nos seguintes 
estádios humanos, o sdvagismo, o barbarismo, e o 
fagamsm^o. 

Cada uma d'estas categorias da espécie tem a sua 
importância, que a ethnologia distinguirá de futuro ; 
no selvagismo o costume, seja qual for a sua mani- 
festação, é espontâneo, alheio a todo o contacto de 
outras raças ou sociedades ; no barbarismo, ha já um 



BASES QMTNSilS DA HIBRQLOGIA 19 

começo de cultura provenimte do encontro com outros 
povos, aiH^opriando noYOs usos ás suas condições infe- 
riores ; o paganismo, significa a vMa de isolamento 
dos campos, (dos pagh da £dade media) e presta-se 
pela falta de estimulação social á regressão aos costu- 
mes e crenças primitivas. Os padres da egreja pre- 
judicaram este nome usando-o como condemnaçio dos 
usos e crenças polytheistas, que durante a Edade 
medid prevaleciam nas {povoações ruraes ; para evitar 
este inconveniente substituil-o-hiamos no seu en^ege 
etimológico peto vulgarimo. É n'estas trez camadas 
homanas que se deve fazer a exfrforação dos Àgwros, 
cmno formas simples e individuaes das superstições. 

As relates da vida vegetal com a humana, que 
fiersistem na crença e no costume de plantar uma 
arvore cpiando nasce uma criança, apparecmi em uma 
superstição popular açoriana, conunum á índia, ao 
México e á Germânia. Na ilha de S. Miguel quando 
vae um rapaz para o Brazil, ou para as baleeiras 
«nericanas, pendura-se ao canto da casa uma pequena 
planta de piteira, a que nos Açores se chama babosa ; 
se a planta se conserva verde, o ausente está de 
saúde, se amarellece é porque morreu. Max MuUer 
notou este uso supersticioso em uma tradição da 
America central, em que dois irmios deixaram plan- 
tadas duas canas^ para durante a ausência se saber 
por ellas, se estão vivos ou mortos ; no conto allemão 
e(4faido pelos sábios Grimm, são dois lirios de oiro, que 
dirão se os ausentes passam bem, se floresceram, ou 
se morreram, no caso de murcharem. Grimm deter- 
mina um paradigma indiano, o que leva a reportar 
esta crença, não a uma <»igem indiaQa, mas a um 
solo proto-historíco representado pelas raças da Ame- 
rica, e pelo elemento peninsular* das colónias aço- 
rianas. 

Lubbock, nas Origens da CivUisação, (p^ 21) falia 



20 UYRO n» CAPITULO I . 

do pasmo que o selvagem tem pela escripta; ainda 
entre o povo portuguez a ktra redonda tem mn grande 
perstigio de veracidade ; as Orações escriptas são tra- 
zidas em bolsinhas com poder talismaníco, e os can- 
tos raramente os deixa escrever com receio de sorti- 
légios contra a pessoa que os dita. Lubbock, fazendo 
estudos comparativos sobre as religiões dos selvagens, 
chega à conclusão importante : «Assim os nossos ho- 
mens do campo e as classes mais ignorantes das nos- 
sas grandes cidades, acreditam ainda na magia ; as 
divindades dos nossos antepassados sobrevivem ainda 
nos contos das crianças. É pois inevitável o encontrar 
em cada povo vestígios, que digo, mais do que vesti- 
dos das antigas reUgiões.» (1) Iremos seguindo os 
factos compilados systematicamente por Lubbock ; em 
todos os povos selvagens os sonhos sâo uma revelação 
immediata dos manes ou almas dos antepassados ou 
dos Espirites. Durante a Edade media vigorou a arte 
de interpretar os sonhos, e ainda hoje como nota Ty- 
lor, é este assumpto um dos ramos de exploração 
mercantil das folhas-volantes. As superstições dos 
sonhos são abundantíssimas no povo portuguez, e 
por isso apontaremos a mais característica : o Peza- 
ddlo. Entre os selvagens da Austrália, o pazadello 
chama-se Koin ; agarra o homem que está dormindo, 
leva-o comsigo sem que o paciente possa gritar, mas 
ao alvorecer desapparece, e a pessoa acha-se na sua 
cama descansada. (2) A Edade media fez d'este mal 
estar das grandes digestões um largo ramo da feiti- 
ceria dos incubas e sucubos. Na ilha de S. Miguel cha- 
ma-se-lhe o pezadeUo da mão furada. 

A sofíibra projectada pelo corpo é entre os povos 
selvagens considerada como um Espirito que acom- 

(1) Origines de la Civilisation^ p. 204. 

(2) Ibid,, p. 216. 



BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA 21 

panhao homem ; nos pactos da Edade media o homem 
perdia a sua sombra, que ficava pertencendo ao dia- 
bo, e na penalidade symbolíca o homem banido per- 
dia a sombra cavando-se no chão emquanto elle estava 
amarrado á picota ou ao poste da ignominia. Entre as 
superstições das provincias do Brazil encontramos esta 
colligida pelo vigário de Yictoria : «Na madrugada do 
dia de S. João Baptista, quem não vê a stm sombra 
ao chegar á borda de um poço ou fonte, nSo vive o 
anno seguinte. » As pragas, tão frequentes em certas 
classes, como marinheiros e arreeiros, e que formam 
um ramo pittoresco da linguagem, baseam-se sobre 
a crença em um espirito malévolo, que é preciso in- 
crepar com injurias. De uma cousa que se perdeu ou 
se destruiu, diz o povo : Deu-lhe o Tanglomango, Mais 
abaixo desenvolveremos este vestigio da superstição 
que se liga às antigas raças da península ; segundo 
Lichtenstein, os Bechuanas attribuem ao deus do mal 
a que chamam Murimo todos os desastres que lhes 
acontecem, e «não hesitam em arremessar-lhe toda a 
classe de injurias quando lhes acontece algum desar- 
ranjo ou não satisfazem a sua vontade.» (1) 

Durante a Edade media o Diabo occupou na ima- 
ginação dos povos da Europa este papel da divindade 
maligna das raças selvagens, e devido a uma regres- 
são provocada pelas invasões tártaras e mais tarde 
pelas explorações dos ciganos, foi fácil operar-se esta 
incrustação, que ainda persiste nas classes ínfimas e 
se lhe chama o inimigo. Os Tártaros de Katschintzi 
têm para si que o espirito maligno é mais poderoso 
do que o espirito do bem ; (2) a Europa pensou assim 
durante séculos, e a maior parte das Superstições 
populares baséa-se sobre esta concepção, sustentada 

[1) Ap. Lubbock, op, dt., p. 219. 
2) Ibid., p. 220. 



22 UYRO n, CAPITULO I 

pelo facto das doenças, que a gente do campo attríbue 
ao mau espírito. Para os habitantes da Nova Zelândia^ 
cada doença é produzida por um deus especial ; na 
crença popular catholica os santos tèm virtudes espe- 
ciaes ccmtra determinadas doenças, como Santa Apol- 
lonia contra as dores de dentes, Santa Martha contra 
as doenças de menstruação, Santo Amaro contra as 
doenças das pernas, S. Marçal contra os incêndios, e 
assim por diante. Além das doenças attribuidas aos 
espíritos malfazejos, como entre os Cafres Kussas e 
os Kols de Nagpore, e entre os Chinezes, ha outras 
doenças produzidas pela vontade dos feiticeiros ou 
bruxas. (1) Esta ordem de doenças é também attri- 
buida em Portugal a pessoas que tem máo olhado, ou 
que fazem feitiços e carantulas para prejudicarem a 
quem lhes convém, ou mesmo os gados e as cearas. 
A esta superstição ligam-se muitas cerimonias escon- 
juratorías cuja parte descriptiva exporemos adiante. 
Cook, na sua Viagem do Pacifico nota entre muitos 
povos selvagens a crença de que os loucos estão pos- 
suídos da divindade, e s3o por isso respeitados ; entre 
os Esquimáos, os loucos têm caracter sagrado, (2) da 
mesma forma que os cretinos nas povoações ruraes 
da Europa e em Portugal. Entre os povos selvagens 
a morte é geralmente o effeito de magia ; entre nós 
as crianças que morrem de consumpção, de rachitismo 
ou de afitos são tidas como embruocadas^ e a pessoa 
que morre afogada é em consequência de que o génio 
maligno do mar tem de devorar todos os dias uma 
pessoa, como o ouvimos frequentes vezes na ilha dô 
S. Miguel. 

Quando se pede algum milagre a S. Antcmio, costu- 
masse amarrai-o com uma corda, tel-o em exposição 

(!) Abb. Morellot, Mythes et Legende^^ p. WL 
(2) Ibid., p. 262. 



BASES CRITIGAS DA HIEROLOGIA 23 

á Jânellft ao ralento da noite, ou conservat-o mergn* 
Ihado em um poço, até que elle conceda o que se lhe 
pede ; os selvagens de Kamtscbatka insultam os seuí 
deuses quando não cumprem o que se lhes pede ; os 
da Nova-Zelandia ameaçam o seu deus Atua, de que 
o matam e de que o comem, bem como o negro da 
Guiné espanca o seu fetiche. (1) Nos templos (K)sKy- 
mytba de Chittagong, as oraçSes começam por toques 
de campainha para accordarem Buddha, como no tem- 
plo de Sinto o toque do sino serve para accordar a 
deusa a prestar attenção ás supplicas. A campainha 
e os sinos, sobretudo quando dobram a preces, tém 
no rito catholico a mesma origem barbarica. Segundo 
Klemm, os Tártaros do Altai figuram o seu deus sob 
o aspecto de um velho de barba longa, e é esta a 
figuração artística e popular do Padre Eterno catho- 
lico. Os ecdipses s3o amda hoje entre o povo um sígnal 
no céo bastante temeroso, como entre todas as raças 
selvagens. 

A crença nos phantasmas, como formas da ahna 
depois do passamento, que é a base da maior parte 
das crenças dos selvagens, é vulgarissima em Portu- 
gal; elles apparecem a pedir o cumprimento de alguma 
promessa, e fazem um ruido junto da pessoa a quem 
avisam, simulando o arrastar de grilhões, e chamam-se 
propriamente almas penadas. Na Chronica dos VicenteSj 
um dos mais antígos documentos da historia de Por- 
tugal, o cavalleiro Henrique apparece ao seu pagem 
a pedir-Ihe que o mude de sepultura. Foliar uma alma 
em alguém, que é como o povo explica o hysterismo 
e a epilepsia, acha-se também entre os Esquimáos, (2) 
como nas aldeãs portuguezas. O outro mundo, onde 
habitam as almas, é uma concepçSo análoga á dos 



(í) Morellot, op, cU., p. 225 e 226. 
(2) md., p. 244. 



24 LITRO II, CAPITULO I 

povos selvagens que crêem que as almas dos mortos 
vão para uma terra mais feliz. Muitos dos jogos popu- 
lares, como os pares e nones, foram e ainda são entre 
certos povos selvagens ritos divinatorios. 

A superstição das carantulas, prohibidas no Alvará 
da Gamara de Lisboa, do tempo de D. João i por 
occasião da batalha de Aljubarrota, usa-se como notou 
Tanner na America septemtrional por occasião da 
guerra ; os Romanos também lançavam uma boneca 
ao Tibre, e na índia picam essa imagem ou carantula 
com alfinetes para fazer mal à pessoa que represen- 
ta. (1) O horóscopo do mme^ que exprime entre o 
povo uma forma da sua crença na fatalidade, motiva 
entre as tribus da America do norte e insulares do 
Pacifico a mudança de nome para evitar o feitiço. Os 
cabellos, a roupa ou restos de comida, são os objectos 
mais directos com que fazem os feitiços contra uma 
pessoa ; assim as mulheres queimam o cabello que 
lhes cae ao pentear, e a comida que cresce não deve 
ter sido tocada, nem o pão ficar mordido dos dentes. j 

Estes objectos prestam-se para o mesmo fim maligno ( 
na Polynesia e na Nova Zelândia. Os feiticeiros da ( 
Nova Zelândia fazem covas no chão para attrahirem 
ali é sepultarem depois os espíritos dos seus inimi- 
gos ; o nome de Cacas de Salamanca dado às escholas 
da magia na península provém d'este rito persistente 
do estado selvagem. Os apparecimentos das Virgens 
nas grutas são um instincto de reacção clerical contra 
a superstição popular. Adivinha-se lançando clara de 
ovo fresco em um copo de agua, sobretudo nas ilhas 
dos Açores ; na Collecção de Viagens de Astley, traz 
Faira: «Quando Vasco da Gama descobriu a índia, 
alguns feiticeiros de Kalekut mostraram em bacias 
cheias de agua os trez galeões que elle trazia.» (2) 



(2) 



(1) Ap. Lubbock, op. cit,, p. 240. 

Ibid., p. 245. — Nas Cartas de D. Francisco Manuelde 



BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA 25 

Em Maskat, diz o mesmo escriptor, «ha feiticeiros tâo 
babeis, que comem o interior de mna coasa só com 
a vista ; > comprehende-se por esta crença a locução 
popular ainda frequente comer com os olhos. Entre os 
povos selvagens ou bárbaros, como os da Sibéria, ou 
os Abts do noroeste da America, ou da Groenlândia, 
os dons mágicos adquírem-se pelo isolamento, pela 
privação de alimento e pela exaltação ou ballucinaçao; 
são estes ainda os meios como se produzem entre o 
povo esses estados mentaes das chamadas pessoas ou 
mulheres de virtudCj que como todos os bruxos selva- 
gens tomam a serio a sua superioridade e poder sobre 
os espiritos. É nos retiros das encruzilhadas que o 
diabo acode á evocação. 

As dansas nas romarias campestres têm ainda o 
caracter de rito religioso como entre os Kols de Nagpo- 
re, os Ostiakes, os indigenas da Yirginia, e entre 
algumas tribus do Brazil. As festas do Espirito Santo, 
nas ilhas dos Açores são acompanhadas de bailhosy e 
de banquetes a pobres, ritos obrigados nas religiões 
selvagens como notam Robertson e Lubbock. Os nomes 
de pessoas tomados de animaes e plantas revelam um 
primitivo totemismo, que se explica pelo mesmo uso 
entre os Issinese da Guiné, os Hottentotes, no Gongo, 
entre os Bechuanas, e os Ghinezes. 

O culto das arvores das raças selvagens, persiste 
entre o povo, para quem a cruz é a arvore da re- 
dempção ; certas plantas herbáceas, como a arruda 
e o trovisco, têm poderes mágicos para afugentar os 
espiritos. A raiz da mandragora pelas suas formas 
caprichosas, é citada nas Constituições dos Bispados 
como empregada pela feiticeria ; o funcho é usado nas 
festas do natal na Madeira e Açores, e os antigos bos- 



Mello, p. 542, allude-se a esta superstição em Portugal, como 
adiante veremos. 



uno n# ejMívio i 

quês sajfrados estão substituídos nos costumes pelas 
folhagens espalhadas pelas ruas por onde passa uma 
procissão. Muratori, na Dissertação ux das Antigui- 
dades italianas, cita uma lei de Luitprando, que pro- 
hibia enb*e os Lombardos o culto das anrores ; este 
culto andava ligado ao das Fontes» como se prohibe 
no GonciUo Nannetense. Em Portugal a chorographia 
eunumera uma extraordinária quantidade de Fontes 
Santas e de Aguas Santas, superstição que apparece 
entre os bárbaros da Germânia, na Fonte de Urdhar e 
na arvore de Yggdrasil. Os ramos de giesta, por occa- 
sião (las Maias, e a festa da espiga em Lisboa, acbam-se 
usados com caracter religioso entre populações infe- 
riores, como entre os habitantes de Nicarágua, onde 
se adora o milho e os feijões. Na ilha de S. Miguel, 
quando o mar está bravo, lança-se-lbe reliquias de 
santos para o abonançar ; em uma relação de viagem 
de 1693, conta-se que o rei dos Kabosbeers mandou 
o seu sacerdote applacar o mar lançando-lhe vários 
prezentes de comer e beber. Nos Açores curam-se 
certas doenças com agua das trez marés. A pia ba- 
ptismal corresponde aos lagos, tanques e poços sagra- 
dos das raças da America e dos Celtas. A superstição 
de revolver penedos para fazer chover, prohibida pelas 
Constituições dos Bispados em Portugal, pertence aos 
restos do feticbismo das raças da Eurqpa, bem como 
o costume das dansas phálicas ctrez voltas dei ao 
penedo — para namorar José» da cantiga popular. 
A pena infamante do antigo symbolismo do direito 
portuguez de transportar pedras ás costas, provém 
de um culto decahido, tomado desprezível. Os habi- 
tantes da Nova Zelândia e alguns da Melanesia ado- 
ram o Arco da vdha (o iris) ; em Portugal ha muitas 
superstições sobre este phenomeno meteorológico, 
análogas ás da Birmânia e Zululandia, das Yasconga- 
das, Escossia e Bretanha, e até com Simulas simi- 



BASES GBmaàS DA BinOLOGiA 97 

kures. O ferro consenFa ainda um caraeter magico ou 
de vu*tude> tal como na época em que o uso do bronze 
foi perturbado por este noYO (actor da civilisacão ; em 
um esccmjuro popular se diz : 

Tu és ferro, eu sou aço, 

tu és demonioi eu te embaço. 

 ferradura de um cavallo ou nmla é um poderoso 
talisman contra a feiticeria. Â tradição poética das 
Mas encantadas, conhecida nos mytbos celtas da Ilha 
de Avalon, e aproveitada por Gamões no seu episo- 
dio da Ilha dos Suores, acha-se entre os haUtantes 
da Uha de Tonga, é a 'dha phantastica de Bolotoo ; 
esta mesma crença apparece entre os Esquimàos, e 
podemos dizer que ainda no século xv foi esta tradi- 
ção no estado poético que estimulou a imaginado dos 
Portuguezes para as arrojadas emprezas marítimas. 
Às lendas theologicas da bemacenturança tem suas 
raízes n'este solo inferior das raças selvagens e bar- 
baras. 

Na medicina popular encontra-se uma pratica ex- 
tremamente conmmm aos povos selvagens ; é a sucção 
no corpo do doente, cuspindo fora a influencia naali- 
gna extrahida pelo feiticeiro. Âcha-se este costume 
entre os selvagens do Paraguay e do Brazil, entre os 
Índios Galibes, Abipons, Guayacurus, na Guyanna in- 
gleza, na Califórnia, na bahia de Hudson, entre os 
Esquimáos, e na Austrália; (1) a esta grande serie 
de factos accrescenta Lubbock : cAssim encontramos 
por toda a parte este modo de tratamento primitivo, 
que consiste em chupar a parte doente para fozer 
sahir o mal> e por ventura os vestígios ainda se con- 
servam entre nós nos costumes das crianças...» De 

(!) Ap. Lubbock^ Origines 4e ia CivUisatianj p. M 9 29i 



28 UVRO n, CAPITULO I 

facto muitas vezes observamos este phenomeno : para 
calar a criança que se magoou bafeja-se-lhe o logar 
magoado, ou suga-se-lhe a mSo, o dedo, o que ella 
repete quando alguém se queixa. Entre o povo a suc- 
ção é ainda empregada nos golpes, e na ilha de S. Mi- 
guel as mulheres possessas de algum espirito ou alma 
curam-se shnulando que vomitam cabellos embrulha- 
dos com linhas e alfinetes ; a palavra chupista tem 
entre nós um sentido infamante, e dá-se entre pes- 
soas que usam estas praticas medicinaes. O uso de 
cuspir fora quando se fala em cousas malévolas, ou 
como forma de esconjuração, é uma parte persistente 
do rito medicinal da sucção. «Quando se vê um sapo, 
para não acontecer mal é preciso cuspir fora trez ve- 
zes.» (1) As crianças, segundo a crença vulgar, estão 
sujeitas a serem chupadas das bruxas. 

Lubbock compara a animadversão de quasi todos 
os povos selvagens contra as crianças gémeas, como 
entre os insulares de Bali, os Khasias do Indostão, 
os Ainos do Japão, e na Guiné ; este ódio supersti- 
cioso ligado á apprehensão da infidelidade da mulher, 
apparece na Europa consignado no poema do Cavai- 
leiro do Cysne. A crença dos Tongans, quebrando as 
armas d'aquelle que morre, como também animadas, 
e devendo acompanhar o seu dono para o paraiso de 
Bolotoo, acha-se nas tradições da Edade media, como 
na Chanson de Rolando sentindo-se este ferido de morte 
e pedindo á sua espada que se deixe quebrar ; o uso 
de quebrar os copos depois de uma saúde especial 
provém da mesma concepção animista. O uso dos 
habitantes de MallicoUo e entre os Cafres, segundo 
Gook e Gasalis, de exprimirem a admiração por um 
assobio acha-se entre o nosso povo, especialmente como 
resposta intencional e exagerativa. A tatuagem, cos- 

(1) Ap. Positivismo, t. ni, p. 7. 



BASES GRinCAS DA HIEROLOGIA 29 

tome quasi geral aos povos selvagens, persiste entre 
os nossos marinheiros, soldados e homens braçaes ; 
as costas das mãos, os braços e o peito sâo o campo 
d'essas phantasias do desenho allegorico, qne se prende 
com a credalidade supersticiosa ; cruzes, meias luas, 
signos salmões, corações, setas, chaves e vasos de 
flores s3o os tbemas peculiares da tatuagem portu- 
giieza, destinados a livrarem aquelle que usa esses 
signos do máo olhado, ou de lhe entrar o diabo no 
corpo. Nas classes elevadas o mesmo espirito selva- 
gem persiste no costume de furar as orelhas ás crian- 
ças do sexo feminino e de lhes pendurar brincos de 
ouro, bem como de lhes pendurar fig(is e amuletos 
ao pescoço durante a primeira infância. A pintura da 
cara, para encobrir as rugas da edade, ou a cõr tri- 
gueira, é também uma persistência selvagem, como 
se vê pelos costumes das Falatah da Africa. 

Depois da forma espontânea das Superstições que 
comprehende o campo illimitado e caprichoso dos 
Agouros, vem a forma revelada que é o segredo de 
orna classe especial que tem o poder de communicar 
com os espirites, de os evocar, ou de os esconjurar. 
Esta forma das Superstições depende de um sacerdó- 
cio, que toma o culto commum á sociedade, para a 
qnal fabrica os fetiches, isto é, os objectos materíaes 
em que se flxam os espíritos malévolos, attalhando-lhes 
assim o arbítrio e tomando-os accessiveis á propicia- 
ção. N'este ponto as Superstições coincidem com as 
Religiões nas phases do seu desdobramento histórico; 
de facto as Superstições apresentam dois typos fun- 
damentaes, os presagios ou a vaticinaçSo, e a cura 
das doenças, correspondendo o primeiro ao fetichismo 
astrolatrico da Ghaldêa, e o segundo ao empirismo 
medico dos ritos mágicos do Egypto, ambos difleren- 
tes entre si. O syncretismd operado pelos Romanos 
entre estes dois elementos typicos das Superstições 



80 U¥Bo H^ aâPfm.0 i 

rmelaiai, e ao mesmo tempo o esforço baldado mas 
vehemeDte da Edade media em tornal-as demoMlra' 
doB procurando dar base seientifica á Astrologia |adí- 
ciaria e á Medicina theurgica, como se vm ^a pro- 
tecçSo dos astrólogos nas cortes dos reis» e peia crença 
nos milagres dos santos e das fontes maravãhosas 
nas doenças, toda esta complicação de factores histó- 
ricos não deixava yér claro n^esta ordem de pbeóo- 
menos que sio o sub-scto da civilisaç3o humana. 

Assim como para os estudos philologicos, a deçco* 
berta do sanskristo fm um raio de luz que aproxmou 
a razio humana da verdade, também a leitura dos 
faieroglyphos e dos cuneiformes veiu dar bases posi- 
tivas para a systematisaçSo seientifica do phenomeno 
tio complicado das Superstições. Diz Lenormant : ta 
decifraçio dos hieroglyphos do Egypto e das esori- 
pturas cuneiformes da bacia do Euphrates e do Tigre, 
estas duas maravilhosas conquistas do génio scienti- 
fico do nosso seoub, fornecem hoje, para o esclare^ 
cimento de um tão curioso problema, soocorros que 
teriam, ainda ha eincoenta annos atraz, parecido iotm- 
ramenie inesperados. De ora em diante podem-se estu- 
dar nas fontes originaes as sciencias occultas do Egy- 
pto e da Cbaldéa.» (1) É aproximando essa riqueza 
extraordinária de factos contidos nos documentos acci- 
dicos das praticas actaaes das Superstições do povo 
portuguez, que se chega a estabelecer uma identidade 
proveniente da persistência dos elementos ethnicos 
dos Iberos &a península. Nos costumes, no onomástico 
local, nos monumentos epigraphicos, nas tradições 
poéticas, ainda €S povos hispânicos conservam pasmo- 
sos documentos d'essa raça da alta Ásia que precedeu 
na Europa a entrada dos Árias ; as Superstições, cuja 
abundância distinguiu sempre o génio das nacionali- 

(!) La ífagie ékez ies ChaldéenSj p. m. 



BASES cmncAS DÁ meuologia 31 



dades hispaníeas, revelando no sen estado vastas cem^ 
provações ettmicas» adquirem pelo critério compara- 
tivo a importância de uma paleontologia histórica. (I) 
€aasas históricas provocaram a fasSo dos diversos 
ritos mágicos do Egypto e da Ghaldêa» resultando uma 
propagação erudita na Eur(^a, chegando a formar 
uma eschola secreta e uma litteratura apocrypfaa do 
chaldaismo. As fórmulas mintelligiveis colligidas peto 
medico de Bordéus, Marcello, do quarto secuk) da éra 
fl^^ma, ao pass(> que nos revelam a corrente do- 
minante do chaldaismo, slo de proveniência popular» 
o que m)s comprova a existência de um fundo ethnico 
de siq^erstições na regiio da Aquitania, isto é, onde 
o elemento ibérico resistia mais tempo ás invasões 
célticas. O facto de serem populares na Aquitania 
essas Fórmidas, leva-nos a inferir a sua origem ibé- 
rica» e por tanto tendo relações tradicionaes com os 
cultos accadicos, e a precisar pela ethnologia a razSo 
da unidade das Superstições occidentaes. Dis Emest 
Charriòre : cNós n3o vômos difficuldades para cfêr 
que na península a raça hespanhoia e a italiana eram 
Menticas e vinham juntar-se pelo laço natural da Aqui- 
tania e pek) meio-dia da Gallia como o indicam todas 
as rdações actuaes. A analogia da raça ibérica com 
esta antiga raça autochtone que apresentam todas as 
antiguidades da Itália, tSo completamente obliterada 
na historia sob a tríplice invasão dos Gaulezes, Etrus- 
cos e dos Gregos, deve ter sido anterior mesmo áquella 
que se estabeleceu depois pela immigraçSo dos Siea- 



(I) A phasB demonstrada das Superstições manifesta-se 
actualmente na Hespanha no proselytismo Espintiêtu, que é 
uma transformação ao erro animista adaptando-se a um gráo 
mais elevado da eultura social; destacada da sinceridade po*- 
pulaf e do automatismo tradicional, o seu estudo só interessa 
a psychologia mórbida. 



32 LIVRO II, 'capitulo I 

nos e Ligurios, e as denominações ibéricas da Itália 
podem pertencer a esta communhão nataral que nós 
attribuimos ás duas populações.» (1) 

N3o poderíamos apresentar com mais clareza o pro- 
blema ethnico do Occidente da Europa, por onde se 
conhece a importância do estudo das Fórmulas de 
Marcello para a comprehensao das mais remotas ori- 
gens das nossas superstições, tal como a tradição das 
palavras desconhecidas. Na magia popular da Europa 
conservam-se as palavras de imprecação HUca e Be- 
cha, que Lenormant vae encontrar nos livros accádi- 
cos da Gbaldêa ; (2) este facto indica um caminho para 
a critica, e poder-se-ha suppôr que as palavras des- 
conhecidas a que ainda hoje as superstições populares 
attribuem certas virtudes serSo muitas d'ellas conser- 
vadas como fórmulas tradicionaes accádicas, mas sem 
a consciência da sua origem. No livro de Marcello De 
MedicamentiSj escripto no fim do século rv, vêm mui- 
tas fórmulas de medicina popular, palavras inintelli- 
giveis de imprecações que o medico burdigalense col- 
Ugiu dos costumes e transmissão oral, como elle pró- 
prio confessa : ^Ab agrestibtis et plebeis... dedici.it Jacob 
Grimm, que alliou o génio com a erudição, publicou 
em 1849 um estudo Scbre as Fórmulas de MarceUo^ 
em que procurava provar que as palavras inintelligi- 
veis eram vestígios de um dialecto gaêlico fallado na 
Aquitania; n'esta hypothese cortou as fórmulas em 
syllabas segundo a conveniência da aproximação de 
palavras célticas, apoiando-se ao mesmo tempo nos 



!l! 



La Politique de VHistoire, 1. 1, p. 8i. 

Estas vozes acham-se nas palavras Villias e Guacas da 
antiga religião peruana, qae significam divino, sobrenatural; 
eram quaesqaer objectos de páo, pedras meteóricas; as Gua- 
cas eram também as nossas Petrasfitas ou marcos, e os Gua- 
checoal correspondiam ás nossas Picotas ouPelouiinhos. Girard 
^iale^ Mythologie comparée, p. i5. 



BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA 33 

nomes célticos de plantas empregadas por Marcello. 
O grande celtiéista Zeus nâo se conformou com as 
explicações de Grinmi, adherindo em 1855 ao modo 
de vêr d'este philologo Adolpho Pictet, o que fez com 
que Jacob Grimm 'desse um novo vigor ao problema. 
Belloguet, na Ethnogenie gauloise deixa em descon- 
fiança a interpretação de Grimm, porque essa these 
parte da hypothese que o gaulez da Céltica invadira 
a Âquitania extinguindo a lingua que ahi se fallava 
no tempo de Gesar, lingua que se julga ter sido o 
ibero ou basco. 

A região a que pertencia Marcello Burdigalense, a 
Âquitania, onde os Ausci ou tteros persistiram resis- 
tindo ás invasões dos Árias na Europa, leva-nos pela 
particularidade da sua ethnologia a procurar uma ou- 
tra solução para este problema. Só depois que em 
1868 Rawlison e Norris publicaram as fórmulas da 
magia accadica, é que se possuiram os elementos para 
determinar os paradigmas das primitivas superstições 
da Europa, assim como pelo lyrismo accadico se de- 
terminaram também os typos das canções trobadores- 
cas occitanicas. No tempo em que trabalharam Grimm 
6 Pictet ainda nâo eram conhecidos estes inesperados 
recursos scientificos, e é por isso que os seus resul- 
tados partindo de hypothese gratuita apenas chegam 
a explicações engenhosas. Conhecidas as palavras 
accadicas, proto-medicas, susianas e assyricas usadas 
nas imprecações e esconjuros da magia chaldeo-baby- 
lonica, é necessário com estes dados novos que se 
retome o problema como o deitou Grimm, e se con- 
siderem as Fórmulas marcellicas que fdram coUigidas 
da bocca do povo como vestígios tradicionaes da raça 
que estacionou na Âquitania, onde resistiu ás invasões 
célticas. Recuamos o campo histórico, e damos-lhe 
uma base positiva, tomando os ritos mágicos e a me- 
dicina pugural, que os Celtas nao tinham mas sim os 
3 



34 UVro II, Capitulo í 

Iberos acantonados nà Âquitania, para a aproximação 
e intelligencia das Põrmaías. (1) 

(!) Eis a primeira das Fórmulas de MarceUo burdigalense 
(cap. 8) : 

I. EXGIGUMACRIOSUS. 

Pela aproximação das imprecações accadicas leríamos : Êx- 
cicu Ma Cr Rios (us), que correspondem ás seguintes impre- 
cações : Àsakku, a febre (em assyrico); Maj o paiz (em ãcca- 
úico); Kwr, a momanha, e Rm, o choque (em accadico.) Ainda 
hoje nas imprecações populares o mal é repellido para longe, 
para lá das montanhas, para os mares amãrellos. 

Eis a segunda fórmula : 

n. Tbtuncrbsongo, bbegan, gbbsso. 
Dividimol-a segundo as palavras accadicas imprecativas em 
T-etunc Res Onco Bre-gan Gresso, a que corresponde a seguinte 
significação : Zi (ou Ti) o espirito; Utuq, demónio favorável; 
ReSj choque; s^wnJci, império (em susiano); Bil-gê^ chaínma; 
Gwrus^ elevado. 

ni. Inmon dbrgomaãcos axatison. 
Segundo ^s palavras correspondentes das Fórmulas magi- 
cas da Ghâldéa, dividimol-a : in, mon derco mar cós ax sa ta 
son, que se traduz : Inne^nauo (em protomedico), Mun, bemfa- 
zejo (em accadico), de, mudar; hur-ki, proteger, illuminar ; mar, 
caminho; kus, dirígir; as, imprecações; sa, campo; da, ir; 
su, forçar (todas em accadico.) 

IV. Rica rica soro. 
Em proto-medíco Ruk é o homem ; será, por. 

y. KufiiA KuRiA Kassariasouborbi. 
Em accadico Kurra, é o oriente ; kas dois ; hur, proteger ; 
-As, encanto ; ir, o nadir; ub, região. 

VL Vigaria casaria. 
Dividil-a-iamos em Vi Garia, Ga Sa Ria, pela significação : 
Ua, casa (em susiano); galla, demónio (em assyrico); ge, infe- 
rior, em accadico; zi, espirito; ria, correr (em accadico.) 

VIL ArGIDÂM, MARGmAM, STURGIDAM. 

Divide-se a fórmula nas seguintes palavras que se aproxi- 



BASES GRrnCAS DA HI£ROLOGIA 35 

Se o nosso ponto de partida, que jnlgamos admis* 
sível, se justifica pelos trabalhos linguisticos dos as- 
syriologos, entSo pode dizer-se que se determinou a 
camada das Superstições ante-historicas da Europa, 
e a verdadeira base ethnica para a unidade das tra- 
mam das accadicas : Ar Gi Dam, Mar Ge Dam, Âs Tur Ge 
Dam, que significam : Ar, região^ ge, inferior; dam, esposa; 
Mar, caminho; ge dam (como acima); As, seis; tvr, passar; 
ge, dam — . 

Vm. GrISI, GRASI5 GONCRASI. 

£m accadico acham-se aproximações, qne levam a dividir 
a fórmula em C Ris Cra Zi Cm tíra Zi, que significa : kik, 
eleyado ; rus, choque ; kra, face ; zi, espirito ; mm, feixe ; 
(todas em accadico). 

IX. HBILSN PROSAGGKRI tOMB SIPOLLA NABtlLIBT OROmKRI 

mBN BLrroM. 
Tomaremos HeUen, como nome do dens phenicio OaUma 
(Lenormant, La Magie, p. 122); jMzr^ brilhante ; zakuz, brilhante 
(em accadico); ua, casa (em proto-medico); me, não, (em acc); 
SoubvM, nome de um deus chaldeo-babylonico (Lenormant, 
op. cit, p. 110); Nabirtu, nome de um deus suziano {ibid,, 
p. 321); Tuoni, nome de um deus finnico (ib,, p. 230); Dtmyas, 
deus cissiense; id, um; en, encanto ; in Zuna, o deus Sin (16.^ 
p. 16 e 127). 

X. Xl EXUGRIGONE XU GAIGRIONAISUB SGRISUHIOUBLOB KXU- 
6RIG0NEXU6RILAU. 

Aproxima-se das palavras Zi, espirito ; sakri, filho (em pro- 
to-medico); aur Mnew, o ser existente (em assyrico); gur, res- 
tabelecer ; nasi senhor (em suziano) etc. 

XI. SiGTCUMA GUGUMA UCUMA, UVA MA A. 

Reduz-se a uma invocação de divindades : Sikku, deus cis- 
siense); Khvmba, outro deus cissiense ; Khumbumume, id. em 
suziano. É possível que as palavras para que não achamos aná- 
logas nas imprecações magicas da Chaldea provenham de ou- 
tras línguas falladas na Europa depois do iv século, ou mesmo 
que estas Fórmulas estejam deturpadas pela pronuncia popu- 
lar de uma lingua não escripta ou reduzida á escripta sob a 
pronuncia da baixa latinidade. 



36 UVRO II, CAPITULO I 

díções occidentaes. Tentaremos esta exploração apro- 
ximando as imprecações accadicas das superstições 
populares. Rawlinson e Norris publicaram uma serie 
de vinte e oito Fórmulas de imprecações da Ghaldèa» 
achadas nas minas do palácio real de Nineve, e escri- 
ptas no velho accadico, lingua sagrada que foi para a 
civilisaçao assyrio-babylonica o mesmo que o latim foi 
para os catholicos da Edade media da Europa. Estas 
vinte e oito Fórmulas traduzidas do texto primitivo 
por Lenormant, encerram riquíssimos elementps com- 
parativos para recompormos a camada turaniana ou 
ibérica das superstições populares que ainda subsis- 
tem. Na primeira fórmula do encantamento depreca- 
torio cita-se o demónio do deserto; (1) nos Açores cha- 
ma-se-lhe ainda hoje o Entre-abertOj e no Algarve o 
Homem^das sete dentaduras^ e só apparece nos logares 
solitários á hora magica do meio dia. O demónio do 
mar corresponde ás fadas marinhas, e à crença que 
o mar carece devorar todos os dias um fôlego vivo ; 
é também no mar que andam os diabos á solta no 
dia de S. Bartholomeu. 

Na segunda fórmula falla-se no Demónio que se 
apossa do hom&m^ e a esta superstição corresponde 
a possessão demoníaca, que recrudesceu no século xvi, 
sendo o pretexto para os tremendos processos judi- 
ciários da AUemanha, e das fogueiras da Inquisição 
em Hespanha e Portugal. Na terceira fórmula falla-se 
na prostituição sagrada, que reapparece nos costumes 
da Edade media, e à qual se ligam varias supersti- 
ções portuguezas como restos de um systema cultual ; 
ai se allude também ao período magico do começo de 
um mez incompleto^ a que torna a referir-se a fórmula 
quinze. Em uma nota accrescenta Lenormant : «Pa- 
rece que o mez incompleto, expressão que nós não 

(1) Lenormant, La Magie chez les Chaldéens, p. 3. 



BASES CRITICAS DA HIER0L06IA 37 

podemos explicar por ora de um modo satisfactorio, 
mas que se reproduz muitíssimas vezes nos documen- 
tos mágicos, era um momento particular nefasto.» (1) 
Nos cantos populares portuguezes e hespanhoes, é 
frequente este praso magico : 

Era pelo mez de ÂbrU, 
De maio antes um dia. . . 

Na fórmula quarta vem a imprecaçSo contra o de- 
mónio que forma nós, e contra a ulcera que se pro- 
paga. O rachitismo é ainda considerado pelo povo como 
nós que embaraçam o desenvolvimento ósseo da criança, 
e chamam aJíado ao homem que nao pode ter relações 
senão com uma mulher por eflfeito de sortilégios. Na 
medicina popular, os cobros ou a cobrdla sao as ulce- 
ras que se propagam, as quaes se talham com uma 
oração especial. Na fórmula quinta ha a imprecação 
contra o pezaddlo, superstição amda vivíssima entre 
todas as classes sociaes. A fórmula sexta refere-se a 
superstições persistentemente vigorosas ; impreca-se 
ahi contra aquélle que fabrica a imagem, contra o olho 
mm e a palavra malfazeja, ou a praga rogada, como 
adiante descreveremos. 

O poder das palavras é tanto maior quanto ellas 
são mais desconhecidas. As primitivas fórmulas ma- 
gicas tinham com certeza um sentido, como se desco- 
briu pela leitura e interpretação dos velhos cuneifor- 
mes, porém na tradição da Europa repetiram-se in- 
conscientemente, como se vê pelas Fórmulas mmcel- 
Ucas e na feiticeria da Edade media. A Egreja por 
isso condemnou o emprego de palavras desconhecidas 
ou inintelligiveis. Nas Constituições do Bispado de 
Évora, de 1534, prohibe-se o uso de palavras innotas. 

(1) Op. cit., p. 7. 



36 uvRo n, CAPITULO i 

Também no processo do feiticeiro Luiz de la Penha, 
elle é accusado de curar com palavras desconhecidas. 
A palavra pelo facto de ser desconhecida ou innota 
tem um poaer magico especial ; este caracter conser- 
vado ainda na feiticeria moderna, já apparece nos ve- ^ 
tustissimos rituaes egypcios, e pode-se dizer que d'elles 
deriva esta superstição que ainda persiste nos ensal- 
mos populares. Alfred Maury, no seu livro da Magia 
e Astrologia na Antiguidade e Edade media cita um tre- 
cho do Tratado dos Mysterios dos Egypcios, em que 
se accentua este poder da palavra abstruza e incom- 
prehensivel : «Considerou-se desde então como indis- 
pensável quando mesmo o magico não comprehendia 
a lingua a que pertencia o nome do Deus, conservar 
esse nome sob a sua forma primitiva, porque uma 
outra palavra não teria a mesma virtude. O auctor 
áos Mysterios dos Egypcios, attribuidos a Jamblico, pre- 
tende que os nomes bárbaros tirados dos idiomas dos 
Assvrios e dos Egypcios, têm uma virtude mystica e 
inefável derivada da alta antiguidade d'estas linguas, 
e da origem divina e revelada da theologia d'estes 
povos.» (1) 

Com relação aos nomes tomados da lingua dos assy- 
rios, esses nomes são accadicos, e por isso muitos 
d'eUes vieram transmittidos até à Edade media. Sob 
este aspecto as Fórmulas marcellicas são da mais alta 
importância. Com relação ao Egypto, o seu uso re- 
monta a uma antiguidade que o torna uma crença 
independente do theurgismo da decadência alexan- 
drina. Diz Lenormant : «Nós encontramos nomes d'este 
género dos quaes nenhum é egypcio, designando Set 
e Osiris, na imprecação magica de natureza funerária 
que se lê sobre um papyrus do Louvre, datado do 
reinado de Ramsés ii : — Oh Ualbpaga f Oh Kemmarat 

(i) La Uagie, p. 42, 3.* Ed. 



BASESi CRITICAS DA HIp:^QLOGIA ^9 

Oh KarncUo I Ob Karkkmmu t Oh Aamgaaa t Os Uana l 
Os Remu t Os Uthun l inimigos do Sol. — Os nomes, 
mysticos e mágicos de physionomia barbara designando 
os deuses, têm um logar considerabilissinao nos qua- 
tro últimos capítulos que se acham no fim do Ritual 
funerário... que Mr. Birch considera compostos pela 
época da xvi dynastia ; ali descobre-se com certeza 
um certo numero de radicaes semíticos. Em termos 
formaes os nomes do capitulo clx, sao tomados da 
lingua dos Anu da Núbia.» (1) Nomes análogos, como 
diz Lenormant, sao tomados da lingua dos negros do 
Pupt, os nahasi, o que revela uma influencia da ma- 
gia das populações africanas no Egypto. 

As fórmulas imprecatorias vii a xi enumeram doep- 
ças, que durante a Edade media formavam o objecto 
da medicina popular, que tinha uma parte obrij^^da 
em Orações rithmicas. Diz Lenormant, fallandÒ do 
caracter das ipaprecações accadicas : «Algumas V0zes 
também a fórmula de exorcismo amplia-se e toma um 
caracter dramático. » (2) São assim as orações a Sant^ 
ApoUonia contra as dores de dentes, e outras. 

A fórmula xn allude à sorte má ; ainda em Portugal 
a palavra sortilégio tem o sentido genérico de malefi- 
cio que se lança contra uma pessoa, e a noção dqi 
fatalidade exprime-se pela locução: «Ninguém pode 
fugir á sua sorte.» A feiticeria na Edade media er^ 
designada pela sorte má Isorcellerié). A fórmula xrv 
servia para defender o homem nos actos quotidiano^ 
da vida, quando se deita ou levanta, quando come oiji 
dorme. Na tradição popular portugueza abundam est.a§ 
Orações rithmicas ; algumas d'essas Orações são can- 
tadas pelas ruas. O facto natural do medo supersti- 
cioso é um estimulo do canto, como já o notara ROt 



s 



La Magie chez les Chaldéens, p. 25. 
Ibid.^ p. 18. 



40 LIVRO 11, CAPITULO I 

berts com relação aos Hindus : ^imaginam que um 
demónio os persegue, e com o fim de vencer o medo, 
põem-se a cantar, a faltar em voz alta, etc.» A fór- 
mula XVIII ensina um rito para esconjurar o phan- 
tasma, o vampiro» o espectro e os philtros ou amavios; 
estas variedades ainda persistem na credulidade por- 
tugueza. Âs fórmulas magicas da Ghaldéa traduzidas 
para a linguagem assyrica terminam sempre com a 
palavra Amanu, que entre os povos catholicos se iden- 
tifica com a palavra amen. 

Os fragmentos que citamos acima, achavam-se mais 
desenvolvidos em uns tijolos achados por Layard na 
sala da bibliotheca do palácio de Kojundjik e publica- 
dos por Smith e Rawlinson ; é um grande tratado de 
Magia, da Ghaldéa. 

Um dos maiores poderes mágicos nos cultos da Ghal- 
déa é o nome secreto do deus ; elle domina todos os 
males, afasta todos os terrores. Entre os povos semi- 
tas propagou-se esta crença, é o Schem» a propriedade 
divina immanente no próprio nome, que se conserva 
secreto ou n3o pronunciado, como o de Jehovà entre 
os Judeus. Diz Lenormant : «Todos sabem que desen- 
volvimento a crença no nome todo poderoso e occulto 
do deus teve entre os judeus talmudistas e cabalistas, 
e quanto é geral entre os árabes. Nós hoje vemos de 
uma maneira positiva que essa crença veiu da Ghal- 
déa.» (1) Em um povo em que preponderou a influen- 
cia e cultura árabe, e em que o elemento mauresco 
provocou a revivescência do typo ibérico primitivo, 
comprehende-se a conservação da crença na virtude 
dos nomes. Para o povo, invocar Santa Barbara t 
S. Jeronymo ! livra das trovoadas ; S. Braz í livra de 
morrer engasgado. Vendo-se desfilar um meteoro, 
diz-se : Senhora da Guia t E quando se tem uma ago- 

(1) La Magie chez les OuUdéens, p. 41. 



BASES CRITICAS DA HIER0L06IA 41 

nia, um susto, grita-se por Jesus í A námina resulta 
da crença no poder do nome, o qual se traz escripto 
em uma bolsinha ao pescoço. 

A superstição no poder dos nomes (nomen numen) 
apparece condemnada nas Constituições synodaes de 
Lamego : «E finalmente se pode pôr exemplo na missa 
que se manda dizer com certo numero de candêas ; e 
que n3o haja de ter mais ou menos ; ou que hade ser 
dita por clérigo que se chaine João, ou de outro certo 
nome.» O nome de Bento é também posto á criança 
que pelo facto do nascimento pode ser lobishomem ; 
a criança emquanto não é baptisada chama-se sempre 
Custodio, para o diabo se não apossar da sua alma ; 
para que as sementeiras sejam fecundas devem ser 
lançadas á terra as primeiras sementes por uma moça 
chamada Maria; as pessoas que passam uma criança 
pela fenda do carvalho cerquinho para a curarem da 
hérnia, para que a cura seja efficaz devem chamar-se 
João e Maria. 

A nómina é a parte dos talismans ^ que os accadi- 
cos' chamavam sabga, e os assyrios mamit. O marco 
tinha esse caracter talismanico que se conservou nas 
perafttas e nas picotas. As fitas onde se escreviam 
certas fórmulas accadicas correspondem às medidas 
de certas imagens, como a do braço do Senhor de 
Mathosinhos ; os bentinhos que se trazem ao pescoço, 
pedra de ara para as mulheres gravidas e para os que 
atravessam o mar, os chavelhos contra o máo olhado, 
a meia-luaj a figa, o signo saimão, o como de veado 
são os principaes talismans do nosso, povo, alguns com 
caracter accadico, como os chavelhos allusivos ao touro 
Nirgal. Alguns talismans são secretos, e pertencem 
àquelles que sabem usar os poderes mágicos, taes são 
o espelho em que se observa o futuro, e a vara divi- 

(1) Liv. v, tit. 8. (1639). 



42 LIYRO II, CAPITULO I 

natoria. Lenormant attribae o uso primitivo da vara 
magica ao tempo dos Accadios, passando para a Pér- 
sia por influencia do Magismo; sendo o bareçma uma 
insignia essencial do culto mazdeano. 

Importa notar, que conjunctamente com a esponta- 
neidade das superstições populares nunca se perdeu 
a transmissão erudita da Feiticeria, chegando estas 
duas correntes a fecundarem-se mutuamente pelas 
relações dos curandeiros com o povo. As Fórmulas de 
Marcello, embora em parte derivadas de elementos 
populares, devem considerar-se como conservadas 
por uma tradição erudita, por isso que encerram mys- 
terios theurgicos, que no século iv só podiam ser 
conhecidos pela eschola chcddaica^ renovada entre os 
homens cultos pela metaphysica neo-platonica. É por 
esta via que os restos da theologia chaldeo-assyrica 
apparecem no Occidente, sem que aquelles mesmos 
que os repetiam tivessem consciência da sua origem. 
Lenormant prova como: «esta theurgia chaldaica se 
continuou na Edade media em estado de seita secreta 
e magica, e dera nascença a uma numerosa littera- 
tura apocrypha, da leitura da qual, no século xi, Mi- 
guel Psellus se mostra particularmente penetrado. Os 
adeptos do Ghaldaismo de então não sabiam quasi 
nada da religião dos antigos Ghaldeus ; elles ficariam 
bem maravilhados e mais embaraçados se lhes reve- 
lassem os nomes verdadeiros dos personagens do seu 
pantheon. Mas através das alterações profundas de 
uma mistura de elementos tirados do neo-platonismo, 
ou de todas as mãos, a tradição transmittida de gera- 
ções em gerações fez-lhe chegar alli umas certas no- 
ções essenciaes, que tinham certamente tido o seu 
ponto de partida nos sanctuarios de Babylonia e da 
Chaldêa.» (1) 

(1) Origines de l^Histoire, p. 527. 



BASES CRITICAS DA HIEROLOGIA 43 

Gomprebende-se diante d'estes factos o valor das 
tradições vetustissimas da magia peninsular contidas 
no processo de Luiz de la Penha, herdeiro dos livros 
mágicos de seu pae (1) e possuidor de muitas fórmu- 
las escriptas, conservando nomes de Deuses e génios 
malignos como Marthas MariUa^ Trebuca^ que não 
devem attribuír-se a um mero acaso, mas a um re- 
speito obrigado, que constitue a força e a essência de 
toda a magia. Serão ousadas as nossas conclusões, e 
o processo critico-historico da coordenação systema- 
tica das superstições, mas obedecemos a uma neces- 
sidade do nosso espirito. 

No estudo das Superstições populares portuguezas 
evitámos o usual processo de compilação, porque não 
deixa comprehender a importância d'este phenomeno 
de ethnologia. O nosso systema de coordenação con- 
siste em : 

1.® Determinar as condições psyehologicas da per- 
sistência das superstições nas classes inferiores, como 
estabeleceu Hume ; d'aqui o confronto de certos usos 
6 superstições selvagens com os que ainda apparecem 
nas civilisações superiores. — A esta ordem de obser- 
vações pertence a influencia do meio social, quando 
n'elle se operam grandes desastres, ou as catastro- 
phes da natureza produzem impressões deprimentes. 

2.® Restabelecer por meio de certos grupos de su- 
perstições dados systemas cultuaes de Religiões extin- 
ctas e pecuhares de outras raças substituídas na civi- 
lisação da Europa. Assim reconstruem-se : 

a) Cultos chtonianos ou de hetairismo primitivo. 

b) Cultos mágicos de naturalismo accadico ou tura- 
niano (aquitaníco ou ibérico). 

c) Cultos e concepções mythicas proto-áricas e in- 
do-europêas. 

(1) Maury diz que a magia é hereditária em algumas famí- 
lias dos povos selvagens. Magie, p. 21. 



44 LIVRO 11, CAPITULO I 

3.® Estabelecer as duas divisões fundamentaes das 
Superstições, derivadas das duas fontes, a chaldaica (ou 
propiciatória) e a egypcia (ou medicinal) propagadas 
pela influencia dos Gregos, Romanos e Árabes, na 
civilisaçâo da Europa. É esta a base mais geral de 
uma boa classificação histórica, e o meio de fixar o 
methodo scientifico d'esta ordem de estudos tão im- 
portantes para o complemento da Hierologia, como 
I$ara a emancipação moral das classes mais atrazadas 
da sociedade. 



CAPITULO n 



Superstições populares portuguezas 

A concepção espontânea das Divindades malévolas : A maté- 
ria em acção: os Asuras e os Agouros.^ Restos d'e8ta8 con- 
cepções na linguagem uBual.^^Classiflcação dos Agouros : 
das Pedras, das Plantas, dos Animaes, do Fogo, do Tempo, 
do Dia e da Noite e das Estrellas.^ Dos Agouros da Casa, 
das vestimentas, das comidas e bebidas. — Agouro das pes- 
soas, do nascimento, dos namorados, das mulheres, das 
crianças.— Agouros dos Sonhos, dos Mortos, das Vozes, dos 
Números, e dos objectos de uso. — Superstições derioadas 
de uma Èeligião cntoniana, ou de Prostituição sagrada : 
Lameiros e bordas de rio.^- Penedo dos casamentos e o Fi- 
lho das hervas.— Caracter chtoniano do culto de S. Marcos 
e de Santa Anna. — Fontes Santas, Montanhas sagradas.— 
As Thiasas e o Sabbath nocturno. — Superstições prooenien-- 
tes de um culto phalico ou lunar : A nga, o Canto do Cuco, 
caracteres phalicos em S. Gonçalo.— O asno e as favas.— As 
mandragoras. — Superstições sobrevioentes de um PolU' 
theismo sideral, ou solar : Entreabertos e Homem das Sete 
dentaduras (Sol que declina^ ; Canto do gallo, Lobishomem 

. (Sol que desponta) Cavallo oranco e Cavallinhos fuscos.— 
Tributo das Donzellas. — As Entidades magicas e maleoo^ 
las : Tanglo-Manço, Provinco, Tanso, Trasgo, Tartaranho, 
Fradinho, E8trugeitante,Pezadello, Breca, Coouro, Jans, Es- 
cholar das Nuvens, Hiram, Olharapos, Fadas, Mãe d'Agua, 
Bruxa, Anão, etc. — O pessoal maaico popular: o.) OsEscon- 

1'uradore8 dos Espíritos.— Fórmulas magicasportuguezas.- 
0) Os Curandeiros e a Medicina popular.— Braços e pernas 
offerecidos a Santos.— Hervas magicas.— Cura das hérnias, 
cobro, parto difiicil, dadas. — Fórmulas magicas para talhar 
cobros, fogo louro.— Semeadores da peste em Portugal.— 
c) Pessoas de virtude : Os Reis e os Padres.— Orações con* 
tra o quebranto e para acompanhar os actos quotidianos.— 
Os Bentos e os Benzilhões.- Os Adivinhões.— As Prophe- 
cias nacionaes, e a vinda do rei D. Sebastião. 

O sentimento religioso é um estado psychologico 
resultante da emoção do terror, que se desenvolve 



46 LIVRO II, CAPITULO II 

espontaneamente em formas cultuaes até chegar a 
systematisar-se racionalmente em dogmas theologicos. 
Ha portanto um período na historia da humanidade 
em que o sentimento religioso é omisso, e em que a 
ausência de qualquer ideia definida sobre divindade 
se caracterisa pela situação moral e mental de atheismo. 
Os modernos viajantes, como Livingstone, Farrar, 
Perty, Leichton, Browes, Wiliteboume, Ross, e os 
modernos ethnologistas Lubbock, Topinard> Letour- 
neau e outros» mostram como esse estado mental de 
atheismo, ainda se observa em certas raças e em um 
grande numero de povos selvagens, extranhos a essa 
sugestão emocional. Uma tal observação é de um alto 
valor philosophico, porque leva a determinar o ponto 
de partida das concepções supernaturalistas, a come- 
çar pela concepção do Animismo, tão bem estudada 
por Tylor, e desenvolvendo-se nas trez phases reli- 
giosas successivas, coordenadas por Comte no FeU- 
chismOj Polytheismo e Monotheismo. 

Do estado de atheismo dos antigos povos peninsu- 
lares ainda falia Strabão, escrevendo na sua Geogra- 
phia: «Segundo alguns auctores os CoUaicos são 
cUhens ;...^ É um vestígio psychologico importante, 
que se destacava singularmente do estado moral dos 
outros povos da mesma península, subordinados a 
cultos fetichistas e polytheistas. As condições naturaes 
do sobrenaturalismo que levaram a mente do homenoi 
para a religiosidade, ainda hoje persistem impressio- 
nando profundamente o vulgo ; entre os phenomenos 
extraordinários de natureza cósmica, são a miragem, 
o spectro de Brocken, o ecco, as estrellas cadentes, 
bólides, iris, relâmpago, trovão e raio, vulcões, ter- 
remotos, ecclipses, cometas, auroras boreaes, gra- 
nizo, chuva de sangue, trombas, fogos fátuos e phos- 
f)horecencia ; entre os phenomenos de natureza bio- 
ogico-psychologica são os sonhos, o pezadello e so- 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 47 

mnanbutia, a ventríloquia, a epilepsia, a amnésia, a 
catatepsia, a apoplexia, a consumpção, e ainda a 
hallacinaçSo preponderante em todos os instituidores 
religiosos. Esta somma enorme de impressões con- 
vergem para a formação de uma noção subjectiva fun- 
damental, o Animismo^ em que todos os objectos do 
mundo exterior se tomam entes ou_^res animados, 
com actividade própria, que o homem teme, e que 
procura tomar propicios por certas praticas. A aver- 
são ou a affeição que algumas pessoas ainda hoje têm 
pelos objectos materiaes, especiahnente as crianças e 
o povo mde, são a fórma espontânea d'essa primitiva 
concepção do Animismo, que persiste como causa da 
credulidade nos Agouros e abusões. 

Desde que a concepção animista que nas raças 
amarellas deu a religião dos Espiritos, se particida- 
rísa em determinados objectos, de que se tem medo, 
esses objectos tornam-se Fetiches, isto é a fórma con- 
creta e material de entidades ou deuses malévolos, 
contra os quaes o homem tem .de precaver-se, prati- 
i^ando actos com diligencia {religio o mesmo que deli- 
gíú, ou diligencia) que constituem um systema de 
culto. Entre os povos selvagens as religiões, essen- 
ciahnente fetichistas, apresentam um exclusivo cara- 
cter malevok), o qual persiste de um modo indelével 
ainda nas religiões superiores dos Chaldeus, Egypcios, 
Senuitas e Árias, vindo em algumas a constituir uma 
synthese tlíeologica no Dualismo, como entre os assur 
TOS e os suras dos Árias, os Dems e Ahura dos Per- 
sas, Typhon e Osiris dos Egypcios. A propiciação do 
Fetiche faz-se ainda hoje entre os selvagens batendo- 
Uie, increpando-o, da mesma fórma que em Portugal 
o povo amarra a imagem de Santo António pondo-o 
ao relento ou mettendo-o em um poço para que faça 
o milagre que se pede. O Fetichismo apresenta varias 
formas conforme as cathegorias dos objectos adora- 



48 LIVRO n, cAt^rruLo ti 

dos ; se o culto se dirige a objectos inanimados, cha- 
ma-se Manituismo. Jnstino falia do calto das monta- 
nhas entre os Gallaicos, equivalente aos Bemoth dos 
povos semitas, e Strabao descreve o culto das pedras 
no promotorio Sacro, que correspondem aos Betylos 
dos cananeos : «Os únicos monumentos que ahi viu 
(se. Artemidoro) eram grupos de pedras, que os visi- 
tantes para obedecerem a um costume local fazem 
girar n um sentido, depois n'outro, praticando antes 
certas libações em cima das pedras, mas sacrificios 
em regra nâo consentem n'este logar, e tão pouco é 
permittido visital-o durante a noite, porque os deuses, 
segundo a crença, reunem-se ali.» (1) Entre os Chal- 
deus de Ereck existia o templo das sete pedras negras^ 
d'onde se vê que a descripção de Artemidoro confir- 
ma-nos o caracter anthropologico dos primeiros occupa- 
dores da península, que aqui entraram atravessando 
a Africa. 

Quando o Fetichismo tem por objecto o culto dos 
corpos celestes chama-se Sabeismo ; Strabao descreve 
um culto lunar entre os Celtiberos, dizendo : «mas os 
Celtiberos e os povos que os limitam ao norte, tem 
uma divindade sem nome á qual prestam culto for- 
mando todos os mezes na época do pkniluniOy diante 
da porta de suas casas e com todas as pessoas da 
familia, coros e dansas que se prolongam até ao rom- 
per do dia.» (2) A par d'este ctdto lunar, tão cara- 
cterístico e precioso para esclarecer a anthropologia 
da península, (3) Strabão descreve também as formas 

(i) Geogr., liv. iii, cap. i, 8 4. 

(2) Ibid,, liv. Ill, cap. 4, § 16. 

(3) Lô-se no livro do Congresso de Anthropologia de 1880: 
«É em Africa que este culto da lua tem mais importância e 
extensão. É sobretudo ali que se encontram as dansas mysti- 
cas à lua nova, de que faliam os que tôm permanecido entre 
i)s Cafres e os Hottentotes. — É impossível o deixar de admit- 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 49 

de um culto solar, o que leva á inferência de outra raça, 
de sobreposição mais recente : «Muitas vezes também 
(OS Lusitanos) cortam a mao direita aos captivos» e as 
oflferecem aos deuses. Nos seus sacrificios ao deus 
Marte, immolam também bodes, os prisioneiros de 
guerra e cavallos.» (1) Segundo o Rig-Veda, o cavallo 
do sacrifício representa o Sol, devendo immolar-se 
primeiramente um bode. Nas crenças populares por- 
tuguezas persistem os restos d'estes dois systemas 
cultuaes : quando se vê a Lua nova, diz-se : 

Benza-te Deus, Lna-nova, 

De trez cousas me defendas, 

De dor de dentes 

De fogos ardentes 

De aguas correntes 

E da língua de má gente. 

(Extremadura.) 

 saudação à Lua nova, a quem as crianças nos 
Açores chamam madrinha^ é commum a muitas terras 
de Portugal e á Baixa Bretanha; diz-se na Maia e Porto : 

Lua-Nova, 
Benza-te Deus t 
Minha madrinha 
É mãe de Deus. 

Mostra-se-lhe dinheiro, dizendo : 

Lua Nova 
Tu bem me vês, 
Dà-me dinheiro 
P*ra todo o mez. 

tir a existência de elementos africanos nas antigas populações 
peninsulares. — Ora um facto curioso foi notado na lingua cas- 
ca, que parece permittlr que aquelles que legaram aos Bascos 
a sua linguâ tiveram um culto lunar.» Op, ciL^ p. 441. Sobre 
este problema vid. Povo portugtiez, vol. i, p. 42. 
(1) Strab., liv. m, cap, 4, § 7. 

4 U 



50 U¥RO U, CAPITULO n 

Na ilha de S. Migael f o dinheiro mostrado à lua 
nova, na primeira vez que ella se vô accrescenta os 
haveres.» (1) 

Esta mesma superstição, como observa Leite de 
Yasconcellos, é commam á França, Bélgica e Soissa, (2) 
d'onde se concluo a sua derivação de um systaoaa 
eidtual. O costume entre os povos de raça amareUa 
de fazer ruido quando ha um eclipse da Lua, que se 
coínserva na provincia do Maranhão, apparece também 
em Portugal, especialmente na Beira, onde cQoando 
ha eclipse do sol, rufa-se em caixas para espantar o 
leão que está comendo a hia.» (3) Adiante recompo- 
remos este systema cultual, de que ha abundantíssi- 
mos vestígios. 

O ultimo vestígio do fetiche Lua, acha-se no amu- 
leto ou talisman em fórma de Mm-lua, que se pen- 
djira ao pescoço das crianças para não serem embru- 
xadas; è commum este uso ao Monferrato, na Itália. (4) 
A generalidade de certas superstições e agouros da 
Lua nova deriva de um systema cultual, sunultaneo 
com um systema chronologico lunar. A concepção da 
semana proveiu da divisão, do mez lunar, ou quadra- 
turas, e d'ahi os diversos caracteres aziagos dos sete 
dias, que se conservam entre o povo. A terça feira, 
tanto em Portugal como em Hespanba é dia nefasto ; 
escreve Prestes, no Auto do Mouro encantado : 

GRiMAifBZÀ : Hoje me ergui 

triste, melanconisada. 
Febhão : Que dia é hoje ? terça feira 

vede quando vos erguestes 

se posestes 

os olhos n*algwna peneira. 

li) iilMw áo Ardi. açor., para i86a, pw 108. 
\%) Trad, populares^ p. 20. 

(3) Ibidem, h. 24. 

(4) Rivisía de Leíteraiura papolate^ 1 1,, p* 149. 



SUPEASTiÇÕfift P0PULABE8 POATUGUEZAS 51 

Gruiânbza : Disso é. 

FraNÃo : Agora soubestes 

penetrâ-vos cem mil pestes^ 

verdes peneira ou joeira 

ou trepem, ou gato preto, 

ou meio alqueire pendurado 

ás terças feiras não é joguete. (1) 

Na sentença de Loiz de la Penha, se lè : cE o de- 
mónio lhe disse mais qúizesse saber algumas cousas, 
nas noites das terças e quartas feiras, se deitasse na 
cama de bruços, com os pés e as mios em cruz...» 
Segundo a pratica de Luiz de la Penha (1626) para as 
palavras da Carta de toquar terem effeito deviam ser 
ditas «em trez sextas feiras sobre ella, e antes que o 
sol saia, e depois amde tomala e metella debaixo da 
terra outras tantas sextas feiras n'um adro secreta- 
mente, e depois d'isto feito amde faser as devoções 
que n'ella diz, amde toquar em terça feira depois do 
meio dia, e a segunda feira antes que saia o sol...y 
O caracter aziago da sexta feira já apparece nos 
Trabalhos e os Dias de Hesiodo (^ 38) : <No quinto 
dia andam errantes as Erynnis pelo mundo para cas- 
tigarem o perjúrio, filho maldito da disputa.» 

O septimo dia, em Hesiodo é consagrado ao Sol ; 
é a modificação do systema cultual e chronologico. 
Diz se vulgarmente : 

Não ha sàbbado sem sol. 

Nem alecrim sem flor, 

Nem menina bonita sem amor. 

Diz-se em Hespanha : 

No hay sábado sín sol, 
Ni doncella sin amor. 
Ni Yieja sin dolor. (2) 

(1) Autos, p. 353 

(2) Foik-Lere máalúz, n.» 8. 



• • 



í 



82 UVRO tt, CAPITOLO II 

Diz-se na Itália, em Livorno : 

Non c*è sabato senza sole, 
Non c*ô donna senza amore, 
Non c'è rosa senza spina... (1) 

Do caracter hetairista do culto lunar persiste ainda 
a superstição; Para saber se um casamento se bade 
effectuar, queimam-se dois globos de linbo em rama 
dizendo : 

Hoje é lua nova; 
Amanhã quarto-minguante» 
Quero saber se o casamento 
<^ De F. irá por diante. (2) 

O culto e systema do computo solar, conhece-se 
ainda nos agouros do dia, e da hora ; vimos no pro- 
cesso de Lmz de la Penha, que as palavras da carta 
de tocar devem ser ditas antes que o sol saia, e tocar 
com ella depois do meio dia. Nas Constituições do Arce- 
bispado de Braga, de 1639, prohibe-se «que nenhuma 
pessoa tenha agouros e observe ou note os dias e horas 
em que começam os negócios, obras ou caminhos e 
serviços e saem de suas casas, esperando ou temendo 
por essa razão bom ou máo successo...» Depois do 
dia e hora, pertence ainda ao culto solar a celebração 
dos dois scisticios, base de numerosas superstições 
populares. Nas Constituições do Bispado de Lamego, 
de 1639, se lé a referencia aos solsticios, prohibindo 
«que em dia de Sam João Bautista se colham as her- 
vas e levem a agua da fonte para casa ou se lave a 
gente e os animaes n'ella, antes do Sol nascer, me- 

(1) St Prato. Gli tUtim lavore dei FoUc-Lore latino, p. 4.— 
Na ilha de S. Miguel ha a mesma crença. Alm, do arcJL açor., 
para 1868, p. 14. 

(S) Aknanadh de Lembranças, para 1868, p. M4. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES POBTUGUEZAS 53 

tendo na cabeça à gente de pouco saber qae redunda 
em honra e louvor do santo. E que depois de nascer 
o Sol^ em outro dia» colhidas as hervas em nome e 
honra d'elle nSo terão egual virtude.» 

Theocrito falia da hora magica do Meio dia^ fazendo 
dizer a um dos seus pegureiros : «É preciso nSo tocar 
frauta á hora do meio dia; a esta hora temos medo 
de Pan, terrível quando elle se repousa das fadigas 
da caça.» É notável esta crença da Caça furiosa á hora 
do meio dia nas tradições da Edade media. Na Grécia 
moderna ainda hoje subsiste a superstição^ e as crian- 
ças dizem: <N3o estejamos fora de casa ao meio dia 
porque nos pôde acontecer mal.» (1) 

Nas Orações populares portuguezas, diz-se sempre : 

Nem de noite, nem de dia, 
Nem ao pmo do meio dia. • . 

Nas interjeições da lingua portugueza, existem cer- 
tas palavras emocionaes, formadas pela contracção 
de phrases que se referem ao poder magico das horas 
a que o povo chama Horas abertas. Nos Autos de Gil 
Vicente, vem Eira-má, usada ainda nos Açores, da 
locução Em hora má; o adverbio Embora, deriva da 
locução Em boa hora. Diz-se às mulheres gravidas 
que tenham uma boa hora ; e no anexim : 

De hora em hora 
Deus melhora. 

Nos Apologos diahgaes escreve D. Francisco Manuel 
de Mello : «Perguntou que mais virtude pode ter uma 
d'essas Orações a tal que a tal hora ? Velha conheci 
eu já, que ensinava às moças, que as pragas rogadas 

(l) J. Jacques Ampèfe, Grèce^ Rotne et DarUej p. 64. 



54 uyno n» gapitdlo h 

das mzB para o meio dia eram de vez, porque todas 
empeciam.» (1) Adiaqte estudaremos o desenvolvi- 
mento polytheista d'estas superstições. 

Da crença no Solsticio de inverno é a superstição: 
«No dia de Natal, à meia noite, deve sair-se p^ra o 
campo e apanhar arruda, alecrim, salva e éra terres^ 
tre. A arruda ferve-se em azeite para dar fomentações, 
e das outras plantas faz-se chá para tomar quando se 
está doente.» (2) 

O Sol é invocado em muitos ritos mágicos da medi- 
cina popular ; em uma fórmula do Porto : 

Deus é sol^ Deus é lua. 
Deus é claridade ! 
Assim como isto é verdade 
Assim tire d'aqui a enfermidade. 

E na Figueira, diz-se também : 

Assim como o Sol nasce na serra, 
E se põe no mar, 
Assim este mal 
Yà lá parar. 

Muitas superstições dos dias da semana só podem 
ser comprehendidas pelo antagonismo entre o cuUo 
lunar e o solar, que correspondem a raças e civilisa- 
ções differentes : «A primeira segunda feira de Abril 
e a primeira de Novembro, são os dias mais aziagos 
do anno. — Na quarta feira de Trevas não se deve fiar 
depois do pôr do Sol, porque foi então que os Judeus 
fiaram as cordas com que prenderam Nosso Senhor. 
— Na quinta feira da Ascenção como diz o ditado : 

Em quinta feira de Ascenção 
Quem não come carne 

(1) Op. clt, p. 24. 

(2) Pedroso, Supera,, n.« 28i. 



SUPERSTIÇÕES POPULÃKIS PORTUGUEZAS 55 

NSo tem eôraçlo ; 
Ou de ave de penna, 
Ou de réz do cnao. 

«Não é bom rir á sexta feira, porque se chora ao 
domingo. E não dobrar linhas á sexta feira. — Obras 
principiadas ao sabhado n3o têm fim. — N3o se deve 
dobar ao domingo, porque tem de desdobrar eterna- 
mente no oatro mundo.» (1) A crença do homem na 
lua em castigo de ter trabalhado ao Domingo, com- 
mum a Portugal, Hespanha, Itália, França, AUemanha 
e Inglaterra, (2) deve a sua universalidade ao predo- 
mínio do polytheismo solar sobre que se incrustou o 
Christianismo na Europa, como veremos no estudo 
das festas de S. João e do Natal. Na Guarda, ainda o 
Sol é saudado com cantos : 

Em louvor do Sol nascente, 
Que nos não doa mão nem dente. 

E em Vouzella, identificando o Sol com Chrísto 
[Emmanudy El ou o Senhor comnosco) dieem : 

Lá vem o Manei do dia 
Que tudo cria. (3) 

Do culto das estrellas, proveniente das populações 
semitas, conserva a linguagem popular abundantíssi- 
mos vestígios; assim desaire, e o antígo vocábulo 
astroso, são restos do systema dos horóscopos, de que 
temos ainda a locução vulgar : «Ninguém pôde fugir 
á sua sina. b Entre os Hebreus a constellação de Scor- 

(1) Pedroso, Superst., n.*- 332, 276, 79, 110, 322, 76^ 65 e 

(2) Sobre a extensão d*esta lenda, vid. Stanisláo Prato, Gli 
tUtimi lavori dei Folk Lote neo-Uavm^ p. 3. 

(3) Leite de Yasconcellos, Tradi^i, p. 14. 



56 UYRO n, CAPITULO II 

pião ou Orion, era chamada KbsíIj (1) e entre o nosso 
povo ainda se diz quesila a apoquentação ou zanga ; 
a Nakhaschaj ou constellaçao do Dragão que marcava 
o polo norte, no tempo dos patriarchas, entre a Grande 
e Pequena Ursa, acba-se na forma de Nagaça, com 
que o povo define uma cousa que se agita. 

É pela forma astrolatica que o Fetichismo se con- 
verte em Polytheismo, em que os objectos materiaes 
só se adoram como representando forças, como se vê 
no Naturalismo védico. Quando porém o Fetichismo 
tem por objecto o culto das cousas vivas, plantas e 
animaes, tem-se-lhe dado o nome de Totemismo. Ha 
entre o povo um grande numero de plantas com poder 
magico, como as mandragoras, a figueira baforeira, 
a arruda, o trovisco, a herva da fortuna, e certos 
animaes, como o gallo, a arvellinha, o cuco, o sapo, 
a quem attribuem poderes maléficos óu benéficos. Os 
apellidos de Coelho^ Lobo, Raposo^ Pato, Ganso são os 
últimos vestígios de um totemismo, característico do 
período social em que a femilia se desenvolveu na 
tribu, sendo esses emblemas de animaes, marcos fron- 
teiros entre as varias bebetrias ou gentes. Gosta, no 
seu estudo sobre A Poesia popular hespanhola diz que 
mais de trezentos monumentos representando lobos, 
cães, touros, javalis, bezerros, cavallos e elephantes 
se tém encontrado em Portugal, Gastella, Andaluzia 
e Biscaya. (2) Depois que o typo social de tribu se 
dissolveu no de nação, muitos d'esses totems ficaram 
com poderes mágicos, e até alguns empregados como 
ordalios nas provas judiciaes. Os auspícios (avis spi- 
cium) os agouros das aves, prevaleceram em algumas 
civilisações, vindo a apparecer com bastante vigor 
entre as nacionalidades modernas. 



(2) 



HocíTor, Eist, de Astronomiej p. 82. 
Op. cit., p. 237, nota. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 57 

Quando os povos áricos e semitas entraram na pe- 
nínsula, traziam já systemas religiosos polytheistas» 
que facilmente se syncretisaram sobre esse fundo 
fetichista, actuando sobre uma mais rápida decadência 
em praticas supersticiosas. Por seu turno a propa- 
gação do cbristianismo e a decadência do polytheismo 
no Occidente, multiplicaram esses elementos da cre- 
dulidade popular ; o cbristianismo aproveitou-se dos 
cultos hetairistas transformando-os na crença da Vir- 
gem-M3e, e o polytheismo refugiou-se nas povoações 
isoladas dos campos (os pagiy d'onde paganismo) onde 
sobrevive máo grado toda a intolerância da religião 
oflBcial. Diversos Concílios da Egreja probibindo essas 
praticas pagas, tém para nós o mérito de serem um 
inventario dos costumes hierologicos dos primeiros 
séculos da civilisação Occidental, prestando-nos um 
ponto de partida para avaliar a antiguidade de certas 
superstições. O Concilio de Leptines, de 743, probibe 
certas praticas cultuaes que subsistiram em Portugal 
ainda no século xvi, ou actualmente em vigor ; pro- 
hibe os cantos funerários Dadsisas (Voceros e Ende- 
xas), as praticas desbonestas do mez de Fevereiro 
(tivemos a prohibiçao de tocar adufe n'este mez), os 
sacriflcios nas florestas ou Nimidas (temos os carva- 
lhos consagrados) e nas fontes (as nossas Fontes san- 
tas); prohibe-se os agouros tirados das a^es, dos 
cavallos, dos excrementos dos bois e dos espirros, 
bem como o dar miolos de animaes (nos Açores ainda 
se dá miolos de burro como amavio); condemna as 
superstições da lareira e da obra começada, o temor 
do ecclipse da laa em que se grita Vince luna^ e por 
ultimo os simulacros salpicados de farinha. A Egreja 
condemnando essas praticas não as extinguiu ; fel-as 
considerar como obras do diabo, e desenvolveu a 
hallucinação da Demonomania. 

Um dos processos críticos que mais luz derrama 



58 uno n, CÂPrmu) ii 

sobre o estudo das superstições populares, é reQK)ntar 
aos documentos que mais demonstrem a sua antigui* 
dade. Os documentos ecclesiasticos enumerando os 
usos pagãos, ou das povoações ruraes, que a noya 
religião combatia, dão-nos elementos para fixar épocas 
precisas sobre a vitalidade de certas superstições que 
ainda subsistem. Em um sermão de Santo Eloy, do 
século VII, acha-se este precioso quadro das supersti- 
ções populares, para nós valioso por se acharem todas 
na sociedade portugueza : 

«Eu vos peço e exorto a que renuncieis aos costu- 
mes sacrílegos dos pagãos ; não escuteis os adivinhos^ 
os feiticeiros e os encantadores j não os consulteis nem 
em caso de doença nem por outro motivo. •. Não ob- 
serveis os agouros, nem o canto das aves^ nem as 
diversas maneiras de espirrar j quando quizerdes fazer 
uma viagem. — Que nenhum christão não repare no 
dia em que saia de casa, nem na hora em que entre, 
porque todos os dias são obras de Deus ; que ninguém 
se regule pela lua para emprehender qualquer cousa. 
Que uas calendas de Janeiro 'se não representem far- 
ças ridículas, transfigurando-se em novilha ou em 
veado novo ; que á mesa se não entregue a comezainas 
sob pretexto de festejar este novo dia. Que nenhum 
christão ligue credito ás rimas nem aos cantos mági- 
cos, porque são obras do diabo. Que na festa de 
S. João, e em outras solenmidades dos santos, que 
se não faça caso do solsticio ; que se não entreguem 
a dansas, a jogos, a corridas, a coros diabólicos ; que 
ninguém invoque o demónio sob os nomes de Neptuno, 
de Plutão, de Minerva, ou dos génios : que ninguém 
celebre o dia de Júpiter como dia de festa, nem no 
mez de Maio, nem em nenhum outro tempo, inter- 
rompendo os seus trabalhos; que ninguém celebre a 
festa das largartas, nem a festa dos ratos, nem ne- 
phuma outra... Que nenhum christão accenda can- 



SUPERSTIÇ(Í£8 POPULARES PORTtJGUEZAS 59 

deias, nem faça votos nos templos pagãos á borda 
das fontes, ao pé das arvores, nas florestas ou nas 
encruzilhadas. Que ninguém suspenda amuletos ao 
pescoço de um homem ou de qualquer animal, ainda 
mesmo que os clérigos os tivessem preparado e dado 
como cousas santas... Que ninguém faça lustrações 
para a prosperidade das ervas ou das cearas. Que 
ninguém faça passar os seus rebanhos através das 
arvores ocas, ou de excavações no solo, porque ó ao 
demónio que os querem consagrar. Que nenhuma mu- 
lher se enfeite com collares de âmbar ; que ao tecer 
ou tingir a têa não invoquem nem Minerva nem outra 
divmdade funesta ; . . . Não lanceis grandes brados 
quando a lua se escurece, porque não é senão em 
virtude das leis de Deus, que ella se ecclipsa em 
certos tempos determinados. Não temais começar qual* 
quer obra na lua nova... Não invoqueis o Sol e a Lua 
com o nome de Senhores, não jureis por elles... Não 
acrediteis nem na fortuna, nem na fatalidade, nem 
nos horóscopos ; não digais que um homem hade ser 
o que o seu nascimento o fez...]> (1) 

Poderíamos exemplificar todos estes casos com 
factos dos costumes portuguezes desde os documen- 
tos do século xni até às persistências coloniaes, como 
o auto do Bumba meu boi e do Cavallo marinho^ por 
occasião do Natal e Janeiras, no Brazil. Preferimos 
porém seguir as formas espontâneas dos Agouros^ 
segundo as variações do Fetichismo a que se ligam, 
antes de organisarmos os Systemas polytheistas a que 
a maior parte das superstições populares portuguezas 
pertencem. 

Classificação dos Agouros. — A ideia de agouro traz 
implícita a de cousa malévola, que convém evitar, por 

(i) Acta Sanctorum Bd^ij t. iii, p. 245. {Bulletms de VAca- 
demte r. de Belgiqae, X. xxii, 2.* P., p. 153 (1855.) 



60 UYRO II5 CAPITULO U 

isso na ling^uagem do vulgo, se diz sempre : Não é 
bom, como fórmula imperativa. O mundo é um pes- 
simismo natural, cujo conhecimento obriga a uma 
acç3o negativa. 

Começaremos pelas pedras. A pedra da calçada é 
um manitu, que se não deve empregar na construcçao 
das casas, porque se revolve ao fim de sete annos. 
(Extremadura.) Nos tropos da linguagem do povo as 
pedras ainda faliam, como na cantiga : 

Oh pedras d*e8ta calçada, 
Levantae-vos e dizei, 
Quem vos passeia de dia. 
Que de noite bem eu sei. 

As pedras sanguíneas fazem estancar o sangue. Na 
sentença de Luiz de la Penha, de 1626, descreve-se 
assim o seu pacto com o diabo : <Eu sou o espirito 
que te appareceu, e te digo que se quizeres adivmbar 
tudo o que te perguntarem, hasde deitar trez pedras 
em meu nome em um poço, e quando ellas sairem 
d'elle, e as tornares a vêr na tua mão então não adi- 
vinharás. Dizendo-lhe mais, que se elle não deitasse 
as pedras no poço o havia de atormentar, pois fizera 
a dita devoção. » Nas Constituições do Bispado d'Evora, 
de 1534, prohibe-se que se ctome de logar sagrado 
ou não sagrado pedra d'ara...i^ «Nem revolvam pene- 
dos e os lancem na agua pêra aver chuva...» A pedra 
d'ara é empregada para ligar e desligar amantes ; 
no material achado a Luiz de la Penha, havia um saco 
pequenino com pedra amarella, e dois pequeninos de 
pedra d'ara. «E para que certa pessoa fosse a sua 
casa, e a ter prompta para suas torpezas, lhe tocou 
com um boccado de pedra d' ara; e com eflfeito logo foi 
a sua casa...]> As superstições das pedras apresentam 
um pronunciado caracter phallico ; próximo da Povoa 
de Lanhoso ha o Penedo, dos Casamentos, para o qual 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 61 

âe vira as costas atirando-lhe pedras ; quantas se ati- 
ram até acertar outros tantos sao os annos a que 
dista o casamento ; em Prazins, perto de Guimarães, 
o Penedo dos casamentos é em um monte de S. Mi- 
guel ; em Baião outro penedo é chamado dos Cornu- 
dos. (1) Em uma cantiga popular da Beira Alta, ha 
uma allusão matrimonial ao penedo : ^ 

Assobi-me ao penedinho 
Para a agoa ver correr ; 
Não sei que amor é o teu 
Que não me pôde esquecer. 

A relação da montanha com a pedra, no culto phal- 
lico, acha-se na Serra de S. Domingos, junto a La- 
mego, onde em um certo penedo comprido se vão 
deitar as mulheres estéreis para se tornarem fecun- 
das. Para saber se terá filho ou filha, as mulheres 
cUiram trez pedras pela fresta da egreja de S. Miguel 
do Gastello em Guimarães ; se acertam é rapaz, senão 
é rapariga. Em Requião as mulheres vão chupar em 
um penedo chamado a pedra leital, e dão trez voltas 
em redor d'elle para terem leite ; em Traz os Montes 
trazem ao pescoço uma pedrinha a que chamam lei" 
tuario e na Beira Alta, conta leiteira. 

Existe também na Itália esta superstição chaman- 
do-lhe pietre lattaimUej como se vê pelo catalogo dos 
Amuletos de Bellucci: no Alemtejo, usa-se também 
uma pedra argueréray com poderes de curar os arguei- 
ros dos olhos (Elvas.) E em outros logares existe a 
crença na pedra de andorinha: c Quando se encontrar 
um ninho de andorinha devem cegar-se-lhe os filhos. 
A andorinha vae buscar uma pedrinha mysteriosa, 
que tem a virtude de restituir a vista aos passarmhos, 

(1) Leite de Vasconcellos, TraáÁçf^es, p. 90. Vide o nosso l.<» 
voL, p. 231. 



62 LIVRO U, GAPmiLO U 

e qne eUa deixa ficar no ninho. Yae-se então bascdr 
a pedra, e não ha moléstia de olhos que resista á 
sua influencia.» (1) Em Taboaço pendura-se ao pes- 
coço das ovelhas uma bolsa com pedritJuis de Effreja 
contra o quebranto. Quando os rapazes andam encar- 
niçados em atirar pedras, jogo a que em Andaluzia 
se chama pedrêa, o povo toma isso por prognostico 
de guerras. (2) 

As superstições da pedra d' ara, sao de que moço 
que a traga comsigo, é sempre feliz em amores (Fafe 
e Gaia.) Quando se toca na pessoa diz-se : 

Deus te salve pedra d'ara 
Que no mar foste creada ; 
Assim como Bispo nem Arcebispo 
Pôde dizer missa sem ti, 

Assim tu 

Não te possas separar de mim. 

(Pedroso, Superst.^ n.« 477.) 

Mulher que tirar do altar a pedra d'ara ou benzer a 
mão n'ella não terá filhos (Santo Thyrso e Moncor- 
vo). (3) Quem vae pela primeira vez a uma terra ou a 
uma romaria deve metter uma pedrinha na bocca (Ta- 
boaço, Carrazeda de Anciães e Rio dos Moinhos). 
Para que o remédio de talhar surta effeito é preciso 
que se faça ao pé de um penedo. (4) 

(1) Pedroso, Superst., n.» 471.— Leite de Vasconcellos, Rev, 
sdentifica, p. 58i. — Esta pedra de andorinha era chamada 
pelos antigos Celidonia; falia d'ella Sá de Miranda. Diz d'ella 
Brunetti Latini, no Livro do Tkesowro : «E quant fíl perdent 
la veue par aucune achoison, il apporte une herbe que on 
appele celidoine, quis les garit et lorrent la veue...» Ed. Gha- 
baille, p. 217. (Na Academia das Scienc.) Acha-se em Hespa- 
nha : Biblioteca de las Tradiciones populares, 1. 1, p. 225, Su- 
perstj n.» 45. 

(2) BibL de las Trad. populares espan,, 1 1, p. 236. 

(3) L. de VasconceUos, Trad., p. 92. 

(4) md., p. 97. 



SUPERSTIÇteS POPULARES PORTUGUEZAS 63 

» 

Os moDomentos pre-hístoricos do nosso paiz, os 
Menhir e Dolmen, conservam entre o povo um caracter 
maravilhoso, como cobrindo tbezouros enterrados; e 
o intuito de descobrir esses tbezouros revolvendo os 
penedos, fez com que tantos monumentos fossem des- 
truídos. Assim como na Bretanba sao designados pelo 
título maravilhoso de Alíkorrigany a casa das Fadas, 
em Portugal sâo também casas de Mouras encantadas. 
A opinião pc^ular sobre as AntcíSy é que são «monu- 
mentos que em si escondem tbezouros, ou sao defen- 
didos por extranbos poderes, edificações de mou- 
ros.» (1) Existem certos penedos furados, como o 
Peneda mauras e junto do Monte de Saia o Sino do 
Mmro; (2) o Monte do Facbo, onde ba restos de uma 
antiga povoação também se chama vulgarmente a Eira 
do Mouro. A destruição de algumas Antas fez-se pela 
auctoridade ecclesiastica, e em uma das obras da 
Serra d'Ossa achou-se cinza$ e carvões^ vestígios de 
um evidente rito funerário. Nas crenças populares os 
tbezouros das fadas transformam-se muitas vezes em 
carvão : c Fadas de mae s3o thezouro de moura encan- 
tada ou escondida ; ao primeiro és nao és, eis carvão 
tndo.i> (3) 

Diz Prestes em um dos seus Autos : 

Que porque vol-a mostrei 

Carvão achei (p. 400) 

armastes 

Muitos contos, taes enleies 

Que tudo em carvão achastes (p. 3Sd.) 

As trez voltas dadas em roda da Pedra leital, de 



(i) Gabriel Pereira, Dolmens ou Antas dos arredores d^Evo- 
ra, p. 8. 



(2) Idem, Notas Archeologicas, p. 62 

(3) D. Fr2 



Francisco Uaniiel, Â^logos Haioçaes, p; 47. 



64 UVRO II, CAPITULO II 

ReqoiSo» estendem-se a outras devoções, como ao re- 
dor de uma ermida. 

Diz Smith : <0s Druidas começavam ou acabavam 
a maior parte das suas cerimonias dando trez voltas 
em redor do circulo do cara, ou do altar, junto dos 
quaes cumpriam suas funcções, partindo do ponto do 
oriente e seguindo o curso do sol. Chamava-se a esta 
espécie de procissão deas itd, o caminho do meio dia, 
etc. A cerimonia do deas iul pratica-se ainda em mui- 
tas circumstancias nas montanhas da Escossia. Uma 
mulher gravida dá trez voltas em redor de uma ca- 
pella afamada, a começar do levante para o meio dia 
a fim de ter um boip successo. Os doentes esperam 
recobrar a saúde dando voltas em redor dos vestígios 
de algum antigo cara.» (1) 

Nas Constituições do Bispado de Lamego, de 1563, 
estabelece-se : «Defendemos e mandamos com que as 
procissões nam vao a outeiros, nem penedos, mas soo- 
mente aa egreja...» (2) 

No Penedo EncavaUado, de Mondim da Beira, appa- 
rece uma Moura, estendendo meadas de ouro; em 
Cabeceiras de Basto, no monte da Orada, ha uma 
pedra de Mouro, com haveres assim como na lapa da 
Talada. Também se chamam pedras cavalgares. Os 
montes e outeiros também têm o seu primitivo cara- 
cter sagrado convertido na superstição das Mouras 
encantadas. Junto a Yermoim, no monte do Castello de 
S. Catherina havia uma moura em forma de cobra; 
em S. Pedro do Sul, diz-se que as mouras andam 
encantadas pelos outeiros ; e quem deitar um pingo 
de leite em uma lage pôde alcançar um thezouro. (3) 
O culto das montanhas, entre os semitas, ou hemoth, 

[1) Hist. des DruideSj p. 56. 

2) Tit. XVI, Const 4, 

(3) LeUe de Yasconcelios, Trad^j p. 87. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 65 

apparece ainda entre os gregos, nos seus montes, sede 
ou templo das Mnsas, como o Findo, o Parnaso, o 
Pierio, e bomos significa a elevação a que se liga' a 
ideia de altar. Todas estas reminiscências vagamente 
se conservam na ideia que o povo faz das Maméas, 
Antas e Antellas espalhadas pelo nosso paiz. 

Por ultimo a pedra, que se emprega no pacto com 
o diabo, da feiticeriado século xvi, ainda se conserva 
nos costumes de Gabo Verde, na ilha de S. Thiago ; 
dà-se ali o nome de Fetal a uma pedrinha magica, do 
tamanho de um grão de mostardeira, que as pessoas 
que fazem pacto com o diabo recebem no sitio cha- 
mado Agita de MchMartha. A pedrinha é mettida 
debaixo da pelle, e aquelle que a traz em si, o Feta- 
lista^ fica para sempre livre de desgraças eml)ora nao 
chegue a ser rico. (1) Esta superstição liga os agou- 
ros das pedras ao culto chtoniano dos charcos e das 
Deusas-Mães^ como se vê pela relação com Má-Mar- 
tha, a que no processo de Luiz de la Penha se chama 
Martha não a dina. 

As pedras de raio^ conhecidas da antiguidade pelo 
nome de ceraunias, conservam ainda entre o povo o 
seu primitivo caracter magico; segundo a crença, 
são arremessadas pelo raio, e enterram-se pelo chão 
abaixo sete varas, voltando á superficie, como se crê 
na Calábria e em Aveyron, ao fim de outros sete 
annos, (Traz os Montes, Angerez, Vouzella) ; em Re- 
sende chamam-lhe cunhas de pedra, como na Scandi- 
navia, e postas sobre os telhados livram a casa do 
raio. (Torre de Moncorvo.) (2) As ceraunias ou cunhas 
de pedra são consideradas como instrumentos de silex 
da época ante-historica ; só as fulgurites ou vitrifica- 



(i) Mmanach de Lembranças^ para 1880, p. i02. 
(2) Leite de Yasconcellos, Tradições das pedras, na Era 
Nova, p. 76 (1881.) 

5 II 



66 uvRO II > GAPrnJLO ii 

ções por meio da faísca eléctrica é que poderiam 
generaUsar esta crença commum a todos os povos. A 
concepção do Fogo celeste, base de om grandíssimo 
nmnero de mythos áricos, explica uma somma nume- 
rosa de agouros, quer das pedras, que eram os betylos 
semitas, quer das plantas com forma de penna, das 
raízes, como a mandragora, ou dos ramos com que 
se produzia pela fricção o fogo. O pbenomeno meteo- 
rológico do nevoeiro, é segundo os contos populares 
produzido por einza espalhada ao vento. 

Os vestígios dos cultos sideraes sao os mais com- 
pletos sobretudo em algumas festas religiosas, como 
o S. João e o Natal; as superstições astrolatricas 
subsistem, mas já sem a importância que tiveram 
durante a Edade media. No Cancioneiro portuguez 
da Vaticana encontram-se abundantes referencias á 
Astrologia ; uma canção de Affonso de Cotom traz : 

Meestre íncolas, a meu cuydar 
é muy boo físico por nom saber 
el a suas gentes bem guarecer ; 
mais vejo-lhi capelo d ultra-mar, 
e traj'al uso ben de Mompiller. . . 

E em boõ ponto el tan muyto leeu, 
ca per o prezam condes e reyx, 
e sabe contar quatr' e cinqu* et seix, 
per strolomya que aprendeu. . . . 

E outras artes sabe el muy melhor 
que estas todas de que vos faley, 
diz das luas como vos direy 
que x'as fezo todas nostro senor. . . 

(Canç., n.» iil6.) 

Na Edade media a palavra possuía um poder ma- 
gico ; d'aquí um certo perstigio dos granunatícos e 
escholares, que passavam por ningromantes. A Gram- 
matica era denominada por excellencia a Arte; no 
Cancioneiro da Vaticana allude-se ao typo do escho- 



SUPERSnpÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 67 

lar: «Chegon Payo de Maas-Artes.* (Ganç., n.® 1132.) 
Benoit de Sainte More, no Roman de Traie, confunde 
na artímaire (ars major, ou artimanha ars mapa) a 
ningromancia e a grammatica.» (1) Em umn cançSo 
do Conde D. Pedro, allude-se á superstição astrolo* 
gica dos escholares : 

Hartim Vasques n*oatro dia 
ha estava em Lixboa, 
mandou fazer gram coroa, 
ca yyo per estrofogia 
que avena egreja 
ffrande, qual ca el a deseja 
de mil Hms em valia. 

(Ganç., n.* iO&l) 

Esteyam da Guarda, grande privado de D. Âffonso ni, 
descreve a crença no influxo dos planetas : 

Ora é já Martim Vasques certo 
das planetas que tragia erradas, 
Ifsurs e Saturno mal aventuradas 
c^o poder trax em si ^icuberto ; 
cá per Mars foi mal chagad* em peleja, 
et per Saturno cobrou tal egreja 
sem prol nenhuma em logar deserto. 

Outras planetas de boa ventura 
achou per vezes em seu calandayro 
mais das outras que Ih' andam em contrairo 
cujo poder ainda sobr'ei dura. . . 

(Ganç., n.« 931.) 

E nas canções, n.^ 928 e 929, que trazem a m- 
brica : afeita a hu jograr que se presava destrdogo e 
d nam savia nada,..i^ diz o mesuK) trovador : 

Já Martim Vasques da estrelogia 

Serdeu bençom polo grande engano 
as pranetas, perque veo a dapno 
en que tan muyto ante se atrevia. . . 

(1) Ed. Joly, t. u, p. 226. 



• • 



68 LIVRO II, CAPITULO II 

Na canção 962 da CoUecçao Vaticana, a palavra 
ttstroso designa o que está debaixo da influencia ma- 
ligna dos astros. Os reis tinham os seus astrólogos 
officiaes, que consultavam em todas as determinações 
difficeis. O rei D. Duarte tinha junto a si mestre Gue- 
delha, que lhe prognosticou a morte ; na sentença con- 
tra Ànna Martins, de 1694, ainda se emprega a palavra 
mestra com este sentido, dizendo que nâo conseguiam 
«algumas mestras que primeiro se benziam a si» curar 
os achaques dos que as consultavam. No nascimento 
das crianças tomava-se o horóscopo para conhecer a 
sua sorte ou destino ; Gamões, na canção x, diz de si : 

Quando vim da materna sepultura 
De novo ao mundo, logo me fizeram 
Estreitas infelices obrigado ; . . . 

Referia-se o poeta ao celebre prognostico de feve- 
reiro de 1524, em que nasceu, no qual se annunciava 
um grande diluvio pela conjuncçao dos planetas no 
signo de Piseis. Espalhou-se pelo mundo o terror de 
um diluvio, terror renovado pela apagada tradição do 
millenio, que de vez em quando revivesce. (1) Os 
meteoros são ainda considerados signaes no céo, e os 

(i) É singularmente notável o folheto : Contra os juyzos dos 
astrólogos Breve tratado contra a o^iniam de alguns ousados 
astrólogos : q per regras de astrologia nõ bem entendidas ou- 
sam em publico juyzo dizer : q ha quatro ou cinco dias de Fe- 
vereiro do anno de 1524 i)or ajuntamento de alguns planetas 
em ho signo de Piseis será grã diluvio na terra. Ho qual tra- 
tado pêra consolação dos fíees : fez e cõpilou de muytos do- 
ctores catholicos e sanctos. ho licenciado frey António de beja, 
da ordem do bem aventurado padre e doctor esclarecido da 
egreja sam Hieronimo. e foy per elle dedicado e oferecido aa 
cnristianissima senhora ha senhora raynha dona Lianor dTor- 
tugal.— O folheto foi impresso por ordem da própria rainha 
em Lisboa por Germano Galhardo, em 7 de Março de 1S23. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 69 

cometas prognosticam guerras, pestes e a morte de 
altos personagens. 

Segundo Lan^ge, na Historia do Materialismo, o 
preconceito do perigo mortal ligado ao nascimento 
dos fetos de outo mezes é devido aos restos da astro- 
logia medieval. Na crença popular chama-se aoí me- 
teoro qiíe passa uma estrella que coe, e para que não 
arrase a terra, diz-se : Nossa Senhora te guie ; (Aço- 
res) ou : Assim corra a minha alminha para o céo. Em 
Mondim, tira-se o cbapéo, dizendo : 

Deus te guie bem guiada, 
Que no céo foste criada, (i) 

O poder malévolo das estrellas subsiste no agouro: 
Quem conta as estrellas, nascem-lhe outras tantas 
verrugas nas mãos. (2) Nas Constituições do Arce- 
bispado de Braga, de 1639, prohibe-se: «nem faça 
juizo ou levante figuras pelos movimentos ou aspectos 
do Sol, Lua, ou Estrellas.]» Na Sentença de Anna Mar- 
tins, de 1694, diz ella que se as palavras e cerimonias 
que fazia fossem feitas por outra pessoa não curavam 
«porque ella era somente a que tinha aquella estreUa.i^ 

O mundo vegetal fornece bastantes agouros ; taes 
são nos arredores de Lisboa : Se a herva pinheira, 
apanhada em dia de Santo António reverdecer em 
casa, é signal de fortuna. — Se o primeiro fructo de 
uma arvore não for comido por homem, fic^ a planta 
anneira, isto é dando fructo um anno sim outro não 
(Minho.) Não é bom estar á sombra da figueira, nem 

(1) Leite de Vasconcellos, Tradições^ p. 31. «Quando se vè 
uma estrella cadente é bom dizer-lhe : Deus te guie ! ou abai- 
xar-se e pegar na primeira cousa que se achar e mettel-a na 
algibeira.» Almanach do Ar eh. amriano, para 1868, p. 109. 

(2) Gommum áHespanha : Biblioteca ae las Tradiciones po- 
pulareSj 1. 1, p. 216, n.° 20. 



70 LIVRO II, CAPITULO II 

quando faz trovoada; (1) e quem cae d'ella abaixo 
quasí sempre morre. 

O caracter pballico da figaeira, conbece-se pela 
crença qne «o touro atado ao pé de uma figueira se 
faz manso.» (2) A confusão de ficus, a excrecencia 
córnea dos Satyros ficarias, com o ficus, o figo, em 
S. Jeronymo, motivou esta crença, que se vê mais 
evidente na superstição do Feito. O feito ou feitdhaj 
semente que o vulgo colhe em um guardanapo na 
noite de S. João, para aquelle que o possuir se tomar 
amado, deriva esta sua virtude da crença polytbeista 
dos satyros Fatuus ou Fatuelltis; em uma cantiga 
popular dos arredores do Porto se diz : 

Meu amor não vás a Avintes, 
Nem p*ra lá tomes o geito ; 
Olha que as moças de lá 
Trazem a semente do feito. (3) 

O junco oú a planta dos charcos, que no culto 
eneano da prostituição sagrada é a haÃta, hastUia ou 
a lança phallica, acha-se com intuito supersticioso na 
cantiga do Alemtejo : 

Dizem que me queres bem, 
Inda o neide experimentar, 
Na noite de S. João, 
Junco verde heide cortar. 

(i) Na Andaluzia diz-se, referindo ao ar da figueira : 

Anda vete de mi bera 
Que tu para mi has tenido 
Sombra de negra figuera. 



A Guiehot, BibL de las Trad, populares espan,, 1. 1, p. 230. 
Não ter ramo de figueira, exprime na locução popular o cumulo 
da pobreza. 

(1) Padre João Pacheco, Divert. erudito, 1. 1, p. 355. 

" Positivismo j t. IV, p. 114. 



f 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 71 

Este uso de cortar juncos como sortilégio amoroso, 
acha-se também em Viila Nova de Carros, do concelho 
de Paredes. As hastUia do culto eneano apparecem 
na Oração de Martha (Luiz de la Penha) : 

com trez varas te mandarei ; 

quatro cantos eatarei, 

com a vara da maior alçada, etc. 



Na Devação da Estrdla fermosa, ainda fig[uram as 
Yáras : 

e nove varas de zimbro me colhereis 

na mão de Gaífás m*as amolareis, 

bem amoladas 

e bem aguçadas 

agaçadas e bem metidas 

e nem tranquadas 

huma no coração 

e outra pelo sentido 

que de mim foão 

nom seja esquecido, etc. 

O zind)ro ainda hoje é considerado com virtude 
contra o ár máo. Diz o anexim portuguez fallando da 
virtude magica da arruda : 

Se a mulher soubesse 
A virtude da arruda^ 
Buscal-a-hia de noite á lua. 



O cheiro do alecrim q;ueimado afugenta os raios ; 
e em ramo tem poder contra os feitiços. — As ervas 
apanhadas em quinta feira da Ascenção ao meio dia^ 
tem virtude contra sezões e feiticerias. — Não se deve 
dormir á sombra dos damasqueiros. — Quem queima 
folhas de figueira em casa onde se cria criança, seca 
o leite á mãe. — É máo queimar lenha de oliveira, que 
ficou consagrada pela pomba de Noé, ou porque se 



^ 



72 LIVRO II, CAPITULO II 

fez d'ella a cruz de Christo. — É máo queimar trovisco, 
consagrado por ter Nossa Senhora enxugado sobre 
elle os panninhos do menino. — O cepo ou trafogueiro 
do Nataij tem grandes virtudes. — Janella onde haja 
a planta do ensaião (com que os pescadores tingem 
as linhas da pesca) n'essa casa as raparigas ou os 
rapazes não casam. — A planta do Azevinho borrifada 
com vinho na noite de S. Jo5o, e levada para casa 
depois da meia-noíte, dá a fortuna a quem a tiver. 
— Os tremoços e os pinhões são amaldiçoados (por 
terem denunciado a fugida de Nossa Senhora.)— 
Quando as batatas grelam em casa é signal de que 
lhe crescem os bens. — O funcho, o rosmaninho, o 
sabugueiro e o alecrim colhidos na manhã de S. João 
livram a casa do raio.— As Ordenações manuelinas 
prohibem cortar solas em figueira baforeira e ter man- 
dragoras, costume persistente de um primitivo culto 
phallico. 

As plantas solaneas são aquellas que pelas suas vir- 
tudes medicínaes impressionam mais directamente a 
imaginação popular. A valeriana chega a ter uma per- 
sonalidade com quem se trata para obter fortuna. Gil 
Vicente, na comedia da Bubena allude á cantiga da 
Moliana, moliana; Arruda Furtado escreve sobre este 
ponto : «A mais complicada e curiosa superstição mi- 
chaelense que temos encontrado é a da boliana. A 
boliana, contracção de valeriana, é uma planta indis- 
pensável para se ter fortuna ; mas para isto carece 
estar sempre ao pé dos seus trez companheiros, o 
verbasco, o trovisco e a bella-luz, e que se lhe diga 
todos os dias esta cantiga : 



Bons dias^ minha menina, 
Como passastes a noite ? 
Tu commigo e eu sem ti, 
E tu no coração d*outro. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 73 

Bolíana^ minha amiga, 
Verbasco tea companheiro, 
Has* pedir ao mea amor 
Qae me dé muito dinheiro. 

«Quando se rega a boliana é preciso dizer-lhe: 

A agua que vem da serra, 
Vem de regar os craveiros ; 
Também te venho aguar 
Minha nobre cavalheira. 

«Deve ser plantada juntamente com algum fio de 
ouro ou com dinheiro de grelha (em que a coroa está 
sobre uma espbera armillar) e nâo deve ser adquirida 
senão comprada ou furtada. As pessoas que emigram 
levam comsigo folhas d'ella. O mais curioso d'esta 
superstição é que o povo crê que de sete em sete 
annos, na noite de S. João, a boliana dá uma flor que 
é exactamente do feitio de uma pmna de pato e com 
que também se pôde escrever. Para a poder colher 
é preciso ir á meia noite com um guardanapo de olhos 
pela cabeça, e a flor ao ser cortada dá um grito. 
AíBrma-se que muitos escrivães possuem uma penna 
d'estas e que a isto devem a sua fortuna.» 

Escreve Baudry, no bello resumo da grande obra 
de Kuhn sobre 0$ Mythos do Fogo, e a Bebida celeste 
entre o$ povos indo-europetis, que as plantas que têm 
as folhas em forma de penna são consideradas como 
colhidas da arvore celeste, e ligadas ao culto do fogo^ 
como também as parasitarias. A folha do feito é com- 
parada a aza da águia {pteris aquilina, Linn.) e nas 
crenças populares da noite de S. João, o feto colhido 
n'essa noite tem virtudes, que se relacionam com o 
mytho do fogo dos povos áricos; o seu nome em 
allemão fam, e no inglez fem, tem no sanskrito a 
forma de pama, a penna. 

«Em a boliana murchando, apesar de estar com as 



74 UTRO II, CAPITULO II 

suas trez companheiras > é porque está para haver 
desgosto em casa. Emquanto se rega deve-se estar a 
poasar-lhe a mão em cima : — ella põe-se a pular como 
uma cousa viva, porque é uma rainha encantada. Esta 
planta é sobretudo querida das meretrizes que lhe 
dirigem cantigas especiaes, e que depois de a rega- 
rem, põem-na entre os pés e andam-lhe com as saias 
em volta para serem penetradas das suas virtudes, 
repetindo as cantigas — senão ella fica triste.»— (1) 
Esta superstição é em tudo simílhante á da mandra- 
gora na antiguidade e na Edade media. No norte de 
Portugal existe a mesma superstição, já com o nome de 
moliana, ou com o de outras plantas como a Herva 
de Nossa Senhora, Azevinho, e Laranginha para dar 
fortuna. (2) O companheiro da moliana, o trovisco, 
também tem o poder de dar fortuna. «As mulheres 
(Roriz) quando vão á feira vender, cortam o trovisco 
macho, e levam-no no cesto para se livrarem de cou- 
sas más ; dizem ao cortal-o : 

Louvado seja 

Nosso Senhor Jesus Ghrísto ! 
Venha d'uhí commigo 
AjQdar-me a vender isto.» (3) 

Em as cosmogonias da raça árica, o homem nasce 
das plantas ; entre os povos semitas nasce das pedras. 
Esta crença primitiva conserva-se em algumas super- 
stições, em que a vida da criança se liga á de uma 
planta, ou a saúde de um ausente é revelada pelo 
estado em que uma certa planta se mostra. Tal é esta 

(i) Materiaes para o estudo dos povos açorianos j p. 4i. Ponta 
Delffada, 1884. 

(2) Yid. a presente obra, vol. i, p. 174. Na AUemanha as 
flores magicas que dão fortuna chamam-se schlússelblvme, e 
glãcksblume. 

(3) Almanach de Lembranças, para 1868, p. 214. 



SUPERSTIÇÕES POPUÍARES PORTUGUEZAS 78 

snperstíçlo da ilha de S. Miguel : «A babosa, planta 
da família das nopáleas, mesmo depois de cortada 
reverdece e brota novas folhas; querendo saber o 
estado de uma pessoa ausente observa-se essa planta 
cortada : se continua viçosa, saúde ; se vive, mas com 
pouco viço, doença; se fenece e sécca, morte.» (1) 
Na nossa infância vimos na choça de um pobre velho 
Francisco Caeiro, uma babosa pendurada na cosinha 
por onde elle sabia da saúde de um filho que estava 
no Brazil. (2) 

A cada passo se depara com esta persistência tena- 
císsima dos costumes ; ainda hoje o povo de Lisboa 
defuma as casas com alfazema, como na primeira 
metade do século xvi notava António Prestes, como 
eflScaz contra os espíritos : 

Vós defúmaes 
esta casa com alfazema. 

(Autos, p. 398.) 

As plantas aromáticas, como a arruda, o mmtrasto, 
o orgevão (verbena) e outras muitas sao os específicos 
peculiares da medicina magica popular^ em que o 
histerismo e o estado febril s3o ár máo ou bruxedo. 
Adiante veremos como a mandragora, prohibida pela 
Ordenação manuelina, se Uga aos cultos phallicos pri- 
mitivos, explicando-se por elles muitas superstições. 
O sabugtmro é usado com a forma de rosários ao 
pescoço das crianças para não serem embruxadas ; 
nos ensalmos contra o fogo do ár é chamado o sem- 
pre-verde, com a persistência do mytho do fogo recon- 
struído por Kuhn. 

(i) F. M. Supico/ ^/mano^:^ do Arch. açoriano, para 1868, 
p. 107. 

(2) Yíd. o elemento comparativo nos Contos populares do 
Brazil, p. XXXIV. 



76 LIVRO II, CAPITULO II 

Nos agouros de forma ou cathegoria zoológica, as 
Aves ainda hoje s3o consideradas com poder magico, 
principalmente para conhecer o futuro. Muitas vezes 
a pratica supersticiosa n3o podendo ser extirpada, foi 
santificada, como vemos no corvo do antigo agouro 
popular na lenda de S. Vicente onde conserva incon- 
scientemente o seu aspecto fetichista. Diz Lord Back- 
ford, na sua Carta xxiv : «Desde tempo immemorial 
está consignada certa quantia para mantença de dois 
pássaros d'aquella espécie, e os achamos commoda- 
mente aquartelados n'um escondrijo da claustra adja- 
cente á cathedral, bem nutridos, e de certo mui devo- 
tamente venerados.» São os corvos da Sé de Lisboa. 

Diodoro Siculo falia da adivinhação pelas aves entre 
os Gaulezes, e tanto Tito-Livio como Justino affirmam 
que elles consultam o võo das aves para fazerem as 
suas expedições.» (1) 

Os agouros das aves eram muito familiares na 
sociedade portugueza no fim do século xm, como se 
comprova por varias canções da nossa abundante lit- 
teratura provençal. Em uma servente de Pedr' Amigo, 
se lê: 

Maria Balteíra, que se queria 
hyr já d'aqui, veo-me preguntar 
se sabia j*agai éfaguyraria 
cá nom podia mais aqui andar. 



E dixi-lh'eu : Cada que vos deitados 
que estumudos soedes d'aver ? 
È disse ella : Dois ey, ben o sabades, 
e hun ey quando quero mover. . . 
E dixi-m*eu : Poys aguyro catados 
das aves vos ar convém a saber, 
vos que tan longa carreira fílhades ; 
diss'ella : esso vos quer*eu dizer, 



(1) Belloguet, Ethnogénie gaul., t. ni, p. 193. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 77 

ey feryvelha sempre ao sair, 
e dixi-lh*ea : Bem podedes vós ir 
con ferívelha mais mmca tomades. 

(Canç., n.» 1197, do Canc. Vat.) 

Estes presagios da vista das aves persistem entre 
os Tupis do Brazil, os Dayakas de Borneo, e entre 
os Maois ; os Tártaros observam estes aug[urios, que 
penetraram nas mais altas civilisações. (1) Em uma 
sirvente de Âyras Peres Yeyturom acbam-se ainda 
mais minuciosamente especificados estes augúrios : 



Poys que don Gomes Cura qn^rria 
com boas aves ante prender mal 
ca ben con outras, nom Ihy dé deus ai, 
erg* estes corvos per que s^el fia; 
e com qual corvo el soubesse escolher, 
o leixasse mal andante seer 
deus, cá depois em ben tomaria. 

Coin*el sabe á^agoyria, 
se ouvesse bom corvo camaçal, 
ou comelha a negra cavdal 
e tal e gual xe don Gomez oya, 
o cal Ihi deixasse deus perder 
a herdade, o corp* e o aver, 
ca todo x'el depoys cobraria. 

E poys sab* el tod*alegoria 
d'agoyro, quando de sa casa sal, 
se ouvess* ei hua comelha tal 
qual x*a don Gomez consinaria ; 
con a tal visse a casa arder 
e Ihi leixasse deus morte prender 
sen confisson, ca pois s*ar porría. 

E con bon corvo foss* el pois caer 
en nojo grav' e fícasse em poder 
do diaboo, ca pois s^oporria. 

(Canc. da Vatic, n.» 1087.) 



(1) Tylor, CiviUsation prmitwe, 1. 1, p. 140. 



78 uvRo u, aiPiTuu) n 

O prognostico tirado do encontro de certas aves ao 
sair de casa, tal como se nota no costume consignado 
na canção acima transcripta, 6 usado pelos selvagens, 
com o nome de angang. Uma sirvente de Joham Ay- 
ras de S. Tbiago verbera esta superstição geral da 
Edade media : 

Don Pêro Nunes era en tornado 
e ia-ss* a Santiago albergar, 
e o agoiro sol el ben catar, 
ca muytas vezes Toqv* afaçanhado : 
e indo da eas ao eeleyro, 
ouv' htm corvo vorace e faceiro 
de que don Pedro non foy ren pagado. 

E poys lo el ouve muyto catado, 
diz : D*este corvo non posso escapar, 
que d'el non aja escambo a tomar, 
com gram perda do que ey gaanhado, 
ou da mayor parte do que ouver, 
per ventura ou do corpo ou da molber, 
segund* eu ey o agoyro provado. 

E tomou-se contra seu gasalhado, 
e diz : Amiga, muyfey eu gram pesar 
cá me nom e posso de dano guardar 
d'este corvo que vejo tam chegado 
a nossa casa, pois filha perfia, 
e corv' é já ^ui sempr* o mais do dia ; 
e diz : de noite seas trasffurmado. 

(Ibid., n.« i078.) 

Em outra cançSo do mesmo jogral acha-se referido 
o agouro angang: 

Hunha dona, non digu' eu qual, 
nom aguyrou ogano mal ; 

Eolas outavas do natal 
ya por saa missa oyr, 
e ouv'um corvo camaçat 
e nom quiz de casa sayr. 

(iWa., n.« 1077.) 



SUPERSTIÇÕES POPUUIRES P0RTU6UEZAS 79 

No secolo xiY já o ridicalo atacava esta snpersticSp 
nas classes cultas, como se vé por esta outra can^o 
de Jí^am Âyras : 

Os qae dizem qae vêem bem e mal 
nas aves, e d'agoirar preifam, 
quer en corvo seestro qaando vam 
alhur entrar, e digo-lhis eu ai, 
que jbesu ehristo nom me perdon' 
se anfeu nom queria hun capom 
que hum gram corvo carnhaçal. 

E o que diz que é muy sabedor 
d*agoyr e d'aves quand* alhur quer hir, 
quer corvo seestro sempr' ao partir, 
e por en digu' eu a nostro s^ohor, 
que el me dé cada hu chegar 
capon cevado para meu jaatar, 
e aô o corvo ao agoirador. 

Cá eu ben sey as aves conhecer, 
6 com patela gema mais me praz 
que com bulhafre contr' e nen viaraz, 
que me nom pode ben nem mal fazer ; 
e o agoirador torpe que diz 
que mais vale o corvo que a perdiz, 
nunca o deus leixe melhor escolher. 

(IMd., n.* 601.) 

EmVouzella, diz-se esta fórmula impreca tiva quando 
se ouve o pio sinistro do corvo : 

Corvo negro do peccado 

1^0 insertes o meu gado. 

Nem no negro, nem no branco, 

Nem ao que anda misturado. 

Vai ao Porto 

Que está lá o t^ pae morto ; 

Come-lhe a carne, 

Deixa-lhe os ossos 

Para amanhã pela manha ao almoço. <1) 

(1) Leite de Vasconcellos, Trad,, p. 158, onde cjta factos 
análogos da Bretanha franceza e do Tyrol. 



80 UYRO II, CAPITULO II 

Nas Gonstituicoes do Arcebispado de Braga, de 
1639, probibe-se fazer «conjecturas por encontro, ou 
voar e cantar das ams e animaes...i» e bem assim, 
pelas Constituições do Arcebispado de Gõa o atraves- 
sar dcorações de aves pêra reprovados effeitos.» 

Muitas d'estas superstições conservam-se ainda en- 
tre o povo. Se o estorninho assobia, é signal de 
borrasca. (Leiria).— Se a coruja canta em um telha- 
do, ha morte breve.— Gil Vicente allude aos poderes 
mágicos do gallo : 

Ea não Juro, 
Nem esconjuro, 
Mas gaUo negro suro 
Cantou no meu monturo. 

Nos arredores de Lisboa ainda se cré que o gatto 
preto afugenta as cousas ruins. — Se o gallo cantar 
quatro vezes antes da meia noite é signal de morte ; 
o mesmo se canta depois do sol posto. 

No Minho diz-se em forma de provérbio : 



Gallo que fora d'horas canta, 
Gutello na garganta. 



Se quando se mata uma ave ella custa a morrer, 
é porque alguém tem pesar.— Quem tem pombos em 
casa, e depois nao quer mais tel-os, cae em desgraça ; 
— se elles vêm poisar em janella, é signal ruim. — 
Quando uma gallinba canta de gallo é que está para 
haver grande calamidade em casa. (Bragança.) / 

E no Douro corre em provérbio : 

Gallinha mie canta de gallo. 
Quer em breve o amo no adro. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 81 

O canto do cnco^ prognostica quantos annos as 
raparigas estarão solteiras : 

Cuco de Maio, 
Cuco de Aveiro, 
Quantos annos 
Heide estar solteiro ? 

Cuco da ramalheira (carrasqueira) 
Quantos annos me das de solteira ? 

Cuco da vid^arada, 

Quantos annos me dás casada. 

Cuco da carraspuda, 

Quantos annos me dás de viuva ? (1) 

As superstições dos animaes, ainda tão vivazes, 
transparecem nos processos da Feiticeria ; no pro- 
cesso de Maria Antónia (1683) se lê : c quando queria 
adivinhar alguma cousa, chamava por elle, (o diabo) 
e logo lhe apparecia em figura de gato preto se era 
dia. . . » Maria atonia confessou que lhe apparecia como 
mancebo, mas os pés eram como de cabra ou bode... 
cDeclarou lhe apparecia umas vezes uma pega preta 
e branca, e em outras dois ou trez pintãos pretos ou 
pardos, as quaes avçs vinham voando pelos ares até 
á porta da casa,... se a pega lhe apparecia, era signal 
de que o mal havia de ter remédio ; e se os pintãos, 
era mais difBcultoso. Essas aves retiravam-se com 

(1) Leite de Yasconcellos, Tradições^ p. i46, colligiu estes 
versos na Maia, Pesqueira, Ervedosa, aproximando-os do cos- 
tume francez. Na Faunepopulaire de la France, t. ii, p. 84, traz 
E. Rolland este mesmo costume, com a fórmula : 

Goucou des villes, 
Goucou des bois, 
Gombé ai-z*y d*annés 
Ame mana? 

6 n 



82 UVBO III CAPITULO U 

vultos maiores ou transformadas n'outras cousas.» 
A Maria Rosa (1728) dhe appareceu em forma de 
jummto.T^ 

Os agouros e prognósticos do g€Uo são numerosos : 
se lavam o focinho, é signal de visitas ; se lambem 
as unhas é signal de dinheiro ; se ourinam em roupa 
de criança é boa sorte ; se o enterram vivo, ha sem- 
pre desgraça ; se andam aos saltos, adivinham máo 
tempo ; se é preto> não entram em casa os máos espi- 
rites ; (1) se o è^to lava a cara, no outro dia venta 
d'essa banda (Ârcozello de Gaia) ; e em Cabeceiras 
de Basto diz-se este prognostico : 

Sobe o gato ao forno, 
Lava-se para o Nascente, 
Choiva de repente ; 
Lava-se para o mar, 
Velhas a assoalhar. (2) 

Nas crenças pqpulares, o burro tem grandes pode- 
res mágicos: para as pessoas que dormem muito 
serem mais espertas devem abraçar um burro recém- 
nascido. (Lisboa.) Para que o burrinho novo não seja 
enfeitiçado, p5e-se ao pescoço uma coUeira encarnada 
com uma bolsinha cheia de alhos e arruda. (3) Nas 
ilhas dos Açores, dá.-se a comer míoUos de burro, como 
um poderoso pbiltro para querer bem. Nas conce- 
pções mythicas indo-europêas, o asno tem um sentido 
phallico, como se vê pelas lendas conservadas por 
Apuleio ; diz Gubematis : «^Durante a noite, o heroe 
está submettido aos encantos de uma bella fada, con- 
serva a forma de um asno ; é sob esta forma, debaixo 



(1) Pedroso, Superst, n.~ 12, 33, 71, 87, 116, 408. 
Leite de Vasconcellos, Trad.j^b. 171. 
Pedroso, Superst.j n.*»» 14 e 147. 



s 



SUPERSTigÕBS POPULAIES PQBTU6UEZA8 83 

de uma pelle de asno, que elle leva os my$terio$ de 
Priapo» d^oode, a expressão de Aristopbanes, nas Rãs, 
— o asno que leva os mysterios : estes mysteríos u3o 
s3o senão as Pballagia ou as Periphallia, de Roma.» (1) 
Temos um anexim, que diz : Decoada mn cabeça de 
asno, que se refere á superstição divinatoria. No pro- 
cesso de Luiz de la Penha vem o seguinte Ensalmo 
do Asno, para fazer que outrem obedeça ao nosso 

mando : 

Asno és e filho de burra, 
assim como este asno, 
esta burra não pode estar 
sem albarda 
e silha e sobrecarga ; 
assim como comer 
isto qae aqui trago 
se tome hurra e asno 
e ande a meu mandado, 
e me suba pelos pés, 
e me ponha na cabeça. 

(UbeUo, art 17.) 

Na linguagem popular temos a locução Pagar as 
favas que o asm comeu ; as favas tem um sentido phal- 
tico, como veremos nos agouros vegetaes e no en- 
salmo de Luiz de la Penha. Ha uma outra imprecação 
para attrahir uma pessoa, em que se invoái o asno : 

Anda meu burro albardado. 

Assim como ta és o meu querido 

O meu encabellado. 

Assim como Deus e Santo Erasmo 

Me darás quanto tiveres 

E me dirás quanto souberes. 

Esta oração era dita pela feiticeira «estando no 
tempo em que a fazia com o pé esquerdo descalso, e 

(1) Myíhologie zoologique, 1 1, p. 390. 



• • 



84 LIVRO II, CAPITULO II 

braço e perna da mesma parte nus, e o cabello da 
parte esqaerda desgrenhado, com a janella e porta 
aberta, e um prato de sal diante de si ; e tomando 
uma mão cheia de sal, chegou á janella, e dizia as 
seguintes palavras : 

Esta mão cheia venho deitar 

Por 

Para gue sem tino andar, 

Sem tmo andar, sem tino andar, 

Me venha buscar. 

Me venha fallar ; 

Que venha 

E não se detenha. 

(Atirando punhados de sal pela janeUa) '^^ 

Para Satanaz, 
y Para Barrabaz, ^ 

\ Para Caifaz I 

E logo, logo me venha amar, 

E estes signaes me hão de dar : 

Canes a ladrar, 

Bestas a passar^ 

Gaios a saltar.» (i) 

O cão é também objecto de numerosos agouros 
populares ; quando elle uiva, deve-se virar um sapato 
de sola para o ár ; e na Extremadura diz-se, pondo-se 
em cima do sapato : Maria dá pão ao cão. Na Maia, 
diz-se : , 

Todo agouro 
Sobre o teu couro. 

Nos Açores o diabo é chamado o cão tinhoso e cão 
negro. Na Extremadura, quando um cão negro nos 
segue fora de horas é máo signal ; se qualquer cão 

(1) Sentenças das Inquisições (CoU. de Moreira, voL ii, p. i82 
e 183.) 



SUPERSTIÇÕES COPULARES PORTUGUEZAS 85 

ourina a uma porta, ou no fato de alguém, ou entra 
em uma casa, é bom signal ; quando esgravata a uma 
porta ou no chão, é porque se hade abrir uma sepul- 
tura ; se o^cão tem sete dedos, cbama-se pessunho^ e 
nunca se dana ; se uiva na rua, é signal de que foge 
filho de casa, e se ao pé de casa onde ha doente, é 
porque está para expirar ; se se encontra agachado, 
quando se vae em negocio, sae tudo torto. (1) O cão 
é também considerado com influxos benéficos, como 
se diz no Algarve : 

Bafo de cao 
Até com pao. 

O lobo nos agouros populares tem um poder enor- 
me : quando avista uma pessoa, antes dè se dar por 
elle, fica a pessoa sem falia. (Vimieiro.) Conta isto 
mesmo Brunetto Latini, e já o referia Virgilio na 
Écloga IX. O caracter mythico do Lobo, como perso- 
nificação das trevas ^acha-se ainda na crença dos 
Lobishomens, como veremos nos vestígios do culto 
solar. 

Nos monumentos prehistoricos de Portugal, appa- 
recem estatuas de porcos^ como ag duas achadas em 
Sabroso, e a Porca de Murça em Traz os Montos ; mas 
estes monumentos são os totems fetíchistas de certas 
tribus, como se vê pelo genius loci Obulco, da popu- 
lação modernamente chamada Porcuna, ao qual sacri- 
ficavam porcos. Nas festas dos povos germânicos a 
Freya, sacriflcava-se um porco, em época que corres- 
ponde ao Natal, em que se faz a matança dos porcos 
com um vago intuito cultual. Não se deve passar de 
noite próximo de um chiqueiro de porcos, porque se 
pôde ser atacado pelos diabos. (Cabo Verde.) Ao uso da 



e 



(1) Pedroso, Superst., nv 36, 39, 71, 102, 133, 228, 395 
536. 



86 LIVRO n, CAPITULO u 

matança em determinadas festas religiosas, refere*se 
a cantiga : 

Dia de Sam Thomé 
Mata o porco pelo pé ; 
£ se elie disser que-qué 
Diz-lhe tu qae tempo é. 

Outro aneiim, completa o sentido doesta referen- 
cia : (21 de NoTembroO 

Entre ti e mim, Thomé, ^ 

Trez dias é. 

O S. Martinho (1 1 de Novembro) também tem rela- 
ção com a matança dos porcos : < Ceda parco tem o 
seu S. Martinho.9 Só ama relação cultual com o anno 
solar é que faz com que esta pratica appareça em 
França e Irlanda. 

Estes costumes explicam o sentido mythico da su- 
perstição. Escreve Gubernatis : «Gostuma-se na Alie* 
manha, como outr'ora em Inglaterra, servir no festim 
do Natal uma cabeça de javali cercada de ornatos ; é 
sem duvida um symbolo do monstro obscuro do inverno 
lunar que é morto no solsticio de inverno, depois do 
que os dias começam a tornar-se maiores e mais bri- 
lhantes. Pela mesma razão é uso popular na.AUema- 
nha o ir dormir no Natal em um chiqueiro para ali 
ter-se sonhos, que são presagios de felicidade.» (1) 
O S. Martinho das lendas célticas e germânicas tem 
um caracter funerário, como o S. Thomé, a quem o 
mestre apparece» e que elle julga ainda morto. Em 
uma superstição do Porto achamos: «Sonhar com 
carne de porco^ é signal de morte.» 

O encontro do Porco preto , é o do próprio diabo ; 

(1) Mythologie zoologique, t. ii, p. i4. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZÂS 87 

quando se deitam os porcos a fossar mede-se-lhe o 
rabo e põe-se a medida debaixo da pia, para elles vol- 
tarem sempre para casa. Nos processos da feiticeria 
portugueza acha-se o feitiço de tomar medidas do 
corpo, e nas devoções existem fitas com medidas de 
santos como do braço do Senhor de Mattosinhos. No 
Alvará de 14 de agosto de 1432 prohibe-se que se meça. 
Os animaes também prognosticam o tempo : quando 
os bois berram e marram uns nos outros é signal de 
vento ; para não faltar o leite a uma vacca, amarra- 
se-lhe ao rabo uma fita encarnada ; quando a vacca 
berra é signal de casamento. O rdincho do cavalh é 
signal de gosto ; (1) se o cavallo anda triste, benze-se 
com uma camisa de homem ; sonhar com cavallos é 
casamento. Na Bairrada o casamento é sempre acom- 
panhado com uma cavalgada. 

O sapo tem também poderes mágicos ; dando-se-lhe 
a comer p3o já dentado e crivado de alfinetes, defi- 
nha-se a piessoa que deixou o pao. (Extremadura.) 
Quando se vê um sapo^ cospe-se trez vezes, para não 
acontecer mal. (Minho.) Espetando-se a cabeça de um 
sapo com alfinetes, fica soffrendo até morrer a pessoa 
de quem se quer mal ; quem bate n'um sapo e não 
o acaba de matar, elle vae ter á cama d'essa pes- 
soa, (2) ou vae lá ourinar. (Penafiel.) Quando se 
encontra um sapo espeta-se na terra de barriga para 
o àr ; e quem o tirar d'aquella posição tira a fortuna 
a quem o espetou. 

Os insectos occupam bastante a imaginação popular 
nos agouros : A aranha, quando grande é signal de 
testemunho, e é preciso matãl-a com o pé esquer- 
do; (Lisboa) sendo preta é signal de dinheiro, e 



(1) o mesmo entre os Getas. Vid. Bergmaim, Le$ Getes, 
p. 301. 

(2) Pedroso, SupersL, n." 25, 46, 439 e 495. 



88 UYRO II, CAPITULO II 

branca, de falso testemunho. As baratas em uma casa 
são signal de dinheiro, e não se devem matar; e 
quando desapparecem é signal de pobreza. — Se uma 
pulga salta na palma da mão, é signal de presente. 
— Quando se vê uma cmtapéa, diz-se trez vezes: 
S. Benío te tolha t e então ella pára e mata-se; se 
desce por uma parede, é signal de chuva, se sobe é 
signal de sol. (1) Quando o grillo canta em uma cosi- 
nha é fortuna para a casa. (Beira alta.) Ter grillo em 
casa, significa ter fortuna ; e crê-se que aquelle a 
quem o grillo chupar uma gota de sangue ficará 
riquíssimo. — Mosca vareja que entra em casa, é signal 
de visitas. (Porto.) Nas Sentenças do Santo Officio 
acha-se este esconjuro Para não ter moscas em casa: 

Moscas, filhas dos ulmos 
Netas dos bugalhos, 
Eu vos encommendo 
A seiscentos mil diabos, 
Para que não tenhaes, 
Humidade não reeebaes, 
E d*ac[ui não saiaes. (2) 

As freiras do Carmo, em Guimarães, também usa- 
vam nas portas dos armários a imprecação : 

Em louvor de Sam Bento, 

Que não venham as formigas cá dentro. (3) 

As borboletas brancas são signal de boa nova, as 
pretas, de má. (Porto.) Esta superstição subsiste na 
Grécia moderna, com a borboleta taxidarikon. 

Na crença popular ha certos animaes phantasticos. 



i) Leite de Vasconcellos, Trad,, p. 133. 

(2) Ap. Boletim da Sociedade de Geographia, 

[3) Leite de Vasc, Trad,, p. 138. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 89 

como a Zorra da Odebca, ou herradeira, que sSo 
almas errantes, de finados que andam empena. Âssim 
os agouros dos anímaes ligam-se intimamente com o 
animismo. Próximo da Ribeira de Odeloca, que nasce 
entre as serras de Monchique, é que apparece a zorra; ' , 
a tradição Hcha-se também na Galliza. (1) Quando se 
escarnece os berros que a zorra dá depois da meia 
noite, ella persegue essa pessoa até á morte. Às almas 
de mestre, nome que os marinheiros dão a certas aves 
que acompanham o navio, têm o nome tradicional 
resultante d'esta crença animista. (2) O povo crê que 
a alma se exala do corpo em forma de pomba; as 
associações funerárias de Roma chamavam-se por isso 
Columbaria. No romance do Conde Ninho, depois de 
mortos os dois amantes : 

Ella se tomou em pomba, 
Elle n'um pombo real ; 
Um voou, outro voou, 
Longes terras foram dar. (3) 

Um outro animal phantastico é o basilisco, que nasce 
do ovo que um gallo põe ao fim de sete annos, e que 
mata só com a vista ; no Minho, nasce d'este ovo um 
lagarto, que mata o dono da casa. Esta crença é com- 
mum á Itália, França, Inglaterra e Dinamarca ; (4) o 

(1) Em Morrazo, que se encontra entre as rias de Ponteve- 
dra e Vigo «La Raposa de Morrazo es mia alma que Dios no 
ha querido enviar ai inferno por tal cual devocion ú obra buena 
que hubiesse hecho y que la permitiese volver ai mundo á 
hacer pemitenoia.» Biblioteca de las Tradiciones populares 
espanotaSj t. iv^ p. 105. 

(2) Garrett, Camões, nota ao canto v. 

(3) Cantos populares do At eh. açoriano, p. 272. 

(4) Acha-se largamente estudada por Alexandre Guichet, 
El mito dei Basilisco (na Biblioteca de las Tradiciones popula- 
res espanolas, t. ni, p. 14 a 83.) E também Revista scientifica 
do Porto, p. 525. 



90 UYRO n, GAPITI7L0 11 

nome tSo genérico de Bkho, com que o poTO designa 
qualquer animal malévolo ou repugnante é proveniente 
do Basilisco, o sauro ou Lagarto, a que o povo liga 
immensas superstições. 

No Nobiliário do Conde D. Pedro, também se cita 
o cavaUo magico PardaUo, que se equipara ao Pár- 
didus, ou Leopardo, de Aristóteles ; uma grande parte 
da zoologia maravilhosa do povo proveiu da fragmen- 
tada tradição da sciencia da Grécia. 

A personalidade humana também occupa um logar 
importante n'este mundo phantastico ; taes s3o A f)dha 
da égua branca, o Preto do barretinho vermdho, o 'Ho- 
mem das sete dentaduras, e o do chapéu de ferro, que 
estudaremos ao tratar das Entidades demonicas. 

A personalidade humana está completamente cir- 
cumdada de agouros, no seu corpo, nos seus actos, e 
nos objectos de uso ordinário. O maior poder magico 
reside nos olhos, a que o povo chama o máo olhado. 
Na canção n.'' 984, de Pêro Garcia Burgalez, falla-se 
n'esta superstição : 

Femand' Escalho leixey mal doente 
com máo olho, tam coytad' assy, 
que nom ffuarrá, cuyd eu, tam mal se sente, 
per quant^ oy* eu de Dora Fernando vi ; 
cá Ihí vi grand' olho máo aver ; 
e nom cuydo que possa guarecer 
d*este olho moo, tant* é mal doente. 

E na canção 1091, alludindo á privança com D. Af- 
fonso ra, vem : 

E poys ora soys tam bem andante 
bem era d*ome do vosso logar, 
de 8* olho máo de vos ár quebrar, 
e nom andar como andavades ante. 

No alvará de 14 de agosto de 1423 prohibe-se que 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 91 

se escante olhado. Contra o máo olhado o povo usa a 
seguinte imprecação : 

Deus te fez, 

Deus te creou, 

Deus te desolbe 

De quem mal te olhou ; 

Se é torto ou exconunungado 

Deus te desolhe do seu máo olhado. 

No século xYii as damas hespanholas costumavam 
comer o barro poroso das bilhas de Extremoz ao qual 
attribuiam varias virtudes contra o veneno, e para 
as doenças de olhos ou antes contra o máo olhado, (1) 

A mão tem um poder extraordinário, quer propi- 
ciando pela benção, quer esconjurando em forma 
de figa. No alvará de 14 de agosto de 1423 pro- 
hibe-se o pôr a mão (nem outro si ponha mão.) Nas 
superstições portuguezas a figa é um preservativo 
contra os feitiços ou jetatura ; é o resto de um sym- 
bolo phallico da mão, figurado na seguinte forma: 
passa-se o dedo polegar entre o indicador e o dedo 
grande, tendo assim grande virtude contra o máo 
olhado. Faz-se com a mão ao natural e então torna-se 
um gesto insultuoso ; fabrica-se como talísman, e é 
um thema da arte popular, executado em ouro, prata, 
coralina ou azeviche. Em um Auto de Prestes allude-se 
a este amuleto conmmm a todo o occidente : 

Lanço-te uma pulha de ganço 
que quando comeres migas 
para ti se tomem figas, 
ate, villào, barbas de picanço, 
benzedeiro de bexigas 
curas leicenços a grou. 

(Ed. Porto, p. 459.) 

(í) M."' d'Auhioy, Relat. du Voyage m Espagne, t. ii, p. 66 
e 143. 



92 UVRO II, CAPITULO H 

De TAncre, no Tábleau de Vinconstance des mauvais 
anges falia do uso da figa entre as populações bascas 
com a terrível curiosidade de um sanguinário perse- 
guidor da feiticeria : «Usam impedir os maleficios, e 
sobretudo para resguardar dos feitiços e quebranto, 
de uma espécie de amuleto bastante vergonhoso, o 
qual trazem commumente as feiticeiras remediees e as 
crianças e moças que costumam ir ao sabat. É uma 
m3o de ouro, de prata ou de chumbo, azeviche ou de 
couro, de todas estas matérias as tenho visto, a qual 
tem o polegar passado entre os dois primeiros dedos. 
Os hespanhoes chamam-lhe higo. Os Bascos tem-as 
por causa da visinhança da Hespanha ; não conheço 
nenhum logar em França onde fazer uma figa, a que 
na Gasconha chamamos la higue, não seja uma acção 
vergonhosa e sobretudo indigna do pudor de uma 
mulher honesta, e mais ainda de uma donzella, para 
fazer o gesto ou trazel-a ao pescoço. E em verdade, 
aquelle que em França faz a figa, é como acto de 
cólera, de desdém ou de desprezo.» (1) A mão, quando 
pelas suas linhas forma um sino saimão (signum Salo- 
monis) defende a pessoa contra todas as cousas ruins. 
Este talisman, a que o povo chama também sansdi- 
mãOy acha-se jà citado na canção 1025 do Cancioneiro 
da Vaticana, e é assumpto da tatuagem dos barquei- 
ros e almocreves, e o thema da arte popular, pintado 
ou esculpido nas proas dos barcos e nas cangas dos 
bois. (2) É evidentemente uma transmissão tradicio- 
nal da magia erudita, apparecendo na Escossia medie- 
val e nas moedas gaulezas. Na magia negra ou goe- 
tica, a mão do finado ou Mão de Gloria é um talisman 
tremendo, sobre que o povo conta muitas novellas. 

(1) Op. cit, p. 363. Ap. Fr. Mlchel, Le Pays Bosque, p. 173. 
(3) Leite de Vasconcellos, Estudo ethnograpMco a propósito 
da ornamentarão dos jugos, etc, p. 41. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES. PORTUGUEZAS 93 

Lê-se na Nova Floresta: «Os arte-magicos e as bruxas 
e feiticeiras aproveitam-se dos braços dos defunctos : 
o qual dizem que lhes serve de cirio ardendo, em- 
quanto de noite fazem o seu maleficio nas pessoas 
que estão dormindo; e accrescentam que o braço 
começa a arder pelos dedos com uma luz roxa, e 
sulfúrea, mas acabada a obra fica inteiro, porque o 
demónio o accendia ou representava inteiro.» (1) O 
vulgo chama-lhe mão refinada. 

Ainda que a mão, só por si forneça matéria para 
todo o systema da Ghiromancia, as unhas revelam 
muitos agouros : se as unhas nascem muito é signal 
de fortuna ; (Lisboa) se apparece uma malha branca 
nas unhas da mão esquerda é signal de mentira, e 
nas da mão direita de presente ; não se devem cortar 
á sexta feira, porque é quando o diabo corta as suas ; 
se se cortam na Itui-nova nascem espigões. (2) 

Entre as superstições bascas o espirro é um máo 
presagio, que tem de ser atalhado. Em Portugal, se 
se não saúda quem espirra, pôde o diabo entrar n'essa 
pessoa. Contra este agouro estabeleceu-se um bom 
presagio: Quando se espirra já se não morre n'esse dia. 

O dedo polegar, tem a virtude de talhar a má olha- 
dura, fazendo trez cruzes na testa, dizendo em trez 
noites successivas : 

Dois t'o escanta 
Trez te tiram 
Que são Padre, Filho 
' Espirito Santo. 

(Bragança.) 

O dedo mmdinhOj é o que na credulidade infantil 

(1) P. Bernardes, op. ciL, t ii, p. 342. Na imaginação popu- 
lar confundiu-se com a planta mandragora, que nascia junto 
i^ji_ forca. 

(2) Pedroso, Superst., n.« i3i, 225, 357 e 700. 



94 UVRO Hl GAPirULO II 

adivinha ; é onde se fez a sangria no p(mto com o 
diabo. 

Quando duas pessoas abrem a bocca ao mesmo 
tempo estão fatiadas para alguma cousa ; (Porto) ou 
hão de vir a ser compadres, ou visinbos. (Lisboa.) N3o 
se deve foliar só, porque se falia com o diabo ; quando 
estão fallando mal de nós espetasse uma tbezoura no 
ch3o, porque emudecem logo. Sobre os avisos da ma- 
ledicência a ordha tem poderes especiaes; se esti 
vermelha a esquerda, é porque dizem mal de nós, e 
então atira-se um punhado de sal ao lume, evitando 
ouvir-lhe os estalidos. Quando se falia desvantajosa- 
mente de alguém ausente, diz-se: «Ficaranh-Ihe as 
arelkas a dUar.9 Para que a maledicência n5o conti- 
nue, trinca-se a camisa trez vezes ; ou fazem-se cruzes 
com saiiva na orelha dizendo : 

Assim como rezas medres, 
Na forca te pelles ; 
E depois de pellado 
Que te leve o diabo. (1) 

Quando se deita fora cabdlos deve-se-lhe cuspir trea 
vezes, fazendo-lhe uma cruz, para que por eUes 
nSo possa vir maleâcio. Seguem-se os agouros das 
anomalias : Quem tem signal negro nas costas (pig- 
mento) está livre de entrar com elle o diabo, ou de 
soffrer feitiços. Quando se vê um corcunda, ou om 
vesgo em jejum fica-se enguiçado; para desfazer o 
enguiço esfrega-se uma moeda de cobre na sola do 
sapato. Uma cantiga de Oliveira de Azeméis diz : 

Se vires o coxo bò 
Gontae-o por novidade ; 
Do calvo j que Deus nos livre. 
Do gagOj que Deus nos guarde. 

(3) Pedroso, Supenl., 40, 67 e 186. 



SUPERSTI(ABS populares PfmTUGUEZAS 05 

A sombra do indíyidiio e também objecto de agou- 
ros ; qnem brinca com a sua sombra na parede, brinca 
com o diabo ; nSo $e deve pisar a sombra de uma 
pessoa. Nas crenças populares, temos duas scmbrasj 
uma do Anjo da Guarda, e a outra do diabo que nos 
tenta. (FamalicSoO Na Oração da Martha, diz*se, que 
das Irez irmãs : 

homa é a sombra 
outra a sokmbraj 
e outra Martha a nao dina. , 



O povo cré que se perde a sombra, por effeito ma* 
Moo ; acha-ae estacrença em um conto dos zulus, (1) 
6 António José diz em uma das suas Operas : cMehg.: 
Quem é tão ladrão, que furta o meu nome, também 
furtará a mi$èba somara. Sabam.: Isso é bom para o 
diabo das Covas de Salamanca.» (2) Segundo a tra« 
dição medieval, nas Covas de Salamanca só entravam 
sete estudantes de cada vez, ali frequentavam sete 
annos, e só saiam seis furtando a sombra a um. (3) 
É a esta tradição que se prende a lenda portugueza 
do Escolar (ou Sec'lar) das nu^ms. Na madrugada de 
S. João quem não vê a sua sombra ao chegar á borda 
de um poço ou fonte, não vive até ao anno seguinte. 
(Madeira.) O Tio de Massarellos cortava sombras, espa- 
lhando cinza peneirada no ár, dizendo : <lEu te degrcuio, 
9úmbra; peta graça de Deus edeS. Pedro edeS. Paulo, » 
E degradava sombras fazendo cruzes e lançando agua 
benta por toda a casa. A voz humana tem poderes 
mágicos ; um feiticeiro : aPara saber se uma pessoa 



[1) Husson, La chaine traditionellej p. i27« 
W Opmu jporl.^ 1 1, p. 320. 

[3) GolL Ribadaneyra, Obrasescogidas de PhUosophos, p. cxxi, 
nota 2. 



96 UVRO II, GAPlipLO U 

era morta ou viva, dizia á janella : Corte do céo ou- 
vi-me l Corte do céo faUae^ne í Corte do céo respondei-me I 
Das primeiras palavras que ouvia na rua acharia a 
resposta.» (1) Na Foz do Douro, costumam as mulhe- 
res ofndar ás vozes para inferirem pelas palavras ca- 
suaes que ouvem do estado das pessoas que estão 
ausentes. D. Francisco Manuel de Mello, nos Apologos 
dicUogaeSj refere esta superstição : «e com o próprio 
engano com que ellas traziam a outras cachopas de 
S. João às quartas feiras, e da Virgem do Monte às 
sextas, que vão mudas à romaria, espreitando o que 
diz a gente que passa : d'onde aíBrmam que lhes não 
falta a resposta dos seus embustes, se hão de casar 
com fulano ou não ; e se fulano vem da índia coai 
bons ou màos propósitos ; ou se se apalavrpu là eai 
seu logar com alguma mestiça filha de Bracmene.» (2) 
As vozes também se escutam da janella, e a pessoa 
que se submette a esta sorte prepara-se com uma 

Oração : 

Meu S. Zacharias, 

meu Santo bemdito ! 

foste cego, surdo e mudo, 

tiveste um filho 

e o nome puzeste João. 

Declara-me nas vozes do povo. . . 

Da ilha de S. Miguel escreve Arruda Furtado: 
«Quando qualquer pessoa quer saber noticias que lhe 
hão de vir de um amante, vae de noite n'um passeio 
até ao adro da egreja em que está o Santo Christo, 
rezando n'umas contas e com outra pessoa atraz para 
ir ouvindo melhor o que se diz pelo caminho e dentro 
das casas, e isto sem que nenhuma d'ellas diga uma 



(i) Sentenças das Inquisições, ap. Boletim da Soe. de Geo- 

2phia. 

(1) Op. cit, p. 24. 



graphia. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 97 

SÓ palavra. Quando voltam vem combinando o que 
ouviram e d'ali concluem que novas hão de vir.» (i) 

Depois da Oração a S. Zacharias diz-se o nome da 
pessoa, ou o caso que se deseja saber. (2) No Porto 
vae-se rezar á porta da Sé, à Senhora das Verdades, 
e no caminho é que se colhem as vozes. 

Certos signaes do corpo são também objecto de 
agouro, como : ter bico de cabello na testa, signal de 
vir a ser viuvo; chave da mão larga, liberalidade; 
orelha pegada, signal de ser rico ; dentes raros signal 
de chocalheiro ; unha com ponta vermelha, mentirosa. 

Os smhos são uma das formas mais espontâneas 
dos agouros e sortilégios populares; a antiguidade 
quiz fazer d'este phenomeno psychico o objecto de 
uma sciencia, a Onárocritia, representada no livro 
de Artemidoro, que se tornou a delicia dos eruditos 
da Renascença. A interpretação dos sonhos era uma 
arte em Roma, cultivada pelos Conjectores; muitos 
sonhos relatados na Riblia influíram no animo dos 
Padres da egreja, que não rejeitaram esta forma da 
credulidade, acceitando-a €omo revelações ou toques 
divinos, e por isso cultivando-a na ingenuidade popu- 
lar. É por isso que muitos sonhos tém interpretações 
tradicionaes, umas provenientes de allegorias, outras 
de coincidências, e outras de concepções cultuaes, 
que deixaram de ser praticadas. Sabe-se a relação que 
tem o boi com o casamento, na constituição da família 
primitiva; «Sonhar com um boi, é signal de casa- 
mento breve.» Conhecida a relação cultual do porco 
com as cerimonias funerárias, não nos surprehende 
a interpretação dos arredores de Lisboa: «Sonhar com 
carne de porco é signal de desgosto na familia.» (3) 

(i) F. de Arruda Furtado, Materiaes para o estudo dos povos 
açorianos, p. 43. 

(2) Pedrojso, Super sL, n.* 476. 

(3) Ibid., SupersU, n."* 443 e 444. 

7 U 



dS LIVRO íl> CÂPltXltO It 

Mgms sonhos âcbam^se iMerpretadúá egruAneiile 
entre 06 diversos povos occidentâes t <8(mhar qm ae 
um dente, é morte de parente.» (Beira Alta.) Bemoni 
cita esta mesma crença em Veneza, e o abbade Thiers, 
no seu Trútadú das Stppetstições, em França ; ainda 
ultimamente o bibliophiio Jacob no seu livro da Om^ 
rúcrkía traz a interpretação : «Perder os dentes 
significa perda de bens ou morte de parentes.» Da 
Índole do anindal com que se sonha» tatnbetn se tira 
a interpretação : «Sonhar com gatos, é trai^o.» (Dout- 
ro.) Outras vezes isae a interpretaçio de um equivoco 
da linguagem : «Sonhar com gallinhás ou outros áni- 
mães de permas, é signal de pems.i^ (Ilhas dos kç^ 
res.) Outras vezes a conjectura forma*>se por antí-- 
phrase» como : «Sonhar que alguém morreu é siguâl 
de mais dez annos de vida.» Ou tira-se o smtido de 
uma relação natural: «Sonhar com sangue^ é desgosto; 
com um cemitério, é herança ; com botas^ que alguém 
se ausenta.» (Lisboa.) A crença na influencia nsalefica 
da figueira» apparece na forma : «Sonhar com figos è 
sigual de doença.» A phrase usual do pômò da discor* 
dia, tamt>em revela uma certa reminiscência tradi-^ 
cional no: «Sonhar com maçãs é desgosto,» (1) que 
obibliopbilo aponta como idêntica em França. A rela* 
ção dos haveres ou thezouros enterrados com o carvão» 
acha-se no: «Sonhar com carvão é signal de dinheiro. i» 
(Porto.) 

É notável o sonho attribuido ao infante D. Fernando» 
filho do rei D. Manuel, contado por Frei Luiz de Sousa : 
«Achava-se acaso o infante na villa da Azinhaga. Le- 
vantando-se n'uma ntanhã, referiu aos fidalgos que o 
vestiam que sonhara aquella noite, que vira sair de 

(i) Pedroso, SupersL, n.« 99. Nas Constituições do Arcebis- 
pado de Braga, prohibe-se : «nem faça cúnjecUtím pelos ali- 
mentos ou por sonhos. . . » 



SUPEBSTipÕES POPULARES PORTUGUEZAS Q9 

uma casa^ em Abrantes» trez tnmbas juntas e cober* 
tas de negro. Era o infante de animo grande» bom 
christão e nada agourento: nenhum caso fez do sonho. 
Âo segundo dia chegoa*lhe recado de ser fuliecida a 
senhora Dona Luiza, sua única filha, que iá não tinha 
outra. Era por outubro do anuo de 4534 : foi correndo 
a consolar a infante, que amava com grande extremo. 
Adoeceu logo, e falleceu aos sete do mez de novem- 
bro seguinte ; e a condessa sua mulher foi apoz elle, 
sem se metter mais tempo em meio, que quanto houve 
de sete de novembro até 9 de dezembro. De sorte 
que, no espaço de pouco mais de dois mezes se viu 
cumprido o sonho das trez tumbas..^» (i) 

A vida em todas as suas manifestações e relações 
está cercada de agouros. Comecemos pelos amores 
até chegar á morte. As prendas entre namorados, 
nunca de vem ser lenço (apartamento) nem santos, 
rosários ou thezoura. — Comer o canto do p3o, faz 
com que se case cedo. (Porto.) Ofierta de um alfinete 
é amor de um anno. — Quando se calça bota e sapato 
por engano, desmancha-se casamento na familia. (Lis- 
boa.) Metter o pé no meio alqueire é casamento; 
canta-se : 

Se me queres, eu te quero. 
Meu amor porque perguntas ; 
Mette o pé no meio alqueire 
Ficam as almas juntas. 



Quem põe agua benta na testa á saida da egreja 
fica solteiro. (Lisboa.) Trazer sapatos de cõr diversa 
faz com que se perca o casamento.-^ Para se conciliar 
um namorado com arrufos, pica-se um lim3o com 

(1) Biãí. de S. Domingos.-^ Ríb. Guimarães, Summ, devania 
mst., t u, p. 122. 



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iOO LIVBO II, CAPITULO II 

mn alfinete, dizendo por três dias à hora das trin- 
dades : 

Assim como eu pico este limão, 

assim pico o tea coração ; 

para que não possas comer, 

nem beber, 

nem dormir^ nem descançar, 

em quanto me não vieres fallar. (1) 

Quando o amante é alteroso, para elle se tomar 
affavel, diz-se : 

Eu te vejo e venero em cruz ! 

Vem para mim manso e cordeiro, 

assim como foi Jesus 

ao santo lenho da cruz ! 

Pax tecum. 

A paz do Senhor, se metta em mim e ti; 

abranda leão duro ; humilha-te a mim, 

assim como Jesus . 

se humiUiou á cruz. 

Com a sciencia dos magos, 

com as forças de Sansão, 

e sciencias de Salomão 

tudo heide acabar. (Ahnada.) 

Para saber qual dos namorados ama com mais ardor, 
lança-se fogo a duas bolas de estopa, a que arder pri- 
meiro representa aquelle que está mais apaixonado. 
(Porto.) (2) A maior parte dos agouros dos namorados 
anda ligada ás cerimonias tradicionaes da festa de 
S. Jo3o. 



(i) Pedroso, Superst, n.» 472. 

(2) Revista identifica, p. 565. Porto. «Na Lithuania, as jo- 
vens aldeãs fazem duas pequenas bonecas de canamo, repre- 
sentando uma o rapaz e outra a rapariga, botam-lhe em se- 
guida fogo; se as duas labaredas se aproximam, assim aquel- 
les de quem são a imagem se unirão.» Dicc* des ReligionSj t. iv, 
p. 654. (Goll. Migne.) 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZÂS 101 

O casamento é cercado por complicados agouros : 
sendo á sexta feira, nmica haverá filhos ; na noite do 
casamento o que primeiro entra na cama, ou apaga 
a luz, é o que morre primeiro. (Porto.) Em fevereiro 
ha trez dias em que se nao deve casar. (Minho.) Se 
os noivos ouvem lêr os pregões, serão infelizes ou 
morre um d'elles dentro de um anno. (Bragança.) Se 
o numero das letras dos nomes do noivo for par, morre 
a mulher ; se for só de um nome morre o mais velho. 
(Alemtejo.) — Quem casa por procuração, fica sujeito 
a perigo. (Porto.) Não se deve fazer casamento quando 
ha cova aberta na egreja. 

Quando uma mulher gravida passa por baixo do 
palio de procissão, tem bom successo ; deve-se-lhe dar 
caldo de perdigoto, pouco antes dos nove mezes, para 
não ter retortas (ou dor de torto); se não se lhe 
dá o que deseja, nasce a criança com a bocca torta ; 
se se quer saber de que sexo será a criança, quei- 
ma-se folha de oliveira, — se estala é rapaz, se arde 
é menina ; se der um ponto em si, na occasião do 
parto não deita as secundinas; — ou saem-lhe os filhos 
aleijados ; se traz alguma cousa no seio, vem o filho 
malhado; se vae ser madrinha de uma criança, fica 
a criança muda ou idiota ; se semeou ou plantou alguma 
cousa, ella não pôde dar á luz, sem por sua mão 
colher o que semeou na terra.— Quando uma mulher 
tem diíficuldade no parto vae um parente dar certo 
numero de badaladas no sino de uma egreja ; (Porto) 
ou irá o marido tocar o sino com os dentes. (Arredores 
de Lisboa); ou deita-se n'um copo de agua a rosa de 
Jericó, e á medida que ella abre facilita-se o parto. 
(Almada); ou veste-se á parturiente o casaco do ma- 
rido, sem que este o saiba, ou põe-se na cabeça outra 
roupa d'elle. — Logo que a criança nasce atira-se um 
punhado de sal para cima do telhado, para as bruxas 
ficarem a apanhal-o. (Bragança.) A mulher gravida, 



102 LITRO II9 CAPITULO II 

se quer que a criança seja linda, deve encobrir a sua 
gravidez ; se chegar qualquer animal a si, a criança 
fica com feições d'esse animal ; quem nega qualquer 
cousa a uma mulher gravida nasce-lhe um terçol. Em 
um processo de feiticeria, vem esta oraç2o para o 
parto diflBcil : 

Santa Anna pariu a Virgem, 

a Virgem pariu Jeaos Corísto, 

e Santa Isabel a S. João Baptista ; 

assim sefa o corpo doesta mulher despojado 

sio 6 salvo, 

e que traga este frueto a lume. (i) 

Depois do parto devem enterrar-se as secundinas 
para que n3o aconteça mal á mãe ou á criança. Para 
saírem as secundinas põe-se um chapéo velho á par- 
turiente. N3o se deve dizer á m3e de que sexo é o 
filho, antes de sairem as secundinas, porque difflculta 
este trabalho. 

Se a criança nasce ao domingo, nunca entrará com 
ella cousa ruim; se nasce em anno bisexto não é 
atacada de bexigas ; se nasce em dia de anno bom 
ou natal, é feliz ; se nasce envolta nos amnios, a que 
se diz nascer em um foUes hade ser sempre feliz ; o 
mesmo, se traz uma veia atravessada no nariz. Em 
quanto a criança não tem nome ofiicial ou de baptismo 
cbama-se Custodinho (Porto) ou Ignacio (Algarve.) Para 
que a criança vingue, está sujeita a mil cuidados : é 
preciso fazer-lhe a mokirinha, ou a estopada, para que 
a cabeça tome uma boa conformação ; depois destror 
va-se cortando com a unha debaixo da lingua ; se se 
embalança o berço, sem estar a criança dentro ella 
torna-se brava; se se lhe toma o pezo, não cresce e 

(1) Sentenças da Inquisição^ vol i, p. 436. Ap. Boletim da 
Socied. de Geoffraphda, 



SUPERSTIQÕK$ POPUI^A^flS PQBTUGUEZAS 103 

fica anasada; para ser mansa deve dormir com o 
fato com que fora ao baptisado ; se a lua entra no 
quarto em que está a criança, talba-se com uma facca 
no cb3o onde der a claridade. (AcoresO Se se estende o 
enxoval ao luar, entra elle com a criança. Se a criança 
vae no berço de uma sala para outra, não deve ir 
com os pés para diante ; em quanto n3o for baptisada, 
não deve ir á rua, nem dormir sem lu^ no quarto ; 
(Porto) se não cbora na occasião do baptismo não 
cbega aos doze annos. Para que a criança seja mansa 
deTe-se4be dar a beber da agua em que é lavada ; 
ou pol-a em cima do altar dando-lbe trez palmadas, 
ou deitar por cima d'ella o casaco do padrinho, ou 
perfumal-a em cruz com alecrim e louro. Se a criança 
tem quebranto passa-se trez vezes por uma meada 
de linha ; se é desmamada em sexta feira santa não 
morrerá phtysica ; se a criança se demora a fallar, a 
madruiha é que a pôde curar levando-a dentro de um 
saco a trez casas da visinhança, em trez dias a fio, 
pedindo : 

Dae uma esmolinha 

Á menina do folie, 

Qae quer fallar e não pôde. 

No Minho faz-se com que a criança segure um car- 
tucho de confeitos, e passa-se com ella debaixo do 
andor de S. Luiz, dizendo : 

S. Luiz, rei de França, 
Dae falia a esta criança^ 
Que ella quer fallar e cança. 

(Braga.) 

Deve-se evitar que os ratos comam o umbigo da 
criança, porque ficaria ladra ; e deve ser queimado. 



104 LiTBO II, cAPmjLO n 

para que n3o fuja de casa ; se quem dá de mamar 
bebe em quanto a tiver ao peito, fica a criança com 
ataques epilépticos. Se a criança nasce de sete mezes 
tem uma cruz no céo da bocca e o dom de adivinha- 
ção, mas n3o se deve saber isto antes dos sete annos. 
Na Biscaia é o septimo filho que é marcado com uma 
cruz sobre a língua, e tem a virtude de curar pela 
sucção as feridas feitas por cão damnado. — Para que 
nasçam os dentes á criança, untam-se4he as gengivas 
com cebola ; se lhe custa a andar, põe-se a um canto 
da casa ao toque da Ave-Maria, dizendo trez vezes : 

Ave-Marias a dar, 

E o meu menino a andar I 

Andar, andar, 
C*um pesinho no ár, 
P*ra da terra 
Chegar ao ár. 

Se alguém lança a perna por cima de uma criança, 
fica enguiçada e já não cresce, (1) sendo necessário 
desfazer o acto por um movimento inverso ; se se julga 
que a criança está embruxada, lança-se sal no Imne, 
e passa-se por cima d'elle a criança, esperando se o 
sal estala, porque então não ha maleficio ; se se queima 
figueira na casa onde se cria, fica enguiçada e s€- 
ca-se o leite á mãe. Se se quer que seque o leite 
a uma mulher, dá-se uma gota d'elle a uma gata ; se 
a criança não pôde mamar o leite todo, chega-se ao 
peito dois cachorrinhos, que depois se matam. Em 
quanto a criança não tem seis mezes, não se lhe deve 

(1) Os rapazes dizem : 

Eu te enguiço 

Pela porta do caniço, 

Que nâo cresças mais do que isso. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS lOS 

metter na m3o côdea de p3o de centeio para n3o lhe 
darem ares máos. Se a criança é tardei ra no f aliar, 
ou gagueja, dá-se-lhe a beber agua por um chocalho. 
Se ha dois gémeos, o mais velho tem o dom de adi- 
vinhar, e ás terças feiras e sextas apparece-lhe a figura 
do crucificado na língua. Os talismans que livram a 
criança de quebranto são um cordão de seda preta 
tendo enfiado um sinosaimão^ trez vinténs em prata 
furados, uma argola^ uma meia-luas uma f^a e um 
dente de lobo. Não se deve deixar uma criança beijar 
ou estar defronte de espelho, porque lhe retarda a 
falia. Se a criança anda com o sonrno trocado^ lavam-se 
e torcem-se os cueiros por trez vezes secando-os em 
trez noites na asa de um cântaro e vestindo-lh'os de 
dia. Para evitarem as dadas no peito, as mulheres que 
criam devem trazer qualquer objecto de azeviche. Se 
a criança muda de dentes, o que lhe cae atira-se para 
detraz do forno dizendo: Dente fora, outro já na cova I 
Se a criança está com quebranto passa-se pela fumo 
de quatro farrapos de chita, quatro de algodão, qua- 
tro de sapatos velhos, quatro de chifres, quatro de 
ramo de asoeira, quatro de rosmaninho, e quatro de 
alecrim. Se a criança espirra, diz-se para esconjurar 
o mal: 

Para bem cresça 
e appareça i 
Bons olhos a vejam^ 
e os máos cegos sejam. 

Se a criança de um anuo é levada de noite á rua, 
precisa ir ao coUo do pae, para não ser embruxada ; 
indo ao collo da mãe hade ella levar comsigo sal ou 
pão. (Minho.) Quando a criança vê comer, e lhe não 
dão, fica ougada ; para a desougar, dá-se-lhe bolo de 
massa do meio da masseira frito em azeite, para ella 
comer atraz da porta, e o resto dà-se a um cão preto. 



106 LiYRO II» cAmmo it 

(Fafe.) Tendo a eriança bidias, esfrega-se-lha as costas 
com sangue de frango preto até fazer empolas, e cor^ 
tando estas com uma navalha de barba ficam cortadas 
as cabeças das bichas. Quando a criança morre ficando 
com os olhos abertos, morre em seguida a pessoa que 
mais lhe queria ; se morrer depois de ter mamado, 
para se limpar passa pela nuvem de fumo do purga^ 
torío. (Bragança.) (1) Todos estes agouros influem no 
caracter magico que o povo attribue ás crianças, so* 
bretndo aquellas que choraram no ventre da mãe» aos 
hamens-pequeninoe, das apparições diabólicas, e ao 
sentido prophetico dos seus brinquedos e caatigas, 
A Casa e os objectos de uso quotidiano são cercados 
de infinitos agouros ; assim diz um anexim : 

Casa de esquina 
Ou morte, ou ruina. 

Quem faz uma casa está sujeito a que se rea- 
lise o adagio : cNinho feito, pega morta.» Quem vae 
alugar uma casa, conta as tábuas |do tecto, dizen- 
do: Ouroj prata, cobre, nada; se o numero coin- 
cide com alguma d'estas ultimas palavras, evita o 
alugar aquella casa. (Lisboa.) Não se deve varrer a 
casa á noite, porque se bota fora a fortuna. Se acon- 
tece ficar de noite a porta da casa aberta, é felicidade; 
se a cama fica com os pés para a porta, morre-se 
cedo ; deve-se pendurar á porta cinco réis, para ter 
dinheiro todo o anno ; salgando a porta de uma pes- 
soa^ chama-se sobre ella a desgraça. Para desalgar a 
casa, emprega-se a seguinte fórmula : 

O ente supremo vele por esta casa. 
Jesus Nazareth ! Ghrísto crucificado 

(1) A maior parte d'estes factos foi coUigida por commu* 
meações da Estremadura; Minho e Traz os Montes. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS i07 

Que esta salgação e mal 

Que á minha casa me âzeram não tenha poder. 

Nem para arruinar a minha casa, 

Nem para empatar os meus negócios. 

Tudo me adiante; 

Tudo quanto eu tentar vá avante 1 

O Santíssimo Sacramento e S. Silvestre ; 

Quem tal me fez nada lhe preste ; 

Nem tenha fortuna, 

Nem cousa nenhuma t 

Deus tudo pôde fazer querendo 

Tem todo o seu santo poder 

Para mim, para os meus filhos e parentes. 

Jesus ! Jesus ! Jesus 1 

(Ahnada.) 

Nas superstições para uma pessoa se tomar que- 
rido, e obter de outra tudo quanto quizer, a porta da 
casa é o principal logar onde os pbiltros adquirenoi 
mais poder. Em Luiz de la Penba, a Oração de 



Portal, portalejo, 
aqui me cruso e omilbo 



devia ser dita pela pessoa que «bade estar á couceira 
da porta em pé ; e no portai da casa aonde isto se 
fizer bade ter entrado por elle a pessoa que quízerem 
fazer o que quízerem. » À porta dourada^ a que allude 
Gil Vicente, pertence ao culto da prostituição sagrada, 
á entrada das cidades, onde as mulberes se entrega- 
vam aos estrangeiros. Em uma outra superstição para 
«obrigarem alguém a vir para junto de outrem» a 
fórmula devia ser dita com a porta aberta. Na Orde- 
nação manuelina também se probibe cortar cobro em 
limiar da porta. 

Sentir bater á porta com o pé, é signal de pre- 
sente. Quando se vae de casa deve-se fazer a cama, 
para que nSo aconteça que nos nSo tornemos a deitar 



108 uyao ii, capitulo ii 

* 

n'ella. Quando uma casa está enfeitiçada, benze-se, 
dizendo : 

Esta casa tem quatro cantos 

Quatro ai^os que a guardam ; 

E* Lucas, é Marcos, 

S. João Baptista e todos os seus. 

Orga e desorga 

Trez vezes desorga, 

Três vezes desorga; 

Bruxas e feiticeiras 

D'esta casa para fora. 

Quando se vae morar em uma casa nova ou pela 
primeira vez, deve accender-se lume novo. Se esta- 
lam vidros em casa é signal de desgosto. Em cima 
da mesa em que se come não se põe dinheiro, por- 
que traz pobreza ; nem sentar-se em cima, porque faz 
gota. Se a visita arrumar a cadeira em que se assen- 
tou, não volta mais. Derramando-se azeite em casa é 
signal de desordem, e deve-se-Ibe logo deitar um 
punhado de sal em cruz. 

O fogo do lar é também objecto de agouros impor- 
tantes : se estala ou crepita, é porque estão dizendo 
mal de quem o accendeu ; se é a candeia que cre- 
pita, é signal de presente. Os morrões que caem no 
chão accesos não se devem apagar, porque alumiam 
as almas do purgatario. Trez luzes n'uma sala é signal 
de enterro ; a luz no chão é morte de pessoa da casa. 
Beber agua com luz na mão, faz beber o juizo. Cuspir 
DO lume ou apagal-o com agua é peccado ; queimar 
a palha do enxergão é pobreza. 

Os objectos de uso prestam-se a singulares prognós- 
ticos; achar alfinetes^ indica amores; agulhas teste- 
munhos ; vassoura voltada para o ár é signal de bu- 
lhas ; thezoura ou faca que ao cahir se espeta no chão, 
é porque ha visita ; offerecer um lenço é agouro de 
lagrimas. Vestir roupa do avesso livra das bruxas e 



SUPERSTIÇÕES POPULARES fORTUGUEZAS 409 

da mordedura de cão damnado. Uma noz de trez qui- 
nas na algibeira dá fortuna. Grelando as cd)olas em 
casa é signal que cresce a fortuna. Se trez pessoas 
fazem uma cama morre a mais velha. Quando se que- 
bra um espelho é signal de morte. Bebendo duas pes- 
soas ao mesmo tempo, adoece uma d'ellas. À cama 
feita só com lençoes e sem cobertor é signal de que 
morre cedo a pessoa a quem pertence. Deve-se espiar 
a roca todas as noites, para que os defunctos n3o 
venham acabar a fiadura. Para que a fornada fique 
boa deve-se dizer, fazendo uma cruz com a pá no p3o : 

Em nome do Padre, do Fillio e do Espirito Santo, 

Que cresças no forno tanto, 

E tanto fora do forno ; 

E os meus inimigos que comam um como. 

Não se deve deixar o pão dentado, por causa de 
maleficios, que consistem em crival-o com alfinetes e 
dal-o a comer a um sapo. Trincar o alho em jejum 
livra de mào olhado. É máo cheirar o pao, porque a 
terra depois não come o corpo, mas só a ponta do 
nariz. Em Coimbra a superstição tornou-se uma lenda 
da rainha Santa Isabel. Quando se beija o pão, des- 
troe-se o maleficio que poderia vir n'elle; faz-se isto 
sempre ao pão que cae no chão. Pisar o sal não é 
bom ; nem estar com as mãos cruzadas na cabeça ; 
nem pentear o cabello á noite, que morre parente pró- 
ximo. Comer pela primeira vez qualquer fructa do 
anno, diz-se que se faz no/oo, e pedindo o que se 
deseja vem a realisar-se. É máo negar uma sede de 
agua, ou uma brasa de lume. Quando se está comendo 
e se engasga, é porque se lhe chora a comida ; caindo 
a comida que se leva á bocca é que alguém nos quer 
fallar. Treze pessoas á meza, ou entornar na meza o 
saleiro é um agouro terrível, commum a toda a Europa, 



liO UTRO H| QàPITfJU) U 

A rottpa ãe uso é objecto de superstições peonlia* 
res : Qtiem vira o vestido de cima para baixo vira a 
fortuaa. Deitar cbineMos velhos à rua, pôde fazer com 
que sofira malefícios o seu dono. Calçar as meias do 
avesso é signal de fortuna. Se cae a saia a uma vm* 
Iher, é porque anda outra com o marido» O sapato 
virado com a sola para o ár £az sair as visitas impor- 
tunas ; achalK) virado na occasiao de calçak) é reváâ« 
As meias em cima da cama, fazem sonbos; e a tra- 
vesseira em cima do peito de qu^n sonba, faz respon* 
der a todas as perguntas que Ibe dirigirem^ As botas 
à cabeceira da cama fazem ter sonhos máos. (1) Cer- 
tas vestoentas tornaram-se peculiares da medicina 
magica, taes como as cintas^ as camisas, as calças do 
marido e o chapéo velho para a parturiente. 

Nao tem âm estes agouros ou formas espontâneas 
da Superstição popular, um grande numero dos quaes 
ó commum a toda a Europa, e alguns persistem ainda 
ebtre as raças nómadas e selvagens. Como diz o poeta 
cómico do século xvi, António Prestes : 

SSe isso agooros de velhâts, 

sois d*esaas ipie tudo eréem, 

d'essas que vêem 

o homem das calças vermelhas, 

e o pesadeUo tamoem 

da mão forada» e que tem 

arrecadas nas orelhas. 

Crede em Deus, de meu conselho 

não tehhaes á casa entejo. (2) 

(1) A maior parte d'estas Superstições ja estavam colUgídas 
por Pedroso, no PosiHvismò, sendo a sua tqpographía de I a 
381, arredores de Lisboa; de 405 a M8, e 627 a èSO, do Mi- 
Bho } 616 a 63i, Bragança ; 66i a 667 Gollegã; 668 a 672, e 
704 a 7i3, Leiria; 677 a 701, Bra£[ança.— Grande parte d*es- 
tas superstições tem similes na Bibl. de las Tradiciones popu- 
lares esp., 1. 1, p. 211 a 300. 

(2) iiOài, p. 3S3. 



SCPERSTI(Afi9 MPULAHfeS VMTUGUEZAS lii 

A todas áS grandes ecmimotSes sociaes oorresponde 
uma revivescência das superstições populares ; o que 
se observa na Europa com a demonologia, na época 
da Renascença e Protestantismo, repetiu-se em Por- 
tugal pela circumstaneia accidental das guerras e das 
pesteSw Por occasião das guerras com Castella, e das 
grandes pestes do século xvi, ou depois da batalha 
de Alcacer-Kibir> em que se extinguiu a índepend^oh 
cia nacional, as superstições populares portuguezas 
apresentaram nma forte recrudescência reprimida nos 
documentos legislativos. O Senado de Lisboa conde- 
nsnott em nm Alvará de 14 de agosto de 1423 <os 
pecados de Dollatria e costumes danados dos gratios 
<p» se em Mio (o povo) de grandes temp^is guarda- 
tam...» Transcrevemos essa enumeraçio curiosíssima: 
«que d'aqui em diante em esta cidade, nem em seu 
termo nenhuma pessoa nom use nem obre de feitiças 
nem de ligamentos nem de chamar os diabos, nem des^ 
cúnmôões, nem de obra de veadeira^ nem obre de 
eãrâfkdas, nem de gestos, nem de sút^ias, nem de 
enca/ntaimmtosy nem lance roda, nem lance sortes, nem 
obre de defnnhamentos, em alguma guisa que defezo 
seja por direito eivei ou canónico ; nem outro si ponha 
mão, nem meça atà, nem escante olhado em ninguém^ 
nem lance agoa por joeira, nem faça remédio outro 
algum para saúde de algum homem ou animalia, qusd 
nom conceiha a arte de fizica.... 

chaja a pena que o direito dvel põem em taes casos» 
e naquelles casos em que por direito eivei nom he 
posta pena nem remédio, assim como no medir da 
cinta e no lansar agua pcúa joeira, e em outros seme* 
Ihantes que nom sam expressos em direito.... 

«Otttrosím estabelecem que d'aqui em diante em 
esta cidade e em seu termo nom se cantem janeiras 
nem Mayas, nem a outro nenhmn mez do anno, nem 
se tauce eei ás portas s6 título de laneiro, nem se 



112 UYRO U> CAPITULO U 

furtem as agtuis, nem se lancem sortes, nem se britem 
aguas, nem se faça aigmna outra obra nem observân- 
cia como se antes fazia.... 

«Estabelecem que qualquer que para May as ou 
Janeiras emprestar bestas, vestires, joyas, ou quais- 
quer apostamentos perca tudo aquillo que assim em- 
prestar e hajam todo os accusadores e Concelho de 
per meio.» 

Todas estas superstições se acham minuciosamente 
referidas nas Ordenações affonsinias e manoelínas, nas 
Constituições dos bispados, e nos innumeros proces- 
sos da feiticeria da Inquisição portugueza, do século xv 
ao século xvm. 

No Leal Conselheiro de elrei D. Duarte, escripto 
entre 1428 e 1437, segundo a auctoridade do visconde 
de Santarém, citam-se outros variadis^hnos elementos 
da superstição da sociedade portugueza. No capi- 
tulo xxxvu, d'esta notável Encyclopedia medieval, cita 
o erudito monarcha «a crença aos profecias , vysôes, 
sonhos, dar aa vontade, virtude das paUmras, pedras 
e ervas, signaaes nos ceeos^ e porque se fazem na terra 
em pessoas e alimárias, e terremotos, graças especiaes 
que Deus outorga que ajam algumas pessoas, a estro- 
logya, nygrommwia, geomancia, modo de trejeitar por 
sotileza de mmos ou natural maneira nom costumada.» 
Elrei D. Duarte não se atreve a negar nem a alBrmar 
sobre estes assumptos, e cita alguns exemplos em 
que realmente se confessa perplexo. 

«Por verdes destes exemplos, quem contar fora da 
terra que Pedreanes vee as aguas, e dá os synaaes que 
ataa xx braças e mais de soterra seram achadas ; e 
que aqueste moço Pedro tam simprez que assi afirma 
as vêe, e posto que nom seja de auctoridade, como 
já em alicerces de casas foy achado certo, sem falle- 
cer cousa em altura e na terra sobre que eram fun- 
dados ; e da molher que passa de xii q[ue no çwno 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 113 

de haa maçaam ou semelhante comer, no dia em que 
mais largo come, se mantém, non gostando carne, 
pescado, ovos, leite, nem outra boa vyanda mas com 
tam pouca, como dicto be, sem vynbo, se mantém em 
soo bever d'agua simprez, que he incredyvel; e dos que 
guarecem os mordidos dos caães danados per os been- 
zer ; e como devynham os que os vaSo buscar por o 
sentirem no coraçom, segundo me já contarom dous 
padre e filho, e buu capellam meu que tem esta vir- 
tude ; e também de parirem as molheres sem cajom, 
em sua presença, nom som cousas que se bem cream. 
E de dar aa vontade o que adiante se acontece, eu vy 
ja cousas tam certas que seriam muy duvydosas de 
creer ; e assy outras taaes virtudes que Nosso Senhor 
quer outorgar a alguas pessoas, nom se podem com- 
prehender per razom. E ferro caldoj que naquesta 
terra tantos certificam que o vyrom filhar, quando 
fora se diz por muyto que se afirme poucos acham 
que o bem crêem. E semelhante fazemos nós dou- 
tras que muytos de fora contam, porque as obras 
da feitiçaria, e que se dizem de Gatallonha e Saboya, 
eu lhes dou pouca fé ; nem aquellas que muytos afir- 
mam em estes reynos, porque o mays de todo ey por 
engano e buíra. Sobrestas obras de feitiços muytos 
caaem em grandes pecados, e se leixam com grande 
mal e deshonra continuar em elles por lhes dar fé, 
ou querendo mostrar que som forçados que amem algu- 
mas molheres etvyvam com eílas contra conciencia e 
seu boo estado, dando em prova que se nom deve 
pensar que huu tal homem, conhecendo tanto mal, se 
dei nom guardasse, nom seendo per feitiços vencido, 
E dizem que sas molheres lhe parecem bestas : e se- 
melhante afirmam as molheres de seus maridos. i> 

Depois de fallar em maravilhas naturaes, como as 
bombardas e os troõs, concluo elrei D. Duarte : «nem 
deemos fé aos feitos e burlas dos alquimystas, que per 
8 u 



114 LITRO II» CAPITULO il 

taaes semelhanças mostram que os devemos aver por 
verdadeiros, e posto que nom acertem de fazer o que 
já verdadeiramente se fòz, nem dos que afirmam m>ef 
ouro encantado, o que tenho por grande buíra....» E 
termina : ^Dagoyros, sonhos, dar aa vontade, synaaes 
do ceeo e da terra» algum boo homem nom deve fazar 
conta..».» 

A grande época da Renascença» que foi para a 
Europa con^ o acordar da raz3o humana adormen* 
tada pelo mysticismo christSo, apresenta conjunta- 
mente cem o espirito critico uma tendência para acre- 
ditar nos poderes occultos dos phenomenos da natureza. 
O critério da observação e da experiência ainda n% 
estava bem determinado, e muitos dos que coopera- 
vam para a positividade mental, entregavam-se à 
Alchimia, ás panacêas, como Gardan e Àgrippa. A 
lenda do Fausto synthetisa este conflicto mental. A 
Egreja aproveitava os grandes phenomenos da natu- 
reza para conservar os espíritos rudes sob o mítmo 
do milagre. Gil Vicente, o espirito mais complexo da 
Renascença em Portugal, protestou contra este obscu- 
rantismo systematico proclamando o critério scienti- 
fico. O seu ÂMto das Fadas é precioso para o conbe*- 
cimento das Superstições populares, que redobraram 
de intensidade em uma sociedade aterrada por gran- 
des convulsões da natureza, como os terremotos e as 
pestes periódicas. 

No estudo das superstições populares portugueras, 
pela extrema complexidade d'enas, é necessário su- 
bordinar o trabalho de compilação a um systema, que 
nao pôde ser senão: seguir a ordem chronologica, 
tomando como base o documento mais importante de 
cada época, desenvolvel-o com outros documentos 
secundários, determi©ando a vivacidade dos fectos 
pela comparação com os costumes actuaes, e procurar 
em cada época grupos de superstições que se prés- 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 115 

tam á reconstnicção de um culto decahído ou religião 
extiueta. As superstições do século xvi acham-se am- 
plameute apontadas na Ordenação manuelina, copiadas 
depois nas (Constituições de Évora de 1534. A época 
de D. Manuel foi enormemente agitada, não só pela 
perseguição contra os judeus, como pela corrupção 
da fidalguia ; nas Traoas que se fizeram nas terças em 
tempo de elrei D. Manuel^ acha-se esboçado esse qua- 
dro de dissolução, que além dos desastres naturaes, 
veiu revolver e a vigorar as superstições latentes no 
povo. É no grupo das superstições apontadas no có- 
digo manuelino, que se determina um systema reli- 
gioso de cultos chtonianos ou de hetairismo primitivo 
d da prostituição sagrada; da úiesma forma, pelo 
exame das superstições descriptas no Auto das Fadas, 
de Gil Vicente, se recompõe pela superstição da ca^ 
deira e das encruzilhadas, das horas abertas, de lan- 
çar varas, o mytho indo-europeu, que entrou no Occi-^ 
dente em forma de um culto solar. É pela reducção 
a estes systemas, que as superstições, como mjrthos 
e cttUos verdadeiramente decompostos, ainda na ferma 
a mais absurda podem receber um sentido, que re- 
sulta da comprebensão do seu destino social primitiAH). 

Superstições derivadas de uma religião chtoniana* 
—No livro quinto das Ordenações mmuelinas, ti- 
tulo xxxm, enumeram-se bastantes superstições popu- 
lares, mais tarde incluídas nas Constituições dos bis- 
pados, e castigadas pela lei com pena de morte ; taes 
são o tomar «de logar sagrado pedra d^ara ou corpo^ 
raes.» — <E isto mesmo qualquer pessoa, que eni 
úircula ou fora d'elle, ou em encruzilhada espíritos 
diabólicos invocar, ou a alguma pessoa der a comer 
ou bdfer qualquer cousa para querer bem ou mal ou 
outrem a elle, morra por ello morte natural. | i.» 
— '«Onirosi nom seja algua pessoa tam ousada, que 



116 LIVRO II, CAPITULO II 

pera adivinhar lance sortes^ nem varas pêra achar 
awr, nem veja em agua ou em cristal, ou em espe- 
lho, ou em espada, ou em qualquer outra cousa 
Itisente, nem em espádua de carneiro, nem façam pera 
adivinhar figuras ou tniagens algumas de metal; nem 
' de qualquer outra cousa, nem se trabalhe de adevi- 
nhar em cabeça de homem morto ou de qualquer ali- 
mária, nem traga comsigo dente nem baraço de enfor- 
cado ; nem qualquer outro membro de homem morto, 
nem faça com as ditas cousas, ou cada hua d'ellas 
nem com outra algua (posto que aqui nom seja no- 
meada) espécie alguma de feitiçaria ou pera adivinhar 
ou pera fazer dano a algua pessoa ou fazenda, nem 
faça cousa alguma porque hua pessoa queira bem ou 
mal a outra, nem pera liguar homem ou mulher para 
nom poderem aver ajuntamento carnal. » § 2. — «E 
por ^anto nos he dito, que em nossos regnos e se- 
nhorios, antre a gente rústica se usam muitas abusões, 
assim como passarem doentes por silvão ou machieiro 
ou lameiro virgem^ e assim usam benzer com espada 
que matou homem, ou que passasse o Doyro e Minho 
trez vezes. Outros cortam solas em figueira baforeira. 
Outros cortam cobro em lumiar de porta. Outros tem 
cabeças de saiudadores encastoadas em ouro ou em 
prata, ou em outras cousas. Outros apregoam os de- 
moninhados. Outros levam as imagens de alguns san- 
tos a cerca da agua, e aU fingem que os querem lan- 
çar em ella, e tomam fiadores, que se atee certo tempo 
o dito Santo lhes nom der agua, ou outra cousa que 
pedem, que lançaram a dita imagem na agua. Outros 
revolvem penedos e os lançam na agua para aver chuva. 
Outros lançam jueira. Outros doo a comer bolo pera 
saberem parte d' algum furto. Outros tem mandráculas 
em suas casas, com intenções que tendo-as por ellas 
averàm graças com senhores, ou guanharám nas 
cousas em que tratarem. Outros passam agua por 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 117 

cabeça de cam pêra conseguirem algum proveito.» 
§3.—» 

A Ordenação manuelina mandada organisar em 1512, 
é anterior a todas as Constituições dos nossos bispa- 
dos nas quaes se reproduziu este titulo. As Ordena- 
ções affonsinas, codificando um alvará de D. João i 
não têm a minuciosídade descriptiva das manuelinas, 
que são um inventario onde se reflecte a crise social 
da expulsão dos Judeus, das pestes periódicas, dos 
terremotos que tanto hallucinaram no período das 
descobertas a imaginação portugueza. A Ordenação 
de 1512 preenche todo o intervallo que vae até ao 
anno de 1534, data das Constituições de Évora j onde 
se copia palavra por palavra o titulo do código, mu- 
dando a pena de morte em excommunhão maior, fi- 
cando o delinquente preso e com caroça na cabeça à 
porta da egreja. No trecho acima transcripto demos 
vinte e quatro praticas supersticiosas, que podemos 
hoje descrever minuciosamente por meio das relações 
authenticas das sentenças do Santo Offlcio ; fal-o-hemos 
porém agrupando-as segundo o systema cultual de 
qiie são vestígios. 

As pedras e os lameiros pertencem ao culto chto- 
niano. Na pedra comprida^ da Serra de S. Domingos, 
ao pé de Lamego, deitam-se as mídheres estéreis para 
se tomarem fecundas ; e no Monte de Santa Luzia, 
no Minho, «ha um Santo Elyseu em um nicho, aonde 
as moças vão ás quartas feiras, e virando o Santo 
para ellas, lhe atiram com uma pedra, e dizem : 

Oh meu Santo Elyseu, 
Casar quero eu.» (1) 

Aqui o nome de Elyseu tem a extraordinária relação 

(I) Leite de Vasconcellos, Vanguarda, n.^ 34. 



118 LIVRO II, CAPITULO U 

com Eltmaj ou Artemis de Epheso, (1) e com o epi- 
theto de Elisãj a forte Deasa, dado a Dído, hoje equi- 
parada a ÂDath-Astarte, do culto hetairista. <A uma 
légua da povoação da Peneda, concelho dos Arcos, 
b? um penedo dos casamentos ^ a que ^e atira pedra. » (2) 
N9 Ordenação manuelina prohibe-se o tomar pedra de 
ára^ e na superstição popular de Gaia, e em varias 
povoações do Minho, onde lhe chamam pedra de éra, 
é eqipregada como meio de um rapaz ser amado por 
qualquer rapariga. 

O costume de resolver penedos, é ainda actual, e 
em Villa Nova de Foscôa, para pedirem chuva jun- 
tam-se nove donzellas, que vão em procissão ao sitio 
chamado Lameiro de Azinhate, e ali viram para baixo 
uma grande pia de pedra, retirando-se depois seguras 
de que a chuva não faltará ; (3) as preces são feitas 
a Nossa Senhora. 

Na Ordenação manuelina falla-se na superstição de 
passar doente por lameiro virgem ; é este um dos ves- 
tígios mais importantes do culto cbtoniano das Vir- 
gens-MãeSj de que Martha, que nos apparece invocada 
em uma Oração magica do século xvii, justifica a 
relação dogmática, bem como a outra superstição de 
leoar os santos junto da agua. Os sanctuarios de Arte- 
mis eram junto dos charcos e lameiros, e aonde quer 
que chegou este culto de um periodo de hetairismo, 
apparecem sempre taes monumentos. «Os pântanos, 
como diz Baissac, eram na primitiva uma das condi- 
ções erigidas para estas construcções sagradas, que, 
quando os homens se agruparam, e que a ideia de 
sanctuarío se estendeu a toda a cidade, foi geralmente 
nos legares baixos e pantanosos, e ao abrigo dos 



(1) J. Baissac, Orig. de la Religion, 1. 1, p. 256. 
L. de Vasconcellos, Vanguarda^ n.° 34. 
J. Avellíno d'Almeida, Dicc, chorographico, t. ur, p. 229. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES POBTUGUEZAS 119 

ventos seccos que esse centro foi estabelecido. Na 
nossa antiga Gallía, para não ir mais longe, as cidades 
de Marselha e de Vienne, entre outras de origem chto- 
niana, tinham em parte esta situação, e tudo prova 
que a escolha fora determinada por um pensamento 
religioso.» (1) O caracter sagrado do lameiro virgem 
é o ultimo resto de um systema religioso de que exis- 
tem fragmentos, taes como : revolver penedos para pro- 
vocar chuva, a adivinhação pelas crianças (Artemis era 
chamada kourotrophos, ammamentadora de crianças), 
os tanques ou fontes santas, (Artemis daia, ou dos 
lameiros) e os ritos do sabath nocturno junto das bor* 
das dos rios (Artemis potamia). A pedra que ainda 
hoje se revolve representa a pedra que symboUsava 
a Deusa-Mãe Gybele, cujas festas terminavam por 
leval-a a mergulhar n'um rio; d'aqui ainda o rito 
popular supersticioso de levar os Santos á cerca d'agoa. 
Escreve JuUo Baissac, nas Origens da Religião : <Um 
velho pontiSce, vestido de purpura (temos ainda a opa 
vermelha) vinha cada anno mergulhar a pedra na cor* 
rente, no meio de alaridos frenéticos do coro dos 
padres, uns flagellando-se com disciplinas (como os 
nossos marrocos) com pontas de ossos ou seixinhos> 
flagélla tasséttata, e os outros batendo sobre um pan- 
deiro ou soprando com toda a força em charamellas 
(como os Foliões do Espirito Santo). Esta cerimonia 
faz lembrar a chegada da deusa syria e de todos os 
deuses do seu templo ao lago sagrado de HierapoUs, 
e os gritos, as macerações dos padres, o tambor, as 
charamellas, tudo isto é essencialmente oriental e 
nada tem de commum com as religiões patrícias.» (2) 
Em Portugal muitas procissões (a de S. Sebastião no 
Algarve) tem este caracter orgiastico, mas sobretudo 

(1) Origines de la Religion^ 1. 1, p. 144. 

(2) Op. cit, t. II, p. 74. 



120 LIVRO II, CAPITULO II 

as procissões em que se levam os Santos jimto da 
agua tem o caracter de penitencia. Estas superstições 
pertencem pois a um sob-solo ethnico sobre o qual 
assentaram os dois polytbeismos semita e árico ; para 
serem entendidas precisam ser agrupadas de modo 
que pela recomposição do systema religioso de que 
formaram parte se conheça a sua seriedade e impor- 
tância inicial. Vejamos a persistência do culto das 
Deusas-Mães. 

No processo de Luiz de la Penha, de 1626, cita-se 
com frequência a superstição de Santa Manha, com 
orações especiaes de encantamento para que uma 
pessoa ame outra e fique á disposição de todas as 
suas vontades. Este facto é importantíssimo para se 
recompor o culto chtoniano que existiu na Europa 
antes do christianismo, e que tanto facilitou a sua 
introducção confundindo-se com o culto da Virgem-Mãe 
ou da Virgem Maria. Jules Baissac falia do culto de 
Manha em todo o occidente europeu, principalmente 
no litoral do Mediterrâneo : «Na Provença e ao longe 
do Rheno, até Vienne e em Lyon, conservam-se tra- 
dições de que o Christianismo habilissimamente, in- 
conscientemente talvez, se apropriou, mas que no seu 
estado de transformação actual accusam evidentemente 
uma outra origem para que seja possível o equivoco. 
No numero d'estas tradições de caracter eneano, figu- 
ram as de Santa Manha e Magdalena em Marselha, 
em Tarascon, em Avignon, em Aix, sobre as margens 
do Durance e em Sainte Baume, etc.» (1) 

Nos cultos semitas, a relação do homem para com 
Deus é a do escravo {abd) para com o Senhor {Adon, 
Baal) ; estes epithetos da senhoria divina, apresentam 
também uma forma feminina em Marah e Manh. Este 
nome foi dado ás divindades femininas equivalentes 

(1) Origines de la ReligioUj t. n, p. 100. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 1Í1 

a Baalath, e em Greta, Diana é chamada Brito-Martisj 
como Júpiter é equiparado por Estevam de Byzancio 
a Mamas de Gaza (isto é Mama, nosso Senhor) achan- 
do-se assim completo o pár divino. Sobre a costa 
púnica, como diz Baissac, existe uma localidade cha- 
mada Maraza (de Marah-aza, a forte Senhora); assim 
Epiphanio cita as duas divindades femininas Marth e 
Marthna adoradas pelos judeus-pagãos ou gnósticos 
da Palestina. .«A designação de Martha era de uso 
frequente no semitismo para designar a Mae-Divina, 
da qual os gregos fizeram a sua Artemis e Diana. Por 
opposiçâo a Magdalena, que representava o lado he- 
tairista d'esta Deusa-Mãe, Martha representava o seu 
aspecto virginal. » (1) Este duahsmo é importantissimo 
e também apparece citado no Processo de Luiz de la 
Penha, em Martha a dina, ou a Sancta {Martha-na, 
na forma grega, Mardiana) e Martha a que o peccado 
encanta. O caracter demoníaco d'esta ultima confir- 
ma-se pelas próprias tradições da feiticeria medieval, 
porque o nome de Astaroth, não é senão o nome de 
Astoreth dado a esta divindade. Plutarcho, na Vida 
de Marins, cita uma prophetisa nas Gallias dois séculos 
antes de Christo, chamada Martha, consultada antes 
do general romano dar batalhas. «A denominação de 
Martha a Senhora, é anterior na Gallia ao Ghristia- 
nismo e ao Evangelho, como denominação religiosa e 
objecto de culto.» Em Portugal existe uma romaria 
de Santa Martha, no Minho, no alto de uma montanha, 
á( qual concorrem as mulheres que soffrem do útero 
e perturbações menstruaes. O caracter sensual d'estes 
cultos chtonianos conserva-se nas praticas da feiticeria 
da Edade media, e no Processo de Luiz de la Penha 
subsistem as provas d'esses ritos orgiasticos da pro- 

(1) Origines de la Religion, X. ii, p. 103. 

(2) Ibid., p. 108. 



12? UVBO H, CAWTULO 11 

stituiçío sagrada. No articulado IT.^dolibello, vem: 
«Que sendo o réo Luiz de la Penha perguntado pelos 
ditos papeis, confessou que a letra de uns papeis 
maiores, de que alguns vão juntos nas culpas, eram 
de sua mão; está escripta uma devaçam a Santa 
Jãdriha, em que conclue assi: 

queraes vós prender e sugigar o coração 
a todos aquelles que contra mim são. 
Alleluyia 1 * 

<e apoz isto que chama devação, está outra que chama 
Oração de Santa Martha, que diz ser a não dina, que 
diz assi : 

Martha, não já a dina, 

nem a sancta, 

senão aquella 

que o peccado encanta ; 

detrás da porta estarás, 

de luto te vestirás ; 

com trez varas te mandarei, 

a meu mandado estarás; 

depressa e logo irás, 

a embaixada tu trarás. 

Com trez varas te mandarei, 

quatro cantos catarei 

com a vara da maior alçada ; 

tu não comerás, 

nem beberás 

até commigo á conta vires estar.» 

No articulado 22.®, cita-se um livro de Luiz de la 
Penha, no qual «estão muitas e varias cousas com 
titulo de delações para querer bem e vir a pessoa donde 
quizerem, e a primeira entre o mais tem as palavras 
seguintes : 



Yalham^e aquellas trez irmãs 
que eu tenho por convidadas, 



SUPERSTIÇ0E3 POPUIAB^S PQBTUGUEZAS 123 

huma ó a sombra, 

e outra a solombra, 

e outra Martha a não dina^ 

nem a santa, 

senão aqueiía maldita 

que os demónios encanta; 

esta te hade trazer 

preso e atado, 

e ligado e encantado, 

de pisão e de oalbão 

e de rinlião 

e de estaca e de abuss(ão) 

que de todas as tuas conjuncturas 

o não deixes durar, 

nem aquietar, 

nem repousar, 

até que a mim (foão ou foão) 

me venha buscar ; 

e quanto tiver 

me venha dar ; 

e quanto souber 

me venha dizer.» 

É importantíssimo este texto ; a Martha que aqui 
se invoca é a demoníaca, isto é, a Senhora, a Deusa 
hetairista dos cultos chtonianos da prostituição sa- 
grada. Nos livros mágicos de Luiz de la Penha abun- 
dam as Orações a Santa Martha confundidas com as 
da Virgem : «E assi outra de vacam a Sancta Martha 
pêra prender e subjugar o coração das pessoas. E outra 
de Martha a não dina para uma pessoa vir a outra. 
E outra devação da Virgem da Piedade.» (Art. 22.®) 
E no articulado 24,® : «E na mesma folha diz que 
tomou as mãos a nove mulheres, dizendo-lhe as sinas 
com algumas deshonestidades. E apoz isto está escripta 
unoa carta de tocar. E apoz ella está escripto o que 
chama Oração de Martha, não a digna, e no cabo diz 
que é defeza. E no mesmo livro (da letra E, ás fo- 
lhas 101, 105, 112 e 113) diz que disse as sinas a 
cento e seis pessoas casadas e solteiras com muitas 



124 LIVRO 11, CAPITULO II 

torpezas sujas e deshonestas^ e diz que lhe viu com seus 
olhos todos seus corpos. E ás folhas 115 e 123 verso, 
e 24 verso, e 127 e 128, do mesmo livro, nomêa por seus 
nomes treze mulheres que diz ter benzido também com 
muitas torpezas sujas e deshonestas. E no mesmo livro 
da letra E, às folhas 130 até 157, entre outras cousas 
nomêa por seus nomes trinta e nove mulheres soltaras^ 
casadas e viuvas^ que diz ter benzido com muitas 
torpezas e deshonestidades, e com algumas estava 
espaço de huma e duas horas. E nomêa mais qua- 
torze mulheres.,..^ Não tem fim ; este feiticeiro de que 
a Inquisição de Évora tomou conta, e que já era her- 
deiro das tradições magicas de seu pae (articulado 8 do 
libello) conservava a plena tradição do culto chtoniano 
de Manha, a Deusa-Mãe que precedeu no occidente 
o culto da Virgem. Entre os papeis avulsos appensados 
ao processo vem esta outra : 

Devoção a Santa Martha 

Bem aventurada Santa Martha, 

pellas terras do Egypto passastes, 

a Serpente fera encontrastes 

com a santa caldeira da agua benta 

e issope na mão saudastes, 

e com ella amançastes, 

e com a vossa preciosa cinta atastes ; 

à cidade a trouxestes mansa e pacifica 

aos infiéis a entregastes. 

assim como isto é verdade, etc.» 

A serpente tem aqui um sentido particular ; allu- 
dindo ao mytho das Donzellas em lucta com a Ser- 
pente (cuja cabeça é também esmagada pela Virgem 
Maria) diz D. Joaquin Costa : «Não é outra a origem 
do famoso tributo das Cem Donzellas, tão popular nas 
lendas asturianas, portuguezas e catalãs, e que deu 
argumento ao famoso romance No Figueíral figueiredo, 
e a outros muitos ; aqui desapparece o Dragão, sub- 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 125 

stituindo-0 OS inimigos da pátria ; porém esse Dragão 
reapparece nas Mouras encantadas e na Serpe da ba- 
talha de Hacinas, segundo a versão do Poema de Fer- 
não Gonzales...ib (1) D'este mytho subsiste na super- 
stição popular o poder das donzellas chamadas Maria, 
que matam as serpentes com qualquer leve toque. São 
notáveis estes factos para vêr como se opera a decom- 
posição dos mythos em superstições populares. Se- 
gundo Bergmann, ainda nas lendas da Edade media 
a Serpente symboUsava as cheias dos rios e as inun- 
dações, contra a qual luctavam certos Santos, como 
veremos ao recompor o culto solar e o symbolismo 
da Serpe e da Donzella dos Regimentos das Procis- 
sões de Corpus Gbristi. Os cultos agrícolas ligam-se 
às praticas orgiasticas do hetairismo junto das hervas 
e juncos do charco; filho das hervas^ é o que per- 
tence ao regimen da prostituição ou da época hetai- 
rista da maternidade. (2) 

No romance de D. Ausenda (Ausêa, Iseu, oulseult) ha 
uma referencia a estas hervas e fontes do culto chtoniano: 

Á porta de Dona Ausenda 
Está uma herva fadada, 
Mulher que ponha a mâo n'ella 
Logo se sente pejada. . . (3) 



(1) Poesia popular espanola, p. 311. 

\í) - - - 



Amida Furtado, nos seus Materiaes para o estudo an- 
thropologico dos povos açorianos, allude ao parentesco pelas 
mães usado na freguezia da Bretanha na ilha de S. Miguel : 
«consiste em dar como cognome aos filhos masculinos o nome 
de baptismo das mães, e assim sei que h^ na Bretanha Jacin- 
tho aellena, Manuel Ricarda, Francisco Albina, António The- 
reza, Francisco Josepha, Francisco Rita, José Guiomar, únicos 
nomes porque são muitas vezes conhecidos e porque sempre 
são tratados familiarmente.» (p. 21, not.) 

(3) Garrett, Romanceiro, t. ii, p. 172. Em um romance astu- 
riano, acha-se também : 

Hay una yerba en el campo 
que se Uama la borraja ; 



iSê LIVAO II, GAmtJLO II 

Na versão de Coimbra {Romanceiro^ n.® 33) em vez 
de mna berra é mna fonte, o que eonfirma a inter- 
pretaçio cultaal : 

A eidade de Gdmbra 
Tem uma fonte de agua dará. 
As moças que bebem d*ellà 
Logo se vêem pejadas — 

Em uma das fórmulas magicas de Luiz de la Peuba, 
vem o verso «S. Marcos te marque» cujo sentido se 
comprehende pelo verso popular na Andaluzia : 

Agua, senor S, Marcos 
Rei de los charcos, (i) 

O povo ainda liga á devoçSo da Virgem Maria {Mch 
rah) a ideia de um culto chtoniano ; na Guarda, diz-se r 

Esta agua encharcada, 
YaUia-me a Virgem sagrada (2) 

Anah, a deusa cbtoniana, apparece em Portugal 

toda mujer gae la pisa 
luego se siente prenada. 

Nas locu^es bespanbolas também se diz : Pisar maia yerba, 
com o sentido de andar errado. Em Portugal chama-se perdi- 
ção á prostituirão ; perdida a mulher sem honestidade. Isto 
explica a tradição hespanhola e franceza de La yerba que extra- 
via, e áaiUherbe guiegare, sobre a qual faliam as revistas iíi?- 
lusine, e Folk-Lore andaluz, p. 453. A generalidade da mesma 
superstição conduz à ideia de um fundo commum cultual. Em 
Thuringe chama-se irrkraut (a herva que faz perder) ao feito, 
cuja semente é considerada com grandes poderes sobre o 
amor e a fortuna. Devemos pois considerar a herva fadada 
como a semente do feito, de que acima falíamos. 

(í) Rodrigues Marin, Cantos populares espanoles, t« i, p. 58w 
Nos anexins sicilianos S. Marcos representa o vento, ritré, 
Proverb., 1. 1, p. 52. 

(2) Leite de Vasconodtos^ TradiçSei^, p. 68. 



SUPERSTIÇÕES tH)PVLAIiES POUtUGUEZAS <27 

assimilada a Santa Âima^ eomo se vê em varias sa* 
perstiçõ6s ; em Viauna do Castello canta-se : 

Senhora Santa Anna Oh agua tão doce. 

Subiu ao monte. Oh agua tão bella I 

Aonde se assentou Anginbos do céo. 

Abriu uma fonte. Vinde beber d*ella. (1) 

An&k é a Vetras babylonica, qtte apparece em Roma 
com o me^mo caracter orgiastico ; as festas sensuaes 
eram no Idos de Março, e isto nos explica o sentido 
de mn docamento de 1346 citado por Viterbo, no 
qual se prohibe as mulheres tocarem adufe na mez de 
Fevereiro : «E disse que qualquer outra mulher que 
no dito mez de Fevereiro tanger adlife, que o mor- 
domo a achacará e chamará a juizo, até que se ave- 
nha, com o mordomo.» (2) Evidentemente refere-se 
ao culto da prostituição sagrada das Sucoth Benot. 
O templo de Anah, a Deusa-M3e era em forma de 
monte, o adufe era o tympanum das hierodulas e dos 
galas da deusa syria ; as aguas de charcos, ou fontes, 
symbolisavam a concepção do amnios universal. Por 
todo o litoral do Mediterrâneo se estendeu este culto 
pela mftuencia simultânea dos phenicios e dos jonios, 
e onde qner que se achou estabelecido um templo â 
Deusa-M3e facilmente foi aproveitado pelo Christia^ 
Msmo para a propagação do culto da Virgem Maria. 

As crianças amamentadas pela deusa-mae (os angi- 
nhos que cercam a Virgem da Conceição) figuram nas 
superstições populares; o christão velho Pedro Aflfonso, 
foi condemnado por ter communicações com o diabo 
na forma de mmino de dez annos. No processo de 
Maria Antónia declara que o diato lhe appso^eceu «em 



s 



1) Leite de Vasconcellos^ Tradições^ p. 73. 
> Bl^idá., rb.* Achacar; 



128 LIVRO II, CAPITULO II 

forma humana de homem pequeno...ií Na ilha de S. Mi- 
gael canta-se esta jacalatoría a Santa Anna, com o 
sentido hetaírista : 

— Senhora Santa Arma «Senhora Santa Anna 

Dae-me outro marido, Esta mídher mente, 

Que este que eu tenho Que eu durmo com eUa 

Não dorme commigo. £ não a contento.» 

As superstições sobre o limiar da porta, onde tem 
mais poder os philtros amorosos e os esconjuros, 
apparecem-nos ligadas ao culto de Santa Anna. En- 
contramos em Gil Vicente a seguinte Oração do que- 
branto : 

Estava Santa Arma ó pé do loureiro, 

Vem o anjo por mensageiro, 

Vae-te á porta do ouro. 

Acharás teu parceiro. 

Yae Joaquim apoz o carneiro, 

E n'aquella hora que Deus verdadeiro 

Concebeu Anna em limpo celleiro 

A Sancta Maria rezam o salteiro, 

Que já o quebranto cahiu no ribeiro. 

(Obras, t. ii, p. 13.) 

Era á porta das cidades semitas que segundo o 
culto hetairista as mulheres se offereciam aos estran- 
geiros ; a porta do Ouro vem citado no Evangelho 
apocrypho da Natividade. Aqui o loureiro apparece com- 
mesmo sentido com que era levado na thyasa dio- 
nysiaca, e em um canto popular da Andaluzia, esta- 
belece-se a relação entre Anna e o loureiro : 

Entre los arboles todos 
Se senorea el laurel; 
Entre las mujeres Ana, 
Entre flores el clavel. (i) 

(1) Ap. Gubematis, La Mythologie des Plantes, t. u, p. 188. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES POUTUGUEZAS 129 

A este antigo systema cultaal da Deusa-M3e, ou 
do GhtoQismo plebeu» pertencem essas cerimonias 
orgiasticas do Sabbath nocturno de que faliam os 
moralistas da Edade media e os demonologistas do 
século xYi e x\ii ; o nome de Manha, dado ao rio que 
alagava as planícies em que se estabeleceram as coló- 
nias asiáticas da Etruria, e o caracter de conjuração 
politica com que se descobriram as thyasas ou con- 
frarias orgiasticas no Consulado de Postumius Albi- 
nns (186 annos a. de G.) levam a considerar este 
culto como um vestígio da religião dos antigos povos 
itálicos conquistados pelos Romanos. Tito Livio de- 
screve as cerimonias sensnaes d'este culto reveladas 
por um inquérito ofScial» do qual resultou uma execu- 
ção de perto de quatro mil pessoas accusadas de toma- 
rem parte nos mysterios bacchanaes. Baissac consi- 
dera este rito como persistindo nos Sabbath da Edade 
media, apoiado na comparação dos factos do inquérito 
romano com os depoimentos colligidos por Bodin na 
Denumomaniaj e por Delancre no Quadro da inconstan- 
cia dos mãos anjos e demónios. 

Este conciliábulo tinha na Biscaia o nome de akke 
larriaj e em Portugal o de senzala. Em uma nota da 
sua versão das Fabulas de Lafontaine, diz Filinto Ely- 
sio : «Eu ouvi algumas velhas chamar senzala ao con- 
ciliábulo e sitio em que (segundo a crença do vulgo,) 
se ajuntam na noite de sabbado as bruxas e feiticei- 
ras, e onde aprendem os arcanos mais profundos da 
bruxaria ; dos quaes é ali lente de borla preta o Cão 
Tinhoso, a quem ellas adoram, e a quem em signal 
de adoração beijam (segundo a narração das velhas) 
o trazeiro. E perguntando-lhe eu porque rasão lhe 
chamavam senzala, me responderam que pela muita 
parecença que tinham ellas negras e os demónios tam- 
bém negros, com as casas dos pretos, que no Brazil 
se chamavam Senzalas. — Também as velhas me con- 

9 11 



i 



130 LIVRO II, CAPITULO II 

taram, que as bruxas se transformavam em diversas 
figuras, conforme o emprego que intentavam dar ao 
seu génio malfazejo.» (1) 

Em geral os processos da Inquisição portugueza do 
século XVI e xvii descrevem estes conciliábulos ou 
thiasas, com as mesmas circumstancias referidas por 
Delancre, signal de que existia uma tradição commum 
a todo o Occidente. Na Confissão de tmias Bruxas que 
queymaram na cidade de Lisboa, anno de 1669, de* 
screve-se a promiscuidade mais desenfreada, dansas 
vertiginosas, banquete, e as luzes são archotes enocçh 
fradoK como nas thiasas de Roma ; o Mayoral ou 
Archigéti^ usava um capuz frisado com o chapéu de 
bicos dos 2^os phallicos ; figurava a Mãe do Diabo, 
com mn^fmiMrinhOy (o adufe prohibido) e um runíello 
de lúdía, (2) como no culto hetairista celebrando a 
thiasa junto do rio. O rio, ou fonte magica, acha-se 
citado no processo de Anna Antónia, da Inquisição, 
em 1624 : «E assim mais saia a ré com o demónio 
no habito em que sempre lhe apparecia, a certo logar 
junto de um rio, onde estavam algumas mulheres 
conhecidas da ré, em companhia de outros demó- 
nios....» No Minho, a mulher estéril que quizer ser 
fecunda, vae à meia noite para a ponte de S. João no 
fio Ave, e pede á primeira pessoa que passar que a 



(i) Trad. das Fabulas, p. 303. 

(i) Nas locuções populares, a phrase Lá vae tudo quanto 
Uartha fiou, condiz também com o que se passa na romaria 
de Santa Martha, no Minho, á qual as mulheres levam offertas 
&& meadas; sls meadas fervidas também se empregam na cura 
das hérnias scrotaes. António José nas Operas, 1. 1, p. 98, traz 
esse outro anexim de caracter orgiastico : 



Morra Martha, 
Morra farta. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 131 

borrife com agua do rio, dizendo as palavras do ba- 
ptismo. (1) Em Agtm de Má Martha (Cabo Verde) é 
onde se fazem os pactos com o diabo. 

Segmido a crença popular a ida para o sabbatb ás 
terças e sextas feiras, depois das dez horas da noite, 
faz-se com uma untura previa, dizendo a fórmula: 
Vôa^ vóa I por cima de toda a folha t (Lisboa) ou : Por 
debaixo dos telhados. Por cima dos silvados. A prosti- 
tuição como forma cultual deixou de existir, mas ainda 
S6 cctfiservou por muito tempo com o caracter de 
instituição, como a Mancdda concedida em privilegio 
ao Ccmde de Villa Nova, (2) e certas locuções popu- 
lares se referem também a isso, como o Paço da Mãe 

(i) Pedroso, Superst, n.*» 645. 

(%) «D. Manoel etc. a quantos esta nossa carta virem faze- 
mos saber que o Conde de Villa Nova veedor de no3sa fazenda 
nos disse ora q por quanto na dita villa (de Portimão) he 
necessária huma mancebia e elle por bem e honestidade da 
tfoa vizinhança dos moradores delia queria fazer aa sua custa 
em algum logar da dita villa (j para isso seja mais conveniente 
encostada ao muro para se nella recolherem as mancebas sol- 
teiras e se apartarem de conversarem com as mulheres caza- 
das ^ vivem em sua honra lhe déssemos hum luguar para isso 
e ouvessemos por bem que ninguém a podesse fazer salvo esta, 
e visto por nos seu Requerimento por lhe fazermos merece 
nos pras de lhe dar luguar como de feito por este damos 9 elle 
faça a dita mancebia na dita Villa, e outra pessoa alguma ao 
diante o nom possa fazer nella, e tenha e aja jpara sempre toda 
a renda d^ella. E porém mandamos aos juizes e justiças da 
dita villa e a todos outros offlciaes e pessoas a que o conhe- 
cimento desta pertence que lhe leixem fazer a dita mancebia 
e ter e aver a Renda delia assi elle com todos seus herdeiros 
qu^ depois delle vierem para sempre como dito he ; e em caso 
que a dita villa venha a nos e aos nossos successores todavia 
elle e os seus herdeiros ajam a Renda sobredita porque assim 
be nossa merece. 

Dada em a nossa villa de Ahneirím, a seis dias de maio. 
Jorge Fernandes o fez de 1517.» 

(Liv. 7 do Guadiana, fl. 205 f.) Torre do Tombo ; ap. Silva 
Lopes, Corographia do Algarve, p. 268, not. 2. 



• • 



132 LIVRO II, CAPITULO 11 

Joanna, com que se designa a casa que está aberta 
para toda a gente. (1) 

Superstições provenientes de um cuUo phaUico. — A 
concepção primitiva de um fogo celeste reproduzido 
no lar por meio da fricção do pramantha com o arani, 
deu logar a um certo numero de ritos religiosos, e á 
interpretação comparativa d'essa producçao do fogo 
{manthana) com os actos da geração e com ávida. O 
pramantha era o instrumento masculino, e muitas 
plantas que serviam para a producçSo do fogo eram 
veneradas como objectos phallicos, taes como a fi- 
gueira, o loureiro, e a mandragora; ou imitavam for- 
mas phallicas, como os fetiches de Priapo ou figas ^ a 
vara do condão^ e os bolos dados a comer como ama- 
vios. Em praticas cultuaes peculiares a alguns Santos, 
como S. Gonçalo, S. João e Santo António, apparecem 
ainda certos ritos phallicos, já mal comprehendidos, 
mas pelos quaes se recompõe um systema religioso 
filho de uma mesma concepção mental commum a 
todas as raças áricas anterior á systematisação bra- 
Imianica. Na Ordenação manuelina citam-se varias 
superstições, taes como dar a comer ou beber para 
querer bem, ligar homem ou mulher para não pode- 
rem ter ajuntamento, e o ter mandráculas; estas 
superstições são os vestígios de um culto phallico 
cujos caracteres se evidenciam em certos santos po- 
pulares. Gil Vicente, cita entre o material da feiticeira 
do Atuo das Fadas : 9.B0I0 de trigo alqueivadop ; Bur- 

(1) Em uns Estatutos sobre bordeis de Avinion, attribui- 
dos a Joanna rainha de Nápoles e condessa de Provença, com 
data de 1347, estabelece-se que «tenha uma porta por onde 
todos possam entrar (et que siegs une porto,., dou todas lasgens 
intrarom.)» (De la Prost en Europe, fl. F.) Nos Açores é muito 
usual para dizer quemna porta está escancarada— É como o 
paço da Mae Joanna. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 133 

chard, bispo de Worms cita varias superstições de 
cousas de comer para fazer amar, taes como dar a 
comer bolo de mel enxuto no corpo de mulher com 
farinha, e bolo amassado em nádegas de mulher. (1) 
O bolo assim amassado {infra nudas notes conficiatur 
panis) é ao que na linguagem popular se chama pada, 
e que se cita na fórmula da Sorte das Favas, de Luiz 
de la Penha : (articulado 22.®) 

Minhas favas, minhas queridas, 

eu vos esconjuro 

não como favas senão como pessoas, 

com deus padre e deus filho 

e deus espirito santo, 

e com a santíssima trindade, 

e com a ostia consagrada 

e com todos os esconjures 

de Maria Padilha 

que me falíeis verdade 

no que eu pergunta e quero saber. 

Na Oracion delJmtojmz (Carmona) cita-se também 
esta entidade phallica : 

Esta oracion que echo 
para que te quees mansa 
te esconjuro con Maria PaUla 
y con toa su cuadrilla. (2) 

Na romaria de S. Gonçalo de Amarante, no pri- 
meiro sabbado de junho as raparigas vendem pelas 
ruas bolos de massa cobertos com assucar, chamados 
testículos de S. Gonçalo; (3) Delaure cita os pães 
pballicos em França no Bas Limousin, no Auvergne, 

(1) Dulaure, Hist abr. des differents evites, t. ii, p. 252. 

(2) Folk-Lore andaluz^ p. 83. Na Oracion de la GatUea tam- 
bém cita a mesma entidade. 

(3) Gommunicação de Simão Rodrigues Ferreira. 



134 UYRO Ily CAPITULO II 

nas cidades de Saintes e de S. Jean de Angely ; vê-se 
aqui o culto persistindo a par da superstição. Assim 
como se fazia ser amado, também se empregava um 
meio para ligar uma pessoa tornando-a impotente. No 
processo de Anna Martins, (1694) cita-se uma Oração 
Para as pessoas que estavam ligadas; «sendo homem 
lhe benzia o cbapéo, dizendo-lhe : 

Com dois te vejo, 
Com traz te despejo, 

Sue é Padre, Filho e Espirito Santo, 
om dois te hei olhado, 
com trez te hei desligado, 
despicado 
desencanhado. 

eE ás mulheres casadas mandava que trazendo as 
espadas dos maridos, e pondo-as entre as mãos das 
pessoas que curava lhes fazia dizer as palavras se- 
gumtes : 

Assun como tu espada 

és cruz de Ghristo, 

assim se meta N. S. Jesus Ghristo 

entre mim e meu marido^ 



«E deitando logo a espada no chão arrevesada, 
ensinava á pessoa que dissesse : 

Assim como tu espada 

estás n'esta casa deitada, 

assim me haja 

N. S. Jesus Ghristo desligada 

despicada, 

destravada 

e desencanhada.» 

Na Edade media as pessoas que lançavam os ma- 
lefícios para fazerem a impotência ou ligamento, eram 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 135 

OS noueurs d'eguillettes ; (1) nas ilhas dos Açores liga-se 
uma pessoa mettendo spermen que lhe pertença de- 
baixo de uma talha de agua, e persiste ainda o antigo 
terror da Edade media. «Para (|ue um homem não 
deixe uma mulher em toda a vida, enterra-se uma 
agulha n'um morto, e depois com a dita agulha dão-se 
alguns pontos escondidos no fato do homem a quem 
se quer prender. Fazendo isto, elle não torna mais a 
esquecer a mulher.» (2) A Cruz acima invocada é a 
forma do ajuntamento do pramantha com o arani, 
symbolisando os órgãos sexuaes {manthanaj mmtula). 
Na Ordenação manuelina, prohibem-se as superstições 
de vér em espada^ e de benzer com espada. Adiante 
trataremos das espadas magicas. 

Na sentença de Anna Martins cita-se outra Oração 
para curar «as pessoas que tinham cambras ou bixos 
no corpo»; aí falia em uma planta a que dá o nome 
de Ardegaria, e que hoje podemos explicar pela simi- 
laridade com a Arthagenia, que os gregos, segundo 
Theophrasto empregavam para produzir o fogo «ve- 
getal semelhante à vinha cultivada e á vinha selvagem, 
e como ella trepando pelas arvores.» Eis como Anna 
Martins curava as cambras : «tomando trez folhas de 
silva, e benzendo a pessoa enferma, dizia as palavras 
seguintes : 

Indo eu pela serra d* Albergaria 
encontrei com a Virgem Maria, 

(1) Gustavo Bronet, Evanailes apocrvphes^ p. lOi. Também 
se lhe chamava ligature; falia d*eUa Platão, Das Leis, liv. ii, 
e em Virgílio e Ovídio encontram-se os processos dos ligadores 
do seu tempo, e Plínio aponta como remédio o untar com graxa 
de lobo o limiar e os umbraes da porta. Os Concílios da egreja 
cottdemnaram os noueurs, chegando o cardeal Du Perron a 
fazer inserir no ritual de Evreux uma oração contra a liga- 
dura. Delancre, Bodin e o curaThiers faliam largamente d'este 
malefício. 

(2) Pedroso, Superst., n.» 684. 



136 LIVRO II, CAPITULO II 

6 lhe perguntei o aue faria 

a esta pessoa que de ansansere (1) morria; 

que lhe picava, 

mordia 

epruia, 

e todo o mal lhe fazia. 

— Que farei, Virgem Maria t 

«Borrífa-a trez vezes ao dia 

com a folha da ardegaria 

e com aguasinha fria» 

que mais não lavraria, 

comeria 

nem mal faria, 

com o nome de Jesus e Virgem Maria.» (2) 

A persoDificaç3o da planta que dá o soma ou hom 
havemos também encontral-a na lenda do Bom Homem. 
Na Ordenação manaelina e nas Constituições de Coim- 
bra, tit. Lxxxii, probibe-se ter mandramUas em casa 
para exercer seducçâo sobre alguma pessoa. Na Edade 
media, herdeira da antiguidade, acreditava-se no po- 
der benéfico da Mandragora {Atropa mandragora^ 
Linn.) cujas raízes similhavam figuras de homem ou 
de mulher ; sobre este ponto Leroux de Lincy apro- 
ai) Na Galliza chama-se-lhe sársaro, {Bibl. de las Trad, po» 
puiares espanolas, tom. iv, p. 86.) 

(2) É curiosa a forma oral que ainda se repete em Ourilhe 
d'esta oração do século ivii : 

Indo eu pela serra da Guia, 

Encontrei com o filho da Virf[em Maria 

E elle me perguntou o que tmha t 

£ disse-lhe que tinha um bicho 

Que me comia 

E ardia. 

E elle me disse que talharia 

Com trez folhinhas d*ar da guia , 

£ trez pinguinhos d*agua fna. 

Deixa (O nome da pessoa) 

Que é pobre não tem que te dar, 

Vae para as ondas e aréas do mar. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 137 

senta a auctoridade do Le grand Herbier (rançais, do 
fim do século xv, em que se allude a esta crença da 
gente do campo. (1) Segundo os documentos reunidos 
por Dulaure, a Mandragora esteve na maior voga no 
século XV, e empregava-se para desfazer malencios, 
attrahir a felicidade e tomar fecundas as mulheres ; 
apparece citada no Génesis (xxx, 14) como um feti- 
che phallico empregado por Lia para que Rachel lhe 
ceda por uma noite o seu logar junto do marido. É 
ao que o texto biblico chama dudaim. Os Templários 
foram accusados de adorarem uma mandragora, tendo 
sido costume do século xv o trazel-a embrulhada em 
seda para nunca ser pobre. A mandragora apresenta 
nas suas raizes a forma de um homem ou de uma 
mulher ; diz o Abbade Rosier, no seu Curso de Agri- 
cultura : «Tenho visto mandragoras que representam 
perfeitamente as partes do homem e da mulher, etc.» 
O paramantha é nos mythos de fogo considerado como 
um homunado; o cão^ com que se arrancava a mandra- 
gora é o Hermes ou Saramâ dos mythos d'esta ordem. 
Escreve Baudry, no bello resumo da obra capital de 
Kuhn : «a mandragora possue uma raiz espessa, mui- 
tas vezes enganchada, e na qual não é impossível vêr, 
com os olhos prevenidos da superstição, alguma cousa 
como a forma de uma criança. Esta grosseira simi- 
Ihança fel-a considerar como uma das plantas que 
semêa a agua fecunda do amrita^ ou que implanta o 
dardo vivo do raio ; e d'aqui as suas virtudes : enri- 
quecer aquelles que a tem, dar a saúde e a fecundi- 
dade ao gado, curar a esteriUdade da mulher, facilitar 
os partos. A mandragora interrogada responde ás per- 
guntas, desvenda os segredos e revela o futuro.» (2) 
Baudry apresenta as noticias colligidas por Theo- 



(i) Livre des Legendes, p. 135. 
(2) Revue germaniquej t. xv, p. 21. 



138 UVRO II9 CAPITULO II 

phrasto e Plinio sobre o modo de colher a mandra- 
gora, (semihomo mandragoras, como lhe chamava Co- 
Imnella), e conclue : «Por mna alteração das antigas 
crenças decahidas, o deus do raio cahido tinha-se 
tomado o filho da forca, {galgmmãnnlein).i^ Assim a 
mandragora foi equiparada sob o nome de Main de 
gloire á mão do enforcado, Orno refinada) com que 
os ladrões nos contos maravilhosos se allumiam. Nas 
Ordenações manuelinas prohibe-se o trazer dente ou 
baraço de enforcado^ superstição que persistiu até este 
século em Portugal, onde se guardava em todas as 
casas um fragmento de corda, que também tinha vir- 
tudes para curar a papeira. Nas crenças populares a 
mandragora nascia debaixo da forca, da ejaculação 
automática do suppliciado. 

A maior parte das superstições de um culto phal- 
lico podem agrupar-se nas praticai da festa de S. João, 
em que se colhe o feito^ e em que se passa pelo lume 
a folha de figueira. O santo mais popular de Portugal, 
Santo António, também é objecto de cantigas com 
sentido phalHco: 

Santo António é brejeiro Santo António de Ríba-mar, 

E alguma cousa mais, Abaixai-me esta barriga. 

Faz cborar as raparigas Que eu não sei o que traz dentro, 

E andar sempre aos ais. Se é rapaz ou rapariga. 

(Algarve.) (Torres Novas.) 

A relação do Santo com o culto do fogo explicar- 
se-ha pelo menino, que segundo a lenda o acompa- 
nhava, que é o lume nascido ; os peixes a que elle 
prega, são evidentes symbolos phallicos; (1) os marcos 
ou columnas phallicas são ainda chamados pelo povo 

(1) No Annuario das Tradições portuguezas, p. 24, observou 
o nosso amigo Teixeira Bastos este caracter do santo. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 139 

frades. M.""® d'Aulnoy cita 2ís figas de barro de Extre- 
moz que em Hespanha se usavam no século passado 
ao pescoço das crianças racbiticas. (1) 

O fogo celeste transportado à terra pelo raio é tam- 
bém personificado em uma ave porta-fogo, o Phoroneo 
(do sanskrito bhuranyu,) que os Sabinos ainda conhe- 
ceram com o nome de Feronia, e os Romanos por 
meio das lendas da avis incendiariaj ou spiraurnix, 
e na forma symbolica do Picus, ou Picunnos. (2) A 
ave porta-fogo é o picanço, ou nas crenças allemas a 
cegonha, que traz as crianças dos lagos ou das nuvens, 
segundo se responde ás interrogações infantis. O cim 
é também considerado com virtudes divinatorias sobre 
o casamento, e este nome designa o marido que sofifre 
infidelidades da mulher, augmentando-lhe a familia 
sem o saber. A festa do cuco em Villa Nova de Fama- 
licão tem ainda vestígios do seu primitivo sentido my- 
thico. 

Superstições sobreviventes de um Polytheismo sideral 
ou solar, — Nas Orações populares encontram-se invo- 
cações de entídades pertencentes a um culto proto- 
árico. No articulado 18.® do processo de Luiz de la 
Penha, é accusado por ter : «outro papel com as pala- 
vras da conjuração das cartas de tocar, em que mette 
a Deus Padre, e a Virgem Maria, e todos os apóstolos 
e santos e santas da corte do céo, e com elles junta- 
mente diabos, e Santa Leonaj e Santa Trebma e Santa 
Maruta, e Montenegro e seus irmSos e companhei- 
ros...» O nome de Maruta é de uma importância extra- 
ordinária para a comprehensSo d'estes cultos decahi- 
dos. No Alcorão prohibe-se o invocar Harut e Marut; 
Gubernatis indica uma lenda ouvida na Pérsia por 

(1) Relation du Voyage en Espagne, t. n, p. 66 e 143. 

(2) Baudry, Reo. germ., t. xiv, p. 378. 



140 UYRO II, CAPITULO II 

Olearins, na qual Deus enviou á terra dois anjos Aroth 
e Maroth com uma missão consoladora. (1) Vê-se por- 
tanto que esta lenda entrou no Alcorão com um cara- 
cter demoníaco. O vento, no mytho védico, é adorado 
na forma de Rudra, (isto é o terrível) e de Martoa 
(isto é os zephiros ou rápidos) e ambas estas formas 
são condemnadas pelo mahometismo apesar dos nume- 
rosos elementos zendicistas que entraram no livro de 
Mabomet. A relação de Rudra com ManU, leva-nos 
a achar o sentido com que na feiticeria entrou o nome 
de Trébuca; um dos doze Rudras era chamado TWaw- 
baka. O nome de Santa Leona é uma personificação 
das festas mithriacas, que os gregos chamavam Leon- 
ticos, o que se justifica pela extraordinária propagação 
do culto de Mithra no Occidente como o prova Beugnot. 
Essa outra entidade demoniana chamada Monte Negro 
decompõe-se em Monkir-Nékir^ os dois anjos negros 
da crença mussulmana que fazem os primeiros inter- 
rogatórios aos mortos. Aqui vemos os Árabes como 
propagadores no Occidente de certas crenças orien- 
taes anáricas e ário-persas. 

Na Ordenação manuelina prohibe-se a Scapoloman- 
cia, a que chama «ver em espádua de carneiro.» 
Wiliams Thoms considera este processo como for- 
mando parte de um systema divinatorio dos Druidas. 
Tylor seguindo as noticias de Klemm, de Burton e 
e Walker, diz que este systema da adivinhação pela 
omoplatoscopia é antiquíssimo e ainda está em vigor 
na Tartaria «d'onde por ventura se diflfundiu para 
todas as regiões onde o encontramos.» (2) Segundo 
este ponto de vista de tão auctorísado ethnologo, per- 
tence esta superstição a essa camada de população 
que precedeu na Europa a entrada das tribus árícas» 



!5! 



Mytholaqie des Plantes, t. ii, p. 370. 
La Civilisation primitive, 1. 1, p. 140. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 141 

a qaal deríya das raças amarellas da alta Ásia. Palias 
coDta que entre os Tártaros se adivinha pela espádua 
de carneiro ; põem-na ao lume, e estalando em linhas 
rectas longitudinaes é prognostico feliz, se em linhas 
tortuosas ou transversaes é signal de desventura. Na 
Escossia é conhecida esta superstição pelo nome de 
Airich ou Slinnairachd ; diz Tboms : «Antes de se in- 
speccionar a omoplata, deve ser descamada com esmero 
sem fazer uso de nenhum metal, nem de faca de 
madeira ou mesmo dos dentes. A maior parte doestas 
adivinhações fazem-se inspeccionando as manchas que 
se observam na parte semitransparente da espádua, 
ainda que os grandes mestres penetram o futuro estu- 
dando as partes opacas. Nada se pôde averiguar do 
que hade succeder além do anno seguinte.' Os pro- 
gnósticos relacionam-se sempre com as pessoas por 
quem e para quem se faz o sacrificio.» (1) Tylor allude 
a este mesmo rito na Irlanda ; o celticista Mac-Pherson 
e Ampere (2) encontraram também este systema de 
adivinhação na Grécia moderna. 

O poder dos números liga-se ao culto sideral. Pelo 
que hoje se sabe dos cultos mágicos da Ghaldéa, toda 
a hierarchia demonologica era representada por nu- 
meras não só nas imprecações como nas especulações 
theologicas. Diz Lenormant : «Em virtude d'estas es- 
peculações, cada deus era designado por um numero 
inteiro na serie de 1 até 60, correspondendo á sua 
cathegoria na hierarchia celeste; um dos tijolos da 
bibliotheca de Nineve dá a lista dos deuses principaes, 
cada um com o seu numero mythico. Parece que a 
par da escala de números inteiros applicados aos 
deuses, havia uma escala de números fraccionarios 
applicados aos demónios, e assim correspondendo á 

(1) Ap. Folk-Lore andalm, p. 267, 

(2) Grêce, Rome eU Dante, p. 64. 



142 LIVBO II, CAPITULO II 

cathegoria reciproca.» Nas fórmulas numéricas da 
tradição popular o valor da imprecação reside na pas- 
sagem de um inteiro para outro inteiro ; e a enume- 
ração em ordem inversa e decrescente liga-se ao sen- 
tido da demonologia chaldaica^ pois os espíritos mali- 
gnos «movem-se e obram assim ás avessas do curso 
natural das cousas e do movimento regular dos as- 
tros.» (1) Aos sete deuses dos planetas que governam 
o universo, a theologia chaldaica oppoz-lhes os sete 
phantasmas de chamma, de que os nossos sM peccados 
mortaes são ainda uma allegorisação. Em uma impre- 
cação chaldaica, das publicadas por Norris e Rawlin- 
son, se diz : eTu que és conhecedor das acções dos 
Sete, ensina-nos os legares em que elles habitam. — 
Meu filho, os sete habitam a terra ; os sete saem da 
terra ; os sete que nascem da terra, os sete que se 
mettem pela terra, abalam as muralhas do abysmo 
das aguas.» Aqui temos o numero a converter-se em 
uma entidade demoníaca ; o povo portuguez também 
diz: « Trez, é a conta que Deus fez» e contrapõe : (^Sete, 
o diabo que te espete.» No processo de Luiz de la 
Penha temos uma importante Oração numérica, com 
o titulo de Devação da EstreUa fermosa : 

A ti me omilho, este ceo me corteis 

EstreUa fermosa, e nove varas 

a huma, as duas^ de zimbro me colhereis ; 

as duaSj as trez, na mão de Gaifaz 

as trez, as quatro, m'as amolareis, 

as quatro, as dnquo, bem amoladas 

as cinquo, as seis, e bem aguçadas 

as seis, as sete, e bem metidas 

as sete, as outo, e bem tranquadas, 

as outo, as nove, mna no coração 

as nove. e outra pelo sentido 

Todas nove vos ajuntae, que de mim (foam) 

(1) La Magie chez les Chaldeéns, ]^ 24. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 143 

nao seja esquecido ; e outra pelos pees 

e pelos olhos que só a mim busqueis. Fim. ( 1 ) 

que não veja mais que mim^ 

O numero nove, que appareee também na fórmula 
de Marcello : <íNovem glândulas sorores» e que Sauvé 
encontrou ainda na tradição oral : 



Le bubon a neuf filies 

De neuf elles sont reduites à huit, etc. 



foi notado como um numero maravilhoso entre os 
Mogoes, por Palias. O poder dos números é análogo 
ao poder magico da palavra; deriva em primeiro 
logar do rigor do rito ou successao dos actos cultuaos, 
assim como a liturgia (de litus, a vara) é a norma 
pratica da execução d'esses actos. Quanto mais an- 
tiga é uma religião, tanto mais ella é cultual ; é isto 
também o que mais resiste, e o que permanece quer 
aa forma pr(Aibida de magia, quer na forma indifie- 
rente de superstição. Quando se esquecem os actos 
litúrgicos subsiste a sua enum&ração^ como um poder 
mysterioso da importância dos actos a que se allude. 
Desde porém que a allusão é que lhe conserva o 
perstigio, pelo estimulo das interpretações allegoricas 
os números passam a exprimir entidades divinas. 
O caracter esconjuratorio com que o numero nos ap- 
pareee, prova-nos a decadência de um culto substi- 
tuida Em um hymno do Atharvan-Veda (Brahma 15, 
no kanda v) conserva-se este perstigio do numero, 
referindo-se ás pragas : ^A uma e di dez se afastarão 
de mim, oh herva da saúde i Faze para meu bem os 



(i) Processo publicado no f. m do PosUmsmo. 



144 UYRO II, CAPITULO II 

doces madhus, oh tu que nasces segundo o rita e tens 
a natureza do rita : 

«as duas e as vinte se afastarão de mim. . . etc. 

«as trez e as trinta 

«as quatro e as quarenta, 

«as cinco e as cincoenta, 

«as seis e as sessenta, 

•AS sete e sls setenta, 

«as outo e as outenta, • . • . 

«as nove e as noventa, 

«as dez e as cem, 

«as cem e as mil » (i) 

Depois d'este hymno segue-se outro com uma ordem 
numerai até às onze. Basta o simples facto de appa- 
recerem estes hymnos numéricos no Atharvaveda^ para 
se conhecer que elles pertencem a uma raça e civili- 
sação inferior, que não á arica, e sem cultura védica. (2) 

Belloguet cita um canto popular da Bretanha col- 
ligido por Villemarqué, com o titulo Arrannu, (ou as 
series) no qual se enumeram até doze, as cousas que 
se fixam por cada numero : «Elle lhe ensina, nos ter- 
mos os mais concisos a serie das cousas de que a 
recordação se liga a cada numero, desde um até doze, 
uma só para o primeiro, duas para o segundo, trez 
para o terceiro, e assim por diante, fazendo repetir 
ao que apprende a cada vez todas as series dos nú- 
meros precedentes. Este exercício devia sem duvida, 

(1) Abreu, Contribuições mythologicas, p. 2. 

(â) O caracter esconjuratorio do Atharvaveda distin^e-o 
completamente do Rig-Veda, e muitas das suas cerimonias de 
imprecação pertencem aos Yratinas ou tribus occidentaes que 
se não submetteram á constituição sacerdotal brahmanica; 
em quanto à linguagem, como diz Weber, o Atharvaveda tem 
formas archaicas e populares, e pode considerar-se como um 
producto da assimilação do elemento negroide e raças inferio- 
res, como os Angas, os Maghadas e outros submettidos á so- 
ciedade brahmanica. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 145 

para conseguir o sea fim,— qae era o gravar na me- 
moria todas estas series successivas — fazer recome- 
çar a criança do numero doze a um, sem o que as 
series mais desenvolvidas, que eram as ultimas teriam 
sido repetidas menos vezes que as primeiras ou as 
mais fáceis. O filho branco do Druida assim ficava 
sabendo que o numero um era a morte, a necessidade 
que nenhuma outra eguala ; o numero dois a parelha 
de bois, etc. » A maior parte d'estas series tomaram-se 
para nós obscuros enigmas concernentes á mythologia 
bretã, à cosmogonia, á astronomia e a antigos feitos 
de guerra.» (1) Le Men nega a authenticidade d'este 
^anto das series, mas a forma poética que é o que 
DOS interessa tem uma existência popular como o pró- 
prio critico reconhece no canto do Gausperou ar raned; 
Belloguet acha um grande interesse n'este canto das 
series para mostrar como entre os Druidas, onde era 
prohibido o ensino pela escripta, se exercitava a 
memoria. 

A transição do sentido cosmogónica e sideral dos 
números, para a interpretação cabalística foi operada 
pelos rabbinos, como se vê no Sepher Haggadah, e 
o seu apparecimento entre os Judeus confirma a ori- 
gem, attendendo a que a Cabala se desenvolveu ao 
contacto dos cultos da Media na época babylonica e 
nas escholas doEgypto, d'onde passou pelos Gnósticos 
para os padres da Egreja. O uso ritualistico das 
orações numéricas acha-se no modo de contar para 
traz o dinheiro magico, e nas parlendas dos jogos 
infantis. (2) Os índices Expurgatorios do século xvi 
prohibem a Oração do Anjo Custodio; no processo 
de Anna Martins, acha-se inclusa esta Oração numé- 
rica, que acaba pelo triumpho dos treze raios solares 

(i) Eihnogénie gauloise, t. iii, p. 360. 
(2) Yid. vol. I, p. 311 d*esta obra. 

10 n 



146 LIVRO II, CAPITULO II 

sobre as trevas ou a sua personificação no diabo. Eis 
o precioso documento : 

Para lançar fora espíritos malignos : usava Ânna 
Martins <da reza do Anjo Custodio por ser muito 
eí&caz para lançar fora todos os achaques, espirites 
malignos, que ella lançava dos corpos obcessos, e 
dizia na seguinte forma : 

— Custodio, queres ser solto? 
EUe respon- 
dia : Em graça de Deus quero. 

— Dize-me Umj que é só Deus, amen : 
Dize-me Dois; que são as tábuas de Moysés : 
Dize-me Trez; as trez são os trez Patriarchas de Jacob; 
Dize-me as Quatro; que são os quatro Evangelistas^ 
Lucas, Marcos e Matheus. 

(Ainda que sejam quatro não se nomeam mais que trez,) 

Dize-me as Cinco, que são as cinco chagas 

De N. S. J. Ghristo. 

Dize-me as Seis, que são os seis cirios bentos 

8ue a Virgem accendeu 
nando o seu bento filho nasceu. 
Dize-me as Sete, que são os sete goivos 

Sue goivaram a Virgem Maria; 
ize-me Outo, que sao os outo Corpos santos 
Ou os outo corpos chrístãos que estão em Massarellos. 
Dize-me Nove, que são os nove anjos ; 
Dize-me Dez» que são os Dez Mandamentos ; 
Dize-me Onze, que são as Onze mil Virgens; 
Dize-me Doze, que são os Doze Apóstolos : 
Dize-me Treze, que são as treze varinhas do Sol, 
Que arrebentam ao diabo do pequeno até ao maior. 

crepetindo ti^ez vezes esta Oração, sabiam os espirites 
das pessoas que os tinham, sem demora alguma, por 
que haviam de sahir ou arrebentar.» (1) 
Na Oração da EstreUa fermosa, também se citam 

(1) Sentença, no Instituto de Coimbra, t. ix, p. 383. 



SUPERSi;fÇÕES POPULARES PORIUGUEZÀS 147 

nove varas de zimbro, com o mesmo sentido dos raios 
Imninosos. A Oração de S. Custodio, (versão de Ou- 
rilhe) termina : 

Doze raios tem o Sol, 
Doze raios tem a Lua ; 
Rebenta d'ahi Diabo, 
Que esta alma não é tua. (i) 

Em uma versão que colligimos no Minho (Airão) 
ha muitas reminiscências da fórmula do século xvu : 

«Custodio 1 salva; queres salvar? 

— Sim senhor, quero. 
«Dize-me qual é a uma ? 

— A umaj é o Sol mais claro que a Lua. 
«Dize-me quantas são as duasr 

— As diuis são as Tabletinhas 
De Maria Mousínha, 

Que correu a Santa Casa de Jerusalém, 

Onde Ghristo morreu por nós ; amen. 

«As trez f — São os trez Prophetas. 

«As quatro f — São os quatro Avangelístas.^ 

«As cinco ?— São as cinco Chagas. 

«As seis ? — São os seis Scribentes (Cirios bentos,) 

«As sete f — São os sete Sacramentos. 

«As outo ?— São os outo Corpos Santos. 

«As nove ?— São os nove Goivos, 

«As dez ?— São os dez Mandamentos. 

«As onze ? — São as Onze mil Vircens. 

«As doze ?— São os doze Appostolos.» 

— Doze raios tem o Sol, 

O Sol mais claro que a Lua ; 

Arrebenta tu diabo 

Que a minha alma não é tua. 

Á medida que se avança uma unidade é preciso 

(i) Ap. Romania, Viu, p. 272. No Almanach de Lembranças 

Sara lSo9, p. 286, lé-se : ^Sete raios leva o Sol.»— Na versão 
a Feira, sao Treze raios. 



148 LIVRO 11, CAPITULO II 

repetir todas as outras já ditas, com a maior corre- 
cção possivel (ditas e repenicadoà ou retomadas) sob 
pena de cabir em poder do diabo, e a pessoa que se 
chamar Custodio tem obrigação de repetir as doze 
palavras todas as vezes que disserem diante d'elle 
qualquer verso d'esta fórmula numérica. Vemos aqui 
aflflrmado o poder do Sol; vamos pélas diversas su- 
perstições desconnexas recompor o systema cultual, 
representado nas fórmulas das onze para a meia noite, 
e das onze para o meio dia e pino do meio dia, das 
boras magicas (Sol que desponta, e Sol que decima). 

No processo de Luiz de la Penha, de 1626, o Sol 
liga-se á ideia de riqueza: <e lhe dixe mais que mo- 
rasse da parte donde nacesse o sol, que teria muitos 
cruzados.» (articulado 6.*^) O Entreaberto, ou entidade 
demoniaca, que apparece à hora do meio dia, desco- 
bre um thezouro àquelle a quem se mostra. O the- 
zouro representa o Sol escondido pelas trevas da 
noite, ou pelo frio do inverno. Esta concepção my- 
thica tem o duplo sentido do solsticio diurno e annual. 
É á forma diurna que pertencem varias superstições 
das horas abertas, dos lobishomens, do canto do gaUo, 
assim como á forma annual pertencem quasi todas 
as praticas da noite do Natal e do S. João. 

Analysemos a crença demoniaca da hora do meio 
dia: cNem só a meia noite é a hora tremenda dos 
agouros ; á luz do sol, no pino do meio dia, é que 
apparecem os Encantados (ilha de S. Miguel) que 
sabem onde estão enterrados os thezouros. O Encan- 
todo mostra-se de repente, e traz as costas em uma 
braza viva ; por isso procura encobrir esse tremendo 
defeito ; dirige-se ao individuo que tem a fortuna de 
o encontrar, e diz-lbe : Está aqui um thezouro. Cava 
aqui ! Se o individuo lhe obedece, está perdido, por- 
que é logo ali morto e enterrado ; a sua segurança 
está em responder sempre a todas as suas intimações : 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 149 

Cava tu ! Cava tu t Por fim o Encantado obedece e 
descobre o dinheiro que está enterrado e some-se. 
Para que este dinheiro se não converta em carvão, 
o que teve a dita de o encontrar tem de se ferir e 
lançar trez pingos de sangue sobre o thezouro, por- 
que só assim é que elle se torna uma realidade. O 
Encantado é também conl)ecido pelo nome de Entre- 
aberto.i^ {{) Consiglieri Pedroso, no seu estudo sobre 
as Tradições populares portuguezas (i) traz importantes 
factos sobre a generalidade d'esta entidade demoníaca 
em varias provindas de Portugal, mas não a relacionou 
com o caracter magico da hora do meio dia. Compen- 
diaremos alguns d'esses factos. Em Lisboa é crença, 
que no dia de S. Bartholomeu, quando o diabo anda 
á solta, é especialmente ao meio dia; em Villa Nova 
de Anços, é ao meio dia que se dão as apparições 
diabólicas; no Porto chamam-se ás horas aziagas, 
especialmente a do meio dia, horas abertas; em Bra- 
gança a hora do meio dia é amaldiçoada ; no Algarve, 
no sitio do Cerro vermelho, é á hora do meio dia que 
apparece o génio maléfico denominado o Homem das 
sete dentaduras. Em geral, todas as Orações populares 
portuguezas terminam com a fórmula : 

Nem de noite, nem de dia 
Nem ao pino do meio dia. . . 

É evidentemente o solsticio diurno das crenças gau- 
lezas, como diz Belloguet. 

(1) No jornal A Harpa, p. 63. As horas abertas personifica- 
ram-se nas Entreabertas, como consta da Visita do Vigário 
Simão da Gosta Rebello, na Effreja de S. Pedro, de Ponta Del- 
gada, em 30 de Março de 1696 : «Ha n*esta ilha umas mulhe- 
res a que chamam Entreabertas, que por arte diabólica afflr- 
mam que as almas vem da outra vida a esta para atormentar 
os enfermos...» Almanach do Arch. açoriano para 1868. 

(2) Positivismo, t. IV, p. 39 e seg. 



ISO LIVRO II, CAPIIULO II 

Pelo processo de Luiz de la Penha, as cartas de 
tocar, para terem eíHcacia só deviam ser empregadas 
«em sexta feira, depois do meio dia^ e á segunda feira 
antes qm o sol saia.í> (Libello, articulado 17.°) A hora 
magica do meio dia, apparece citada entre os hebreus 
em um psalmo (90, n. 6). Escreve o padre Manuel 
Consciência sobre esta referencia : «Os auctores dis- 
serany que havia duas castas de demónios, uns que 
tentam de noite, e que se chamavam na lingua hebrea 
Keteb, e outros que tentam e damniãcam ao meio dia, 
chamados Deher. D'estes últimos parece seria aquelle, 
de que conta Gregório Tolosano (liv. 2, Republ., c. 20) 
que na Rússia oriental ao tempo de se colher o trigo, 
ao rmio dm era visto em habito de viuva chorosa, e 
quebrava os braços dos segadores, que se não pros- 
travam de braços em terra para o venerarem tanto 
que apparecia. O Escholiaste grego de Aristophanes 
à comedia Ranae, diz que os demónios meridianos sao 
aquelles a que os gregos chamam Empuza, isto é, 
demónios que para atemorisarem tomam varias formas 
de boi, de leão, de serpente, etc.» (1) 

A superstição pela sua universalidade é a decom- 
posição de um mytho religioso commum aos povos 
àricos ; citam-na entre os gregos Luciano, Theocrito, 
Calimacho e Philostrato; entre os Romanos, Lucano; 
na Edade media, Gervásio de Tilbury, diz que a ca- 
çada phantaslica do rei Arthur era circa horam meri- 
dianafHj superstição commum aos povos germânicos, 
slavos e bohemios. Walter Scott diz que na Escossia 
é considerada magica a hora do meio dia. Na penin- 
siila hispânica também se acha descripto o Demónio 
meridiano na obra de Rodrigo Caro, Dias geniales ò 
ludricos, escripta por 1625. (2) Relacionemos a quasi 

(1) Academia universal de varia erudição, p. 90. 

(2) Ap. Rodrigues Marín, Cantos pop, espanoles, 1. 1, p. 30. 



r 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 151 

universalidade d'esta crença com o mytbo solar, com- 
provando-a com o seu complemento do poder magico 
da meia noite^ ou o solsticio nocturno. 

O mytbo solar do Deus que adoece e succumbe para 
tornar a resuscitar, repellindo as trevas que o assalta- 
ram e envolveram, apresenta esta dupla acQão diurna^ 
e annual, perfeitamente estudada pelos principaes my- 
tbographos europeus. Nas fes^s da Egreja catbolica, 
como o prova Emile Burnouf, o rito cbristSo apresenta 
os dois aspectos, quotidiano, symbolisado na missa, 
e annualy representado na pascboa. Assim como a 
parte annual do mytbo solar subsiste em numerosas 
festas populares, como descreveremos no capitulo 
seguinte, a parte diurna é a que explica a supersti- 
ção do povo pela hora do meio dia. É ao pino do mm 
dia que o sol declina e começa a descer para o bori- 
sonte, a perder o seu esplendor, até que a sua luz 
arrefece, e as trevas da noite o envolvem encbendo 
o espaço ; é portanto esse o momento critico em que 
as trevas manifestam o seu poder, e d'abi o caracter 
maléfico d'essa bora, cujo influxo crescente se inter- 
rompe ao dar da meia noite, em que o sol avança 
para o nosso borisonte. Em Yilla Nova d'Anços crè-se 
que : <Á bora do meio dia encontram pelas estradas, 
nas encruzilbadas, umas cousas más, que se cbamam 
rosemunhos (redemoinbos). O resemurâu) é como uma 
poeirada : leva páos, pedras, e se apanbá alguma 
pessoa no meio, kva-a também pelos ares, mas se a 
pessoa trouxer umas contas na algibeira e as atirar 
ã tal cousa má, nao Ibe acontece mal algum.» (1) A 
pbrase com que se exprime em Bragança o desgra- 
çado : «Parece que tua mãe te pariu na amaldiçoada 
hora do meio dia,» revela-nos que a crença do rese- 
munho, ali conbecida pelo nome do Secular das nu- 

(1) Pedroso, Positivismo, t. iv, p. 43. 



152 LIVRO II, CAPITULO H 

vens ou Escolarão das nuvens, em tudo similbantes á 
crença do Caçador selvagem^ o infemalis Venator^ que 
cae das nuvens na lenda allemS, é a caça circa horam 
meridianam. (1) Na Galliza chama-se Escoler ao nin- 
gromante. Além da entidade demoníaca meridiana do 
Homem das sete dentaduras (Cerro vermelho, Fuzeta): 
«Em todo o Algarve se crê na appariç5o de medos 
ao meio dia^ á meia noite, ou ainda depois do toque 
das ave-marias.» (2) «O Pretinho do barrete encarnada 
(Lagoa e Estombar), apparece sempre á hora de maior 
calma. É uma entidade graciosa, que faz figas e 
pirraças ás crianças para as enraivecer.» 

Na tradição popular portugueza as feiticeiras atra- 
vessam o oceano em uma casquinha de ovo ; mas se 
ao dar a meia noite ainda estão no mar, afundam-se. (3) 
Á meia noite começa o Sol a subir o nosso horisonte, 
conforme o eflfeito visual, e portanto a repellir levando 
de vencida as trevas ; tal é a concepção mythica do 
phenomeno solar, em que o influxo maligno começa 
ao meio dia em pino e termina das onze para a meia 
noite ou ao dar da meia noite. Para usar a carta de 
tocar, ensina o feiticeiro Luiz de la Penha : «sairá a 
pessoa que d'ella usar á meia noite fora da cidade ou 
villa, espaço de meia légua...» (articulado 20) É á meia 
noite, que nasce Christo no presépio com todos os 
elementos da personificação solar: 

Em dezembro, vinte e cinco Um anjo ia no ár 
Meio da noite chegado, A dizer : Elle é já nado. 



II! 



(i) Positivismo^ ib,, p. 414. 

2) Reis Dâmaso, Annuario das Tradições port.y p. 6i. 
Lé-se em Serrão de Castro, Ratos da InqvdsiçãOj p. i68: 

Dizem que uma feiticeira 
em mna noite passou 
á India^ e de la tomou 
n*uma canastra ligeira. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 153 

Meia noite dada, Lo gaUo cantando 

Meia noite em pino, Chorou o Menino. (1) 

A esta crença liga-se ò canto do gaUOy cnjo poder 
sobre as entidades maléficas das trevas é celebrado 
nos bymnos da Egreja, (2) e nos cantos populares : 

Na noite d*aquelle dia, 
Antes do gaUo cantar ^ 
Trez vezes negaste Ghristo, 
Trez vezes a porfiar- (3) 

Gil Vicente no Atuo das FadaSj allude a este poder 
magico : «Mas gailo negro suro, cantou no meu mon- 
turo,» e no Avesta esse canto afugenta os demónios 
e faz surgir a aurora. Nas Orações populares portu- 
guezas as horas venturosas (os nossos emboras) annun- 
ciam-se pelo canto do gallo : 

Já os gallos cantam, cantam. 
Já os anjinhos se alevantam... 

Rom, geral, 

E na Oração do Peregrino^ a relaçSo mythica do 
gallo com a luz é evidente, no verso : c Canta o gallOj 
abre a luz.i^ 

Na Confissão de umas Bruxas, manuscripto attri- 



(i) Romanceiro do Arch. da Madeira, p. 3 e 4. 

(2) Lé-se em um hymno de Prudencio : 

Fenint vagantes daemones, 
Laetos tenebri noctium, 
GaUo canente exterritos 
Sparsim timere et cedere. 

(3) Rom. do Arch, da Madeira, p. 45. 



154 LIVRO U, CAPITULO li 

buido a 1559| da collecção de Moreira, vem indicado 
o facto de quebrarem todos os encantos e poderes 
malévolos ao cantar do gaUo da meia noite: «£ estando 
n'estes desenfadamentos e folgares, cantava no campo 
um gallô preto, que estrugia as orelhas, que devia ser 
algum demónio, que sempre cantava á meia noite a 
modo de gallo. E logo n'um momento se desfez a festa 
e o folgar e todos os demónios desapparecerams...T^ 
Garrett eminentemente possuído do sentimento poé- 
tico das tradições populares, descreve esta situação 
magica do poder do canto do gallo ao dar da meia 
noite, no poema D. Branca: 

Já indo ás dozias em casquinha d'ovo 
A índia de passeio n*ama noite. . . 
E, ai, se o gallo carUou, que á fatal hora 
Incantos quebram e o poder lhe acaba. 

(Gant. m, 3.) 

E o aallo preto annmiciou a hora 
Fatal a encantamentos. . . • 

(Ib., c. IX, 5.) 

É por effeito da generalidade d'esta crença, pro- 
vada por Liebrecbt, que quando a gallinha canta como 
gallo é um agouro funestíssimo. (1) 

Ora, assim como á meia noite, quando o sol se eleva 

(i) «Existe uma superstição muito espalhada na Itália, AUe- 
manha e na Rússia, segundo a qual uma gallinha que se põe 
a cantar como um gallo é de muitissimo máo agouro, e crô-se 
geralmente que é preciso matal-a, se se náo quer morrer antes 
d'ella. A mesma crença existe na Pérsia. . . » Gubematis, Myti^. 
zoologique, t. u, p. 299.— Um anexim portuguez diz : 

Gallinha que canta como gallo 
Põe o dono a cavallo. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 15S 

no nosso horisonte, acabam os poderes malévolos da 
escuridão, também ao pino do meio dia é que predo- 
minam as influencias sinistras das trevas. Esta é a 
concepção primordial do solsticio diurno sobre a qual 
a humanidade antiga tanto mythiíicou. A representa- 
ção d' esses poderes malévolos é puramente accidental, 
variando com as diversas fusões de raças, syncretismo 
de civilisações, decadência de religiões, apparecendo 
n'uns povos o mytho na sua simplicidade, n'outros a 
sua decadência demoníaca, n'outros a reminiscência 
automática da superstição, e n'outros a sua elaboração 
em lendas, contos e em anedoctas pessoaes já inintel- 
ligiveis. O Entreaberto ou Encantado, o Homem das 
sete dentaduraSy o Rosemunho^ o Secular das Nuvens, 
e o Pretinho de barrete encarnado^ só podem ser com- 
prehendidos na forma demoniaca pela sua relação com 
o Sol que declina. Vejamos agora, depois do estudo 
do poder magico do canto do gallo, as entidades de- 
moníacas que se relacionam com o Sol que surge no 
horisonte. É em volta doestas concepções mythicas 
fundamentais, que se devem agrupar todos os ele- 
mentos fragmentados das superstições populares, sob 
pena das compilações as mais minuciosas tornarem-se 
inintelllgentes. 

A superstição do Lobishomem^ que termina as suas 
vacações ao dar da meia noite, é a principal das enti- 
dades do solsticio nocturno, commum a toda a Europa. 
Herculano descreve-o : «Os lobis-homens são aquelles 
que têm o fado ou sina de se despirem de noite no 
meio de qualquer caminho, principalmente encruzi- 
lhada, darem cinco voltas espojando-se no chão em 
logar onde se espojasse algum animal, e em virtude 
d isso transforma rem-se na figura do animal aí pre- 
espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, 
e só anda cumprindo a sua sina, no que tem uma 
cenreira mui galante, porque não passam por caminho 



156 ' LIYRO II, CAPITULO U 

OU ma onde haja luzes, dando grandes assopros^ e 
assobios para que Ih' as apaguem... it (1) 

Dos Lóbishomens, nas crenças populares das ilhas 
dos Açores, descrevemos : «Se uma mulher tem sete 
filhos a seguir, o mais novo de todos fica lobishomem, 
isto é, tem de correr o seu fado : por isso logo que 
é noite fechada, elle transforma-se em porco, em burro, 
ou em qualquer outro animal, e só volta á sua forma 
natural depois de uma vacaçao forçada até ao despon- 
tar da aurora. Se durante a vacaçao é encontrado por 
alguém, se este o ferir e lhe fizer sangue, immedia- 
tamente volta á sua forma natural ; sabendo isto, o 
Lobishomem procura os individuos no seu caminho 
para o ferirem, e os que o encontram montam-lhe em 
ciiria, e dão-lhe ordem para os transportarem onde 
querem.» Esta circumstancia do caracter magico do 
septimo fUho que se torna lobishomem, é vulgar no 
Porto e na ilha de S. Thiago de Cabo Verde (a hora, 
que nao pertence nem á terça,^ nem á sexta, nem a 
noa, da divisão antiga.) Em Lamego basta o poder de 
certas palavras ditas por uma bruxa (a velha, perso- 
nificação da noite) para a criança ficar lobishomem; (2) 
a vacaçao do lobishomem, é entre as onze e a meia 
noite em S. Christovam de Mafamude e outros pontos 
de Portugal ; a luz encommoda-o e enfurece-o : «Em 
Villa Nova d'Anços, crê-se que o lobishomem quando 
vê luz n'uma casa, começa aos pinotes á porta para 
entrar, e se consegue arrombai- a agarra na lâmpada 
ou candieiro e foge com elle deixando todos ás escu- 
ras.» (3) A superstição do Lobishomem acha-se em 
França, e Bonnafoux descreve-a, dizendo que os que 



(1) Herculano, Pan., t. iv, p. 164. Comprova o vestígio my- 
thico do poder das trevas contra a luz. 

(2) Pedroso, Positivismo, t. iti, p. 245, e 246. 

(3) Ibitkm, p. 249. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 157 

seguem este fadário vão a um dado logar vestir uma 
peUe de lobo. Em Portugal temos ainda o adagio: cQuem 
não quer ser lobo n3o lhe veste apeUe.^ É esta a forma 
simples por onde se recompõe o mytho commum a 
todos os povos indo-europeus. (1) É por meio da peUe 
de lobOs que a aurora se transforma em noite ; (2) e 
n'uma metapbora espontânea, Lafontaine ainda diz em 
uma fabula : «Ce n'etait pas un Imp^ ce n'etait que 
Vombre.i^ 

Nas tradições scandinavas é que o lobo conserva 
completo os seus caracteres mythicos : «Se Gunnar (o 
heroe solar) perde a vida, o lobo torna-se o senhor do 
tbezouro e da herança de Nifl... (importa notar que 
o Encantado ou Entreaberto, ao pino do meio dia re- 
vela um thezouro.) — Todas estas particularidades, 
dependendo da lenda do lobo no Edda, concorrem a 
apresentar-nos este animal como um monstro tenebroso. 
A noite e o inverno são as épocas do lobo, de que se 
trata no Yoluspa ; os deuses, que segundo a tradição 
germânica entram nas pelles dos lobos, representam o 
sol occultando-se na noite ou a estação nevosa do 
inverno (d'aqui o lobo branco demoníaco, que segundo 
um conto russo se acha no meio de sete lobos negros.) 
Quando o heroe solar se torna lobo, este lobo é de 
uma natureza divina ; quando, ao contrario, o lobo 
está sob a sua própria forma de demónio, é de uma 
natureza inteiramente maligna. O condemnado, o cri- 
minoso que se proscrevia, o bandido, o uUugatm ou 
outlawj levava, dizia-se, na Edade media uma capiu 
lupinum (em inglez vndfesheofod; em francez teste 



(i) Pedroso compilou uma abmidantíssima noticia sobre o 
Lobishomem^ aproximando-o das superstições slavas e allemãs 
colligidas por AíTanasiev e W. Hertz, mas não descobriu a sua 
relação com o mytho solar da meia noite. 

(2) Gubematis, M\fth. zoologique, t. u, p. i5d. 



158 LIVRO II, CAPITULO 11 

leue.)í^ (1) Â pelle mythica tornou-se um objecto cnl* 
tual, vindo depois a ser um symbolo degradante: 
entre os Sabinos, os sacerdotes do deus Sorano, divin- 
dade infernal representada como lobo, vestiam-se com 
essa pelle, e eram chamados hirpi (em sabino, lobo.) (2) 
Os cultos mágicos são geralmente orgiasticos, e isto 
explica como certas populações, os Neures e os Arca- 
dios se tomavam geralmente lobos, significando que 
se entregavam á orgia nocturna do culto hirpino. 
D'aqui também a confusão do bandido comparado ao 
lobo, o WarguSj e affrontado com o symbolo da sua 
proscripção, levando figurada uma cabeça de lobo. 

Por tempo os costumes e as crenças reagem sobre 
as concep(^es, isto é, a realidade objectiva impõe-se 
ás vezes á subjectividade mental quando ha um des- 
arranjo pathologico do cérebro ; a lycantropia, é esta 
forma especial de hallucinação, que se revelou mais 
intensa à medida que as condemnações da Egreja 
perseguiram as crenças polytheistas que persistiam 
na Edade media. Ha outras divindades demoniacas da 
noite ; em Estombar e Lagoa (Algarve) apparece a 
Vdha da égua branca. A vdha é evidentemente a 
personificação da noite : «Apparece nas noites de luar 
montada n'uma égua branca, fazendo um banilho 
infernal pelos campos, e soltando os bois que rumi- 
nam debaixo das alpenduradas. Todo o barulho é feito 
com tachos e panellas de arame. — É a velha da égua 
branca^ o terror da meia noite em pino.» (3) «Entre 
outras divindades maléficas, o Homem do chapéo de 
ferro, sobresàe como o mais terrível. Apparece logo 
que dá meia noite e o gallo canta, á beira das estra- 

(1) Gubematis, Myth, zooloqique, t u, p. iS7. 

(2) Nas festâs de M, ou o natal dos germanos, vestiam-se 
estes com pelles de feras com que vagueavam. Maury, Fées, 58. 

(3) Rei Dâmaso, no Annuario das Tradições, p. oi. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 159 

das, por baixo das oliveiras, das figueiras on junto 
ás fontes. Vagueia até á terça noite, umas vezes acom- 
panhado de um porco que grunhe, outras de um grande 
veado — ou ainda de um gallo...» (1) 

A este mytho solar pertence ainda a superstição de 
lançar varas para descobrir aver^ prohibida no alvará 
de D. João i e na Ordenação manuelina. Esses haveres 
ou thezouro enterrado, é o sol, guardado por mouros 
(para o povo, negros) ou por velhas (a noite) : € Cre- 
ram nossos avós, que apressados os Mouros a sahir 
de Portugal, enterraram seus thezouros ; hoje rondam 
seus manes pelos jazigos d'aquellas talhas, em figuras 
de vdhas^ outras vezes de douradas cobras, que com 
assobios e gaifonas engodam os intrépidos a certas 
condescendências, preço do thezouro que promettem 
descobrir-lhe. » (2) A vara, antes de ser empregada 
para descobrir thezouros, era destinada a fins divina- 
tórios em geral, ou a varinha de condão, dos contos 
populares. Diz Baudry, resumindo a olH'a capital de 
Kuhn sobre os mythos do fogo: «a vara provindç 
de uma arvore produzida pelo raio, participa das suas 
propriedades ; ora, é com o raio que Indra abre e 
quebra as nuvens, que como os rochedos de uma 
caverna, retém prisioneiras as vacas celestes. Estas, 
consideradas também como thezouros que occultava 
a nuvem, personificam simplesmente os raios do sol, 
chamados raios de ouro em todas as litter aturas indo- 
européas, e a chuva, que fazendo germinar as pasta- 
gens, alimenta os gados {pecunia de pecm) que são 
a riqueza primordial.» (3) Kuhn demonstra como das 
plantas que são consideradas como incarnação do raio. 



(i) Annuario das TradiçÕeSj p. 62. 

(2) FiUnto Elisio, Obras, t. \ p. 291. 

(3) Revue germamque, t xv, p. i5. A vara das riquezas é 
como uma forquilha, e por isso é com uma cacheira, caiaimha^ 



160 UYRO II, CAPITULO II 

é que sSo feitas as varas, que já Arriano e Cícero 
citaram. A adivinhação pelas varas ou bellomancia, 
como diz Bergmann: cpraticava-se por meio de yarí- 
nhãs feitas de tamarisco e ootras arvores consagradas 
ao sol.» (1) No Minho empregam-se as varas para 
descobrir thezoaros. São duas as varas, do tamanho 
de dois decimetros cada uma ; são cortadas de um 
arbusto chamado azevinho, no dia de S. João, no mo- 
mento em que o sol deixa vér os primeiros raios. Em 
quanto se cortam, lé-se o officío de S. Gypriano. 
Depois as duas varinhas são perfuradas extraindo^ 
se-lhes a medulla, e enchendo-as de mercúrio a que o 
povo chama azougue ; as extremidades da vara são 
tapadas com couro á maneira de dedaes, e depois 
revestidas as varas com fitas entrelaçadas á maneira ' 
dos chicotes. Assim preparadas servem indefinida- 
mente as varas para descobrir thezouros enterrados. 
O processo do descobrimento é longo por causa do 
ritual : vae-se ao alvorecer ao logar onde se suspeita 
que está o thezouro, com um padre, que lè o livro de 

âae nas increpações populares é esconjurado o nevoeiro: ÇL 
e Yasconcellos, TraaiçõeSj p. 49.) 

Foge, foge nevoeiro, Garujeiro, canyeiro. 

Para traz d'aquelle outeiro^ Põe-te atraz d'a!quelle outeiro. 

Que lá vem o S. Romão Que lá está teu companheiro 

Com uma cacheira na mão . . . Com a cajatinha derrabada . . . 

(Melres.) (Mondrões.) 

Navoeiro, navoeiro, 
Por traz do outeiro 
Lá está o João Ribeiro 
Cuma saca de dinheiro. 



(i) Les Gelei, p. 296. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 161 

S. Cypríano; (1) o dono das varas colloca-as horison- 
talmente e em equilíbrio sobre os dedos polegares, 
e se as varas, ao ir caminhando, oscillam para a terra, 
é porque ha aU metal. Então traça-se no chão um 
circulo, mettem-se dentro d'elle todos os que procu- 
ram o thezouro, e em quanto o padre vae lendo o 
officio de S. Gypriano, elles cavam no chão até acha- 
rem o thezouro.» (2) 

As ccbras douradas ou serpentes dos thezouros, assim 
como as donzellas ou Mouras encantadas, apresentam 
mais claramente o seu caracter nos mythos do Sol 
estival e hibernal. Nos symbolos da Procissão do Corpo 
de Deus, no S. Jorge, séquito de cavallos e pretos, 
é onde se evidencia a concepção mythica, subsistindo 
á custa de interpretações históricas. Fazia-se a Pro- 
cissão a titulo de commemorar a batalha de Aljubar- 
rota, e a de Toro e Çamora. D. João ii decretou em 
um Regimento de 1482 a ordem por que se encorpo- 
rariam as dififerentes classes e officios n'esse préstito, 
e quaes os symbolos e elementos pittorescos que lhe 
pertenciam, os quaes se acham também no Meio dia 
da França, tendo alguns decahido em superstições 
populares. Do citado Regimento transcreveremos algu- 

(1) No processo do christão velho Pedro Affonso, lé-se : 
«Tinha um livro intitulado de S. Cypiião, e n*elle se diziam as 
curas que se haviam de fazer. — Nao curava senão ao domingo, 
dizendo que assim lh'o mandava o livro de S. Cyprião. Acon- 
teceu que uma vez lhe achou este livro um clérigo, e vendo 
as torpezas e parvoíces que n'e]le estavam escríptas, o rom- 
peu e botou debaixo dos seus pés, e o pisou com elles, e por 
fazer isto, fez com que os diabos tomassem o clérigo, e o levas- 
sem a um monte onde estava um mato e o trataram ali muito 
mal ...» 

(2) Contado por testemunha ocular, como se praticou pró- 
ximo de Braga em 1874. Da varinha de condão falia Bento 
Pereira : «A varinha de condão, ou vara de avdeyra, conforme 
se inclina para a parte onde ha ouro, assim mostra os thez9u- 
ros escondidos nos montes e minas.» Anaceph,, p. 118(sec xvn.) 

11 ^ 



162 LtvhO tí> dAraruLO H 

mas passagens èò rotetligiveis díatite Ak cotNsepc3o 
mythicâ : cOs âlfayates da outra banda, e trítôef9o á 
Serpe e seus castellos pintados da sua divisa com peih 
d?ies e bandeiras.» E mais: «Os Homeuâ d^artuas 
atraz, estes todos bem armados sem nenhuma òober^ 
tufa, e com as espadas nuas nas mãos, t tevatSò 
S. hrge mui bm armado com um page e ittna Bm- 
zdla, para maior o Drago.3 (1) Ha aqui um fèstadis 
crenças primitivas dos povos getas e scandinâivos, 
n'esta hicta de S. lorge com o DragSo, ou do Deus 
solar com a Serpente symbolisando as aguas agitadas 
do oceano. Diz Bergmann: «como os Dragões em 
geral passavam por ànimaes fascinadores, e que à 
Serpente do Oceano se defendia contra o D^ do 
Sol por meio de magia, esta Serpente tevt também 
o nome de Pascinador solar. Gomo alguns dbs attft- 
butos do Deus do Sol, entre outros o de tiAnigo ou 
Adversário do Fascinador solar, passaram para Thor, 
este Deius é na mytfaologia norrica, o grande Inimigo 
da Serpente do mar. Nas lendas da Edade media a^ 
cheias áoi rios ou as inundações embaraçadas por 
certos Santos que foram substituidos ao Sol^ também 
foram symboKsadas por Serpentes ou Dragões repre- 
sentados como sut^ugados ou vencidos por estes San- 
tos. Entre os Dragões symbolicos nota-se por etemplo, 
a Chair saiée, de Troyes, o Dragon de Saint Mareei, 
6m Paris> a GargouMe de Saint Rmuam, tm tUmeà^, 
os quaes s3o symbolos das inundações do Sena. Taes 
S3o a Kra/uUa em Reims, sobre o Yesle, o Dtagon de 
Saint Bienhemé^ em Yeudome sobre o Loire, a Qranàe 
GuÊiuk^ 0U a Bonne Samie Vermim em PoitierSi na 
confluente do Glain e da Boime, a GrouUk em lletis 
sobre o Mozelle, e a Tarasque em tarascoâ sobre o 
Rbone.» (2) D'este emblema d« Serpente, empre^ftdo 

(1) Nos Annaes das Sciendas e das Lettras, t l p. 730. 

(2) Le$ Getes, p. 153. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTrUGUEZAS 163 

M proeisslo do Corpus^ (d'0Dde o ditado Fetto como 
a Serpe) se deriva a devoção do Lagarto da Penha 
(Lisboa) do qaal àh o dr. Ribeiro Guimarães, depois 
de transerever de um folheto as suas virtudes medi- 
eiiiaes contra sezões e febres : cO caso é que o Lagarto 
da Penha ainda lá leva gente : tem resistido á acçSo 
do tempo esta devota basbaquice.» (1) 

Âkida hoje os poderes do Estado acompanham offi- 
eialDMRte a procissão de S. Jorge, levando a imagem 
s^re um cavallo, e acompanhada de um séquito de 
cavallos com fitas, um pagem de lança, e pretos, eoino 
86 o mytho estivesse no seu fervor cultual. S. Jtorge 
é na realidade uma forma christianisada de — cindra, 
Yich&u, Ásura-Mazda, Feridun, ApoRo^ Hercules, Ca- 
dmo, Jasoo, Sigurd, e muitos outros deuses e heroes 
celebrados por terem morto a Serpente. » (2) A DonzeUa 
HbeTtada do Drago, segundo o referido Regimento^ 
e(nnpleta este mytho conservado bíerattcamente ; diz 
Gubernatis: cas aguas e as nuvens pluviosas, que sao 
as esposas monstruosas dos demónios em quanto o 
monstro as guarda nas trevas, convertem-se em espo- 
sas radiosas dos deuses quando são libertadas. O 
xnesHK) se pôde dizer da Aurora, retida em captiveiro 
pelo mâostro obscuro ou húmido da noite ou da esta- 
ção estival presa no reino do inverno ; em quanto uma 
e outra estão no poder do demónio tenebroso, ellas 
são negras e monstruosas e vivem com elle no reino 
infernal ; mas depois do resgate, ellas tornam-se Don- 
zeUas formosas, de um brilho deslumbrante.» (3) Os 
pretos do estado de S. Jorge (Lisboa) são o symbolo 
das nuvens negras e chuvosas que cercam a Serpente 
doiuvemo, como o nota Gubernatis. No sul da França 

(1) Summ, de Varia Historia, 1. 1, p. 218.— Gubernatis, Myth. 
zeoloqigue, t. ii, p. 418, fala do mytho do Lagarto. 

(2) Gubernatis, M^- zooloffique, t. ii, p. 415. 

(3) Idem, ib,, p. 418. 



164 LIVRO II, CAPITULO II 

ha uma cantiga das Fadas do nevoeiro, em que é evi- 
dente o sentido mythico da Dama e a Serpe. (1) 

Outros elementos mythicos se encontram nos em- 
blemas e symbolos hieráticos da procissão do. Corpo 
de Deus; taes sao os Cavailinhos fuscos, ordenados 
no Regimento de 1482: cOs trapeiros, que s3o os 
mercadores de pano de linho, e os mercieiros todos 
com suas tochas accesas e castellos de estanho: e 
levarão sua bandeira e atabaque e dois cavaUinhos 
fuscos.i^ (2) No Regimento da Gamara de Coimbra para 
a Procissão de Corpus, de 1517, os cordoeiros, albar- 
deiros, odreiros e tintureiros levam quatro cavailinhos 
fuscos, bem feitos e bem pintados.» £ no Regimento 
da Camará do Porto para a mesma Procissão, em 
1621, os celleiros, esteireiros e correeiros irão com 
os cavailinhos e Anjo armado no meio. (3) O emblema 
dos cavailinhos fuscos não pertencia a uma classe 
especial. D. Francisco Manuel de Mello refere-se a este 

(1) Transcrevemol-a da HisL de France, (t. viii, p. 329,) de 
Henri Martin : 

Ay vist una Fantína Hei visto a Infantina 

Que stendava lá mount Que estendia no monte 

Sa cotta neblousina Sua cota de neblina 

Al' broué de Bariound. No píncaro do Bríonde. 

Una Serpe la seguia Uma Serpe a seguia 

De couleur d'arc en cel, Da côr do arco da velha, 

Et sú di roca vénia E por sobre a roca ia 

En cima dar Gastei. Dar em cima do castello. 

Gouma na fleur d*arbona Gomo a flor das giestas, 

Gouma neva dal col, Gomo a neve do colo, 

Pasava en la brona, Passava sobre as arestas 

Sen z'affermin' ar sol. Sem se firmar no solo. 

(2) Annaes das Sc, e das Lettras, 1. 1, p. 73i. 

f3) Ap. J. Pedro Ribeiro, Diss. chronol, t. iv, P. ii, p. 201 
e 226. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 165 

costume que se tornava divertimento popalar : tSem- 
pre está no cavallinho da alegria, mas vigie-se dos 
cavallinhos fuscos.,.. Onde enterra o senhor os que 
mata? Entre as unhas em vcUle de cavallinhos.^ (i) 
Evidentemente estas phrases, ainda populares, refe- 
rem-se á superstição mythica e germânica do cavallo : 
«Os Germanos, como os seus passados Getas e Scy- 
thas, tiravam prognósticos do relincho dos cavallos. 
A cidade (gavij em germ.) sustentava nos bosques e 
florestas cavallos brancos consagrados ao Sol, livres 
de todo o trabalho profano. Prendiam-se ao carro 
sagrado, e o ministro, rei ou chefe da cidade seguia-os 
para observar os seus rinchos.» (2) Em Lisboa o rei 
vae oficialmente na procissão de Corpus. Gil Vicente, 
no Auto das Fadas, cita ik o vai de cavallinhos , como 
um logar magico: «Cavalgo no meu cabrão — e vou 
a vai de Cavallinhos...» Na lenda semi-historica, 
S. Jorge apparecia nas batalhas montado em um cor 
voUo branco y no qual hade também vir da Ilha encan- 
tada o rei D. Sebastião. Na linguagem popular ainda 
hoje se diz fazer fosquinhas no sentido de tergeitos, 
saltos, tal como descreve Du Méril, fallando da «imi- 
tação do cavallo com as suas differentes posições, 
vivacidades, caracoleios e relinchos.» No Hyssope de 
Diniz, ha já a referencia a um divertimento vulgar : 

E por dar mais prazer aos convidados, 
De cavcUlrnhos fuscos, depois d*eile 
Na vaga sala, com soberba pompa 
O galante espectáculo prepara. 

Du Méril, na sua Historia da Comedia, aponta o 
symbolo do cavallo na Festa de Diou da Provença, 



(1) Feira dos Anexins, p. 160 e 161. 

(2) Bergmann, Les Geles, p. 301. 



186 LiVRO 11, CAPITULO II 

d'onâe esta procissão foi introduzida em Portugal uo 
tempo de D. Diniz. Porém a generalidade d'este sym- 
bolo hierático em toda a Europa confirma a soa origem 
mythica, aproximando-o da phrase vai de cavcUlinhos; 
as designações cavaUinhos fuscos (pintados, segundo 
o Regimento de 1517) e cavaUinhos fustes (1) ou ar- 
mados em páo, são já uma decadência por incompleta 
comprebensao, quando se comparam com as designa- 
ções estrangeiras, como ChevcU-fug (Âllier), Cheval- 
foi (Lyon), Cheval-frux (meio dia da França) com o 
epitheto Falke dado ao cavallo do beroe germânico e 
scandinava Dietrich, o falcão. Também no NobUiario 
se cita um cavallo magico, o PardaUo, como o Fauvd, 
que foi um thema poético da Edade media. Em outras 
terras o nome do cavallo solar, liga-se mais evidente- 
mente á tradição germânica: Godon^ em Orleans, Che- 
vai Godm, em Namur, Algodon em Hespanba, repor- 
tam-nos ao Deus Wotan sempre representado pelo 
cavallo. Em outras terras ficou apenas o simples nome 
de cavallo : ChevaM em quasi toda a França, CabaUel 
na Gatalunba, Cheval Mallet, no Loire Inferior, ou por 
causa dos guisos, Chinchin em Mons, Bidoche^ no de- 
departamento de Orne. Na AUemanha cbamam-lhe 
Sàdittenpffer, e Schimmd, e na Inglaterra Hobby-Horse. 
Du Méril, na obra citada, estende a sua investigação 
até á China e México, e n'este caso o mytho deve 
considerar-se como tendo passado dos povos mongó- 
licos para os áricos por meio dos ramos scytha e geta, 
verdadeiros elos de transição entre estas duas grandes 
raças. Gubernatis observa, que cas religiões são a 
caricatura das mythologias» como da sua dissolução 
e decadência derivam as superstições populares. 

(l) Diz Soropita : «uns cavaUinhos fustes. . . que os temos 
aqui todos os annos e nunca nos sabemos i^proveitar d*elles.» 
Poesias e Prosas, p. 38. 



superstiçOe;» pofularíís pobtuguezas i67 

Certas superstições relacíonam-se facilmente com 
as raças d'onde provieram ; dos bastões twiicos, temos 
uma referencia no romance açori^ino ; 

Pastores que andaea; agui 
Escrevei islo a nà ma^e^ 
Se não tiveres papel, 
No bastão doesta Smffala, 

Toma là tinta e tiuteiro 
Escreve n'essa bengala. . . (i) 

Nas Constituições do Bispado de Évora, falla-se na 
superstição das camism tecidas e /iadaa em um só dia ; 
egual referencia se acha no Canon lxxv» de S. Mar- 
tinho de Braga, e na tradição peninsular do século xni, 
no Poema de Alexandre (st. 89) de Bercco. É ao que 
se chama Camisa de soccorro, e entre os germanos 
Nothekendi; aquelle que a vestia ficava invulnerável 
e resistia a todos os perigos. No romance da Silvo/na, 
da tradição oral, cita-se a camisa com um poder ma- 
gico: 

Mas deixae-me ir a palácio 
Vestire onira camisa^ 
Que esta que tenho no corpo 
Peccado nao o faria. 



Antes da Inquisição farejar as superstições semi- 
ticas sob o nome de judaismo» di^ia um poeta satyríco 
do Cancioneiro de Bezende : 

Vi esta vossa cantigua 
que da taura muy antigua 
me parece ser forjada. 

(Canc. geral, i, 249.) 
(i) Cantos populares do Arch. açoriano, n."" 50 e 51. 



168 LIVRO II, CAPITULO II 

Um outro poeta satyrico retratando a dissolução da 
corte de D. Manuel, refere-se também á vulgarisação 
dos costumes judaicos : 

A terra está 
de Esnogas bem chéa, 
e fazem a céa 
dos asmos çor cá. 
Vereis enfeitados 
os sabbados todos, 
vereis de mil modos 
capuzes frisados. 

A adivinhação pelas mãos acha-se referida no Can- 
cicmiro de Resende : 

Pareceys mouro alfenado 

que adivinha pela mão. (fl. 225.) 

No processo de Luiz de la Penha, lê-se : cQue usa 
de adivinhar e o faz assi vendo as mãos das pessoas...» 
(Libello, art. 4, 7 e 8.) A mão é um symbolo phállico 
em que o principio masculino {marcos j frade^j picotas, 
ou columnas de menhir) se substituia aos sjmíbolos 
do chteis (cavernas j lapas, lameiros e mmnóas.) Na 
lista do Auto de fé celebrado em Coimbra em 28 de 
novembro de 1621, apparece condemnada a mulher 
de Francisco Dias «porque fazia ás sextas-feiras as 
camas com roupas lavadas.» No processo de Maria 
Soares, accusada á Inquisição por sua própria filha 
aconselhada pelos seus confessores, em 1623, impu- 
tam-na : 

«De guardar os sabbados de trabalho, vestindo n'elle 
camisas lavadas e melhores vestidos. (Ainda hoje os 
operários largam ao sabbado a obra mais cedo e vão 
barbear-se.) 

«De não comer carne de porco, lebre, coelho, nem 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 169 

peixe sem escama.— De jejuar em segundas e quin- 
tas, sem comer senão á noite couaas que não eram 
de carne. — De jejuar o jejum do dia grande, que vem 
no mez de septembro.— De quando morria alguma 
pessoa em casa, ou nas visinhanças botar fora a 
agua que tinha para beber. (Ainda se pratica nos 
Açores.) — De lavar a carne quando vinha do açougue 
até lhe tirar o sangue, tirando-Ihe também a gordura. 
— De concertar a casa à sexta feira á tarde, alimpando 
os candieiros e lançando-lhe azeite limpo e com tor- 
cidas novas, deixando-as até por si se apagarem. — 
De dizer que aquellas candeas eram tochas no céo, e 
de resar com os olhos n'elle, lavando primeiro as 
m5os, e de não dizer no fim do Padre-nosso — Amen 
Jesus. — De que quando certa pessoa saia para fora 
não consentir que se varresse a casa...» (1) 

As perseguições ás famílias judaicas, os terrores 
do Santo OfBcio, as grandes pestes como a de 1569, 
e o desastre da perda da nacionalidade em 1580, agra- 
varam a revivescência das superstições populares. 
Uma carta de 1579, escripta depois da derrota de 
Alcacer-kibir, exprime bem este estado moral: «É 
para chorar e acabar de pasmar da louquice d'esta 
terra. Haver n'ella donas illustres e de qualidade com 
tão larga licença como tomaram, na desolação de 
andar no modo das romarias, e na invenção com que 
pedem a Deus vida e liberdade dos maridos e filhos 
captivos, porque não ha devoção defeza que não façam, 
nem feiticeria que não busquem, para lhes dizer o 
que vae em Africa. Não ha beata que com as suas 
superstições as não roube de quanto têm.— Em cada 
rua as achareis com certo numero de mulheres após 
si, que buscam para cumprir a negra devoção ou 
superstição, descalças, embiocadas parecem medos. 

(1) Do Algarve illmtrado, n.® 17. 



170 UYiM) II, CAPITUU) II 

Nio sei aonde se acba tanta sarja ; e para encherem 
a copia da devoção begaina, não fica em casa negra 
nem rapariga que não v& no canto acompanbar-se 
sempre de um v^bo parvo e de um rapaz travesso, 
etc.» (1) Os principaes documentos das superstições 
populares acbam-se nos processos do Santo Officio 
especialmente do século xvii em diante. 

A$ Entidades demoniaças ou unaUeoclas.^-- As raças 
amarellas distinguem-se nas concepções religiosas 
pela crença em um grande numero de entidades vagas 
immanentes nas cousas ; essas entidades foram pri- 
mitivamente os próprios objectos materiaes reveren- 
ciados em um fetichismo espontâneo, e pelo desenvol- 
vimento social tomaram a forma abstracta de Génios, 
Os chinezes crêem ainda em um grande numero d'es- 
tas entidades a que chamam Chin; os Árabes, que 
tiveram na sua cultura elementos accadicos, crêem 
também nos génios chamados Gin$, e em Portugal, 
na tradição popular do Algarve acredita-se na existen^ 
cia de umas mulheres que ninguém vê, chamadas 
Jcms, que fiam linho tão fino que parece cabello. Deí- 
xava-se linho no lar, e um grande bolo no borralho ; 
pela manhã apparecia todo o linho fiado, por mais que 
fosse ; mas se se esquecessem de põr o bolo no bor- 
ralho o linho apparecia queimado ; cMuita gente ver- 
dadeira sustentava que isto era assim, e até conser- 
vavam ainda lençóes fiados pelas Jam. » (2) Aqui temos 
o typo mais perfeito da entidade fetíchista. Muitos 
phenomenos naturaes acham-se personificados, como 
o Vento no Balborinho, ao qual se atira com um cani- 
vete aberto (Minho) ; o Nevoeiro, no TiUro azeiteiro 
(Penafiel) ; a Chuva, em Maria Molha e Maria das 

(1) Sunm. de varia Hi$U, t iv, p. i35. 
(t) Nota 4e Rejs Dâmaso, 



SUPERSTIÇÕES P(mJLARES P0RTU6UEZAS 171 

Pernas compridas (Gondifellos) ; o fogo meteórico de 
Santelmo em Carpo Santo (Açores); a insomoia, no 
Insonho ou Pezadello ; o terror da eseuridão ou do 
desconhecido, MsdOj Coma ruim. Coca, Coca Loba, 
Farronca; emfim a doença no Ar máo. (1) 

Os povos áricos, creram tamisem em entidades deri- 
vadas do seu fetichismo primordial, e á medida que 
se elevaram a uma concepção religiosa abstracta, essas 
entidades formaram uma classe vaga de seres divinos 
iodí^tinetos a que chamaram Daimones. N'esta classe 
decahiram os deuses superiores de povos vencidos e 
dos cultos prohibídos, e como diz Lenormant : cToda 
a religião demonologica, desde que ella se eleva e se 
apura, conduz necessariamente ao dualismo.» (2) O 
conflicto social e religioso do zoroastrismo e do chris- 
tianísmo, se levou á definição de um deus de bondade 
e de poder creador, desenvolveu simultaneamente um 
deus do mal e da destruição, Abriman ou o Diabo. 
Nas concepções áricas, o deus creador é a luz, {div, 
a luz, o dia, o céo, d'onde dyaus, e Zeus), e contra- 
riamente a personificação do mal, será a sombra, a 
escuridão, os Amras. (3) Nas crenças portuguezas as 
trevas são perscmificadas na Má Sombra, esconjurada 
na Oração de S. Bartholomeu ; na Oração a Martha, 
de Luiz de la Penha, se diz : chuma é a sombra, e 
outra a solombra,ii talvez explicável pela crença po« 

(1) Diz António José, nas Operas, t. ii, p. 79 : «Fantasma, 
chimera, sombra, illusão, coco e papão, que é o que me que- 
res?» A esta categoria pertencem a avejã, a gallinha preta 
com bácoros, as atmazonas, mão de ferro, galgo negro, rosemu- 
nho, a colmêa. 

(i) La Magie chez les Chaldéens, p. 230. 

(3) Diz Gubematis: «A raiz sur, como a raiz svar, significa 
fulgir. Gonsiderando-se os devas como os luminosos, não se 
achou melhor para lhes oppor do que os não luminosos, ou os 
a-sura, falseando assim a verdadeira origem da palavra.» Pie, 
Encyd. indiana, p. 115. 



172 LIVRO II, CAPITULO II 

pular em que temos duas sombras, uma a do anjo da 
guarda (que perdemos) e oulra a do diabo que nos 
tenta. (Famalicão.) Todos os actos malignos sao pra- 
ticados nas trevas da noite; a sombras avaníesma 
(phantasma) a alma penada, $âo formas demoniacas 
das trevas, e diz uma locução popular : O Diabo é 
negro. «As pessoas que fazem maleflcios vão á meia 
noite a um cemitério, e apparece-lhe o diabo em forma 
de cão freto, a que ellas chamam o seu protector.» (1) 
É o mesmo cão preto, descripto por Leão de Chypre, 
e Plutarcho, que subsiste nas superstições da Finis- 
terra. (2) Esta personificação revela-nos as relações 
do Diabo como proveniente de um dualismo medo- 
persa que se desenvolveu na Europa por via do chri- 
stianismo (satanistas, e valdenses); muitas são as per- 
sonificações do diabo ainda com caracter oriental. 

Nas locuções populares portuguezas encontra-se 
empregada com frequência: Deu-lhe o Tr anglo- Mango, 
por aconteceu-lhe mal, perdeu-se, levou-a o diabo. 
Pela generalidade de uma parlenda em forma dithy- 
rambica, com vestígios de caracter magico, somos 
levados a inferir que o Tangro-Mangro não é uma 
palavra sem sentido, uma neuma para encher o verso, 
mas o nome de uma divindade, que como decahida 
conserva o espirito malévolo e que persiste nas su- 
perstições populares. O Tanglo-mango apresenta for- 
mas variadas na península, como o Tango y Mango, 
na Andaluzia, Tangomáo no castelhano usual, Tán- 
gano-mángano na Galliza, e Tranglo-Mango (Açores) 
e tangro-maiigro (Penafiel, Lisboa.) A generalidade 
d'esta expressão já por si bastava para a inferência 
de um fundo commum de raças, e esse verificava-se 
naturalmente na persistência de caracteres e costumes 

(i) Pedroso, Positivismo, t. iv, p. 108. 

(2) Gambry, Voyage dans le Finistere, t. iii, p. 22. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 173 

da raça ibérica da peninsala. Â expressão é porém 
quasi geral á Europa, e encontra-se na Lei Salica sob 
a forma de Tangano e no francez de Froissort na 
forma de TangrCj e na Itália como no Tanghero do 
diccionario da Grusca. O problema adquire pois uma 
maior importância; se na peninsula hispânica esta 
divindade provém da persistência da tradição dos 
povos ibéricos, no Occidente da Europa só pôde ex- 
plicar-se pela persistência doesse fundo ethnico tura- 
niano ou melhor scythico, que precedeu na Europa 
a entrada das raças áricas. (1) De facto essa raça 
invadida pelas diversas migrações áricas, refluiu para 
o sul da Europa, e estacionou no triangulo geogra- 
pbieo da Âquitania ; o ibero, pertencendo a essa 
mesma raça dífferenciou-se d ella pela sua entrada na 
Europa tendo atravessado a África, como se descobre 
pela formação do elemento berber. Â tradição do 
TangciOy accusa a homogeneidade dos dois ramos 
aquitanico e ibérico, e conduz-nos à investigação das 
formas porque esta divindade é ainda conhecida entre 
os diversos ramos das raças altaicas. 

Diz Max-Muller : cNa Unguagem mongol, achamos 
Teng-ri (em turco Tangry) e esta palavra significa 
primeiramente céo, em segundo logar Deus do Céo, 
depois Deus em geral, e por fim Espirito ou demónio, 
em bem ou em mal.» (2) Max-Muller aproxima esta 
palavra da sua forma primitiva simples, de que os 
chinezes se servem para designar a divindade Tim\ 
nas relações históricas acerca dos Hunnos, pelos escri- 
ptores chinezes, conservam o nome que os Hunnos 
davam aos seus chefes, que era Tangli-kutu (Tchen- 
ju) que significava Filho do Céo, nome ainda hoje 



(i) Sobre o nome doesta raça e suas designações, vid. Lq- 
normant, La Magie chez les ChcUdéens, p. 325. 
(2) Science des Religions, p. 124. 



174 Ltvna Ui GkPíTVtJO ii 

peeuHar dm imperadores da China (Tkni-tze, corre- 
spondenão ao antigo TangU-lMu). <De todo istOi con- 
tiniia Max-MuUer^ eoncloo qoe o Tangli, dos Himnos, 
o Tengri dos Mogóes, e o Tim dos Cbinezes não sio 
senSo ttm mesmo nome.:^ (1) Max-Mulier leva mais 
tofige a comparação^ remontando aos Tukín, ou ante*- 
psfssados dos Turcos» <|ue cbamavan aos Espirilos do 
sen fetichismo Pur-Teng-i-li> seado o Tmg-i-U cods^- 
vado ainda no Tengii dos Mongóes, e com o mesmo 
sentido geral de Espirito na palavra Tangara, do 
yakute moderno, bem como entre os cbristãos conver- 
tidos da Sibéria» os Santos são designados Ta;f»gara. 

A 16rma a mais antiga é a accadica Dingir, dege* 
fierando em outras desigiiac9es como o Tenghiri do 
Hing-Na» em Tagri de Tatar-koscb» no Tangnf dos 
Turcos» e no Tengli dos Hunnos, cujas aproxíaiaçSes 
sSo confirmadas petts correlações ethnicas de outras 
raças attaicas. 

Gomo explicar o segcmâo elemento Mangro, ligaidk) 
a Tangro ? Nas tnscrípçôes lapidares da peornsulá 
bispanica, publicadas pela Academia de Berlkn, appa- 
rece com ft^quencia o nome da divindade Manyos, 
aggiutinado comi o de outras divindades como em Ae- 
gkhUvNi-Aegus, Àd-UAmcs, e Bar-TAxnmjs, Gomo é 
sabido, a relígiio dos Persas soffreu uma transformação 
no Magismo pelo contacto dos Medas com as tribiis 
turanianas ; assim Dranga e Afègro s3o detlivades de 
algimia das férmas Tangty ou Tengri e a divindade 
malévola dos Persas Anrowíoinyus, isto é, o espiriio 
que mata é a que na península bispanica se conserva 
na tradiçio inconscienHe de Tanj^Mangô^ Trmgl^ 
ínanga ou Temgro-Ma/ngrú. (2) 

(i) Science des ReUgions, p. 125. 

(2) Naft insoripçdes oraieiforineg do roched# de Behiftton 
(TabL 4, § 4) Drança, é a personifica^ de mal na mmicirtL 
r— No Peral chama-se ao dnix) Ditmgroê. 



SUPERSTIÇÕES HHHJLAteS POATUGUEZAS ITS 

Na j^rletida portegttesfca ba dindá tim deoth}» eupli- 
cavel pelo.sacrificía d Angmffláyttitis ; dii-se M yM* 
lenda de Penafiel : 



Mettidas dentra dd um Me; 
Dea-lhe o Tangro-Mangro n*eUas 
Nào ÈtíMÊm senio iove. (i> 



Na Tersâo de Lisboa^ dlz-se também : 



litíihá ía%» íe^ dM Mm 
Todos dsE jiBBtro de um pste^ 

8ea-lhe o Toãi^rf-Mangro n^eUes^ 
ao acaram senão liove. 



Sdo&y Àree» eoltigio da traciiçSo popuiarda Gallisa 
lí FMmdisi sinoMiaiile ás verões portaguezas, em qm 
Sé íAhíàid tambei» « oiemtias» que foram elmiiDadjas : 



Elas 6ran once damas 
Todas àmittas d'o xuez, 
Pegou o Ivnj^étYi^máyi^tffta n*ellftà 
Noii queèàPOB senon dee» 

D*a(itteila8 dez que gaedaron 
Foran xugar o.probe, 
Pegou o Tangano-msmgano a*eilas 
Non quedaron senon nove. 

D*estas noiFe qâe ^èdatt^tt; 
Deran en comer biscoito, 

Se^Sfm o Tangam^mangauo B*eUas 
bn qúedaroli senon oito. 



(i) Zetíichr. f. iii>tn. Phtt., m, tSd. 



176 LIVRO II, CAPITULO II 

Segue-se a forma dithyrambica ennnmerativa até 
um, como na versão de Penafiel : 

E esse um que ficou 
Foi vér amassai-lo pâo, 
Deu-lhe o Tangro-mangro n'elle 
Acabou-se a geração. 

Lenormant aponta o facto contado por Plntarcho, 
de oJQferecerem os Magos a Angro-MainyuSs em sacri- 
fício a herva dos charcos chamada onumí, (evidente- 
mente o haoma) e de Heródoto referir da mulher de 
Xerxes «princeza interinamente entregue à influencia 
dos Magos, sacrificando sete meninos ao deus das trevas 
e das regiões inferiores. EUe representa também um 
sacrifício análogo como operado em honra do mesmo 
deus na passagem do Strymon, na marcha dos Persas 
sobre a Grécia.» (1) Aqui temos o nome da divindade 
malévola coincidindo com a forma cultual; são dez 
meninas, onze damas, ou doze freiras, em quem dá 
o Tangro-mangro, e que desapparecem, como n'um 
sacrifício. 

Abaixo comprovaremos esta interpretação com a 
existência em Portugal do culto do haoma, tal como o 
comprehendeu a religião do magismo. 

O Menhir de las Virgenesj dos Monumentos megali- 
thicos da Andaluzia, figurou por ventura essa divin- 
dade, por isso que o povo canta ainda acerca da pedra : 

Jilaca, jilando, 
puso aqui este tango^ 
y Menga y Mengal 
lo volvió à quitar. (2) 

A forma hespanhola de Tangomáo, acha-se também 

(1) La Magie chez les Chaldeéns, p. 206. 

(2) Los Aborígenes ibéricos, de Tubino, p. 24. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 177 

na Arte de Furtar, do padre Vieira, nas Ordenações 
philippinas e no Vocabulário de Bluteau. (1) Não é 
para admirar que na tradição portugueza persistam 
certos vestígios dos ritos mágicos da Chaldêa, reno- 
vados sob a forma do magismo medo-persa, confluindo 
ainda pela acção dos Romanos^ Judeus e Árabes. Os 
povos ibéricos encontraram nos novos povoadores da 
peninsula condições para a revivescência dos seus 
caracteres ethnicos, pois que, como diz Lenormant : 
«para a antiguidade grega como romana, como tam- 
bém para a tradição judaica e árabe, o Egypto e a 
Ghaldéa sao as duas fontes de toda a magia eru- 
dita.» (2) 

Vejamos agora a outra forma do sacriflcio a Angro- 
mainyus «consistindo na offerta da erva do charco 
chamada Sf*»f*» — evidentemente o haoma — borrifado 
com sangue de lobo e coUocado em um logar escu- 
ro.» (3) Nas Orações populares existe uma entidade 
demoníaca chamada o Bo Home, na qual vem uma 
aUusão á planta que dá o liquido sagrado do Soma; 
eíl-a como a coUígiu Leite de Vasconcellos : 

O ho Home me deu pousada, 
A má mulher me fez a cama, 
Em cima das vides. 
Em cima da lama. 

Vae-te dada 

D'esta mama. 

(1) É apreciável o estudo philologico de Manuel de Mello, 
(na Revista hrazileira, t. vi, p. 163) onde diz : «a expressão 
Tangoro-mangoro, variamente pronunciada (Tangano-mango, 
Tango-marangoJ figura como estribilho de um lundu ou can- 
tiga popularíssima no Brazil, análoga a uma ou outra das for- 
mulettes numeratives inseridas por Eugène Rolland na Melu- 
$ine, e por Ph. Kuluff nas Enfantines du bon pays de France,» 

(2) La Magie chez les Chaldéens, p. 70. 

(3) Lenormant, citando Plutarcho, De Is. et Osir., p. 369, ed. 
Reiske. 

12 n 



178 UYAO II» capítulo u 

A Oração é applicada eomo parte eseoi^uratoria 
dos remédios contra a espÍDhela e para talhar a dada 
(iaflammação das glândulas mamares), mas liga-se a 
mna lenda arranjada pelo povo sobre elementos tra- 
dicionaes não comprehendidos. Na versão de Ourilbe» 
a lenda entra já na Oração : 

O Seshor pediu pousada 
Bom Aom^m lhe deu pousada; 
£ má mulher lhe fez a cama 
N^uma ^ade sobre a lama ; 
Sara peito, sara mama. 

As tide$, a grade ou caniço $(íbre a lama, são a 
herya omomi, sacrificada no logar escuro ; a mesnoa 
tradição existe na Andaluzia (1) e na Galliza, com o 
tituk) La yerba de Bon- Varon, (2) o que nos aproxima 
da sua origem mytbica. O bo Home, é uma personifi- 
cação popular do Hom ou Haoma, a planta que des- 
empenhava no culto mazdeano a principal funcção« 
Diz Alfredo Matiry : «Personificado em uma verdadeira 
divindade, o Hom (o omomi, segundo Plutarcho) assim 
como o Soma dos Aryas, apresentava-se á imaginação 
como génio da victoria e da saúde, como um mediador, 
ou uma divindade que, sob uma apparencia sensível 
e material, se deixava beber e comer pelos seus ado- 
radores, e conservava no coração a pureza e a vir- 
tude.» Em nota accrescenta : «O Hom acabou por ser 
um verdadeiro propheta, que annuncia a palavra 
santa.» (3) Pela oração portugueza áoBohome^ vê-se 
que a crença popular lhe dava virtudes medicinaes ; 
mas a personificação em forma de lenda teve um 

Íl) Rodri^es Marin, Cantos populares esmnoles, t. i, 444. 
2V Cuestumario dei Folk-Lore gcUlego, p. 44, n.« 353. 
3) La Magie et VAstrologie, p. 37. 



SUPERSTIÇÕES POPULABffiS rORTUGUEZAS 179 

âesenv(rfYimento litterario e artístico em Portugal cdmo 
yamofs prorar^ A mandragora na Edade media também 
foi personificada no homunculo. A crença do Bom Ho* 
mem, que apparece em FVança no jogo do Petit Borí 
Homme, é um resto do Manicheismo que penetrou no 
Occidente, introduzindo no christianismo o dualismo 
medo-persa. (1) 

O poeta Francisco Lopes, livreiro^ o auòtor do Pas^, 
satempo honesto, e de tantas composições populares 
do seeuk) xyu, escreve umas RedoudillN» sobre a 
k^ida do Homem bom; este opuseuio extremamente 
raro acha-se descripto pelo fervoroso bibUophilo Fer- 
nando Castiço no Boktim de Bibliogroqphia portugueza. 
O título é d'esta forma: Sam \ Homem Bom \ Pay 
dos Pobres. \ Nascimento, cria \ ção Vidai Morte 6t 
Mlagres. . < Em Lisboa, Por Matheus Pinheiro. MDtixxvin 
(In^l2, de II — 69 fl. numeradas na frente.) 

O poema é escripto em quintilhas ém numero de 
522, e dividido em seis cantos. O sr*. Castiço tran-^ 
screve as seguintes èstrophes : 



Canto de hum homem divMo 
Donde homens exemplei tomem 
E foi de tanto bém dmo 
Que logo se chamou Homem 
fiida bem não foy menino. 



A rajEão d'este nome é explicada n'esta outra quin- 
tilha : 

Perita o prelado grave 
Gomo (Shàmar-'^ qiíeHa ; 
O pay que dizei^-lh*o hia, 
OuYiu-se hua voz suave 
A qual Homem Bom dizia. 



(1) Vid. o nosso voL i.«, p. 305^. 



• • 



180 UYRO II, CAPITULO U 

Bem Homem é a forma como apparece nos versos 
escoDJaratorios portuguezes, e Homem bom em Anda- 
luzia. Na cidade de Braga, havia na porta por onde 
faziam ingresso os novos bispos mn nicho na parte 
interna do muro, com a âgura a que o povo chamava 
S. Bom Homem. O sr. Fernando Castiço cita também 
um Sermão feito pelo Licenciado Thomaz de Barros 
da Costa a Sam Bom Homem, que está sobre uma porta 
da cidade de Braga, em 1630. (1) Evidentemente é 
este o objecto da lenda cujo ultimo vestígio se con- 
serva nos ensalmos, e nomes tópicos, como Santo 
Varão j próximo de Coimbra. 

Como vimos anteriormente, muitas entidades demo- 
níacas derivam do culto solar, como o Lobishomem, 
(lupi>mannari, na Itália) a que no Minho se chama 
Corredor, e Fado corredor^ (Guimarães) Peeira e Lo- 
beira. Nas encruzilhadas ha um sitio a que se chama 
o espqjeiro, onde os que correm fado mudam de figura ; 
nas crenças finlandezas Pohja é a região sombria onde 
existe a noite e se perdem os heroes, e d'ali é que 
se expandem os demónios pelo universo. Segundo a 
concepção dos quatro elementos, assim existiam enti- 
dades para o ár, como os Sylphos, para a agua, as 
Ondinas, para o interior da terra ou os Gnomos, e 
para o fogo ou as Salamandras; na tradição portu- 
gueza existem entidades análogas, porém com nomes 
diversos. O Trasgo é em Traz os Montes e Douro um 
demónio do nevoeiro, como o Nubeiro da Galliza. 
Bluteau falia d'esta entidade, da qual diz Filinto Elí- 
sio : «Creio que ainda em Portugal dão o nome de 
Trasgos aos Fradinhos da mão furada. » (2) O epitheto 
da mão furada é dado também por António Prestes 
ao Pezadello ou Insonho. (3) O nevoeiro é repellido 

(1) Boletim de Bibliographia portugueza, 1 1, p. 86. 
iz) Fabulas de Lafontaine, p. 276. 
(3) Autos, p. 355. Ed. Porto. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZÂS 181 

para longe por toques de sino (Foz do Douro.) Das 
aguas, temos as Sereias, entidades que da tradição 
clássica passaram para o povo portuguez ; nos Açores 
chmíamAhes Marinhas. Nos Cantos populares doArchi- 
pélago açoriano coUigimos : 

A Sereia quando canta, 
Canta no pego do mar, 
Tanto navio se perde, 
Oh que tão doce cantar. 

Sobre o poder do canto das Sereias ou Marinhas, 
faliam dois romances açorianos : 

«Escutae, se quereis ouvir 
Um rico, doce cantar ; 
Devem de ser as Marinhas 
Ou os peixinhos do mar. 
— Elle não são as Marinhas^ 
Nem os peixinhos do mar, 
Deve ser Dom Duardos 
Que aqui nos vem visitar. (1) 

Gil Vicente também allude a estas Fadas Marinhas: 
<e vem as Fadas marinhas cantando a seguinte can- 
tiga.» E accrescenta: 

Vae logo ás ilhas perdidas 
No mar das penas ouvinhas, 
Traze trez Fadas marinhas 
Que sejam mui escolhidas. (2) 

Na ilha de S. Thiago, do archipelago de Cabo Verde, 
crê-se na entidade Hiram, que é sempre a ultima de 
sete âlhas nascidas consecutivamente ; tem corpo fran- 
zino e cabeça grande e ao fim de doze annos trans- 

(1) Cantos do archip. açoriano, n.«* 32 e 28; p. 271 e 250. 

(2) Comedia da Bv^ena, 



182 LIVRO n, CAPITULO II . 

forma-se em Serpente e vae viver no mar. (1) As 
tribus da Guiné adoram a Hiram em um templo que 
se chama baloba. (2) Nos Highiandes ha uma entidade 
chamada Famhmrans. 

A Mãe (TAgoa, análoga ás Nixen germânicas e Rus- 
scUki slavas, figura nos cantos populares do Brazil ; 
no Peru chamam-lhe Madre de las Aguas^ e na Cayenna 
chama-se Mamman dilo (maman de Teau), vindo á 
superficie da agua pentear-se, attraindo os incautos 
que a vêem. É uma variante da Sereia. (3) 

Á tradição clássica da Sereia prende^sç essa outra 
do Gyclope, que na tradição portngueza se chama 
Olhar apoj e Olhapim; na Beira Alta, crê-se que tem 
um só olho na testa ; em Cabeceiras de Basto, que 
tem trez olhos, vendo para traz e para diante. Ha 
também Olharapas. Segundo Menendez Pelayo, o Ojan- 
cano, em Hespanha parece-se com a figura do gigante 
Polyphemo, cuja lenda, segundo Gosta, é popular na 
Gantabria e Andaluzia. St. Prato determina em alguns 
contos italianos esta entidade com o nome de Occhiaro, 
e áe Minocchio (de monoculm.) Em Arouca crê-se que 
slo gigantes. (4) 

Das entidades terrestres, a Moira ou o Mouro en- 
cantado distingue-se por habitar em covas ou algares 



(1) Mmanach de Lembrança»^ para 1872, p. 195. 

(2) Sousa Monteiro escreve «nas oecasiões importantes se 
offerecem sacríficios não só de mantimentos, mas também de 
animaes voláteis ou quadrúpedes, com tanto aae sejam de 
cores oppostas, que as aves sejam brancas quando os quadru- 
pcjdes forem pretos.» Pan,, t. xii, p. li, 

(3) Nq9 Apologos dialogaes, (p. 47) cita-se as Fadas de Mãe; 
ajpii temos a ultima reminiscência do culto das Mães, essas 
divindades femininas dos Gaulezes, de que apparecem ínscrí- 
PQòes na Corunha e em Sepúlveda, e que se acham na Seandi- 
navia confundidas com as Nomes, e em França com as Bonnes 
Dames, 

(4) Leite 4e Vasconcellos, Trad., p. }7d.^ Stanisláo Prato, 
Gli ulíimi lavors dei Folk-lore neolaiim, p. 7. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZÂS 483 

profandos guardando tbezouros> ou aoeres. Na sen- 
tença de Francisco Barbosa, por alcunha O Tio de 
MassareUos, se diz que «promettia também descobrir 
tbezouros e minas de muitas léguas... convidando logo 
para esta empreza muitas pessoas de ambos os sexos, 
segurando-lbes, que dentro de um Mineral achariam 
doze Moiros ricamente vestidos com seus espadins 
nas mãos, e outras tantas mouras muito bem adere- 
çadas, com saias bordadas, e muitas peças de ouro, 
e diamantes...» (1) No processo de Rosa Maria, con- 
fessa estar «lembrada de ter ouvido a varias pessoas, 
que n'aquelle logar (em Gaviam) hamam muitas Minas 
do tempo dos Mouros... t^ Alberto Magno escreveu no 
livro De Animalibus, que existiam umas formigas cha- 
madas Mur, que guardavam montes de ouro. (2) 
Evidentemente ha sob o nome de Mouras syncretismos 
de elementos de^ proveniências diversas ; os gregos 
chamavam ás suas parcas Moirai^ e a nwir céltica ou 
a moer scandinava têm o caracter de virgem, como 
as que penteam os cabellos á borda dos lagos, ou as 
que vaticinam. A entidade que aqui fixamos é prin- 
cipalmente a das cavernas, de que o ecco é a voz de 
uma Moura. 

Certos objectos materiaes também tém o poder de 
entidades demoniacas ; taes s3o as espadas magicas. 
Na Chronicã anonyma do Condestavel, falla-se na 
espada invencivel temperada pelo alfageme de San- 
tarém. Em Jornandes vem a lenda da espada desen- 
terrada que levaram a Attila : «Alegrou-se Attila e 
viu que o império do mundo lhe seria destinado, pois 
que a espada de guerra que os Scythas desde longo 
tempo olhavam como sagrada lhe cahira nas mãos.» (3) 

(1) No Instituto de Coimbra, t. x, p. 130 a 134. 

(2) «custodiunt montes áureos, et homines accedentes dis- 
cepunt, etc.» Ap. Berger deXivrey, Traâ. Teratologiques^^^, 

(3) Derehus geticis, cap. 35. — Grimm, Trad. aliem,, t. n,p. 20. 



184 UVRO II, CAPITULO II 

O tio de Massarellos, para descobrir thezouros «man- 
dava aos homens que haviam de ir na sua companhia, 
que por certo numero de vezes beijassem as espadas 
e as puzessem no chão rntas.,.!» Nas Op&ras do Judeu 
vem: «com poucos dias de nascido, me punham á 
cabeceira uma espada nua por causa das bruxas.» (1) 

O chifre é empregado para afastar o quebranto ou 
acção maléfica : «Em muitas marinhas (Aveiro) vê-se 
espetado n'uma vara um retorcido chavelho, como 
amuleto de virtudes poderosíssimas contra os male- 
fícios das bruxas e contra o mào olhado de certos 
visinhos.» (2) O nome de algumas entidades demo- 
níacas tornou-se um insulto, como Caipira, dado aos 
antigos partidários do absolutismo, e aos gatunos; 
deriva da divindade malévola dos selvagens do Brazil 
Caipora, e na linguagem usual do Rh) de Janeiro 
caiporismo significa a infelicidade, o azango, o caUis- 
tismo e enguiço. 

O terror das almas penadas, ou do outro mundo, é 
vulgarissimo : «Gentes ha que não duvida dispender 
com benzedeiras e impostores todo seu haver, como 
se lhes figure que em sua casa anda alma do outro 
mundo.» (3) 

O caracter de entidade demoníaca também se reco- 
nhece em determinadas pessoas ; chama-se Tanso á 
pessoa desageitada ou mal fadada. Esta palavra deriva 
de um antigo sentido histórico ; o povo dos Hiougnou,, 
antepassado dos chinezes, dava ao seu chefe o nome 
de Tanshu (de Tian-shu, filho de Deus). É crivei que 
esta palavra entrasse na Europa com a invasão dos 
Hunnos, e se renovasse com o terror dos Tártaros. 
Nos paizes bascos a palavra Tartarius, designava os 

(1) Operas portuguezaSy 1. 1, p. 116. 

(2) Maia Alcoforado, Mtiseu technologicOj p. 68. 

(3) Panorama, t. vii, p. 408. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES POHTUGUEZAS 185 

heréticos albigenses ; (1) e António Prestes cita a 
entidade : «Por esta tartaranha mà.» (2) O nome de 
Tártaro apresenta as contracções populares TcUro, 
TradOj e Tardo^ com que no Minho e Douro se designa 
o Diabo. Seja como for, o poder magico do Tanso con- 
serva a sua localisaç5o nos reis, cuja pessoa é sagrada 
segundo o fetichismo da Carta de 1826. O historiador 
João MuIIer nota a tradição popular franceza sobre a 
virtude curativa dos reis naquella nação. Em um 
romance cantado em Extremoz sobre os milagres da 
rainha Sant^ Isabel, allude-se a esta mesma virtude: 

Estando a santa um dia 

Na sua saia sentada, 

Ghegou-lhe um pobre chagado 

Se o podia remediar f 

Ella lhe disse 

Com palavras de amor : 

«Mandarei chamar o doutor, 

Que vos haja de curar. 

— Senhora, se queredes 

Ter o vosso coração inflammado, 

Deitae-me na vossa cama 

Que eu serei remediado. (3) 

Da rainha D. Maria i conta Beckford (Carta ix) a 
virtude curativa : «de uma pérola da rainha defuncta, 
e de inestimável valor, moida para se engolir em 
beberagens medicinaes...» Os loucos e cretinos são 
consagrados em quasi todas as povoações ruraes da 
Europa, da mesma forma que entre os Esquimaus ; 
era talvez este o motivo da veneração pela rainha 
loma D. Maria i. 



(1) Francisque Michel, Le Pays bosque, p. 227. 

(2) Autos, p. 308. Também diz : «Umas busaranhas tortas.» 
p. 33. 

(3) Pedroso, Contribuições para um Romanceiro portuguez. 



186 LIYRO II, CAPITULO II 

Os padres tem um caracter de azango entre o povo. 
Diniz, no poema do Hyssope, consigna a crença do 
Alemtejo e Minho do poder das mães e irmãs dos fra- 
des curarem as lombrigas e benzer feitiços : 

O benzer dos feitiços e lombrigas 

O grande e extraordinário privilegio 

De irmãs e mães de frades, e outros pios 

E santos institutos que inventaram 

Devotos e subtis nossos antigos, 

E que nós pelo povo propagamos, 

Com zelo e com destreza, maiormente 

Entre o devoto, feminino sexo 

Inda pingando vão de quaado em quando. (1) 

Santa Rosa de Viterbo fala de uma classe de indi- 
víduos chamados Caragos ou Carajus, que fabricavam 
as Carantulas, imagens, linhas, cifras ou caracteres 
mágicos, prohibidas no Alvará do tempo de D. João i: 
«Estes Caragos faziam os seus encantos, particular- 
mente ás sementeiras ; aproveitavam-se do canto das 
aves para os seus agouros, chamavam os demónios 
com certas figuras ...» (2) O nome de Carago, ê 
hoje uma interjeição plebêa. Os Bentos são aquelles 
indivíduos dotados de poderes mágicos contra as doen- 
ças, por isso que choraram no ventre da mãe; este 
phenomeno é attribuido a Wainamoinen, o heroe my- 
thico da epopéa fínlandeza Kalevala; nos contos zulus, 
Outhlakanyana também teve esse dom. O feiticeiro 
Luiz de la Penha declarava ter chorado no ventre 
materno. Leite de Vasconcellos retrata-nos um Bento 
da Beira Alta : «Este homem de virtude tinha chorado 
no ventre materno, porque ninguém é bento sem tal 
condição. Todas aquellas povoações por ali em volta. 



!S! 



Edição de Castro Irmão, p. 194. 
Elucidário, vb.* Carajítdlas. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 167 

mciusivamente Lamego, o chamavam nas doenças. 
Elle tinha um ár grave, uma voz paasada, e grossa, 
como de propheta, — só gostava muito do liquido de 
Sam Martinho. Quando o rogavam, montava na sua 
burrinha, punha os alforges adiante, lançava um Santo 
Ghristo ao pescoço, e lá ia curar a humanidade en- 
ferma. As suas receitas não se afastavam das de todos 
os charlatães : uns chás de hervas seccas, umas bebi- 
das de camisas queimadas dos doentes [fervedouros, 
do século xvn) umas rezas, e eis tudo. A justiça por 
vezes o tinha interrompido nas funcçoes sagradas; 
mas n^n o olhar austero do juiz, nem as paredes 
negras do calabouço o puderam afastar do caminho 
seguido. Elle chorara no ventre da mãe; recebia de 
toda a parte as provas evidentes da sua virtude ; ao 
loDge estendiam-lhe os braços ; em casa, á porta, sem- 
pre uma multidão de doentes, como eu presenceei ; 
que mais queria elle. Não costumava receber dinheirx); 
recebia fructa, carnes etc; para isso levava sempre 
os alforges em cima da burrinha. Outras vezes tam- 
bém os parochos das freguezias corriam-no, e elle, 
sempre firme na sua missão predestinada, o mais que 
lhes dizia, era : Eu cá sou bento, e vós não.t (1) 

Depois dos Bentos, e BenziUiôes (Alemtejo) temos 
os Saudadores, typo commum a toda a península ; esta 
classe acha-se prohibida de exercitar-se pelo titulo 
citado da Ordenação manuelina. 

No Tesoro de la lengua castellana, escreve Govar* 
ruvias : «Saludar vale curar cõ gracia grátis data, y 
a lo que esta tienen Uamamos SaludadoreSj y parti- 
cularmente saludan ai ganado, pêro yo por cierto tengo 



(1) Encyclopedia republicana, p 188. Lisboa, 1882. Subsiste 
esta crença na província do £spirito Santo : «Quem ouve cho- 
rar ima críoit^ no ventre materno deve guardar segredo para 
que elia seja afortunada.» 



188 LIVRO II, GAPITOLO 11 

averse dicho de saliva, salivador, por tener en ella la 
virtud de sanar, y assi los saludadores dan unos boca- 
ditos de pan ai ganado cortados por su boca y moja- 
dos en su saliva.» No livro do dr. Gaspar Navarro, 
Tribunal de Supersticion ladina, de 1631, sele : «Estos 
Saludadores, principalmente se emplean en curar õ 
preservar á los bombres, bestias y ganados dei mal 
de rabia... y para encobrir la maldad, íingen ellos son 
familiares de Santa Gatalina, ó de Santa Quitéria, y 
que estas santas les ban dado virtude para sanar de 
la rabia, y para hacerlo creer à la simple gente hanse 
becbo imprimir en alguna parte de su cuerpo la meda 
de Santa Cataiina, ó la seMl de Santa Quitéria; j 
assi con esta fingida santidad, traen á la simple gente 
enganada traz si, y saludan con su saliva y aliento 
(bafo) no solo á los enfermos, mas tambien à los sanos: 
y saludan el pan y lo mandan guardar por relí- 
quias...» (1) Aqui apresenta-se um bellocaso da forma 
e intuito da tatuagem. Na Ordenação manuelina pro- 
bibe-se ter cabeças de saudador; Cepeda y Gusman, 
e Quevedo referem-se ao costume de trazerem os sau- 
dadores sempre comsigo uma cabeça de Gbristo. 

Aos Saudadores contrapôem-se os Semeadores da 
Peste; no Repertório do Arcbivo da Gamara munici- 
pal de Lisboa, entre 1630 a 1632, fala-se dos pôs 
pestíferos: «O vereador Diogo da Gunha estivesse em 
Belem, quando se temiam os pós, que se dizia traze- 
rem os estrangeiros para causarem peste.» E mais: 
«Ao provedor da saúde de Belem, se concedeu usar 
vara vermelha, emquanto Diogo da Gunha permane- 
cesse em Belem, e por causa dos pós, que se dizia 
traziam pessoas suspeitas. » Estas crendices surgiram 



(i) Disp.xxxi, íl. 89-90. Ap. Marin, Cantos populares espano- 
les, t II, p. 413. 



SUPERSTIÇÕES POPIJLARES PORTUGUEZAS 189 

por effeito das noticias aterradoras da peste de Lon- 
dres, de 1631. (1) 

As crianças ainda hoje tem caracter magico, sendo 
chamadas para fazerem o sorteio das loterias. No pro- 
cesso de Luiz de la Penha falla-se na adivinhação por 
meio das crianças, e com as quaes curava os infeiti- 
Qâdos : «curava infeitiçados, mas que o não podia fazer 
senão por meio de crianças pequenas.,, it (Libello, 
articul. 2.) Alfredo Maury cita esta forma divinatoria : 
«Didius Juliano recorreu á adivinhação que se pratica 
com um espelho^ detraz do qual crianças cuja cabeça 
e olhar foram submettidos a certos encantamentos 
lêem o futuro, segundo se diz.» Na Ordenação manue- 
lina prohibia-se o verem espelho, ou em qualquer cousa 
reluzente. Em uma carta de D. Jorge de Noronha 
de 24 de março dé 1579 a Philippe ii, diz que Por- 
tugal lhe pertence, «que o reino de Portugal é de 
S. M. e que pôde vir quando quizer, porque até as 
crianças cantam que todo o seu remédio está em sua 
magestade.]^ (2) 

As velhas têm entre o povo um caracter demoníaco, 
sendo as fadas sempre representadas como velhas ; 
os Albanezes, tribu representante dos primitivos indo- 
europeus, chamam ás suas Fadas Vyles; no paiz de 
Galles Wyll ou gwyll, significa o spectro, a feiticeira, 
e no islandez vaia, é a sombra que vaticina. (3) Em 
uma aldeia do Minho chamavam a uma velha surda a 
Noca; segundo Leroux de Lincy, os dinamarquezes 
chamam Nokhes, aos elfs ou fadas aquáticas, que tam- 
) bem tomam a forma de velhas nas suas apparições. (4) 

(i) Guimarães^ Summ. de varia historia^ t. iit, p. 145, onde 
cita o livro que sobre este assumpto escreveu Frei Manuel de 
Lacerda. 

(2) Pan., t. VIU, p. 346. 

(3) Malte-Brun, Geograph., X. iv, p. 341, 
Livre des Legendes, p. 161. 



'3 
(4) 



190 UVRO 11^ GA.PITULO II 

As tíMas é que poToam a classe das brtacúg; os 
higblandes da Escossía, chamam Grtmgach, aos esçi- 
ritos familiares e aos feiticeiros^ nome que se pôde 
aproximar da designação portugueza* 

Os homens que sabem ler, e mesmo a ktra redonda, 
exercem um grande perstigio na imaginação popular; 
o estudante deu o typo magico do Sedar ou Escolarõo, 
(Bragança) Escder, (Galliza) e no poema do Roman áe 
Troie chamam-^se «oeuvres tr^eteesi^ (1) as que s3o 
feitas pelos encantadores ou ningromantesy sk)s quaes 
o rei D. Duarte eháma Tergeitadaresy e. nos contos 
popukires portuguezes, Esturgeitante. No Algarve a 
palayra Free-Maçm, C(Hn que no século xvui se des* 
ignava o Pedreiro-Livre, aportuguezou-se nd forma 
de Fkmazõo, com um caracter demoniaco qtie se attri* 
bue a todos os que hostilisam os padres. 

As personiflk^ações desdobram-se em novas entida- 
des ; Artes da Madre Celestina^ é uma locução vulgar 
nas ilhas dos Açores, e frequentemente empregada 
por Jorge Ferreira de Vasconcellos ; provém eviden* 
temiente do typo da alcayota da comedia Celestina de 
Rojas. A concepção do inferno é personificada na Cal- 
deira de Pêro Botdho : 

E por seres tensoeira 

E nom tomar meu conselho^ 

Lá verás de que maneira 

Te ehauta Pêro BoteUio 

Na sua iitfemal Caldeira. (2) 

O Diabo é designado por muitos nomes, que se 
tomam entidades, como Mafarrico, Pedro de Malasar- 
tes. No Livro dos Pregos, da Gamara municipal de 

(i) Joly, intr., p. 226. No Livro velho das Linhagens M-se de 
Pedro Munda «que di:eem que foi sepoh do Demo.» 
(2) Simão Machado, Comedias portugiiezas, p. i8l^ 



SUPERSTIÇÕES POPVUlRES PORTUGUEZAS 191 

Lisboa, descrevendo-se a ordem dos ofikíos e misteres 
na procissão do Corpo de Deus, vem: cÇapateiros 
com o Dragão, II Diabos, e 2 provincos,^ Na lingua- 
gem popular dos Açores usa-se reprehender as crian- 
ças turlwilentas chamando-lbes Previnco máo. Também 
na Beira Alta «Ás crianças turbulentas dá^se o nome 
de Proibimos, e diz-se que o Probínco é o diabo.» (4) 
 palavra deriva evidentemente de per vinctdum, e 
confirmasse pela qperaçSo magica de atar o rabo ao 
diabo, para que as cousas perdidas appareçam ; (Gaia) 
em Braga atasse a perna ao diabo, amarrando um lenço 
á perna de uma cadeira, e diz-se a fórmula : 

Aqui te amarro, diabo. 

Aqui te amarro o teu rabo, 

Á perna d*e8ta cadeira, 

Em quanto não appareeer fa c(msa perdida) 

Aqui hasâe padecer. (2) 

No entremez do Anjo, do Conde de Vimioso, entra 
em scena um diabo amarrado ; tal é o previnco, que 
se contrapunba à locução anda o diabo á soUa, e que 
se tomou uma palavra injurioss^. Ainda diz D. Fran« 
cisco Manuel de Mello : «Vamos vér a procissão. Lá 
vem o Diabo na Dama com as bexigas.i» (3) 

O pessoal nmgieo poptdar: Benzedores e Sortikgos. 
— Segundo a antiga concepção árica, que chegou a 
representar-se no Rig-Veda, a Magia tinha dois aspe* 
ctos, um bom, que era a obra divina com que se 
ccmíbatia ou atalhava a obra maléfica dos Rakshas e 
dos Suras, cup poder se contrapunha ao dos deuses. 
No pessoal magico portuguez ainda temos esta conce- 
pção primitiva^ em que os SortUegos empregam as 

(1, 2) Leite de VaAConceUos, Trud,, p. 315 e ai3. 
(3) Feira de Anexins, p. 133. 



192 UYRO II, CAPITULO II 

Conjurações, pragas e imprecações que fazem mal, e 
os Benzedores ou Benzilhões^ que sabem os Ensalmos 
para curar as doenças, e as Orações que protegem o 
individuo em todos os actos da sua vida, quando come, 
dorme, viaja, ou quando ha trovoada, sabendo degra^ 
dar sombras, cartar o ár, e os feitiços, e descobrir 
thezouros. 

Estes poderes, maléficos ou benéficos, residem na 
Oração ! É este o pensamento fundamental de todos 
os cultos e de todas as theologias antigas, e a razão 
de ser do corpo sacerdotal, como se observa na classe 
brahmanica. Deus nao existe, é a Oração que o cria, 
e que por si mesma se toma Deus ; e aquelle que 
sabe a Oração tem em si a divindade e chega a sub- 
stituir-se a ella. Tal é o sentido expresso na palavra 
Brahman, que significa a Oração, o acto cultual, a 
divindade creada pela palavra, (o Logos johanino) e 
por fim o próprio sacerdote brahmanico, que sabe 
trazer á sua vontade o Deus incorpóreo, e que chega 
a substituir-se-lhe. (1) Postoque esta concepção appa- 
reça na índia e no Occidente em épocas de elevada 
abstracção theologica, comtudo ella tem raizes popu- 
lares que subsistem ainda, nas praticas em que a 
Palavra rythmica, dialogada, aliterada ou desconhe- 
cida se impõe com um perstigio sobrenatural na forma 
de Oração omnipotente á credulidade do vulgo. 

Sem este ponto de vista é impossível comprehender 
a variedade e a persistência das Orações populares. 
João de Barros, cita os cegos rezadores, do seu tempo : 
«os ofBciaes públicos cuja profissão é papel e tinta, 
que a não tiverem de letra redonda, não sabem rezar 
hua oraçã per ella, e pela tirada tam mais correntes que 
um cego na Oração da Emparedada. » (2) Nos Relógios 

(1) Gubernatis, Piccola Encyclopedia indiana^ p. 472. 

(2) Grammatica, (1539). 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 193 

faUantes, allude D. Francisco Manuel aos Cegos rezar 
dores (p. 24) ; e no Escriptorio de Avarento, aceres- 
centa : «já sabeis que muito poucas (l'ac[uellas mulhe- 
res (as regateiras) tem de cbristãs, ainda mal, mais 
que o nome, e com isto assim ser, sâo a própria 
pontualidade em assalariar um cego que lhe rese 
pelos mortos, em quanto ellas vao acabando com os 
vivos. Era meu primeiro amo o cego de sua obrigação 
e seu fiel mercieiro, que a troco de 30 réis por mez, 
que nao vai mais devoção tao suspeitosa, lhe resava 
30 mil desvarios por hora ; nâo deixava Testamento 
de Pilatos; Despedida ou apartamento da Alma, e Impe- 
ratriz Porcina, que em toada lhes não rezasse.» (1) 
Os índices Expurgatorios do século xvi prohibem mui- 
tas d'estas Orações. Â mae de Filinto Elisio ainda 
pagava aos cegos rezadores, para lhe recitarem na 
quaresma as quadras da Fortaleza divina. Assim como 
a Oração é a boa palavra (sumna, o hynmo) também 
pôde ser a imprecação, a praga, que se atira e com 
que se fere. 

No processo de Luiz de la Penha, de 1626, ha 
preciosas amostras das imprecações ou conjurações 
populares; eis as Palavras de encantamento que em- 
pregava: 

Eu te encanto, 

E te recanto, 

E sobreencanto, 

Com todos os encantadores, 

E com a Casa Santa de David, 

E com a hóstia consagrada 

Se é assim. Alleloia, AUeluia 1 

S. Marcos te amargue, 

S. Mancos te amance ; 

A graça de Dens e do Espirito Santo te abrande. 

A hóstia consagrada te encarne ; 

Quando me vires 

(i) Apologos dialogaes^ p. 94. 

13 U 



194 LIVRO II, CAPITULO II 

Em mi te remires, 
Quando me não vires 
Por mim gemas e suspires. 

Para evocar a alma de um defuncto, diz Luiz d^ 
la Penha: cPor-se-ha uma pessoa em pé huma hora, 
com um rolo acceso diante de si de cera, ba de resar 
trinta e trez credos, e trinta e trez ave-marias, e trinta 
e trez padre-nossos, e antes que rese isto dirá d'6sta 
maneira : 

Deus he luz, luz e Deus, 
Resquiescant in pace 
Pelos Fieis de Deus. 



E j8to trez vezes ; depois ha de dizer : 



Alma santa desamparada, 
a este mundo sejas tomada 
e de Deus sejas desconjurada. 

Por aquelles desejos, ardores e fervor, 

que tendes de vér a Deus nosso Seidior, 

vos peço me venhaes fallar, 

me respondeis ao que souberdes ; 

e isto que aqui reso 

não vol-o oíiereço nem vol-o dou 

até me não virdes fallar ; 

e se me vierdes fallar dar-vos-hei 

tudo o que até agora resei 

e me pedirdes. 



cE isto ba-se de fazer todas as noites até qne a 
alma lhe venha fallar e apparecer. (1) 

(I) Ap. Positivismo, t. ui, p. 203. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 195 

Ha também nos Processos da Inquisição as Orações 
para matar, como a segointe : 



Anjos do céo, justos da terra, 

Santos Fieis de Deus, 

D'alem mar, d'aqaem mar, 

No Monte Olivete vos ajuntae, 

E por Jesus Ghristo chamae^ 

No seu coração grítae 

Por (o nome da pessoa) 

Que não durma 1 

Que não coma ! 

Que se afogue 1 

Que se mate 1 

Que se enforque t 

Por tal santo e tal santa, 

E que seja logo e logo e já. (!) 



Para fazer mal a uma pessoa, apanha-se terra de 
uma sepultura e espalha-se á porta d'ella, espreitan- 
do-a se a calca com o pé esquerdo, porque então 
apanha-se depois, guarda-se e essa pessoa nunca 
mais tem fortuna. (Leiria.) E para se livrar d'este 
maU a pessoa entra na egreja, abaixa-se, apanha para 
traz o primeiro abjecto que está á mao, e mette-o na 
pia da agua benta. (2) As prin^ipaes sortes que se 
knçam, s9o para uma pessoa ser amada por outra, 
deitando-lhe ^al á porta ; eis a fórmula de salgamento : 



A porta (de f,.,) venho ressalgar, 
Para meu bem e não para meu mal ; 
Para que á amante que quizer entrar 
Se arme tal rio, tal mar. 



í 



i) Sentenças da Inquisição, t. n, p. 182, v. 
2) Pedroso, Superst.j n.«' 622 e 129. 



• • 



196 LIVRO II, CAPITULO II 

Tal guerra e tal desunião, 
Como Ferra-Braz com seu irmão. 



(Deitando manchêas de sal :) 



Esta é para Gaipház ; 

Esta é para Pilatos ; 

Esta é para Herodes, 

E esta e para o Diabo-coxo 

Que lhe aperte o garrocho, 

Que o faça estalar, 

E não possa parar, 

Sem pela minha porta passar 

E commigo fallar; 

Tudo o que sonhar me contará, 

Tudo o que tiver me dará, 

E todas as mulheres abandonará, 

E só a mim amará. 

(Évora.) 



A Carta de tocar era um poderoso talisman para 
todos os actos maléficos. Luiz de la Penha revelou 
como ella se fazia : «que se avia a pessoa de despir 
em uma casa só com elle, e lhe avia de tirar da perna 
esquerda uma pequenina de carne que fizesse sangue, 
e que lhe poria uma pequena de massa que elle avia 
de fazer, e com isso haveria uma carta de tocar. í^ (Li- 
bello, art. 3.) Na Carta de tocar tem «declarações dos 
tempos e modos e cousas e evangelhos com que se 
ha de usar d'eilas (art. 17.)— E apoz isto outra carta 
de tocar... e escripto o Evangelho de S. João, e decla- 
rando o que se ha de fazer, e diz que se hão de dizer 
os trez Evangelhos em trez sextas feiras sobre ella, 
e que depois a hao de tornar a metel-a debaixo da 
terra outras tantas sextas feiras em um adro secre- 
tamente, e que depois d'isto hão de fazer as devações 
que n'ella diz, e que hão de tocar em sexta feira de- 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 197 

pois do meio dia» e a segunda feira antes que saia o 
sol, com estas palavras : 

Ah ! Barrabaz ! 
à pessoa que quero 
por mim virás 
e farás 
o que a mim praz 1 

cEstas letras nos cantos do cabo, e em baixo tem 
umas letras em trez partes ; depois de tudo cumprido 
em dia de sabbado, porá debaixo de uma pedra d'ara 
até que se diga a primeira missa sobre ella, e então 
servirá ; e que hamde dizer estas palavras o dia que 
houver de tocar pela manhã á primeira cousa que vir : 

Com dois te vejo, 

com cinco te escanto ; 

o sangue te bebo, 

o coração te parto. (Art. 17.) 

cE outro papel com as Palavras da conjuração das 
Cartas de tocar ^ em que mette a : 

Deus Padre e a Virgem Maria, 

e todos os Apóstolos, 

e Santos e Santas da corte do céo ; 

e Santa Leona, e Santa Trebuca, 

e Santa Marvta, 

e Montenegro e seus irmãos, 

e companheiros que levarão 

as cartas e a esconjuracão I 

E por poples, e por goples, e por poples 

lhe diga o seu coração 

e a pescadeira e o banqueiro 

e a diaba, e que morrão 

por elle todos os que forem tocados, 

e todos estejam a seus mandados, 

e lhe dêem o mie tiverem 

e lhe pedir, e lhe digam o que souberem.» 

(Art. 48.) 



198 LIVRO II, CAPITULO II 

D. Francisco Manuel de Mello, refere-se á €Carta de 
tocar s em matéria de casamento.» (i) Esta classe dos 
sortilegos, ' exerce uma acção de terror entre o povo : 
cTambem notamos todos os dias o terror com que 
alguns encaram aquella mulher que suspeitam pro- 
fessa nas artes da bruxaria, a quem fazem carregar 
com a morte das crianças, e dos gados, com as doen- 
ças prolongadas que padecem, e com todos os seus 
desastres.» (2) O typo da Feiticeira acba-se admira- 
velmente descripto por Gil Vicente no Auto das Fadas, 
coincidindo com a entidade social primitiva : 



Ando nas encruzilhadas 
Per esconjuros provados 
Fazendo vir dez fínados 
Por saber uma verdade. 
E havendo piedade 
Das mulheres mal casadas^ 
Para as vér bem mandadas 
Ando pelos adros nua, 
Sem companhia nenhua 
Senão um sino-samão 
Mettido n'um coração 
De gato preto e não ai. 



Sempre quiz ser solteira 
Por mais estado de graça 

Vou pelo alguidarinho 
A candea e o saquinho^ 
E veredes labaredas. 



Este typo da Feiticeira, que adivinha o futuro e 
faz curas maravilhosas pertence ao tronco primitivo 



Si 



Apotogos diaiogaeSj p. 98. 

N. M. Sousa Moura, Panorama^ t. vn, p. 408. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 199 

das raças áricas^ apparecendo completo entre os povos 
scythas, thracios> getas, gaulezes e celtas ; as drui- 
díssas ou galligovenas, tinham o dom da visão e da 
propbecia, que se transmittia ás actaaes mulheres 
de virtude. Diz Bergmann, no seu estudo sobre os 
Getas : «Esta crença dos thracios e dos Celtas na apti- 
dão especial das mulheres-virgens para a visão e para 
a prophecia, foi transmittida por elles a muitos povos 
do ramo geta, que desde logo preferiram 'também as 
mulheres aos homens, mesmo para as praticas da 
adivinhação.» (i) Sprengel conhecia a realidade do 
facto eliminando o nome de feiticeiros pelo de feiti- 
ceiras, como notou Michelet. A Feiticeira descripta por 
Gil Vicente também se conservou donzella para ter 
maior poder ; e como as Mulheres de Visão scandina^ 
vas> ella também adivinha pelo caldeirão (o alguidar), 
nas encruzilhadas, e emprega o bolo do sacrifício (bolo 
de trigo alqueivado.) Diz Bergmann : «A adivinhação 
pelo caldeirão, usada pelos scythas, transmittiu-se 
também aos seus descendentes os povos do ramo geta. 
Exerceram-na entre elles as Mulheres- Victimarias CcUbi- 
runas) que pela inspecção do sangue das victimas, 
que era recolhido no bolo do sacrifício, prediziam os 
destinos e os acontecimentos futuros.» E accrescenta : 
«A adivinhação pelo caldeirão era principalmente usada 
nos sacrificios, como a aruspicina entre os romanos. 
Nos templos gregos, as grandes tripodes não eram 
senão os caldeirões primitivos do sacrifício coUocados 
sobre a tripeça.» (2) Em Gil Vicente cita-se o alguidar, 
e no processo de Maria Antónia ha a tripeça, a que 
Prestes chamava trepem. Era nas encruzilhailas, ou 
encontro dos caminhos (veksaman, scyth.) que os 



!i! 



1) Les Getes, p. 299. 
Op. cit., p. 296 e 299. 



200 UVRO II, CAPITULO 11 

Scythas coUocayam o caldeirão magico consagrado a 
Targítavus. Diz Gil Vicente : 

Este caminho vae para lá, 
Esfoutro atravessa cá ; 
Vós no meio, algoidar, 
Que aqui cruz não hade estar. 

Diz Bergmann : «Este caldeirão, como sagrado, con- 
sagrava também tudo o que o rodeava ; e por isso o 
largo da encruzilhada, e a fonte que ahi se achava, 
eram ambos designados Veksaman-paihur. » Desde que 
o bronze deixou de ter caracter magico, o caldeirão 
substituiu-se pelo alguidar e bacia ; D. Francisco Ma- 
nuel refere-se a este uso : «Com sonhos e bacia de 
agua ha dias que ando de quebra. Beata despida, de 
cabello soito, resando por entre dentes a Oração de 
Santo Erasmo, passeando a casa em louvor de Santo 
André, nunca d'ella come bom boccado.» (1) Garrett 
no Arco de SanfAnna também traça este retrato da 
feiticeira : <D'ahi com uma pieira rouca e desafinada 
se poz a cantar... ^trovas de má mente, e máo escon^ 
juro, que lhe saiani trepidando dos beiços como espuma 
de feitiços que fervem n'um lar maldito em caldeirão 
de trez pés, manco, rachado e ao lume de figueira 
verde.» (2) O retrato mais authentico tomado sobre 
o vivo é o de Maria Antónia, de 1683 ; lê-se na sua 
sentença do Santo OflQcio : «sem saber lér nem escre- 
ver, curava todo o género de enfermidade de quaes- 
quer pessoas ou animaes, que se lhe ofifereciam, lan- 
çando dos corpos de outros endemoninhados espíritos 
malignos; fazia unir as vontades discordes entre os 
cagados; levantava os queixos da bocca aos que lhe 



líi 



Cartas, p. 542. 
Gap. xvm. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 201 

cabiam, e fazia parir com bom succeso as mulberes 
pejadas; observando sempre os effeitos das ditas 
consas especialmente ás quartas e sextas feiras da 
semana por as ter mais proporcionadas para os fins 
que procurava ; usando para elles somente de palor 
vras, orações, benção^ agua lenta, terra de adro, de 
nove hervas, de cruzes que fazia nos braços dos ditos 
enfermos ou sobre alguma cousa dos mesmos, estando 
ausentes, mandando encher em rios ou fontes nove 
vezes uma quarta de agua, a fim de vasadas as outo, 
a nona servisse para remédio dos ditos males. Para 
a cura das quaes primeiro estremecia e se esprigui- 
çava e fazia visagens com a bocca cobrindo-a. Dizia 
que ella tomava os males e o dr dos ditos enfermos, 
aos quaes jnandava que passassem por pontes escuras 
para traz. Dava cartas a que chamava de tocar para 
fins torpes e deshonestos, mandando-as metter pri- 
meiro debaixo da pedra d'ara sobre a qual se dissesse 
missa. Fazia supersticiosamente devoções, armando 
uma meza de trez pés para cima, pondo em cada um 
sua vda ou candeia accesa, e no meio uma imagem 
de Santo Arasmo, dando passos ao redor e fazendo 
rezas, e finalmente chamava pintãos, os quaes logo 
visivelmente lhe appareciam negros, e os consultava 
para saber d'elles como havia de fazer as ditas curas, 
e dada resposta desappareciam.» Gil Vicente traz no 
seu esconjuro : «Negro é o corvo e negro é o pez.» 
A Oração de Santo Arasmo, acha-se no mesmo 
processo : 



Senhor Santo Arasmo, Bispo, 

Arcebispo, Gapellão e Confessor 

De mea Senhor Jesus Chrísto ! 

Papa em Roma 

Por esses ardores e fervores que tivestes 

Em vosso coração quando vistes 



202 LITRO II» CAPITULO II 

Estes cruéis mimigos a vossas ilhargas^ 

Para vossas tripas vos tirarem 

Em um caneleiro encanelar 

E em o mar sagrado vol-as botar ; 

Assim, Senhor^ fazei isto que vos peço.» (!) 

A Oração de Maria Antónia, para conciliar casados, 
era : cEu te desato» desligo, pelo poder (}e Deus, de 
S. Pedro, de S. Paulo e de S. Thiago.» E mandava-os 
lavar dez vezes em agua benta. 

A bacia de agua era empregada para adivinhações, 
como na sorte do chumbo, ou na sorte das luzes. 
Eis a descripçSo de Luiz de la Penha : c Tomarão uma 
altamia de agua, e trez candeas de palmas de rolo, 
e cortal-as-hão de cada parte eguahnente, e pol-as- 
hao accesas na dita altamia da banda de dentro que 
n3o chegue a augua afastadas umas das outras ; á 
primeira da m3o direita porá o nome S. João Evan- 
gelista, e a segunda em nome de Nossa Senhora, e 
a terceira em nome da pessoa ou do que quizerem 
saber ; e tanto que tiver isto feito hade ser entre as 
nove e as dez horas da noite e hade resar estas ora- 
ções : treze patre-nostres e treze avemarias, e treze 
credos, e acabando de resar cada huma oração d'estas 
ade beijar a terra com a bocca, e se houver de ser 
o que pede hase de apagar primeiro a de S. João, e 
se houver de ser tarde ha-se de apagar a da Senhora, 
e se não houver de ser o que pede ha-se de apagar 
a sua da tal pessoa.» (2) Na sorte do chumbo é Uai 
gral de pedra ou outro vaso com agua, e derramado 
dentro o chumbo derretido, pelas formas que apre- 
senta é que se adivinha. As sortes eram também em- 
pregadas para descobrir furtos, como vemos pelo pro- 
cesso de Anna Martins : «lançava sortes pregando uma 

(i) GoUec. de Moreira, 1 1, p. 437, v. 
(2) Processo, ap. Positivímo, t. ni, p. 203. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 203 

thezoura no arco de uma peneira, e pendurada n'ella 
repetia vários nomes, e quando a peneira dava volta, 
dizia que vinha no conhecimento da pessoa, que havia 
commettido o furto.» 

Vejamos agora a Magia benéfica, que começa por 
desfazer o influxo das entidades do mal. Anua Martins 
na Cura dos feitiços: Benzia as pessoas: <e se esta- 
vam ausentes benzia aqueUa parte da roupa ou ves- 
tido que lhe traziam, repetindo sempre trez vezes o 
nome de Jesus, e então nomeava a pessoa enferma, 
e continuava dizendo estas palavras : 



Se alguma bruxaria, 

feiticeria, 

ataria 

redéaría, 

acanharia, 

e eleciaría 

te está feita por inveja 

ou por malquerença 

que n'ella donnisses 

ou por ella passasses, 

te seja logo desfeita 

pelo poder de Deus e de S. Pedro e S. Paulo, 

e do apostolo San Thiago, 

que logo sejas são e salvo. 

£ se pelo poder de Gaifaz está feita 

pelo poder de S. Thiago seja desfeita, 

e logo sejas desatado, 

desamarrado, 

desencanhado, 

desenliçado 

e desenfeitiçado. 



tE tendo repetido por trez vezes as referidas pala- 
vras continuava com as seguintes : 

Se pelo poder de Satanaz foi feito, 
pelo poder de S. João seja ddsfdto ; 



204 LIVRO U, CAPITULO II 

O que tombem fepetia por trez vezes e então accrescen- 
tava: 

Se pelo poder de Lacifer foi feito 

Selo poder de S. Thomé seja desfeito, 
^m te prende, trez te soltam, 
Padre, Filho, Espirito Santo 
Trez pessoas e um só Deus verdadeiro. 

cE no discurso da dita reza estava sempre nomeando 
a pessoa que benzia, e se estava ausente fazia as 
dietas rezas e cerimonias sobre o signal que^'ella 
tinha, e accrescentava á dieta reza estas palavras: 



Um te ata, um te enfeitiça 

trez te desata; * trez te desinfeitiçam 
um te elecia, um te embruxa, 

trez te desenleciam ; trez te desembruxam ; 

um te encanha, um te pica, 

trez te desencanham ; trez te despicam. 



cE nomeando no fim as Pessoas da S. Trindade 
acaba sempre n'esta forma a sobredicta resa, a qual 
fazia por certos dias costumados.» (i) 

A velha crença da Edade media Úbiqtie daemont 
é a que persiste entre o povo, que se acompanha de 
Orações em todos os actos quotidianos. A crença 
mazdeana dos Anjos da Guarda^ é geral aos povos 
catholicos ; no Minho resa-se : 

Anjo da minha guarda Peço-vos Anjo bemdito 

Semelhança do Senhor, Peia graça e poder, 

Que de Deus foste creádo Que do laço do demónio 

Para meu amparador. Me ajudeis a defender. 

(Airão.) 
(1) Sentenças (no Inst, t. ix, p. 380.) 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 305 

 Virgem Mae é também invocada : 

Virgem soberana Da vossa vida, 

Da Conceição Onde a minha alma 

Liivrae-me dos perigos Não seja perdida, 

£ tribulação. Nem eu 

Assentae-me no livro Nem cousa minha. 

(Airão.) 

No Minho resa-se as seguintes Orações para o deitar 
da cama: 

Senhor, n*esta cama me deitei, 

Sete Anjos n*ella achei; 

Trez aos pés e quatro a cabeceira 

E Nossa senhora na dianteira. 

E Nossa Senhora me disse : 

— Filho meu, dorme e repousa, 

E não tenhas medo de qualquer cousa, (i) 

(i) Em uma variante de Ourilhe, accrescenta-se : 

Persina-te, e persino-me eu : 

Benta é a hora em que Ghristo nasceu; 

Bento o altar 

Benta a hora em que me ftti deitar; 

Tange a hora, 

Ghristo a tange, a Virsem adora; 

Ditosa a alma que se deita n*esta hora. 

Em Aveiro diz-se pela seguinte forma : 

Graças a Deus Não tenhas medo 

Que já me deitei. De nenhuma cousa ; 

Sete anjinhos Não tenhas medo 

Eu encontrei Que aqui está Jesus 

Trez aos pées Seus braços abertos, 

Quatr'á cabeceira Pregado na cruz. 

E Nossa Senhora Seus braços abertos 

Na dianteira Seus pés encravados, 

Ella me disse : Vertendo o seu sangue 

«Filha, dorme e repousa. Por os nossos peccílos. 

Esta oração popular encontra-se com outros cortes métricos 



208 



UYRO U, CAPITULO II 



Senhor, ii*e8ta eama 
Deítar-me quero, 
E miidiaalma 
Yol-a entrego ; 
E se eu durmo 



Outra: 



Ouira : 



Accordae-me, 
E se eu morro 
Allumiae-me 
Com o auxilio 
Da divina graça. 



Senhor, n'e8ta cama 

Me vou a deitar; 

Para o meu corpo 

Descançar. 

E se eu n*ella morrer 



8U6 nao possa (aliar, 
meu eoraçlo 
Trez vezes oirà : 
— Jesus, Jesus, Jesus, 
Me queira salvar. 



Outra: 



Com Deus me deito, 
Com Deus me alevaato, 
Com obia e fraca 
Do Espirito Santo, 
E o Senhor nos oulNra 
Com o seu manto ; 
E se eu com elle 



Coberto fôr 
Não terei medo 
Nem pavor. 
Nem de cousa 
Que má fôr, 
E — Amen seja 
Em seu louvor. 



no livro Violetas, de Mello Freitas, p. 278, onde traz esta nota : 
«Muita gente resa ainda ao deitar da eama esta estranha ora- 
ção. O mais notável porém são uns longes de simílhança que 
tem com outra que H^iri Gonscíence apresenta : «Le soir, 
quand |e vais me coudier — seize petits anges m*aocompa- 
gnent — deux se placent à mon chevet— denx à mes pieds, 
— deux à ma droite, deui à ma gaúche,— deux me defendent, 
et deux m*6veillent —^ et deux me montrent le ohemm — du 
celeste Paradis. 

Gette singulière príere de méme qu'une autre commeaçant 
par ces mots : Bon ange Saint Michel, je vous reconunande 
m(Hi ime et mon corps,— est encore recitée à Anvers par les 
enfants, dans une foule de familles. Immediatement aproa suit 
le Notre Pere ou toute autre prière connue.» (Les Veiltées fiam- 
numiesj 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 207 

Estas Orações do Minho terminam qaasi sempre 
com o seguinte pensamento : 

Quem esta Oração dixer 

Quando se fôr aeitar 

E a quando se aievantar, 

Indas que os peccados sejam tantos 

Gomo as ervinhas dos campos, 

Gomo as areias do mar, 

O Senhor tudo Fhade perdoar. 



Outra: 



Eu me entrego a Deus Padre Sejam marcos da minha ahna 

E á Virgem sua madre ; Gontra os meus inimigos 

E aos quatro Patríarcbas, Baptizados ou por haptizar ; 

E aos onze Seraphins Arrebenta satanaz, 

E aos onze Apóstolos, Arrebentem elles todos 

E ao Senhor S. Marcos, E algum mais se fica atraz. 

(Mru: 

Gom Deos me deito 

Gom Deos me alevanto^ 

Gom a graça de Deos 

E do Espirito Santo. 

Nossa Senhora do Pranto 

Me cubra com o seu manto ; 

E se eu bem coberto fôr, 

Não terei medo nem pavor. 

Amen, Deus, Jesus, Senhor. 

Se eu dormir, acompanhae-me, 

Se eu morrer, allumiae-me (me alumiade) 

Gom as trez tochas 

Da Santíssima Trindade. 



Outra: 

N'esta cama me venho deitar : 
Gom nossa Senhora quero fallar. 



206 UYRO II, CAPITULO II 

Quatro cousas lhe quero pedir : 
A confissão e a Santa uncçao, 
O círio e a luz ; 
Assim o permitia Jesus. 
Senhor meu Jesus Ghristo» 
Na minha cama me deito, 
Não sei se me levantarei, 
Eu me confesso e commungo, 
Em a vossa santa lei. 
Senhor meu Jesus Ghristo, 
Amor do meu coração, 
Perdoae-me os meus peccados, 
Bem sabeis quaes elles são. 
O Anjo tocou a hora, 
Ghristo a adora, 
Bemdita seja a ahna 
Que^e deita n*esta hora. 
Fui deitar-me sosinha 
Ergui-me com companhia, 
Em roda da minha cama 
Achei a Virgem Maria. 
Quantos, senhor, se vão deitar, 
E ama^ecem finados. 
Não seja. Senhor, eu um d'esses. 
Pelos meus grandes peccados. 



Oração para defender a casa 

Senhor S. Marcos de Monte Maior, 
Livrae-me de bruxas a casa em redor. 
Toca na nómina^ a nómma toca ; 
Os Anjos a tangem, a Virgem a adora. 

Nas occasiões de grande perigo^ o povo costuma 
repetir: (Porto) 

Ghagas abertas. 
Lado ferido. 
Sangue derramado 
Meu Senhor Jesus Ghristo 
Se metta entre nós 
E o perigo. 



SUPERSTIÇÕES APULARES POftTUGUEZAS 200 

Quando ha trovoada, resa-se nas aldeãs : 

S. Jeronymo e Santa Barbora 
Dae-nos a vida que vivestes 
E livrae-nos da morte 
Em que morrestes. 
S. Pedro e S. SimSo 
Que trazem a chave do trovão, 
Assim como elles são santos 
Assim tragam os trovões mansos. 

(Carrazeda d'Anciaes.) 

Santa Barbora bemdita, 
Se vestia e se calçou, 
Ao caminho se botou, 
A Jesus Ghristo encontrou. 
O Senhor lhe perguntou : 
— Tu, Barbora, aonde vis ? 
«Vou espalhar as trovoadas 
Que no céo andam armadas, 
Deital-as para a serra de Marão, 
Onde não n^a palha nem grão. 
Nem meninos a chorar. 
Nem gallõs a cantar. (1) 

(ViUa-ReaL) 

No processo de Ânna Martins, de 1694, vem nma 
fórmula contra as trovoadas «o que repetia trez vezes 
e logo cessavam : 

Encosta, trovão encosta 
que em dia de S. Goma^ 
não tomei sarilho nem roca, 

(i) Leite de Vasconcellos cita uma fórmula bretã (Soavé, 
Prov. et DktonSj n.® 909} que merece aproximar-se dos dois 
ulthttos versos : 

Va-t'en loin dMci 



Oú tu n*auras coq chanter 
Nons plus qu'enfantelet pleurer. 

(Era Nova, p. 515.) 
14 H 



210 UTBO 11, CAFltUlO II 

nem Cisado para jogar a ehoca ; 
. aos matos manínnos, 
e á serra do Marão, 
onde se não cria palha nem grão, 
pó, nem cousa boa para ehrístão. 
Arreda, trovão, 
arreda, que não faças mal a menhum christão. (i) 

Para achar as cousas perdidas costnma-se responsar 
a Santo António; a antiga divindade Ataecina (em 
relações com Athene, segmido D. Joaquin Ck)Sta) con- 
forme uma inscripçSo de Villa YiQosa era invocada 
pelos lusitanos para descobrir os otj^tos roubados. (2) 
A analogia dos dois nomes actuaria em certo modo na 
adaptação da tradiçSo. Em Hespanha diz-se : 

Santo António português 
Devota éê h perdUa, 
Mio amante se perdio anocbe 
Buseánnelo, Santo mio. (3) 

(I) Em Ourílhe esta Oração resa-se a S. Ghristovam : 

S. Ghristovam se vestiu e calçou, 
E na sua cajatinha pegou, 
E ao caminho se botou, 
Jesus Ghristo encontrou. 
«Tu Ghristovam, onde vás ? 
— ^Vou talhar estes trovões. 
Sobre nós andam armados. 
«Ora vae, Ghristovam, vae 
Bota-os ao monte battiinho^ 
Onde não haja pão nem vinho, 
Nem ramo de figueira. 
Nem bafo de menino, 
Nem nada que faça mal. 
Amen Jesus. 

{Romania, t. iii, p. 266.) 

(fS Poesia popuUur efpwnola, p. 344. 

(3) R. Mann, Caídos populares espanoles, t. n, p. 261. 



SUPERSTIÇÕES POHJLAteS POATUGUEZAS 211 

Na Sentença de Ânna Martins, de íÕQi, vein a 
segaínte Oração a Santo António para achar as ccmas 
perdidas : 

Milagroso Santo António, 

pelo habito que vestiste 

pelo cordão que cingiste 

pelo breviário que resaste, 

pela cruz que tomaste 

pelo Senhor que levantaste 

por aquelles trez dias 

que no horto de Jesus 

em busca do breviário andaste, 

pelo contacto que de Jesus tiveste ; 

que nos seus braços se foi assentar, 

pelo ríco sermão 

que na cidade de Pádua estava pregando, 

e revelação 

que tiveste que levavam vosso pae 

a forca por sete sentenças falsas, 

e d'ellas o livraste, 

em quanto a gente resava a Ave-lfaria, 

e o vosso ríco sermão acabaste, 

assim vos peço P. S. António 

façaes apparecer o que se ftirtoti. . . 



«E depois da sobredita resa fazia a sorte da peneira, 
pregando no arco d'eUa uma thezoura aberta, e 
fazendo certas bênçãos e esconjuros á peneira, quando 
ella a um dos muitos nomes que repetia, dava duas 
voltas, era certo ser aqnelle o da pessoa que havia 
feito o dito furto. » No Minho (Airão) resa-se a seguinte, 
com algumas analogias com outra Oração popular em 
Sevilha : 

Oh meu alto Santo António Seu caminhinho andou ; 

Em Lisboa foste nado, Jesus Ghrísto encontrou 

Em Roma foste críado í E o Senhor lhe perguntou : 

Símto António se levantou, — Onde vás, António ? 

Seu bordãosinho agarrou, «Senhor, para o céo vou* 



• • 



2<2 UVRO II9 CAPITULO 11 

— To eominigo não irás ; Todas tu as ouvirás, 

Ta na terra ficarás, O que perderes acharás. (1) 

Missas que mandar dizer 

Em uma Oraç3o a Santa Barbara (yers2o de Gon- 
domar) ba o typo commmn : cTu commigo n3o irás. 
Tu na terra ficarás.» 

Contra os Cães damnados, ba também mna pode- 
rosa Oração, que se resa em Roriz : 

Senhora da Luz, £ por achar. 

Senhora da Bella Cruz, De homem morto 

Senhora da Reginandade, Que é máo encontro, 1 

Que me livre de cães damnados De homem vivo : 

E por damnar; Que é máo perigo, I 

De bichos achados S. Romão seja commigo. (2) < 

(1) Oração de Santo António 

San António de Panda, 

que em Pauda nasiste 

en Portugal te criaste, 

en er purpito de Dios pericaste ; 

estando pericando er sermon 

te bino un ange con la embajá ; 

2ue á tu pare le iban a ajustisíá. 
\t caminito tomaste 
er berebiario te se perdió 
la Birgen se lo encontro ; 
três boses te dió : j 

António ! António I António ! ! 

buerve atrás, 1 

lo orviao será jallao, j 

Santo mio, 

por tu ramito e flores ' 

que paresca lo perdio. 

(Carmona.— Sevilla —) 
Ap. Fotíc-Lore andaluz^ p. 41. 

(2) Almanach de Lembranças para 1872, p. 198. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORtUGUEZAS 213 

Muitas devoções populares resultam cl'estas crenças 
do poder da Oração contra o perigo ; os santos a que 
se resam s3o advogados, taes como: Santa Luzia, 
da vista, S. Marçal dos incêndios, e Nossa Senhora da 
Meca contra os c3es damnados. N'esta situação de 
espirito, as doenças deveriam tomar um caracter 
sagrado, como a epilepsia, o bemzirÚM de Deus ou gota, 
o Mal de ave-maria ou o estupor e propriamente a apo- 
plexia ; assim os benzilhões tomavam-se curandeiros. 

Os Curandeiros e a Medicina popular. — Muitas pra- 
ticas supersticiosas s3o restos de um empirismo espon- 
tâneo, quer tradicional ou vulgar, com que o povo 
trata as suas doenças. O empirismo vulgar consiste 
em analogias estabelecidas entre as doenças, como a 
erysipela e as herpes, ou entre os órgãos, como os 
braços e as pernas, applicando-lhes assim os remédios 
de uns para os outros. (1) O empirismo tradicional, 
caracterisa-se n'esta ordem de superstições pela sua 
proveniência egypcia. É no Egypto que vemos a Medi- 
cina com um caracter sagrado ; no templo de Imhotep, 
em Memphis, existia uma bíbliotheca medica, conser- 
vada ainda no tempo dós imperadores romanos, e 
cujos remédios eram adoptados pelos médicos gre- 
gos, (2) que para lisongearem a sociedade romana 
retrogradavam do experimentalismo ao empirismo 
alexandrino. Os médicos egypcios eram essencialmente 
especialistas, caracter que se conservou na eschola 
de Alexandria, e que o povo ainda exige, como nos 
algébristas ou endireitadores de articulações. As dou- 
trinas medicas egypcias, consistiam na crença nos 
espiritos vitaes, d'onde se conserva ainda na linguagem 
usual a locução de sopro da vida, e sopro da morte, 

(i) Daremberg, Hist des Sciences médicaíes, 1 1, p. 172. 
(2) Maspero, Hist, des peuples de l'Orieni, p. 81. 



%li UYRO II, CAPITULO H 

Sue entre o povo se traduz pela expressão genérica 
B fkuo, e ár. Paracelso, que se apresentava como 
um reformador da medicina, n3o fez sen3o retrogradar 
a esta tradição egypcia ; dizia elle no Labffrinthus 
medicorum : ca m^icina deve provir d'este espiríio 
qpe ha no homem. O que vem d'este espirito, ao qual 
regressa é o verdadeiro discipulo da medicina.» 

A tradição egypcia passou para Roma, por meio de 
Âsclepiade, amigo de Gicero, lavrando sobre um solo 
em que dominava o empirismo vulgar, dominando os 
curandeiros, que nas famílias eram os escravos, ou 
ás vezes os chefes, como Gatão o censor, que detes- 
tava com todas as suas veras o diagnostico scientifico 
da medicina grega. Plinio descrevendo minuciosa- 
mente este empirismo, conservado em Roma jà das 
praticas etruscas, já da influencia alexandrina, foi um 
dos propugnadores durante a Edade media d'essa 
Medicina dos curandeiros, que nos apparece tanto nos 
livros da polypharmacia (Porttigal medico, Polyanthea 
medicinais e outros) como na transmissão oral do povo. 
Vejamos como a comprehensão das doenças e a forma 
do tratamento, são justamente aquellas que se trans- 
mittiram do Egypto ; escreve Maspero, sobre o Pa- 
pyrus de Berlim, em que se enumeram as principaes 
doenças, ainda hoje populares, as Varizes, Úlceras nas 
pernas, Erysipela, o Bicho, e a Epilepsia ou a doença 
divina : «as doenças não tinham sempre uma origem 
natural. Eram muitas vezes produzidas por espíritos 
maléficos que entravam no corpo do homem, trahindo 
a sua presença por desordens mais ou menos graves. 
Tratando-se dos eíFeitos exteriores, chegava-se quando 
muito a alliviar o paciente. Para conseguir a cura 
completa, era preciso supprímir a causa principal da 
doença, afastando com rezas o espirito da possessão. 
Assim uma receita do medico compunha-se de duas 
parteSy uma formtda magica e uma fórmula therapeu- 



# 

li 



SUPERSTIOdES POPtJLARfiS PORtUGUEZÂS SIS 

tica.» (1) É este o carscter das receitas medicas do 
povo, em que se cura directa e exclusivameiíte oom 
palavras^ ou em que ha também uma parte therapeu- 
tica, poções, (fervedouros) catapiastnas ou estopadas, 
e pomadas ou unturas. 

No romance picaresco a Lozana andalusa, do padre 
Francisco Delicado, vem a enumeração da medicina 
popular do século xti : t Yo só ensalmart y mc&mmáar 
7 saniiguarj cuando algnno esta ahojado, qUe se vieja 
Hie yesb^ qoe era saludadera 7 buena como 70 ; sé 
quitar ahitos, sé para hmbrices, sé eneanêar la ter- 
dana, sé remédio para las cuartanas^ 7 para el mal 
de madre, sé cortar frenUtos de bobos e no bobos, sé 
hacer que »o dueian hs rifíones 7 sanar las renes, 7 
sé medicar la natura de la mujer e dei bombre^ sé 
sanar la sardera, 7 sé ensdver sueffos, sé conocer en 
la frente la phisionomia, 7 la chiromancia en la mano, 
e prenosticar.» (2) Nas Orações populares portugueMs 
ha Fórmulas magicas para todas estas curas, umas 
dos processos da Inquisição do século xvii e xthi, 
outras da tradição oral corrente. 

A palavra tem um poder excepcional sobre os espi- 
ritos que produzem a perturbação pathologica, sobre- 
tudo sendo palavra innota, (Yid. supra, p. 38.) Na 
ilha de S. Miguel, diz-se contra o poder maléfico das 
bmias estas palavras incomprebensíveis : 



Coronguena, santa cruz, 
MechicantOy 
Jeqvis domenada^ 
Domenataiada 
Sabistisanto. (3) 



(1) Hist anc. de FOrient, p. 85. 

(2) Retrato de la Lozana andaluza, p. 216. 

(3> AlmaMOÓh do Archipelago açor., para 1868, p. liO. 



2<6 UYRO n, CAPITULO n 

Herculano também cita mna fórmula com palavras 
desconhecidas : 

Ferrato 
Ândato, 
Passe por baixo. (I) 

O poder de curar com palavras foi reconhecido 
ofBcíalmente por um alvará de D. João ly, de 13 de 
outubro de 1654, no qual concede ao soldado António 
Rodrigues 40)91000 rs por anno pelas curas que tem 
feito com palavras, e para assistir ao exercito €para 
se poderem valer d' eUe.i^ (2) Na tradição popular ainda 
subsiste o titulo de Doutor da mula ruça, que 'era um 
medico da época de D. João ui, provavelmente à altura 
d'este estado mental. Na Finlândia, o curandeiro 
conhece a doença e o seu remédio por um dom sobre- 
natural, o synti; Ânna Martins, que foi condemnada 
na Inquisição de Coimbra fazia as suas curas : «ben- 
zendo, como d'antes costumava, applicando-lhe por 
maior segurança a dita reza dos feitiços, por servir 
para toda a doença, e tanto que lhe fallavam indivi- 
dualmente n'aquella que padeciam, sentia ella em si 
o mesmo achaque, e por isso continuara a reza em 
ordem ao mesmo mal não conseguindo algumas mes- 
tras, que primeiro se benziam a si por se livrarem 
do achaque do que benzessem, porque o mal sempre 
hade de vir d pessoa que benzia, para o enfermo ficar 
livre d'elle, usando também da reza do Anjo Custodio 
por ser muito efficaz para lançar fora todos os acha- 
ques, espíritos malignos, que ella lançava dos corpos 
obsessos...» Usa-se geralmente na Extremadura come- 
çar o tratamento benzendo o doente com contas de 



ÍSi 



Pan., t. lY, p. 164. 

Publicado no Jornal de Coimbra^ n.« 4S, P. i, p. 219. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS ^17 

azeviche, fazendo-o cuspir sobre brazas dizendo ao 
mesmo tempo : Para nada preste I Para nada preste I 
Para nada preste 1 Âs brazas são depois deitadas ao 
mar. (1) No processo de Ânna Martins, de 1694, lê-se 
que benzendo os enfermos c andava com as contas em 
circulo da cabeça das mesmas pessoas, dizendo que : 



Pelo poder de Deus 

de S. Pedro e de S. Paulo 

e de todos os Santos 

que te livrem d*aquelles males ; 

eu te degrado 

para a ilha do Enxofre, 

e para o mar coalhado 

por tantos annos 

quantos são os granos 

que ha em um alqueire 

de milho painço ; 

porque eu sou a benzedeira 

a senhora e a curadeira. . . 



£ algumas vezes accrescentava : 



Eu degrado o âr da figueira, 
o ár do soar e desoar da porta, 
o àr da gallinha choca 
o ár do cisco da casa. . . (2) 



Em outro logar da Sentença se lè acerca de Ânna 
Martins : «Antes de fazer a résa e de chegarem as 
ditas pessoas á sua presença, conhecia o mal que 
padeciam, porquanto se era quebranto^ ^e punha nos 
braços d'eila Re, e se eram feitiços, se lhe punham 



(i) Pedroso, Superst., n.« 193. 

(2) Empregava-a também para benzer endemoninhados. 
Instituto, t. IX, p 381. 



218 LIVM II, GAPITCLO n 

no coração, sentindo n'uma e n'outra parte grandes 
dores.» No Alemtejo chama-se a estes curandeiros 
Soldadores. (1) 

Lê-se na Sentença contra Anna Martins (1694) as 
seguintes capacidades medicas : «curava de varias 
enfermidades, e para esse íim a procuravam muitas 
pessoas ou a mandavam consultar a respeito dos acha- 
ques que padeciam, e lançava os espíritos malignos 
fora dos corpos de algumas pessoas, que estavam ende- 
moninhadas, desfazia feitiços, desligava as pessoas que 
estavam ligadas, descobria os furtos, declarando quem 
os havia feito. E pára eíFeíto de fazer as dietas curas 
e obrar todo o referido, n3o applicava remédios natu- 
raes... mas somente usava de palavras que dizia, e 
bênçãos que lançava sobre as pessoas enfermas ...» 
«disse e confessou que... se inclinara a curar todos 
os achaques e enfermidades para que fosse consultada, 
e assim se resolveu a applicar remédios ás pessoas 
que tinham quebranto, feitiços, ár sciatico, gota, fígado, 
friaidadesy febres, maleitas, fogo de feridas, dores de 
dentes, quebraduras, desmentiduras, e outras varias 
enfermidades...» Transcreveremos em seguida algu- 
mas das fórmulas e praticas empregadas por esta 
benzilhona : 

Achaques de ár : atalhava o ár benzendo a pessoa 

(1) «O costume de se medicarem os enfermos com bênçãos, 
sortilégios e invocações, e de recorrerem slos soldadores e ben- 
zilhões é antiquíssimo n*esta villa (Nisa) assim como as suas 
funestas consequências; porquanto jâ no anno de 1681 o bispo 
D. Rodrigo Russel as prohibiu com pena de excommunhão, e 
recommendou em visita ao Vigário da Vara, que inquirisse 
todos os annos escrupulosamente d'este negocio, e se alguns 
descobrisse, os fizesse prender e remetter para Portalegre para 
serem punidos ; mas apesar do rigor, elles sempre foram esca- 
pando, e hoje, que deveriam acabar pelas luzes da época, lem-se 
multiplicado e engrandecido como nunca . . . . » Dr. Motta e 
Moura, Mem, hist da ViUa de Nisa, t. ii, p. 81. 



SUPERSTIÇÕES POPULARSS PORTUGUEZAS 219 

enferma «e nomeando-a dizia as palavras sei^oín- 
tes: 

Se um t'o dea^ 

Trez t*o tirem, 

Que é Padre, Filho e Espírito Santo, 

Trez pessoas e um só Deus verdadeira 

(E tomando a nomear a pessoa enferma :) 

Eu te talho esta sciatiea, 
gota e fríaldades. 

Selo poder de Deus, 
e S. Pedro e S. Paulo, 
que logo sejas são e salvo, 
que nenhum mal aqui entraria, 
e logo são ficaria. 



Chagas ou fogo nas feridas: «nomeava primeiro trez 
vezes o nome de Jesus» continuava dizendo : 



Assim como o mar não tem sede, 

nem o lume frio, 

nem Deus outro Senhor, 

assim se tire d^aqui 

este fogo roborado, 

figádo, 

talhado, 

coceira e pruido, 

pêra que fique são e salvo 

pelo poder de S. Pedro e S. Paulo 

e do Apostolo S. Thiago. 



E algumas vezes fazia estas bênçãos com folhas de 
sabugueiro.» (1) 



(1) Sentença de Anna Martins^ 1694. 



220 LITRO n, CAPITULO U 

Para curar qudrraduras e deslocaduras. — tPondo a 
mão na parte Usa da pessoa, e nomeando-a, dizia : 

Assim como Nosso Senhor 

foi de setenta e dois espinhos coroado, 

de trez pregos na croz pregado, 

de cinco chagas chagado, 

dos jadeas cuspido e esbofeteado, 

pela roa da Amargura 

com a cruz ás costas levado, 

de seu corpo e membros desconjuntado, 

e depois de ressuscitar 

se tomaram ao seu logar, 

assim se tomem estas estortegaduras 

quebraduras, 

desíiaduras, 

desmentiduras, 

que logo fique são e salvo. 

O que tombem repetia por trez vezes.i^ 

Para o fíuxo de sangue. — Perguntando á pessoa : 

Se lhe pesava aquella sangria? 

Respondendo a dita pessoa que pesava, continuava dizendo : 

«Assim pesa á Virgem Maria 
como á mulher que ao sabbado fia 
e <á vespora do seu dia : 
Pelo poder de Deus 
de S. Pedro e S. Paulo 
e da Virgem Maria 
que logo estancado seria 
e mais aqui não correria. 

E ^ndo o fluxo do sangue éra dos narizes, accrescentava as 
segutntes palavras : 

Sangue tem-te em ti, 
assim como a Virgem 
se teve em si. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 221 

Dárde dentes. — «Correndo a mio pelo rosto e quei- 
xos, dizendo trez vezes o nome de Jesus : 

Santa ApoUonia ! 

Assim como os vossos dentes 

com ama torquez tiraste, 

e os queixos adormentaste^ 

assim me adormentae 

os queixos d*esta pessoa; 

para que d*aqui se tirem corrimentos, 

moimentos e dores. 

Pelo poder de Deus 

de S. Pedro e S. Paulo 

e do Apostolo S. Thiago : 

e em nome da Virgem Maria, 

e da gloriosa Santa ApoUonia, 

que logo os adormentaria; 

sam e salvo ficaria. 

Comecemos a descripção das doenças da patbologia 
popular, pelas moléstias da pele e suas análogas. A 
Fogagems talha-se fazendo-lbe cruzes em volta com 
trez olhos de sabugueiro, e cada olbo com trez folhas, 
dizendo : 

Sempre-verde venerado, 

Na campa do Senhor fostes achado, 

Sem ser nado, 

Nem semeado. 

Talha este fogo, este roborado^ 

Ar de vivo ou morto excommungado. 

Tudo aqui talha (1) 

Pelo poder de Deus e da Virgem Maria. 

(Penaguião.) 

A Vertoeja cura-se vestindo uma camisa de mulher 

(!) Em Guimarães diz-se : 

Ar de vivo. 

Ar de morto. 

Ar de excommungado 

Sae d*este corpo. 



22â UTfto II, CAmuLo n 

86 o doente é boiMBi e vice-tersa. (Extremadnra.) O 
Fogo UmrOy é ao que no Minho se chama o Bkho, e 
em outras partes Cobreia^ (Açores); se quando esta 
forma herpetica cinge completamente o brago ou pes- 
coço (isto é, que o bicho junta o rabo com a cabeça) 
morre-se inevitavelmente. Talhase o fogo louroj cor- 
tando esparto de archote queimado e palha-alhas, 
dizendo : 

£a te corto a cabeça, 
Eu te corto o corpo, 
Eu te corto o rabo, 
Eu te corto todo. 

Âjunta-se o retraço da tezoura, deítando-o sobre o 
pescoço do doente, dizendo : 

Eu o Tejo e o Douro 
E o Minho passei 
Fogo louro tattiei. 

Em outras partes fazem-se cruzes com uma faca 
sobre a parte leza, dizendo : 

«Que talho ? •— Bicho. 

«Bicho e bichão, 

«Sapo, sapão, 

«Âraníia, aranhão 

•Bicho de toda a nação, 

«Tudo aqui talho, 

Pelo poder de Deus e da Virgem Maria 

£ de Sw Pedro e de S. Paulo, 

E do apostolo S. Selivestre, 

Isto que te eu faço preste. 

E elle seja o veraadeiro mestre, (i) 

(Airão.) 

(1) Em Guimarãesi diz-se : 

Cobra, cobrão 

Sapo, sapão 

Todo o bicho da nação 



SUPERSTIÇâES P(M»ULARES FOITUGUEZAS 223 

O Cobreb, cura-âe no Cadaval deitando cinza de 
palhas-alhas em agoa fria, e borrifando-ocom vassoura 
de esparto ; e díz-se : 

«Ai senhor, que tenho medo 1 
— Não temas Pedro^ 
Que isso é um cobreio^ 
Dà-lhe com agua da fonte 
E m» esparto do monte, 
. Co* a ajuda de Deus e da Virgem Maria 
Elle abalaria, 
Padre Nosso, Ave-María. 

Etn louvor de Santa Mdreza 
E de Santa Andrezinha, 
Com agua de trez fontes 
E um raminho de oliveira 
Me curou o cobreio que tinha. (1) 

Estes ensalmos também se appticam para queixa 
de lombrigas e bicho no corpo ; no processo de Ânna 
Martins, de 1694, tomam-se «trez folhas de silva por 
cada vez, benzendo a pessoa enferma;» em Alijó: 
<em vez de se usar faca, pode-se usar de trez folhas 
de silva, que se unem e movem em forma de cruz.» (2) 

Em Minde, concelho de Porto de Moz, para curar 
o Cobim «fazem um mixto de pólvora, alhos pizados 
e vinagre, e depois em forma de cruz passam trez 
vezes por cima da parte enferma, com as costas de 

Que anda de rasto pelo chão, 
Para que não cresças 
E nem avessas. 
Mas antes obedeças 
Que venhas a bom humor 
Assim eomo vem o ekeiro à flor. 



íií 



Leite de Yasconeellos, in Era Nom, {k ^^L 
Idem, ibidem, p. 523. 



224 LIVEO II, CAntULO ti 

uma faca, acompanhando as cruzes.» Aspergem-no 
com ramo de alecrim e vinagre dizendo : 

Eu te corto, corvo, 

Cabeça e rabo 

E conpo todo t 

Quando S. Bento era estudante, 

Nenhum bicho ia para diante. 

Na mesma eschola andava S. Braz, 

Aqui te seques, aqui te mirrarás.» (i) 

Na ilha de S. Miguel cura-se a Cobreia esmagando 
com uma faca quente grSos de trigo e com o (Aeo 
negro que fica untando a herpe que lavra. 

No processo de Luiz de la Penha, a Erizipola é 
curada com as seguintes palavras : 

Rosa maldita 
Enconoza e embelicosa 
Vae-te d*aí 

Que de agua e de vento 
Foiste engendrada. 
«Com que la secaria ? 

— Com el dulce nombre 
de la Virgem Maria. 
«Com que lo sequàra? 

— Com el dulce nombre 
De la Virgem sagrada. 
Rogo e pido por merco 

A la gloriosa Virgem nuestra Senhora, 

Que ella sane esta rosa (de foãoj 

Enconosa e embelicosa 

E la eche per donde no abitem animaes, 

Nin cousa adomde agua danhe. 

Em nome dei Padre e dei hyffo, 

E dei espíritu santo. Amen. (2) 

N'esta fórmula é notável o mixto de castelhano è por- 

(i) Almanach de Lembranças para 1868/ p. i74. 
(S) P09itivismOj X. ui, p. 20i. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 22ÍS 

tagaez ; o nome allemao rose^ a erysipela, já foi apro- 
ximado da imprecação do feiticeiro de Évora ; ioconosa 
é talvez incógnita ou desconhecida. Na imprecação de 
Fafe, a erysipela é a rosa vermelha. 

A erysipela cara-se em Fareja, do concelho de Fafe, 
fazendo cruzes com uma faca ou com ramo de sabu- 
gueiro (sempre-verde) com azeite, sal e agua, dizen- 
do-se a fórmula : 

Pela serra da Naia passei, 

Bichos e bichas, sapos e cobras matei, 

Santa Cecilia encontrei, 

Trez filhas tinha, 

Uma pela agoa abaixo, 

Oatra pela a|^aa acima ; 

Outra foi visitar Nossa Senhora 

E le perguntou que remédio le daria ? 

— Talha-ra rosa vermelha 

Que le come e doe e próe. 

Com sal do mar, 

E agua da fonte 

E herva do monte. 

Com poder de Deus e da Virgem Maria, 

E todos os santos e santas ; 

Em louvor de S. Pedro e de S. Paulo, 

Em louvor de S. Silvestre 

Que tudo o que eu fizer tudo preste, (i) 

Em Guifões, concelho de Bouças, em vez do sempre- 
verde vae-se buscar ao monte trez raminhos de car- 
codiaj demolhando-os em agua e azeite e cercando a 
parte inflammada; em uma fórmula de Ourilhe a 
planta com que se talha a erysipela s3o trez folhas 
de ár da guia, e na fórmula de Ânua Martins de 1694, 
s3o trez folhas de ardegaria^ (a arthagenia dos gregos 
ou clematite.) Em SinfSes, a erva chama-se acintroáo 
monte. Em Penaguião, a zipla talha-se fazendo cruzes 

(1) Era Nova, p. 521. Vid. a fórmula de 1694 retro. 
15 U 



/ 



226 UYRO II, CAPITULO II 

com lã de ovelha viva, molhando-a em azeite, e tocando 
o doente : 

Jesus, Jesus, 

Nome de Jesus ! 

E nome de toda a virtude. 

Pedro Paulo foi a Roma 

Jesus Ghristo encontrou, 

E elle le perguntou : 

«Pedro Paulo, que vae por lá ? 

— Senhor ! morre muita gente 

De zipla e ziplão. 

«Toma lá, Pedro, e talha 

Co*o azeite da oliva, 

E lã de ovelha viva. 

A zipla não mais labraria. 

Pelo poder de Deus e da Virgem Ifaria. (i) 

Em Ourilhe diz-se, além de uma variante d'esta 
fórmula, a seguinte : 

Que faria á rosa vermelha 

Que aqui come, arde, doe e próe ? 

— Dá-lhe com sal do mar 

E herva do monte, 

Dá-lhe com tudo defronte, 

Que a Senhora permittirá 

Que este mal abrandará. 

Assim venha este mal 

A bem e a amor, 

Assim como vieram as chagas 

De nosso Senhor. 

Deus te tome a teu estado 

Como foste nado e criado. (2) 

A analogia que predominava na medicina empiríca 
e popular, explica muitas d'estas fórmulas; assim para 
Talhar bidíosj em Alijó applica-se a fórmula : «Pedro 



íl! 



Era Nova, p. 518. 
Ramania, t iii, p. 276. 



SUPEHSTIÇÕ£S POPULARES POUrUGUEZÀS 227 

Paulo foi a RcHua....» E para talhar a queimadura e 
escaldadura, a fórmula repete parte da que se emprega 
contra a eryzipela ; na Sentença de Ânna Martins, de 
1694, vem a fórmula com que curava a queimadura: 

«Santa Sophia, trez filhas tinha 

Uma mandou-a à fonte, 

E a outra pela lenha ao monte, 

£ a outra pelo lume à villa. 

A que foi por lume à villa 

Em fogo ardia. 

— Que lhe faria 

Santa Sophia ? 

Cospe-lhe, sopra-lhe 

Trez vezes ao dia, 

Que mais não lavraria.» 

 fórmula usada em Fafe para a eryzipela, empre- 
ga-se em Guimarães, Porto e Viseu para as escalda' 
duras ; e em Sinfães para talhar os unheiros (bafe- 
jando-os depois de ter trincado a folha de louro ou alho): 

Santa Iria E lhe perguntou 

Trez filhas tinha ; Que remédio lhe faria ? 

Uma foi á fonte Nossa Senhora lhe respondeu: 

Outra foi ao rio «Cuspe-lhe, cuspe-lhe 

Outra em fogo ardia. Que ella lhe sararia, (i) 

Encontrou Nossa Senhora, 

(1) Romania, t. iii, p. 275. No Ensalmo dei mal francortm, 
que vem na novella picaresca da Lozana andaluza, imíta-se 
a fórmula typica das trez filhas : 

Eran três cortesanas 

Y tenían três amigos 
Pajés de Franquilano; 
La una lo teniene publico, 

Y la otra muy calado ; 
A la otra 

Le vuelta con el lunarío. 
Quien esta Oracion dixere 
Três vezes a rimano. 
Guando nace sea sano. Âmen. 

(Op. cit., p. 88.) 



228 UYEO II, CAPITULO II 

No Minho, com a mesma fórmula se talha o bicho, 
tendo mn carvão na mão, signal da sua relação coin 
a queimadura. O nome invocado Efrica (do grego 
ephros, a espuma) revela uma tradição erudita : 

Efrica, Efrica Outra em fogo ardia^ 

Trez filhas tinha, Perguntando pela Virgem Maria. 

Uma ia pela agua, E a Virgem le respondia : 

Outra ia pelo lume, Scope, escope trez vezes ao dia. (i) 

A eryzipela cura-se na Extremadura suspendendo 
do tecto uma cebola albarrã presa pela rama; em 
outras partes, apanha-se uma toupeira, e corta-se-Ihe 
a cabeça, que a pessoa doente traz ao pescoço em 
um saquinho. (2) A toupeira passa por ser um bicho 
peçonhento, e attribue-se-Ihe (Monção) os frunculos que 
se formam na parte do corpo que ella toca ; chama-se 
talhar a toupa a cura dos frunculos (abcessos flegmo- 
nosos) que consiste em matar a toupeira, guardando 
o segredo d'isso por um anno. Aqui temos a analogia 
do phlegmon em formação com a eryzipela. 

A espinhela cahida, é o nome que o povo dá a uma 
deslocação do appendíce chifoideu; cura-se atando 
uma fita do dedo polegar até ao cotovelo e depois á 
cinta, com as palavras : 

A Senhora Senhorinha 

Trez novellos de oiro tinha, 

Um urdia, 

Outro tecia, 

Outro espinhela, espinhaço 

E baço erguia. 

Assim como abelha e abelhame 

Entra no meu cortiçame, 



íSi 



Era Nova, p. 525. 

Pedroso, Superst., n.*» 669, 583. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 229 

Assim como o padre vâe para o altar, 
Trez vezes vira o livro e toma a virar, 
Assim a espinhela, espinhaço e baço 
Tome ao seu logar. (1) 

(Guimarães.) 



A quebradura das crianças (hérnia scrotal, ou um- 
bilical) tem uma forma dramática. Em Traz-os-Montes, 
na noite de S. João serra-se ao meio um tronco de 
carvalho cerqninho e passa-se através a criança, unindo 
logo as duas partes do tronco e amarrando-as ; se o 
tronco continua verde, a criança fica boa da hérnia. (2) 
É a persistência do costume probibido na Ordenação 
manuelina, de passar doente por silvão ou machieiro. 
Deve fazer-se a cerimonia em noite de S. João. Na 
Beira a criança ha de ser passada por um moço que 
se chame João para rapariga que se chame Maria, 
dizendo : 

— Toma láj Maria. 
«Que me das, João ? 

— Um corpo quebrado 
P'ra m' o pores são. 



O mesmo se usa em Alijó; no Porto pegam na 
criança o padrinho e madrinha, dizendo: 

«Aqui tens a tua afilhada 
Que me dizem que está quebrada. 
— Eu que a acceito sã e salva, 
Gomo na hora em que foi nada. 

Em Villa Alva, do concelho de Cuba, cura-se assim 



(1) Era Nova^ p. 526, do estudo Carmina magica j de Leite 
de Vasconcellos. 

(2) Bibliographia critica:, p. 303. 



230 LIVRO 11» CAPITULO II 

a criança que está embrnxada : <t Chamam trez Marias 
(solteiras) ; entregam-lhes mna porção de farinha de 
centeio, a qnal elias amassam, fazendo depois um 
biscoito pelo qual possa entrar a criança embruxada ; 
chamam em seguida um Manuel, (também solteiro) e 
levam todos quatro a criança pela meia noite a uma 
encruzilhada de caminhos ; ali, segura a criança por 
duas Marias, a terceira com o Manuel lançam mão do 
biscoito e passam a criança trez vezes por elle, dizendo 
as seguintes palavras : 

— Maria! aqui tens este menino ensarilhado, e 
dá-m'o desensarilhado. 

«Manuel ! aqui tens este menino, etc— Finda que 
seja a operação, despojam a criança da roupa que 
leva, e deixam-na à bruxa, que com ella fica entretida 
a procurar a criança. Desgraçada porém da pessoa 
que no regresso olhar para o referido logar, porque 
ficará embruxada infallivelmente. » (1) 

No Minho, para curar a criança rendida, vão na 
noite de S. João, trez moças chamadas Mana, fiando 
cada uma em sua roca, acompanhadas de trez moços 
de nome João, chegam ao pé de um vimieiro, racham- 
n'o, e passam o doente dizendo os moços : 

— O que fazeis vós ? 
«Fiamos linho assedado, 
Para ligar o vime, 
Que o menino é cpiebrado. 

Dita a fórmula trez vezes, ata-se o vime, e se elle 
soldar fica a criança boa. 

Para curar lombrigas das crianças a bruxa Anua 
Martins : «Punha-se ao lar da chaminé, em que esti- 
vesse cinza fria, e cortando-a com uma faca pergun- 

(1) Almarmch de Lembranças para 1866, p. 311. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 231 

tava á mãe da criança que intentava curar, oa à mesma 
pessoa se já faltava, dizendo : 

— Qae talho ? «Bichas. 

— Bichas talho 
Mezinha faço 

Pelo poder de Deus, 

De S. Pedro e de S. Paulo, 

E do Apostolo S. Thiago. • . 

De Santo Enofre 

E de S. Palofre, 

Que tu sejas são e salvo 

Como em a éra em que foste nado 

Para serviço de Deus, amen. (1) 

cUma das muitas receitas que ha no concelho da 
Maia para atalhar a eryzipela, consiste em fazer cruzes 
na parte molesta com um ramo de sabugueiro» di- 
zendo : 

Sempre-Verde bemaventurado, 
Na sepultura de Deus criado 
Fostes nascido sem ser semeado. 

Pelo poder de Deus e da Virgem Maria 
Greou esta rosa este chão, 
Reséca esta irzípula, irzipelâo. 

Em louvor de S. Thiago e S. Silvestre, 

Tudo quanto eu faço preste 

Em louvor de Nosso Senhor, seu divino Mestre. (2) 

Em Penaguião applica-se este esconjuro para talhar 
o fogo do ár, dizendo : 

Talha este fogo, este roborado 

Ár de vivo ou morto excommungado. (3) 

(1) Sentenças da Inquisição, Goll. de Moreira, 1. 1, p. 437. 

(2) Almanach de Lmbranças para 1854, p. 238. 

(3) Era Nova, p, 519. 



232 UVRO II, CAPITULO II 

As sezões curam-se no povo da Sobrena, do con- 
celho de Cadaval, indo tirar Santo Estevam do sen 
nicho, rapando-lbe com uma faca as costas, mis- 
tarando com vinho este pó da pedra, que se chama 
Pós de Santo Estevam, e bebendo-o por nove dias 
consecutivos em jejum. (1) Na romaria de S. Paio, 
próximo de Aveiro, o S. Paio é lavado em vinho, que 
se bebe depois para curar as sezões. (2) 

Na aldeia de Yinhó, as maleitas curam-se offere- 
cendo a S. Domingos da Nespereira, capella a trez 
kilometros de Gouvéa, algumas telhas furtadas (offer- 
tadas) cujo numero varia segundo a promessa. Os 
doentes v3o em ranchadas ao som de violas e adufes, 
e mettem as telhas por uma fresta da capella, dizendo : 
— Em louvor de S. Domingos, que me tirou as ma- 
leitas. (3) 

Em Roriz as sezões curam-se descascando trovisco 
e lançando a tona ao pescoço do enfermo, dizendo : 

Senhor compadre capitão, 
Empresta-me a sua camisa 
Para ir a uma funcção ? (4) 

Na Extremadura curam-se as sezões comendo queijo 
feito na quinta feira da AscençSo. (5) 

«Ha em Fafe, e n'outras mais partes, d'essas mu- 
lheres de virtude, que curam com palavras os despir 
mentos dos braços ou das pernas. Põem para isso ao 
lume um púcaro com agua, fazem-na ferver, e quando 
a fervura se activa, vasam então a agua n'um alguidar 
ou bacia, e põem o púcaro sobre ella com a bocca 

(I) Almanach de Lembranças para 1863, p. 100. 

2) Ibidem, para 1881, p. 81 

3) Ibidem, para 1862, p. 215. 

4) Ibid,, para 1868, p. 214. 
[5) Pedroso, SupersL, n.*» 582. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUCZAS 233 

para baixo, collocando depois a parte aberta ou des- 
fiada do doente por cima do dicto púcaro. Toma então 
a benzedeira uma maçaroca de linho crú, fiada de 
propósito para semelhante objecto, enfia uma agulha 
n'esse linho, e passa-a d'este modo por baixo da parte 
doente, dando voltas successivas com o fio enfiado do 
linho até á total ou quasi total absorpção da agua pelo 
púcaro, travando-se então o seguinte dialogo : 

Benzedeira : Eu que é que aqui coso ? 
Doente : Game aberta, fio torto. 
Benzedeira : Isso mesmo é que eu coso, 

Em louvor de S. Silvestre, 

Quanto eu fizer tudo preste. 

«E se O púcaro, durante este tempo da repetição 
das palavras de virtude^ chegar a absorver a agua toda 
ou quasi toda, sobre a qual está de fundo para cima 
e de bocca para baixo, ficará então a parte torcida de 
todo sã da abertura ou desfiamento, aliás não poderá 
o enfermo sarar d'aquella vez, e ficarão sem virtude 
as palavras da benzedeira. Não é o primeiro púcaro 
que se enche na fonte, mas só o decimo, depois de 
cheio e despejado a fio os nove primeiros, o que se 
põe ao lume. E quando, depois da fervura, o despe- 
jam e emborcam sobre a agua, costumam collocar-ihe 
no fundo e em cruz, umas contas, um pente e uma 
thezoura, antes de repetir a fórmula.» (1) Em Guima- 
rães pratica-se isto para coser o pé, e termina o en- 
salmo: 

Em louvor de S. Gonçalo, 

PYa que tome o pé ao seu estado. 



(i) Almanach de Lembranças, para 1859, p. 153. 



234 LIVRO II, CAPITULO II 

E em Sinfães, termina : 

Sejas sao e salvo 

Gomo na hora em que foste baptisado. (i) 

Ha muitos remédios populares fundados unicamente 
na analogia. Para as dores de dmtes é bom trazer na 
algibeira um dente de c3o. (Ilha de S. Miguel.) A quem 
deita sangue pelo nariz para o estancar poe-se uma 
chave nas costas, ou uma cruz de duas palhas, (ib.) 
Quem soffre do peito cospe na bocca de um peixe 
cachorro que esteja vivo e toma-o a deitar ao mar. 
(Lisboa.) Para o torticolo enrola-se em volta do pes- 
coço um pé de meia de mulher, que esteja quente. 
(Ib.) Para as dores de cabeça, esfregar a testa com um 
gato preto e cuspir-lhe trez vezes. Contra as ffbres^ 
traz-se ao pescoço em um saquinho uma lagartixa viva, 
e quando ella morre vao-se as febres.. Perna ou braço 
deslocado, volta ao seu logar sendo pisado por uma 
mulher que tenha tido filhos gémeos. O mesmo paru 
o peito aberto. As verrugas curam-se no Minho, indo 
o que as tem bater á porta de pessoa com quem em- 
birre, e bate respondendo aos de dentro : 

Verrugas trago, 
Verrugas vendo, 
Aqui as deixo 
E vou correndo. 



A impigem cura-se molhando-a com saliva, em jejum, 

dizendo : 

Impija, rabija^ 

Assim como eu já hoje comi e bebi, 

Assim tu nasças ahi. 



(i) Era Nova, p, 5?4 e 526, 



SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 235 

A azia talha-se subindo acima de uma pedra, di- 
zendo : 

Corto-te a azia, Azedia, azedia 

E corto-te a trela ; No monte se cria ; 

Salta burrinho Cabras guardadas 

Abaixo da pedra. Pr^amor da azedia. 

(S. Mamede.) (Golgã ) 

O arujo ou argueiro, dizendo : 

Corre, corre cavalleiro 
Pela porta do ferreiro, 
Que lá vem a Santa Luzia 
Fra me tirar este arujeiro. 

O terçogo cura-se fazendo uma fogueira n'um quarto 
de duas portas, e a pessoa que o soffre entra por uma 
porta salta a fogueira, e sae pela outra, gritando : 



Aqui d*el-rei fogo 
Em casa do terçogo t 

(Santarém.) 



As inguas (glândula enfartada), curam-se olhando 
para uma estrella e dizendo trez vezes : 

Estrella, a minha ingua 
Diz que seques tu I 
E eu digo que seque ella 
E que luzas tu. 

Ou em cima da cabeçalha do carro, diz virada para 
o nascente : 

Estrella, a hemes 
Diz que seques tu 
E medre ella t 



236 UVRO II, CAPITULO II 

As aphtas das crianças (farfalho) curam-se passando 
a criança por cima da pia do porco, dizendo : 

Farfola vae-te d*aqaí 
Que porcos e porcas 
Comem aqui. 

A gota, tem o nome de bemsinho de Deus ; cara-se 
no primeiro ataque mettendo as aparas das nnhas em 
um carvalho cerquinho. O estupor tem o nome de Mal 
de Ave-Maria (Ponta Delgada); cura-se tirando a 
camisa ao doente, rasga-se, queima-se, e bota-se a 
cinza ao mar. As feridas curam-se mettendo o panno 
em que se limpam debaixo da cabeça de um defuncto, 
dizendo : Leva-me isto para o outro mundo. (Felguei- 
ras.) As aphtas (Douro) curam-se dizendo quando se 
avista ao longe qualquer luz : 

Luzinha da parte de além, 
Tira-me esta aphta 
Que a minha bocca tem. 

A insulaçãOy cura-se pondo sobre a cabeça um guar- 
danapo de bordado a olhos, e em cima um copo de 
agua dizendo : (Sinfaes) 



Sol, sae da creatura 
Com toda a formosura, 
Que a Yii^em Maria 
Tudo me ensinou, 
Que eu nada sabia. 



As alparcas (escrophulas) curam-se coçando-as com 
as unhas de um morto. 

As praticas da medicina popular acham-se prohibidas 
em varias Constituições episcopaes ; nas Constituições 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 237 

do Arcebispado de Gõa de 1568 citam-se os fervedouros 
e o correr carne quebrada e nervo torto, ou cortar o 
baço a pessoas doentes com palavras e cerimonias ; 
nas do Algarve de 1673 falla-se nos ensalmos e pala- 
vras para curar feridas, «applicando às feridas pano 
com numero certo de dobraduras, laminas e outras cou- 
sas semelhantes.» Nas Constituições do Bispado do 
Porto, de 1687, cita-se o costume dos ensalmos para 
levantar a espinhela. Viterbo cita em um documento 
de 1258 as Sorteias de virtude, que s3o os anéis pro- 
hibidos pelas Constituições do Arcebispado de Lisboa 
de 1640. A virtude da caòeça de morto, era ainda 
corrente no século xvn, como vemos por esta relíquia 
de Guimarães: <Na capella de Santa Verónica se 
venera também com grande veneração uma cabeça 
santa, por cuja causa aquella egreja é muito visitada 
de gentes mordidas de cães damnados, trazendo a 
benzer pão e mantimento para os seus gados...» (1) 
As fontes santas, tão consideradas na medicina popu- 
lar, são geraes a todo o paiz ; á Fonte do leite, em 
Ponte da Barca, as mulheres que criam levam uma 
offerta de pão, vinho, linho e azeite, que ali deixam 
para que a primeira pessoa que passe leve tudo. (2) 
Também se curam as maleitas, indo o doente em 
jejum deixar trez bocados de pão ao pé de uma fonte, 
dizendo: cCome tu, que eu já comi.» É ao que no 
Minho se chama enganar as maleitas. O dinheiro é 
também empregado em certas praticas medicinaes ; 
diz D, Francisco Manuel de Mello : tdei na vida san- 
taria, com que me achei melhor que tudo. Furou-me 
ella com uma agiilha aqui na borda, como quem fura 
orelhas a caxorrinha... eu furado campei ao outro dia 
por Vintém de S. Luiz bom para o ár, para a enxa- 

(i) Padre Torquato, Mem, ressuscitadas, p. 210. 
(2) Leite de Vasconcellos, Trad., p. 73. 



238 LIVRO II, CAPITULO II 

queca, quartas, aflacto, mal d' olhos, qudyrantOs e mn- 
Iheres de parto. Tão santas informações deu de minha 
habilidade, que todo o dia andava de mão em mão 
como conta benta, sempre querido e estimado, ora ao 
pescoço de innocentes, ora nos pulsos das donzellas, 
atado com corda de viola...» (1) Da medicina popular 
subsiste uma grande parte com o nome de remédios 
caseiros, taes como usava em Roma Catão o Censor ; 
outra parte está hoje submettida á alçada administra- 
tiva, que encarcera os curandeiros como outros quaes- 
quer assassinos. As romarias a diversos sanctuarios, 
as aguas santas, e as promessas a imagens milagro- 
sas, formam uma parte importante da medicina vul- 
gar, que só pôde ser descripta ao tratarmos das Festas 
do Calendário do anno. 

As Prophecias nacionaes, e a vinda do rei Dom Se- 
bastião. — O conhecimento das lendas de Merlim pelos 
trovadores porluguezes do século xiv, e o livro d'ellas 
guardado na bibliotheca do rei D. Duarte, não deixa- 
ram de influir na imaginação portugueza, nas nossas 
guerras contra os Árabes, como na batalha do Salado, 
e nas expedições marítimas, em que iamos á busca 
das ilhas encantadas. Na Chronica en redondillas, de 
Rodrigo Yanes, descrevendo a batalha do Salado, o 
Leão dormente das prophecias de Merlim é o rei 
D. Aflfonso IV, e o Porco espinho é o rei de Benama- 
rim ; mais tarde no século xvi, o sapateiro de Tran- 
coso, Gonçalo Eannes Bandarra introduziu nas suas 
prophecias estes dois animaes allegoricos, obedecendo 
inconscientemente á tradição céltica renovada na penín- 
sula. Os grandes abalos sociaes produzem uma sobre- 
excitação dos espíritos, que se manifesta em recrudes- 
cência de superstições e de credulidade. Segundo 

(1) Apologos diálogaes, p. 98. 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 239 

Thucydides, durante a guerra do Peloponeso, os orá- 
culos e vaticínios dos prophetas antigos exerceram 
uma enorme influencia entre o povo de Àthenas. (1) 
As guerras de D. João i contra Gastella e no norte 
da Africa acordaram a credulidade popular, genera- 
Usando as lendas da ilha encantada do rei Arthur e 
das viagens maravilhosas de Sam Brendam, citadas 
peio chronista Azurara. Mais tarde, quando fomos com 
Carlos V á expedição de Tunis, contra Barba Roxa, 
quando se deu a extincção da nacionalidade portagueza 
em 1580, quando se reconquistou a autonomia nacio- 
nal em 1640, essa mesma tradição de um salvador 
(um 8<aer da época alexandrina) toma diíFerentes for- 
mas populares, a começar das Trovas do Bandarra 
até ás interpretações do Encoberto pelo padre António 
Vieira, que via n'essa entidade D. Pedro n, que des- 
tbronou seu irmão D. Aflonso vi e lhe tirou a mulher. 
N'esta forma da credulidade popular, o primeiro facto 
é a tradição das Ilhas encantadas, movei que excitou 
no século xv os navegadores portuguezes a explora- 
rem o Mar tenebroso. Esta crença tem uma grande 
extensão ethnica : «Algumas lendas dos Esquimáos, 
faliam de um paiz mysterioso chamado Akillinek, 
situado além do mar. Alguns groelandezes ai foram, 
pelo menos levados contra vontade ; mas hoje ignora-se 
a sua posição. — Nada indica que os Esquimáos o con- 
siderassem como o paiz dos seus antepassados.» (S) 
Entre os Celtas achamos também esta crença, que é 
uma das formas do seu paraiso : «A mansão dos feli- 
zes, onde os homens justos e bravos devem entrar 
immeditamente depois da sua morte, era chamada 
flath innis, o que signiflca a ilha dos bravos, ou dos 



(i) Thucyd., i, 54; viii, i. Ottftíed Huller, J^^ daLittera- 
tnra grega, n, 47. Trad. Hillebrand. 
(2) Abb. Moriilot, Mythes et Legendes des Esquimaux, p. 225. 



240 UVRO II, CAPITULO II 

jastos. Esta palavra é usada ainda no idioma céltico 
para exprimir céo ou paraiso.» (i) Na celebre Viagem 
do Barão Leão de Rozmital, em 1465 a 1467, con- 
ta-se a tradição portugueza da Ilha encantada : cque 
um dos reis de Portugal mandara construir navios e 
os enchera de todas as cousas necessárias, e pnzera 
em cada navio doze escreventes, provendo-os de vive- 
res para quatro annos, para que d'aqueUe logar 
(Finisterra) navegassem pelo espaço de quatro annos 
até o mais longe possível, e lhes mandou escrever o 
que vissem, os paizes desertos a que chegassem, e 
finalmente os contratempos que no mar experimen- 
tassem. Estes, portanto, segundo nos foi contado, tendo 
sulcado o mar por espaço de dois annos completos, 
chegaram a umas certas trevas, das quaes sahindo, 
passado o espaço de duas semanas, aportaram a uma 
ilha. Âlli chegados os navios á praia, tendo desembar- 
cado, encontraram debaixo da terra casas construídas, 
abundantes de ouro e prata, das quaes comtudo n3o 
se atreveram a tirar nada. Por cima d'estas casas havia 
hortas e vinhas, etc.» O ecco d'estas tradições per- 
siste nas Canárias e Açores ; escreve Arruda Furtado : 
cEm S. Miguel, ha a lenda das Ilhas encantadas, que 
parece não ter sido encontrada nas outras ilhas dos 
Açores, ou ao menos ter aqui mais persistência. — 
Para os lados do Nordeste apparecem de noite umas 
ilhas brancas, que são encantadas ; em Santa Maria 
apparece um cavalleiro, porque ella como todas as 
ilhas fêmeas já se desencantou uma vez, e as taes 
ilhas brancas que apparecem estão á espera que as 
desencantadas se tornem a encantar, para quebrarem 
também o seu encantamento.» (2) Sobre esta crença 



(i) Smith, Hist des Druides, p. 30. 

(2) Materiaes para o estudo anthropologico dos Povos açoria- 

nosj p. 41. 






SUPERSTIÇÕES POPULARES P0RTU6UEZAS 241 

escreve Alexandre Guichot : «Nas Canárias vê-se uma 
ilha, chamada de S. Morondon, da qual ninguém pôde 
aproximar-se, porque se afasta dos que querem fa- 
zel'0.]» (1) É evidentemente a lenda de S. Brendan, 
que Azurara conhecia, (2) de que ainda ha memoria 
na imprecação algarvia : 

Valha-te S, Borundum, 
Que mejava azeite 
E fazia atum. 

No Globo de Martim de Behain, vem apontada a 
Uha de S. Brendan, e na legislação portugueza abun- 
dam as referencias a ilhas encantadas : «D. Affonso v, 
em 12 de Janeiro de 1473, faz mercê á infanta D. Beatriz 
de todas as ilhas que descobrir, emquanto proseguir 
na busca da ilha que apparecia ás vezes da ilha de 
S. Thiago,» e ainda em 1595, Philippe u concede 
licença ao governador por carta de 26 de Abril, para 
descobrir a ilha que apparece por vezes da de S. Mi- 
gtiel. (3) A tradição doestas ilhas, chamadas Antilia, 
Sete Cidades, Eha branca, avivou-se mais na imagi- 
nação do povo, quando depois da derrota de Alcácer 
Kibir o partido nacional sustentava que D. Sebastião 
não morrera na batalha. Em uma das suas Cartas 
familiares escreve D. Francisco Manuel : «Seja Deus 
bemdito, que nos não declarou ainda as Hhas empoa- 
das, como lhes chama F., e quando para lá seja, lá 
dizem que está el-rei D. Sebastião, que não deixará 
de nos fazer mil honras (visto que as cousas de certo 
mundo diz que vão ao reverso das d'este.)» (4) E em 

ii) Bibl de las Tradiciones populares espanoles, 1. 1, p. 296. 

(2) Chronica da conquista de Guiné, p. 45. 

(3) J. de Torres, Originalidades da Navegação do Oceano 
athlantico, 

(4) Cartas, p. 403. (1648.) 

16 U 



242 UVaO II, CAPITULO 11 

outra passagem, referindo-se a um verso de Bandarra, 
diz : tAquella vinda já vae tocando da de el-rei D. Se- 
bastião; porque já lá vae a éra dos quarenta...» (1) 
Em uma sentença da Inquisição de Lisboa de 1666 
condemna-se uma tal Maria de Macedo «conhecida 
pelo nome de Violeira ; ia á ilha encoberta fallar com 
D. Sebastião.i^ Em uma outra sentença de 1761, ainda 
é condenmado Frei Bernardo de S. José, religioso de 
S. Francisco de Loures ^igrande sd)astianista, por acre- 
ditar e espalhar falsas prophecias e obras de algumas 
suas dirigidas...» Segundo a tradição popular, D. Se- 
bastião está na ilha encoberta d'onde ha de vir em 
um dia de cerração, montado n'um cavallo branco ; 
esta lenda do phantasma das batalhas acha-se referida 
ao combate de Maratona por Heródoto e Pausanias, e 
em Hespanha acha-se personificada em S. Milan e em 
S. Thiago. Nas lendas de Carlos Magno, o grande 
monarcha resuscitou para commandar a primeira 
Cruzada, como contavam os pseudo-prophetae, conde- 
mnados pelo chronista Eckehard ; e em Hesse e na 
Baviera conta-se que Carlos Magno resuscitará para 
engrandecer a Allemanha, vencer os naáos e reinar 
sobre o mundo regenerado. É também a forma da nossa 
lenda do Quinto Império do mundo, fundado pelo rei 
D. Sebastião quando vier da ilha encantada. A mesma 
lenda se personifica em o rei Arthur, dormente na 
ilha de Avalon, ou em Barbaroxa guardado em Kipp- 
hausen, para levantar o império germânico. Vê-se 
que todas estas lendas são anteriores ao facto histó- 
rico da morte de D. Sebastião, sendo as prophecias 
da primeira metade do século xvi suscitadas por outros 
motivos. 

O gosto e a forma das Prophecias portuguezas do 
século XVI deve considerar-se como uma influencia 

(1) Cartas, p. 653. 



/ 



j 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 243 

da Kahala, conservada entre os christãos novos ; a 
gematria, quarto ramo da Kabala, era a mais empre- 
gada, considerando as letras como nmneros. Nas Pro- 
phecias de Bandarra ha este systema : 

Nove l^ras tem o nome Põe wn A pernas acima 

Duas sao da mesma casta ; Tira-lhe a risca do meio, 

Olha qualquer como o gasta E por detraz lh*a arrima, 

Para não morrer de fome. Saberás quem te nomeio. 

Põe trez thezouras abertas 
Diante um linhol direito. 
Contarás seis vezes cinco 
E mais um, vae satisfeito. 



A Gematria foi especialmente usada pelos judeus 
para saberem da vinda do Messias. Nas Prophecias de 
Bandarra abundam as referencias bíblicas, que nos 
obrigam a considerar aquella parte que pertence ao 
século XVI como derivada do messianismo judaico 
conservado entre os christãos novos. Uma sentença 
da Inquisição de Évora, de 1542, condemna «Luiz 
Dias, sapateiro de Setúbal, por se fazer Messias em 
Setúbal e Lisboa provando-se que com milagres e feiti- 
cerias provocava muitos judeus a acreditarem que o era^ 
e a o adorarem e lhe beijarem a mão.^^ Foi um anno 
antes que a Inquisição de Lisboa se apoderou do cele- 
bre sapateiro da villa de Trancoso Gonçalo Eanes 
Bandarra, cujas prophecias ainda hoje são populares 
e molde de todos os improvisos d'este género. (1) 
Um facto extraordinário se deu no primeiro quartel 
do século XVI para o enthusiasmo da propaganda das 
i prophecias messiânicas, de que os dois sapateiros são 



(1) Em 1873 publicámos o Processo de Bandarra, extrahido 
da Torre do Tombo, Ms. n.° 7197, por exploração directa das 
fontes. Yid. Hist, de Camões^ 1. 1^ p. 411 a 416. 



• « 



244 LITRO II, CAPITULO II 

testemunhos inconscientes ; em 1525 aportou a Portu- 
gal com o apparato de um principe-judeu David Reu- 
beni, que se dava por irmão do rei da Ethiopia, e 
andava pelo mundo para conciliar todos os judeus dis- 
persos para irem restaurar a terra da Promissão e a 
Casa Santa de Jerusalém. Dava-se como embaixador 
dos setenta anci3os do território de Habor; e foi 
admittido por D. Jo3o iii na corte de Almeirim. As 
esperanças messiânicas foram decepadas pelas perse- 
guições aos judaizantes (christãos novos que regres- 
savam ao judaísmo). No Auto de Fé de 1559 foi 
queimado o desembargador da casa do eivei Gil Vaz 
Bogalho porque ^compoz trovas em louvor da lei de 
Mcyyses, as quaes fazia cantar na Sé de Lisboa^ da 
qual era parochiano.i» (1) As leituras da Biblia em 
vulgar, durante nove annos é que levaram Bandarra 
para esse messianismo; em 1531 , quando veiu a Lisboa, 
já lhe pediram explicações das Trovas, e sendo visi- 
tado por Heitor Lopes em 1537, em Trancoso, este 
queria mandar trasladar o Livro das Trovas porque 
andava já velho e roto. No Processo vêm estes versos 
que faltam nas edições das Prophecias : 



Tu Dão, cobra serás 

Que anda por traz dos valados 

Gomo o cão sorrateiro 

Que mordes o cavallo 

E matas o cavalleiro. 



O cerco e tomada de Tunis, em 1535, motivou um 
grande numero de prophecias entre o povo : Bayle 
conta que fizeram correr uma prophecia em que se 
annunciava que o imperador Carlos v derrotaria os 
francezes, os turcos e conquistaria a Palestina, e em 

(1) Ap. Guimarães, Sum. de Varia Hist., t. iv, p. 88. 



^^A 



SUPERSTIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS 245 

uma Relação de António Pontes acerca da tomada de 
Tunis, diz que para augmentar a coragem dos soldados 
se espalhou entre eUes esta prophecia. (1) Pelos caval- 
leiros portaguezes qae regressaram de Tmiis se 
espalharam estas noticias que vieram dar mais vigor 
à credulidade e provocar mais interesse pelas Trovas 
de Bandarra, que então se começaram a applicar á 
ideia politica da Monarchia universal, à qual se deu 
entre nós o nome de Quinto Império. Bandarra morreu 
em 1550, segundo António de Sousa Macedo, e em 
1556 conforme Barbosa Machado; o pobre propheta 
sapateiro era protegido pelo Bispo da Guarda, D. João 
de Portugal, da Casa de Vimioso, familia a mais 
perseguida por Philippe n, quando se apoderou de 
Portugal. Depois da derrota de Alcácer Kibir, o Bispo 
da Guarda foi clausurado em um mosteiro augustiniano; 
é então que o partido nacional começa a interpretar 
e a ampliar as Trovas de Bandarra «umas vezes vician- 
do-as, outras accrescentando-as, outras diminuin- 
do-as» como se lê na dedicatória da edição de Nantes. 
E tanto as Trovas eram interpretadas acerca do futuro 
regresso do rei D. Sebastião, que um anno depois 
da occupação de Portugal, o Index Expurgatorio de 
1581 (fl. 23) prohibia a leitura das Trovas de Bandarra. 
Em Hespanha, eram conhecidas as Prophecias em 
1588, como se vê pelo Tratado De vera et falsa Pro- 
phecia, de D. João de Horosco. Quando o partido da 
independenci ) portugueza coUocou as suas esperanças 
em um Bragança, o perstigio das Prophecias foi aprovei- 
tado para fallar do Encoberto, que era o rei D. João iv ; 
assim se inventou um segundo corpo de Trovas (ac- 
crescentando-as, como se diz na edição de Nantes) e 
se confessa que «foi necessário com não pouca indus- 
tria, buscar as mais antigas copias, das quaes a de 

({) Na Historia de Camões, 1. 1, p. 20. 



246 LIVRO n, GAPITfJLO II 

menor edade é de outenta atmos^ nas mãos de pessoas 
intelligeDles...» Foram os partidários de D. João n, 
que mais importância histórica deram à memoria de 
Bandarra; D. Álvaro de Abranches, que em 1640 
arvorou a Bandeira da cidade de Lisboa e tomou o 
castello, mandou erigir em 1641 um tumulo a Ban- 
darra na egreja de S. Pedro de Trancoso. Em 1644 
o embaixador de D. João iv na corte de França, im- 
prime em casa de Guilhelmo Monier as Travas de 
Bandarra. Na Gazeta^ de Maio de 1642, appareceu tam- 
bém esta noticia : «Fez elrei nosso senhor (D. João iv) 
mercê a hu bisneto de Bandarra de hua Capella com 
que se pode sustentar suíBcientemente.» (1) O confli- 
cto entre a Inquisição e os Jesuítas reflecte-se também 
no Edital do Santo OflQcio, de 1646, contra as Prophe- 
cias de Bandarra ; os Jesuitas haviam trabalhado a 
favor de D. João iv e eram os seus agentes mais acti- 
vos, ao passo que a Inquisição tinha sido cerceada 
pelo monarcha nos seus arbitrios. 

O povo ficou esperando pela vinda do rei D. Sebas- 
tião, desde que D. João iv não satisfazia as suas espe- 
ranças. Os Jesuitas continuaram a elaborar as prophe- 
eias de Bandarra ampliando-as no sentido do Quinto 
Império j que era o Brazil, para onde queriam levar 
D. João IV, ou a união de Portugal e Hespanha pelo 
casamento do príncipe D. Theodosio com a filha do 
rei de Hespanha. A persistência da seita sebastianista 
no Brazil, como se viu em 1838 em Pernambuco, na 
aldêa de Pedra Bonita no hallucinado João António, 
que levantou o povo annunciando a vinda do monar- 
cha, (2) provém da antiga esperança da independência 
ligada á fundação de um grande Império. Quando 
porém os Jesuitas, pela acção poderosa do ministro 

(1) Ap. Paiwrama, X. ii, p. 133. 

(2) Ferd. Denis, Portugal, p. 306. 






SUPERSTIÇÕES POPULARES WHTUGUEZAS 247 

Castello Melhor, foram afastados do governo de D. Af- 
fonso VI, a Companhia tratou de machinar a deposição 
do monarcha, e o Encuberto era D. Pedro ii, que havia 
expulsar do throno o irmão e tomar-lhe a esposa. O 
jesuita António Vieira, que era do partido de D. Pedro, 
escreveu commentarios ás Prophecias de Bandarra, e 
como poeta não deixaria de amplial-as no interesse 
da causa; elle via no Brazil o Quinto Império do 
inundo, e D. Luiza de Gusmão teve traçado o plano 
do abandono de Portugal aos castelhanos, indo as- 
sentar o seu throno no Brazil. Os livros do padre 
João de Vasconcellos (dr. Gregório de Almeida) e de 
Pantaleão Rodrigues Pacheco, e Nicolào Monteiro, 
estribam as suas composições históricas nas Prophe- 
cias de Bandarra. Em 1729 ainda se simulou um novo 
achado das Trovas de Bandarra, em um pergaminho 
que pertencera ao padre Gabriel João; as Trovas 
correram apesar da intervenção do Commissario do 
Santo OflQcio Domingos Furtado de Mendonça. Pombal, 
vendo que as Prophecias se tornavam politicas e tinham 
um grande poder na imaginação do povo, mandou 
negar udiDeducção chronologica a existência histórica de 
Bandarra, a authenticidade das suas Trovas, attribuin- 
do-as a machinações da Companhia de Jesus, e pelo 
Edital de 10 de junho de 1768 da Mesa Censória 
consideral-as como um aggregado de imposturas. No 
século xvni ignorava-se a existência do Processo de 
Bandarra de 1541, e por isso se confundiram com as 
apocryphas o corpo das Trovas que pertencia ao 
século XVI. Em outros successos nacionaes, como a 
invasão franceza, se inventaram mais Trovas de Ban- 
darra, animando o povo para a resistência, e ainda 
hoje ha interpretações d'essas Prophecias, em relação 
aos acontecimentos europeus. (1) A nossa litteratura 

(1) Vid. A Nação, n.« 12:180 (anno de 1882) onde o padre 
Conceição Vieira explica por Bandarra a eleição de Leão xiii. 



248 LIYRO II, CAPITULO II 

prophetica é rica ; citaremos os Disparatas do Pretinho 
do Japão, Clemente Gomes, escravo do Capitão Bal- 
Ihazar Godinho de Sousa, as Prophecias do Beato Antó- 
nio, da congregação de S. João Evangelista, as Visões 
da Venerável Águeda, as prophecias do Mouro de Gra- 
nada, as prophecias achadas na sepultura de D. Manuel, 
o Vaticínio de um Ermitão de Santa vida, Vaticínio 
cantado por um Romeiro a D. Sebastião, vindo de 
Gadelupe, o Sonho do Ourives do Sardoal, etc. Os 
versos podemos consideral-os como apocryphos, mas 
os prophetas eram sinceros na sua hallucinação ; Fru- 
ctuoso relata minuciosamente o caso de um propheta 
da ilha da Madeira, no século xvi (1) em tudo simi- 
Ihante a esses trez prophetas sebastianistas de Per- 
nambuco João António, João Ferreira e Pedro António, 
que se tornaram fundadores de uma religião sangui- 
nária. Nas varias Sentenças do Santo Officio, appare- 
cem condemnados muitos prophetas : assim na Inqui- 
sição de Lisboa em 1582, Affonso AdivinhãOj em 1584 
Pedro Aflfonso Adivinhão, em 1638 João Lopes, idiota 
propheta. Ferdinand Diniz publicou um trecho de um 
viajante francez do século xvn, em que se narra as 
prophecias que um pobre idiota dizia á porta de uma 
egreja sobre a vinda do rei D. Sebastião. (2) Nos 
divertimentos úo Entrudo, a lenda de D. Sebastião tem 
sido o assumpto de cavalhadas apparatosas, em que 
ha o desembarque do Encuberto com o cortejo dos 
seus fidalgos, (3) e por ultimo foi apontada como o 
thema exclusivo para a poesia portugueza. 



(1) Saudades da Terra, p. 56. (Ed. Azevedo.) 

(2) Portugal, p. 306. 

(3) Perioaico dos Pobres do Porto, de 1857 (n.<» 46, in serie.) 



CAPITULO III 



As Festas do Calendário popular 

Necessidade do computo chronologico na vida social.— O atino 
lunar e o anno solar ; meios empíricos da sua concordância, 
— A Egreja adopta o anno lunar, e o povo conserva nas suas 
festas 08 mythos solares.— Restos do Calendário romano no 
catholicismo. — Janeiro : Os primeiros doze dias ; os Annos 
boinos : Janeiras e Janeireiros ; o Aguinaldo. — Janeirinhas 
da Foz do Dão.— Os Reis e S. Gonçalo ; Dar o nó. — Santo 
Amaro e as Sebastianas. — As Fogaceiras de Villa da Feira. 
— Fevereiro: A Candelária; o S. Braz.— Março: S. Bento; 
a Festa do Cuco, em Famalicão. — Abril : Dia dos Enganos; 
o Boi-Marcos, no Algarve. — Queimar os Compadres e as 
Comadres. — O Entrudo ; Caça aos Gramosilhos ; Dia de 
Cinza ; Serração da Velha e Queima do Judas.— Os Passos 
de Lamego: a Paixão e Enterro ; Folares e Reconhecimen- 
tos: Gallo das Trevas e Vella Maria.— Ascenção, Cordeiro 
Paschal ; Benção do lume-novo ; Semana dos arrastados.— 
S. Pedro Gonsalves. — O Compasso, no Minho. — Maio e 
Junho: As Maias; Ladainhas de Maio, em Nisa.— A Espiga. 

— Espirito Santo ; Bodos e Impérios ; Procissão dos Tabo- 
leiros; Imperador de Eiras; Rolo de cera. — Santo António. 

— Corpo de Deus; Boi bento. Carro das ervas; Santo Grande. 

— S. João; Cavalleiros de Óbidos; Mouriscadas ; Porco 
preto, em Braga. S. Pedro. — Julho : Fogueiras saloias.— 
Senhora de Antime.— Bolo de Pombal. — Agosto: Procis- 
são dos Ferrolhos.— Romaria do Cabez.— S. Bartholomeu. 

— Septembro : S. Pedro de Niza.— Outubro: S. Simão. — 
Novembro : Todos os Santos, e o Pão por Deus. — Fieis 
Defunctos. S. Martinho. — Dezembro : S. Nicoláo. Santa 
Luzia.— Corte do Cepo do Natal; Festa do O.— Natal : Pre- 
sépios e Lapinhas ; Trigo grellado, Rosquilhas, Missa do 
gallo ; Cêa do Natal e Consoadas. Fartes : Bispo dos Lou- 
cos, Bispo Innocente. — Galheiro ou Trafogueiro. — Santo 
Estevam. — Entrega do Ramo, em Aveiro. — As Quendas e 
Requendas. — Fim do anno. 



Em todos os povos que se elevaram á organisação 
civil, as Festas religiosas foram um objecto de acção 



250 LIYRO II, CAPITULO III 

commuiD, e ao mesmo tempo o meio de fixar em dadas 
épocas do anno o termo dos contractos, o começo dos 
mercados, o fim das magistraturas electivas, a con- 
corrência aos jogos públicos e a commemoração das 
datas históricas que interessavam á communidade. O 
mez foi a primitiva e mais fácil base chronologica 
determinada pela revolução da lua ; como porém as 
estações se apresentavam com regularidade evidente 
nos phenomenos metereologicos e na vegetação, reco- 
nheceu-se um periodo ou circulo, annm, dentro do 
qual se comprehendiam doze mezes, uns de 29 dias, 
chamados coiloi^ e outros de 30 dias, chamados plereis. 
Apesar de não coincidirem estes doze mezes com a 
marcha do sol em relação a um mesmo solsticio, pre- 
valeceu nas civilisações primitivas o anno lunar de 
354 dias, tendo de menos 12 dias e 6 horas do que 
o solar, ou também o anno lunar de 360 dias formado 
de doze mezes plereis. A mais vetusta chronologia 
é fundada na base lunar. Com o desencontro dos dois 
periodos lunar e solar, os actos públicos retrograda- 
vam da sua fixação, e a classe sacerdotal a quem 
competia a celebração das festas e a investidura das 
magistraturas, teve de corrigir as incertezas do anno 
lunar, procurando um periodo remoto dentro do qual 
as duas bases concordassem o mais inteiramente 
possivel ; é assim que já na Chaldêa se encontra esse 
periodo de dezenove annos lunares, em que as mesmas 
phases da Jua se repetem, e que o geometra grego 
Meton, cinco séculos antes da nossa éra fixou, e que 
a Egreja ainda hoje conserva no seu computo sob o 
titulo de Atireo numero. Como porém, n'este periodo 
as luas-novas não são rigorosamente á mesma hora, 
dava-se ao fim de 304 annos a differença de quasi um 
dia; a Egreja adoptou uns números complementa- 
res, ovL^i^Epactas, para conseguir esta concordância. 
Em Roma prevaleceu o anno lunar até ao governo de 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 251 

César, e para corrigir a sua incerteza os Pontífices, 
como árbitros do tempo, formavam a lista dos dias 
de cada mez com destino á fixação das fnncções 
sociaes, Dies agendi^ Dies fasti. O povo era chamado 
ao Capitólio para ali ouvir dizer quando era o primeiro 
dia do mez, e n'esse mez quando eram os dias de 
tribunal, dos sacrificios, dos jogos públicos, dos mer- 
cados, e d'aqui se chamou Calendas^ á ordem do 
tempo, que os Pontífices falsificavam segundo a con- 
veniência das facções politicas, para prolongar ou 
terminar o praso das magistraturas. Como investido 
do poder pontifical, Júlio César quiz pôr fim a estes 
abusos, e fez a reforma do computo do tempo ado- 
ptando exclusivamente o anno solar ^ tomado dos Egy- 
pcios, que o tinham determinado em 365 dias e um 
quarto. Este quarto de dia formava ao fim de quatro 
annos um dia completo, e d'aqui a sua intercalação 
em Fevereiro, ou o anno bisexto. A marcha histórica 
da Europa foi computada pela Era de. César. 

A Egreja teve de retroceder à adopção do anno 
lunar, por causa da fixação da festa da Paschoa. Para 
que a festa christã não fosse uma parodia da Paschoa 
dos Judeus celebrada «no dia da primeira lua que 
segue o equinoxio da primavera» estabeleceu-se no 
Concilio de Nicêa que se fixasse «no primeiro domingo 
depois da primeira lua cheia que seguisse o equinoxio 
da primavera.» Como porém o regresso do Sol ao 
equinoxio da primavera é de 365 dias, 5 horas, 
48 minutos e 46 segundos, ao fim de cento e trinta 
e quatro annos apparecia a differença de um dia, e 
ao fim de quatrocentos e dois annos a differença de 
trez dias. (1) Os padres da Egreja reconheceram a 
incerteza da fixação da Paschoa, e Gregório xni, em 
1582, fez a celebre correcção mandando supprimir dez 

(1) Hoeflfer, Hist. de l^Astronomkj p. 320. 



252 LIVRO n, CAPITULO UI 

dias, passando de 4 a 15 de Outubro. Como o pro- 
blema a resolver era harmonisar o anno lunar com o 
solar, ficou a Paschoa fluctuando entre os limites de 
22 de Março e 25 de Abril, para poder celebrar-se 
sempre no primeiro domingo depois da lua chêa que 
se seguia ao equinoxio da primavera. A Paschoa é o 
ponto de partida por onde se regula a celebração das 
festas da Ancensão, de Pentecostes, da Trindade, 
denominadas moveis, por variarem na successao de 
35 dias. 

As Estações, pela sua influencia nos trabalhos agrí- 
colas, obrigavam o povo a regular-se pelo anno solar; 
Hesiodo falia do Calendário agrícola com prognósti- 
cos, episemasiaij similhantes aos nossos aphorismos da 
lavoura. Esses trabalhos agricolas começavam-se ou 
acabavam-se com festas. Na Egreja, as Têmporas são 
as expiações do começo de cada Estação. (1) Nas Festas 
do Calendário popular vamos achar ainda formas cul- 
tuaes allusivas aos phenomenos do anno solar da alter- 
nância do Verão e do Inverno, e formas do culto 
lunar, mesmo independentes da Paschoa da Egreja. 

Assim como alguns dias da semana dos romanos 
conservaram o seu nome entre os povos catholicos, (2) 
também muitas festas do Polytheismo persistem até 
com o mesmo nome no actual Calendário. A festa de 
Baccho, ou Dionísio, celebrada na primavera nas cida- 
des, sob o titulo de urbana, e na época das vindimas 
no campo com a designação de rústica, acha-se no 
Calendário catholico sob o titulo Festum Sancti Urbani, 
a 25 de Maio ; e a 9 de Outubro celebra-se a Festum 

(1) Abb. Pascal, Oríg. et raison de la Liturgie catholique, 
p. 1066. (Coll. Migne.) 

(2) Lê-se no Cancioneiro da Vaticana, n.° 1132 : 

e do lunes ao martes 

foy commendador d'0cres. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 253 

Sanctarum Dionisiij Eleutherii et Rmtici, sanctificaçSo 
directa dos epithetos de Baccho. O epitheto de Deme- 
teritiSj acha-se no Calendário catholico a 8 de Outu- 
bro : Festum Sancti Demetriij com a legenda do seu 
martyrio mandado fazer por Maximiliano desesperado 
com a morte de Lycem (outro epitheto de Baccho.) Por 
flm o próprio Baccho appareceu sanctificado no Bre- 
viário em 8 de Outubro sobre a sigla Festum Sancti 
Bacchi. Segundo o mytho polytheista Baccho casa com 
a brisa representada pela nympha Aura pladda, da 
qual o Calendário catholico fez as Santas Aura e Plá- 
cida. A festa de S. Serapião^ em 14 de Outubro, é a 
transformação do culto de Serapis, que o polytheismo 
greco-romano tomou do Egypto. As festas de Santo 
Hilarião em 21 de Outubro e de Santo Hilário em 14 
de Janeiro, são as mesmas Festas Hilárias dos Roma- 
nos ; as festas de ApoUo, que os Gregos celebravam 
com jogos chamados Apollinarios, no breviário catho- 
lico têm o titulo Festum Sancti Àpollinarii. As festas 
romanas de Florae et lucis acham-se christianisadas 
com o nome de Santa Flora e Santa Luzia, bem como 
as festas, de outros deuses como Simão , Anua e 
Quirino. (1) 

Não temos espaço para reconstruir as formas pri- 
mitivas do anno, que ainda explicam o sentido de 
muitas festas populares, por isso nos limitaremos á 
parte descriptiva dos Dias fastos que mais profunda- 
mente se ligaram aos costumes. 

Janeiro,— O aspecto dos primeiros 12 dias d'este 
mez prognostica o que serão os doze mezes do anno 
que começa. No 1.® de Janeiro celebra-se a Circum- 
cisão, instituída como se sabe pelo cânon 170 do 
ConciUo de Tours, de 567, para substituir os costumes 

(1) Leôncio de la Vega, Folk-Lore andalm, p. 342 a 345, 



254 LIVRO U, CAPITULO III 

populares ádisEstréas, (Strenua) das Mascaradas, Jogos 
e Banquetes. Diz Santo Agostinho, no Sermão 198 : 
«Os pagãos offerecem Estréas^ dae vós esmídas ; 
divertem-se com cantos impuros, escutae as santas 
Escripturas; vão para os theatros, vinde para a egreja ; 
embriagam-se, jejuae.» Apesar da condemnação catho- 
lica, persistiram os divertimentos populares do pri- 
meiro dia do anno, em que como nas Festas sigilares 
de Roma, em que se tocava buzina pelas portas, os 
Janeireiros em bando vão pedir as estreias. Em uma 
Canção deEstevamda Guarda, da época deD. AfEonsom, 
falla-se : «em véspera d^ano novoi> e em «véspera de 
jamyras.T^ (1) António Prestes nos seus Autos também 
allude a estas festas : (p. 10 e 32.) 

Quebrae-me os pandeiros 

Fazei- vos agora por mm janeireiros. 

N'um pintar-lhe Anno bom. . . 

Nas suas Cartas, diz também D. Francisco Manuel : 
«Não acho cousa para dar bons annos tão seguros como: 

Anos boinos, annos boinos 

Deus Yol-os mande melhorados. . . 

como dizem as nossas velhas. » (2) Filinto esboça nos 
seus Fo^^o^ luzitanos esta festa dos arredores de Lisboa; 

Oh quanto é mais feliz o villão tosco 
De rubicunda^ prazenteira face, 
Que em tomo da lareira co' as saloias^ 
Canta ao som da viola que reclama 
As simples trovas das pagãs Janeiras. 

(1) Canção, n.« 919. 

(2) Cartou p. 542. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR S55 

José de Torres tanibem descreve estes mesnios 
costumes nos Açores : f^Os Jamimros illetrados arro- 
gam-se no canto e improviso toda a ousadia e liber- 
dade. O mais fino garganteador entoa só cada dois 
versos da copla, ou o quer que é que elle phantasia ; 
depois repete-os a chusma em coro em altas berrarias. 
— A viola, a rabeca, o pifaro soltam sons estridentes. 
Chusma de curiosos acompanha o tanger por casas 
de iimigos e conhecidos.— Depois dos cantsires, os 
brindes de quem recebeu tão grande honra. È assim 
cresce o bojo do alforge, té que a manhã desponta, 
e o dia de anno bom se assoalha.» (1) 

Eis os versos colligidos por José de Torres : 

Boas festas e bons annos 
Hoje vos vimos trazer, 
Esp'ramos a recompensa, 
Véae o que deveis fazer. 

Gallinhas e fartes 
Tudo levaremos. 
Que somos de longe 
Nada d'isso temos. 

Senhores honrados 
Mandae-nos abrir, 
Que somos de longe 
Queremo-nos ir. 

Na Galliza e em muitas partes da Hespanha cha- 
ma-se a esta saudação do anno novo e peditório das 
estréas o AguincUdo : 

DéanoFo oguinaMo 
anque sea pouco, 
un bon bacaláo 
e mais meta d'outro : 
de postres compota 

(1) Panorama, t. xui, p. i(A e iiO. 



2S6 LIVRO II, CAPITULO ffl 

e tamen castanas, 
buenas y e bien grandes, 
un molete enteiro 
e un queixo de Flandres. 

Traya o aguincUdo 
si o bade dar, 
castanas e zonchos, 
para debullar. 

No Romancero general, de Duran, vem egual refe- 
rencia : (n.*» 733.) 

Dia era de los Reys 
Dia era senalado, 
Guando duenas y doncellas 
Al Rey piden aguincUdo, 

Esta mesma saudação passou aos jogos infantis, 
como se vé nos Conceptos espirituaíes de Ledesma, com 
que as crianças celebram o Anno novo : 

AguincUdo^ aguinaMo 
Que díos nos dé biien ano. 

Estas puertas san de pino, 
Aqui vive algun judio. 
AguincUdo t 

Estas portas son d'acero, 
Aqui vive un caballero. 
Aguinaldo t 

Por sus pecados pechero^ 
Que es nuestro padre pnmero, 
Aguinaldo I 

Mas darle por nuevas quiero 
Aguinaldo ! 

Que en bien está cercano, 
Que Dios nos dé de buen ano. 
AguincUdo I 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 257 

Este grito infantil de sandaç5es ao anno novo é 
também repetido em nma.ffrande parte da França, 
variando segundo as localidades : Au gui Vem neufi 
que Belloguet traz sob a forma Ikguilanneuf, A gui 
lanné, Agui lanléj AguHabk, Equinané, Guilameny Gui 
lonn-neoUj GuU-lou-né e Guigwletix. Belloguet queria 
vér n'este grito uma reminiscência popular de uma 
cerimonia druidica, em que os sacerdotes ganlezes 
iam colher a resina ou o gui no sexto dia da lua. (1) 
Scbuchardt considera Aguinaldo como palavra derivada 
de Calenda, a chamada do povo no primeiro mez do 
anno. 

Nas festas populares do Brazil as dansas fazem-se 
percorrendo varias casas um magote de indivíduos» 
com um rapaz que leva a figura de um boi, em que se 
occnlta» e as cantigas simidam uma espécie de Auto 
dramático. (2) 

cNo primeiro de Janeiro de cada anno, (Gabo Verde) 
esperam as raparigas os rapazes, e estes aquellas, e 
o que avista primeiro o outro, grita com toda a força, 
dizendo : 

— Nhõ fulano, dá-me o Reis? 

cSe a rapariga foi quem pediu primeiro, o rapaz 
dá-lhe um corte de camisa, ou de saia, que lhe leva 
a casa no dia 6; e se o rapaz foi quem pediu, vae 
este a casa d^ella, que já lá tem um corte de calça 
de cotun ou outro qualquer objecto. No anno segumte 
o que recebeu dobra a dadiva, e assim continua todos 
os annos, até chegar a contar de ouro no valor 20^000 
réis, corte de calças, casacos de panno fino, etc. A 
final, acabam os Reis com o casamento...» (3) 

O dia de Reis, celebrado a 6 de Janeiro, é uma 
forma de commemoração do nascimento de Ghrísto, 

SI) Eíknogénie gatUaise, t. ni, p. 294. 
2) Cantas popwares do Brazu, n.<* 72. e nota. 
3) Ahnamdi de Lembranças pára 1865, p. 68. 

i7 « 



958 1<IYH0 Ifp CAPITULO Ui 

da egrej9 âo Orieat^ influaaciada pelo achadQ de Osíris. 
(GreuzQr,) Prestes, escreve : «Gantae-lba 0$ Rm^ se 
compris.» (p. 340.) E D, Francisco Manuel de Melio: 
cE a este propósito p3o é sem sabor cantar hoje ; Bey^ 
mui simto$ coloradosj, e ir proseguindo.i {Ca/rm» 
p. 542.) Dos costumes açorianos, escreve José de 
Torres ; cO cantar dos Rei$ e Sámticmas nas noites 
que precedem os dias 6 e 20 de Janeiro, são folguedos 
análogos. Se as cantigas variam, musicas e scauario 
permanecem os mesmos. Muitas ve^es n'esta espécie 
de peditório tem os ranchos de cantores por fim auxi- 
liar algumas capellas e ermidas pobres.» (1) Na ilbft 
da Madeira costumasse visitar as lofdnhas ou presé- 
pios : f Quando em dia de Reis a lapinha do viUão e 
visitada por algum fidalgo ou fidalga, por muito bon- 
rado S(» tem o dono em que o seubor ou a senhora 
tire da lapinha um ou outro fructo, o que em g^ral 
lhe é pago bi:tarramente com uma boa offerta pelos 
fidalgos. » (3) As casas estão francas duraute a& tre? 
odtayaa do Natal 

As Janeirinhas na Foz do Dao : — «É costume u'esta 
aldêa nos dias 3 a 6 de Janeiro, juntarem-S9 oa rapazes 
em grujpcis e percorrerem todas as casas a pedirem 
as jamrmhas. Gostunvam dar-lhes chouriços, cebolas, 
batatas, alhos, castanhas, maçãs, passas, vinho, etc. 
Um dos do grupo vae adiante com uma candeia a 
aUumiar ; quando se lhe acaba o azeite é costume 
ençher-lh'a de novo na casa a que vão pedir. Yae outro 
com um saco para receber as esaM)las. Se acontece, 
9 acontece muitas vezes, não lhe darem cousa alguma, 
o grupo faz coro diante da porta, dizendo : 

Surrão, surrao, 

Esta casa vá ao ehão t 



{{) Fastos aç&iicmos, Pan., t xiii, p. 
(2) Actualidade^ n.* »a (i876w) 



iil. 



AS FESTAS DO GALENDABIO POPULAR 259 

Quando lhes dão, dizem lísongeando o dono: 

Ripa, ripa, 

Esta easa seja rica t 

Depois do peditório e correrem todas as casas» v3o 
fazer uma fogaeira para assarem castanhas on alguma 
outra cousa das que lhes deram.» (1) 

No dia de Reis deitam-se trez bagos de rom3 no 
lume para o ter acceso todo o anno, trez bagos na 
caixa do pão, e trez no bolso do dinheiro, para ter 
dinheiro e pão. (2) 

O S. Gonçalo (10 de Janeiro): cPor occmlo da 
festa que lhe fazem em Amarante, e á qual concorre 
muita gente do Minho» Maia, etc., com festas» descan- 
tes» Tão os romeiros e romeiras a um giestal próximo 
da villa dar um nó n'uma giesta» e por milagre do 
santo casam. Os romeiros trazem à volta o cbapéo 
enfeitado com o registo do santo, (como n'ontras roma- 
rias) figuras de trigo pintadas e cobertas de assacar, 
etc. O que é mais importante para este estado» é o 
costume que as raparigas mais garotas têm de trazer 
da romaria uns pãesinhos pequenos» á maneira de 
uberes de cabra» a que em boa linguagem popular 
chamam phaUas de S. Gonçalo. As pessoas que não 
Tão á romaria pedem que lhes tragam estes ptesè- 
nhos.» (3) Lê-se na Description de la ViUe de Lisbomm 
(1738): «Os velhos e pessoas achacadas lêm ^ual* 
mente uma singular devoção a S. G(Miçalo» português 
de nação» que está no convento dos dominicanos» na 
praça do Rock). No dia da sua festa fazem aH umas dan- 
ças bailando e cantando : 

Qmm com o Santo quizer sarar 
Ao Saaio ha de bailar.» 

(1) Almanach de Lembranças para 1873, p. 196. 

(2) Pedroso, Svpertí., n.« 324. 

(3) Leite de Vasconcellos (Vanguarda, n.» 27, 1880.) 



• • 



260 LIYRO n, CAPITULO III 

Eis uma amostra das Cantigas, que se repetem em 
Penafiel : 

S. Gonçalo d*Amarante 
Foi ao moinho de vento, 
Traz a farinha na testa 
t^ara fazer o fermento. 

Prometti a S. Gonçalo, 
Prometti hei-lh'o lazer, 
Uma papia de maça 
Quando minha mae coser. 

As Festas d' alem do Côa: Na véspera da festa de 
qnalqner Santo, os mordomos a cavallo, nm vestido 
de capitão de ínfanteria, outro de alferes, e outro 
de Anjo entre elles, com uma bandeira, e um papei 
com fitas pendentes, acompanhados ao som do rufo, de 
muita gente, vao á porta da egreja e depois á do 
parocho, onde lançam um pregão dos Milagres e vida 
do Santo. 

«Ghama-se a esta cerimonia a Fama. 

<No dia seguinte os mesmos acompanham a procissão 
com espadas nuas ; o Santo na volta fica á porta da 
egreja, voltado para o povo, e os trez fazem diante 
da imagem muitas evoluções de esgrima, simulando 
atacar o Santo, até que lhe depõem as espadas aos 
pés. É ao que se chama a Vénia. Depois d'isto é a 
Corrida do Gallo, indo por fim um rancho de trinta 
homens dar tiros de pólvora seca á porta dos novos 
mordomos.» (1) 

Santo Amaro (15 de Janeiro) : Na cidade da Horta 
é festejado Santo Amaro todos os domingos desde 15 
de Janeiro até 2 de Fevereiro, fazendo-se leilão de 
pernas e braços de massa. (2) Em Beja, fora da porta 

(1) Almamch de Lembranças para 1878, p. 130. 

(2) Idem, para 1861, p. 119. 



ÁS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 261 

d'Evora, festeja-se este Santo, oflferecendo-lhe as cam- 
ponezas pemas e braços de massa de doce : <de noite 
é que a funcçao se torna algum tanto profana, pois 
se transforma a egreja em mercado, no qual se ven- 
dem todas as pemas e braços ofiferecidos ao Santo. 
Não haja medo que alguém deixe de comprar um 
braço ou perna, que logo vae para o estômago do 
comprador, pois é de fé que assim se evitam as dores 
no anno seguinte, nas próprias pemas ou nos próprios 
braços, que também Qcam livres de se partirem ou 
desmancharem. Ha annos em que se consommem 
perto de quarenta alqueires de farinha em braços e 
pemas.» (1) Na ilha de S. Miguel (freguezia de S. José, 
em Ponta Delgada) ha esta festa ; a venda das offertas 
faz-se na egreja durante algumas tardes. Na ilha da 
Madeira, os doces, came de porco, mel e outros ace- 
pipes do Natal, consommem-se em dia de Santo Amaro 
«em que tem logar o varrer dos armários^ costumando 
as pessoas de amisade irem umas a casa das outras 
com uma vassourinha varrer os armários, o que dá 
logar a muito riso, muita conversa, e ás vezes musica 
e dansa.» (2) 

O S. Sebastião (20 de Janeiro) : Eis como se faz 
a festa de S. Sebastião em Faro : «Logo na tarde do 
dia 19, rapazes e crianças de ambos os sexos e em 
grande numero, invadem as casas da cidade, pedindo 
vellas, cotos, pavios, tudo finalmente que possa servir 
para improvisar uma tocha ou cousa que com isso se 
pareça. Obtido o indispensável combustível, é este 
fixado n'um páo ou n'uma cana, e põe-se-lhe á roda 
um guarda-vento de papel, em que ás vezes se vêem 
extravagantes pinturas. Os marítimos preferem archo- 
tes ou pedaços de cordas velhas, e reunem-se todos 



í 



1) Almanach de Lembranças, para 1860, p. 284. 

2) Actualidade, n.» 293 (1876.) 



Á 



262 LITRO n, GAPITOLO m 

em frente da ermida, na noite da procissão (qaando 
é levado para a Sé, onde fica até ao dia seguinte). Ao 
ingrato som das continuas badaladas de uma solitária 
sineta, começa o préstito a mover-se, por Tolta das 
8 horas d'aqueUa sempre fria e desagradável noute. 
Mal que sae da capella o andor do Santo, atroa os 
ares uma terrível vozeria, sao trez ou quatro mil pes- 
soas a repetir com toda a força dos pulmões a anti- 
pbona popular — Viva o mande Sam Sebastião / E lá 
vae caminhando o Santo atraz d'aquella desordenada 
multidão, sem que cessem um único instante, em- 
quanto o Santo anda por fora, nem a antiphona, nem 
os estalos de bombas e foguetes, nem os assobios e 
gritaria dos rapazes.,., é permittido n'essa noite a 
qualquer marítimo o queimar as barbas e chamuscar 
o cabello a outro cidadão que vá munido de uma arma 
egual... Muitas são as chamuscaduras, muitas as pirra- 
ças para apagar os archotes, muitas as graças pesadas, 
sem que de tudo isto resulte contenda ou rixa alguma. 
— Quando o préstito chega á praça, é que a solemni- 
dade se torna mais interessante. — De todas as ruas 
saem ranchos de mulheres conduzindo crianças a pé 
e ao collo. Na mão d'estas se vê a clássica tocha, 
preparada com desvelo pelo pae ou pela mãe, e que 
ás vezes é origem de grandes choradeiras. Chega final- 
mente a procissão á Sé, em cujo largo se diria que 
debandava o préstito, se em debandada não tivesse 
elle vindo até aUi.» (1) 

Em Nisa «De tarde tem logar a venda dos ramos, 
que são oflFertas e presentinhos que lhe fazem as don- 
zellas devotas da villa, de algumas cestas de fructa, 
pratos de doce, carne ensacada, ou queijo de seus 
rebanhos, em remuneração de alguma assignalada 
mercê que receberam.» (2) 

(1) Almanaeh de Lembranças^ para 1860, p. 82. 

(2) Mem. hist, da Villa de Niza^ 1. 1, p. 85. 



AS FEStÀS DO ÉÁLÉNMtitO POPULAR Í6à 

A Festa das Fogaceiras, celebra-sê em 20 de Janeiro, 
na \illa da Feira, em louvor de S. Sebastião. Sâo trez 
grandes fogaças, qae trea donzellas pobres levam em 
procissão à matriz, onde s3o benzidas, havendo ser- 
mão e missa; vem depois em procissSo ft casa da 
Gamara, onde ellas sfio repartidas pela populaçBo, 
levando as meninas as fatias pelas portas e recebendo 
a esmola qne cada nm qner dar. (1) 

Fevereiro. — A festa da Senhora das Candéas^ cele- 
brada a 3 de Fevereiro, é uma transformação da festa 
romana da deusa Febbrua, em que os rapazes faziam 
um grande barulho ; no Monferrato tem o titulo de 
Fadrere. Como o Fevereiro fora antigamente o ultimo 
mez do anno^ diz Ferraro : tutebatur libertate deoem* 
bris.T» (2) Em um jornal lemos a seguinte noticia^ 
relativa ao dia 3 de Fevereiro : «Realisou-se trasante- 
hontem, em Lisboa, no Lumiar, a feira de Santa Bri- 
zida. Os camponezes concorreram em grande numero 
com gado, e depois de comprarem as candéas e rolo 
de cera, deram trez voltas á roda da egreja, para 
assim ficar, segundo dizem, livres de moléstias pro- 
venientes do máo olhado. O gado vaccum e bovino, 
depois da passeata retirou trazendo nas hastes candéas 
enroladas.» (3) No Cancioneiro da Vãticana falla-se 
n'este costume do século xiu : 

Quer' eu ora mui cedo provar se poderey 
hir queimar mhas candéas com gram coita qu' ey, 
e por veer meu amigo. (Canç. 263.) 

Poys vossas madres vam a Sam Simom 
de vai de Prados candéas queimar, 

(i) Almanack de Lembranças para 186Í. jp. 85. 

(2) Rivista de Letteraturaptmolarê, p. iÔ. 

(3) Actualidade, Porto, 3 de Pev. I88S. 



264 tmio n, capitdlo m 

nós as meninhas ptmhemos d*andar 

com nossas madres, s*ellas entom 

qae3rmen canaêas çer nós e per si, 

e nós meninhas bailaremos liy. (Ganç. 336.) 

A Candekaria é conunum a todo o occideate, e é 
considerada como um período de observação mete- 
orológica nos provérbios vulgares : 

Se a Senhora da Luz chorar. 
Está o inverno a acabar. 

Se a Senhora da Luz rir, 
Está o inverno para vir. 

Na Toscana diz-se este mesmo provérbio, em que 
a observação meteorológica se mistura com o acto 
cultual : 

Se piove o nevica per la Gandelora 

Deir inverno siamo fora. 

Se è sole, o solicello 

Siamo in mezzo ai vemo. 

E na Extremadura bespanhola se diz : 

El dia de la Gandelora 
(pie llova, que no llova, 
inverno fora. 
Y se Uova y hace vento 
inverno dentro. 

O mesmo provérbio é conmium à Hespanha, França, 
Inglaterra e Âllemanha. (1) 
Em S. Miguel faz-se a festa de S. Braz, no dia 3 de 

(1) Pitrè, Spettacoli e Feste, p. 180. Lô-se em Leroux de 
Lincy (Prov.^ 1 1, p. 65): 

La veille de la Ghandeleur 

L* hiver se passe ou prend vigueur. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 265 

Feyereiro ; vende-se na egreja pão bento e oflfertas ao 
Santo, como na Sicília, a cannaruzzMUi di S. Brasi. 

Março. — A festa de S. Bento, coincide com a outra 
da primavera, e confunde-se com a festa do Cuco. 
Ampere falia d 'este costume na Grécia moderna : «Â 
canção da andorinha, de que faliam os antigos, é ainda 
hoje entoada pelas crianças gregas no 1 .® dia de Março, 
e mesmo conservaram o costume de levarem comsigo 
a imagem de passarinhos, cuja volta annuncia a pri- 
mavera.» (1) 

Na Description de la Ville de Lisbannej falla-se tam- 
bém na festa de S. Bento em 21 de Março : <0s homens 
e mulheres tem grande devoção a S. Bento, cujas 
relíquias repousam em uma grande egreja do seu 
nome. Vê-se a 21 de Março... um concurso extraor- 
dinário de povo, que batendo á porta d'esta egreja 
— pede ao Santo que lhe não deixe faltar o pão : e 
pelo anno adiante as raparigas mandam ali dizer missas 
para encontrarem bons maridos.» Já vimos nas super- 
stições popularas a fórmula do cuco^ commum ao occi- 
dente. No Minho a festa do Cuco tem uma forma dra- 
mática rudimentar : 

«Em Yilla Nova de Famalicão, a melhor festa para 
os habitantes da villa é a do Cuco. É sempre no dia 
de S. Bento (21 de Março.) Vae o Cuco-mór mettido 
em uma liteira puxada por dois burros lazarentos ; 
depois do Cuco-mór segue-se o trem, que consiste em 
taxos, bacias, caldeiras, etc, tudo muito velho, carre- 
gado em jumentos ; e atraz de tudo segue-se o brazão 
d'armas dos irmãos da confraria, que é outro jumento 
carregado de chifres de boi. Em todos os largos pára 
esta linda comitiva, e o Cuco-mór envia então varias 
aves pequenas, como pardaes, chascos, etc, dizendo 

(1) Grèce, Rome et DantBj p. 58, 



266 UTAO It, CAPITULO Ilt 

com grande alegria dos espectadores t — Âhi vae um 
cuco para a freguezia de tal ; outro para a fregaezia 
de tal. E assim correm toda a villa.» (1) 

Abril. — 1.® dia d'Abril é o dia das petas, (Accx^es) 
ott dos enganos (Porto) ; chama-se-lhe em França Pois- 
son d^avril. Lemos em um jornal provinciano : cEffe- 
ctivamente um dos enganos mais explorados é o (bri- 
gar um individuo a dar passos baldados, procurar mn 
objecto impossível ou que nSo está no sitio que lhe 
designam. E são especialmente as crianças escolhidas 
para victimas dos enganos, porque a ellas se presta 
mais a sua innocencia. — Yae buscar uma corda para 
amarrar o vento.— Ah 1 exclamam para outro : Quem 
te pintou a cara ? E a criança corre ao espelho e só 
entSo se lembra que está no 1." de Abril.» 

Entre 22 de Março e 25 de Abril fluctua a festa 
da Paschoa, que n'este logar descreveremos em todos 
os seus elementos. 

No Pegu> como conta Symes, «no ttUimo dia do anno 
solar ^ que corresponde n'aquella regiSo ao nosso 12 de 
Abril, homens e mulheres fazem uma espécie de Car- 
naval, esguichando-se uns aos outros com agua fresca 
e limpa, com a qual dizem que lavam todos os pec- 
cados do anno.» (2) Também na índia existe o mesmo 
costume nas festas de Ghristna, com o nome de 
Vasanta; é a festa da primavera, atirando-se uns aos 
outros pós vermelhos, ordinariamente de raiz de gen- 
gibre, coloridos com açafrão, e esguichando-se com 
agua perfumada, lançando-se folhas de rosa. Temos 
estes costumes ainda com sentido cultual. José de 
Torres descreve o Entrudo nos Fastos açorianos : «Já 
pouco nos resta d'elle : reuniões frouxas e brindes 

(1) Almamch de Lembranças para 1857, p. i46. 

(2) Piccola Enciclopédia indiana, p. 65. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 267 

de familia nas quatro Quintas feiras de amigos e ami- 
gas, de Compadres e Comadres^ anteriores ao Domingo 
da Quaresma : as fihóSs os sonhos^ as malassadas, que 
como trunfo obrigado se dão n'esses dias, e no do- 
mingo gordo até á terça feira de Entrudo. — Âquellas 
quintas feiras sao uma compensação hebdomadaría de 
quatro semanas roubadas á loucura e priguiça do 
Carnaval... — os trez últimos dias de preceito» que 
apenas se revelam por alguma mascara nas ruas> pela 
agua da rara caldeirada ou borrifo da borrachaj pelo 
combate dos projectis de cera recheados de agua e 
aroma (que os ovos não sâo lá de usança) — pela 
metralha de grãos cereaes ou legumes, por alguma 
cara assaltada ou farruscada, pelo fato empoado de 
farinha, e o corpo perseguido pelos malditos papeli- 
nhos, faúla de dolichos infaustos ; algum mergulho nos 
tanques públicos, alguma laranjada de garoto, que a 
turba applaude e excita, completam a festa. — O logar 
do combate nenhuma outra cousa annuncia de longe 
senão a repetida bulha áe estalos fulminantes.» (i) Do 
uso das laranjadas no século xvi, falia Fructuoso : 
cE andando no paço, sendo mancebo e moço fidalgo 
DO Mosteiro de Santo Agostinho em Santarém outros 
moços fidalgos junto do Entrudo se puzeram todos 
contra elle ás laranjadas...» (2) Um alvará de Phi- 
lippe ui, de 15 de Dezembro de 1608, § 43, prohibiu 
nas ruas de Lisboa as laranjadas e brigas de Entrudo. 
Para afastar o povo das festas do Carnaval instituiu-se 
o Jubileu das Quarenta horas «com pomposas festas 
de egreja, com recreativas procissões nos trez dias 
de entrudo. (3) Os Jesuitas em 1608, iniciaram estas 
devoções, levantando na egreja de S. Roque uma 



(1) Panorama^ t. xiii, p. ii2. 

(2) Saudades da Terra, p. 101. 

(3) SummarU) áe Varia Hist, t. ii, p. 79. 



268 LIVRO 11, CAPITULO O! 

pyramide encimada por um arcbanjo que abria e 
fechava as azas mostrando ou occnltando a Custodia, 
concorrendo ás confissões e communhao para cima de 
vinte mil devotos, attrahidos pela novidade. Durante 
os trez dias de Entrudo fizeram trez procissões, dos 
Meninos, dos Escholares de Santo Antão, e dos IrmSos 
da Congregação da Doutrina ; a corrente popular 
prevaleceu. Leite de Vasconcellos cita outro costume ; 
«Nas aldeãs da Beira Alta presenceei muitas vezes o 
costume de Qtmmar os Compadres e as Comadres, nas 
duas quintas feiras mais próximas do entrudo. ¥ns 
e outros sao monos de palha... os primeiros represen- 
tam homens e s3o feitos e queimados pelas mulheres ; 
os segundos representam mulheres e sao feitos e quei- 
mados pelos homens. Os Compadres queimam-se ordi- 
nariamente nas janellas, porque os homens não os 
deixam sair fora ; as Comadres levam-nas espetadas 
pelas ruas guardadas por gente mascarada... é cos- 
tume lerem-se testamentos em que os suppliciados 
fazem as suas deixas.» (i) No Alemtejo e Algarve 
usa-se por occasiSo do Entrudo enganar os uioços 
convidando-os para irem á Caça dos Gramosilhos ou 
Grambosinos; consiste o engano em leval-os para o 
campo, e coUocal-os ao pé de um agulheiro de qual- 
quer muro com um saco na mão á espera que saia 
d'ali o gramosilho, espécie de coelho pequeno. Os 
companheiros fingem que v3o bater o mato, e dei- 
xam-no ali até que o rapaz cae em si conhecendo o 
logro. Na Extremadura e Minho esta pulha faz-se pela 
Serração da Velha. 

Na quarta feira de cinza, queimam-se os Ramos do 
anno antecedente. «Em Bragança, a Misericórdia alluga 
n'este dia um fato que f,gura a Morte, e o individuo 
que o veste empunha uma foice, correndo a cidade e 

(i) Vanguarda, n.« i9 (i880.) 



AS F£STAS DO CALENDÁRIO POPULAR 269 

dando pancadaria nos rapazes que o perseguem can- 
tando: 



Oh Morte ! oh piella, 
Tira a chicha da panella 1 



O aluguer dura só por uma hora, renovando-se até 
que o ultimo acompanha a procissão da Cinza, levando 
ao seu lado um ^jo com a Arvore do paraiso.» (i) 

Na Descriptim de la Ville de Lisbonne, de 1738, 
descrevem-se as praticas da Quaresma : «Esperam (as 
mulheres) com grande impaciência as procissões da 
Quaresma, porque se lhes permitte então saírem para 
irem ver as cerimonias, e porque aquellas que têm 
desejo de fazer outro uso da liberdade d'aquelle tempo 
o podem fazer sem perigo nâo sendo quasi possível 
espial-as por causa da quantidade de mulheres que 
se vêem n'estas occasiões e da conformidade dos seus 
vestuários.» — «Nas procissões de Quaresma azurra- 
gam-se a si próprios horrivelmente, ou arrastam ao 
andarem cadèas prezas ás pernas, e outras penitencias 
semelhantes. Gomtudo n'estas mesmas occasiões alguns 
trazem uma fita no hombro para serem reconhecidos 
de suas namoradas.» Â Quaresma é representada como 
uma entidade, (2) e logo que se chega a metade d'este 
período de sete semanas, faz-se a Serração da Vdha. 
Entre os Árabes, os sete dias de solsticio do inverno 
são chamados os dias da Velha ; Gil Vicente, no Trium- 
pho do InvenWj representou o inverno como a VeUia, 
perseguida pelo Maio moço ou o verão. (3) 

Na Mouta a Serração da Velha apresenta uma rea- 
lidade pouco agradável para a gente avançada em 

(1) J. Avellino d' Almeida, Dicc, abrev, de Chorographiãj 1. 1, 
p. 190. 

(2) Testamento que fez Maria Quaresma. Acad. das Scien- 
cias: Papeis vários, t. oi. É uma Serração da Velha em verso, 

(3) Origens poéticas do Christianismo, p. 266. 



270 LIVRO II, CAPITULO lII 

edade : «Reone-se pela manhã toda a rapaâada» mu- 
nida de grandes chocas, chocalhos e campainhas» e 
percorre as ruas da villa em procura da velhice. Che- 
gados que s3o á habitação de aiguem que conta um 
bom par de janeiros, ahi começam a serrar (no sentido 
de sder^) o descuidado anachoreta... com uma infernal 
orchestra composta d'aquell6S harmoniosos iostrumen- 
tos, até que faltando a paciência ao serrado, recorre 
ás armas... Trabalham bordões, servem pincéis molha- 
dos em cal, não se poupa agua a ferver, em sonoma, 
emprega o misero condemnado ao chocalho todos os 
meios que imagina para destroçar a terrível phalan- 
ge... só deixam a victima depois de a haverem estafa- 
do... conseguido isto eil-os ahi vio procurar novo pade- 
eente.*Dura isto todo o dia e parte da noite, ete. » (1) 
As cerimonias populares da Serração da Velha va- 
riam segundo as localidades ; porém sempre na nonte 
da quarta feira da terceira semana da quaresma: 
<Gelebra-se à luz de archotes, com musica e algazar- 
ras, fingindo^se serrar através do corpo uma velha 
mettida n'um cortiço, e chamada Maria Quaresma. O 
testamento da velha, enfiada de pulhas em verso de pé 
quebrado, tem sido por muitas vezes feito e impresso. 
Aos gallegos boçaes, aos provincianos lorpas, e aos ra- 
pazes da rua ainda não traquejados nas cousas de Lisboa, 
costuma-se pregar a peça de os fazer ir para algum sitio 
remoto com banco ou escada ás costas, para melhor dis- 
fructarem a comica-tragedia, que se reduz ao logro,— 
e meia dúzia de cachotetas ao som de vaias.» (2) Em 
Lagos também se pratica esta usança quaresmal. (3) 

(i) Ahnanach de Lembranças, para i860, p. 305. 
h) Mndem, para I8S&5, p. 171. 
(3j Lemos na Folha democrática^ n,"* 7 (Lagos, i8S3): 
«Arguas artistas â'esta terra effectuaram na qaarta feira 
passada a masearada da Serração da Velha. 
«Foi uma diversão innoe^te e ingenoa que fez bnçar nas 



J 



AS F£STAS DO CiO^ENI^ABlO POPULAR 271 

A ultima semana da Quaresma, é chamada a Semana 
santa; o poYO di a cada uma das semanas da Qua- 
resma um nome : 

Anna, Lazaro 

Hagaaa» Ramos 

Rabeca, na Paschoa 

Susana^ estamos. 



No domingo de Ramm, costmaavam os imperadores 
do Oriente e os reis de França indultar os criminosos ; 
em Portugal eonserva-se esta prerogativa do monar- 
cha, Q povo vae ás egrejas buscar ramos de palmeira, 
que pendura em casa ás cabeceiras das camas. Chama- 
Ya-se a este dia nos antigos prasos e romances tra* 
dicionaes Paschoa florida ; a missa dita sem oblação, 
consagração e communbão chama-se mssa seca* 

Na Quarta feira de Trevas^ a cada psalmo que se 
canta apaga-se uma hiz. Diz Viterbo, no Elucidário : 
^GaUo das Trevas^ assim se chamava em algumas 



ruas de Lagos uma verdadeira multidão centenariana, um 
genuíno agrupamento de pessoas ávidas de {H^eseneear o que 
ba trinta e tantos annos se não fazia aqui. Uma enorme pro- 
ei9$(ão bem disposta e arraiyada percorreu, á noite, todas as 
ruas. 

«Antes da competente barrica e na frente vinha a respectiva 
serra, faoto no qual alguns reaccionários da terra viram uma 
frúante parodia á cruz dos prestígios religiosos. Formavam 
aias perto de 1^ individues, apropriadamente desfigurados e 
muudos de lao^ças. No fím de tudo, vinham, em burros como 
em andores floridos, primeiro a velha destinada ao supplicio e 
depois o respectivo consorte lavado em lagrimas de dor. 

«Nâd (fueremos expor aqui o que os mesmos reaccionários 
diriwn sobre em assumpto. 

«Finabnente fechava o séquito o tribunal de justiça, com- 
posto de juiz, carrascos e escrivão que lia de vez em ouando 
a sentença e que na praça do Cano, onde estava o cadaÊilso 
armado, fizeram cumprir o seu totrivel designia» 



272 UYRO U, CAPITULO III 

terras da província do Minho a vela mais alta no meio 
do candieiro triangular» qae se põe no oflBcio das trevas 
da semana santa.» É evidente aqui a relação da luz 
com o gallo na imaginação popular. Em um documento 
de Ponte do Lima, de 1600, também se lhe chama 
Vela Maria; é outra mythificaçao relacionada com a 
solidão da mãe, porque esta vela é a ultima que se 
apaga. O padre Manuel Bernardes clamava : cEmen- 
de-se pois o abuso de fazermos ou permittir se façam 
vigílias e serões á Cruz ou aos altares que se armam 
nas ruas, com aquellas profanidades que só podem 
ser acceites a Baccho e Vénus...» (i) O povo reveste 
as cerimonias de Endoenças com abundantes elementos 
dramáticos. Gosta Gascaes descreve o divertimento 
das Trevas: 

Já tocam matraca Peitara um gaiato. 

Já maços apromptam Que ao bater das trevas 

Rapazes que contam Nos pregasse o fato. . . (2) 

As trevas bater, 

A mais não poder. 

«Em Lamego, a imagem do Senhor dos Passos é 
conduzida na quai ta feira santa á noite, do convento 
da Graça para a Sé, d'onde sae a procissão no dia 
seguinte. Toda a gaiatada da cidade apenas escurece, 
afflue á Graça em montão, com lanternas de papel no 
alto de canas e varapáos, e como o Senhor passa da 
freguezia d'AImacave para a da Sé, a maldita rapa- 
ziada forma dois partidos, è alli se desenvolve a riva- 
lidade immemorial entre as duas freguezias. Âs chu- 
fas e pulhas cruzam-se logo, apenas sae o andor, e 
ao mesmo tempo os dois bandos entoam como endia- 

(!) Floresta, t. n, tit. L 
(2) Panorama, t. xo, p. iiâ. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 273 

brados — os da freguezía d'Âlinacave estas e outras 
edificantes quadras : 



O Senhor dos Passos tem 
Um madeiro de oliveira 
Que lh'o deram os judeus 
Da rua da Garqueijeira. 



«E OS da Sé esta e outras : 



O Senhor sae para baixo^ 
Vem da terra dos judeus ; 
Vamo-nos d*aqui embora, 
Que lá vem os pharízeus. 



cGom O andor lá vSo de envolta n'este infernal 
charivari, até que à porta da catbedral por despedida 
e cumulo de irreverência, partem uns nos outros as 
canas e varapáos e semeiam as pedras como dou- 
dos.» (i) 

Em Ponte da Barca : «Âpoz o guiSo, vae uma fila 
de crianças vestidas de branco ; segue-se depois um 
penitente grande, de costas para ellas, vestido também 
de branco, chalé escarlate e lenço na cabeça atado 
com uma fita, um penitente pequeno lhe vae segu- 
rando a saia. O grande leva uma espada na bocca, e 
mais duas, uma em cada mão, as quaes vai esgri- 
mindo, uma vez para diante e outra para traz. Segue-o 
outro, com o mesmo apparato marchando para diante; 
depois outro que vae recuando, e assim grande porção 
d'elles ; os que levam porém caudatário s3o os que 
andam como o caranguejo. Segue-se AbrahSo vestido 



(i) Almanach de Lembranças para i863, p. 203. 
i8 U 



274 UTRO n, CAPiTf)LO m 

á turca, Sans3o trajanfdo exquisitamente e cmn as 
portas de Gaza ás costas; depois mmtos anjinbos 
vestidos de cores alegres e vistosas ; no meio d'elles 
Judith com a cabeça de Holophernes, depois o andor 
do Senhor dos Passos, e atraz as trez Marias, S. João 
Baptista de coroa na cabeça, e a Verónica com tou- 
cado de plumas, todús ricameiAe vestidos. Segue-se 
depois um pastor pequeno com um carneiro vivo aos 
hombros, e os quatro Evangelistas com os nomes nas 
costas, e escrevendo em grandes livros (Jáe ievam. 
Âtraz d'elles vae a guarda romana com o Genturião, 
e fecha o préstito a musica da terra.» (1) 

Eis sobre a Procissão do Enterro^ em Nisa: «O 
enterro do Salvador, que a égrèja celebra em sexta 
feira santa, fazia-se antigainente de noite na egreja da 
matriz com grandes gritos e alaridos das mulheres, 
e depois saia em procissão pela villa, reunindo-se-lbe 
pelo transito muitos penitentes, que iam açoitando-se, 
outros com rigorosos citicios, e outros com pesadas 
baitas de ferro, que arrastavam com grande estrépito; 
mas porque estas penitencias iam degenerando em 
escândalos, foram prohibidas expressamente no anno 
de i73i, e nunca mais se repetiram. 

«Também as matronas e donzellas da villa eram 
súmmamente affeíçoadas a esta funcção da Semana 
santa, a que assistiam desde o seu principio, a missa 
de quinta feira maior até á procissão da resurreição, 
em que se tirava o Sacramento do throno, em que 
estivera encerrado, ficando toda a noite na egr€^, 
onde dormiam e se commettia todo o género de irre- 
verências.» (2) 

(i) Almanach de Lembranças para 1860, p 296. 

(2) Mota e Moura, Mem, Jiist da Villa de Nisa^ 1. 1, p. 421 
— Vid. nas Obras de Filinto Elysio, t. v, p. 403, a Charola da 
Ajuda^ ou uma parodia da paixão pelos rapazes. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 275 

Uma das injurias locaes é perguntar em Campo 
Maior Quando são lá as Endoenças f A Paixão é sem- 
pre uma grande festa local ; conta-se por anedocta que 
a Gamara de Campo Maior para festejar uma visita 
real em i4 ou 15 de Agosto, determinara que se lhe 
celebrasse em sua honra umas endoenças. (i) Toda 
a Semana Santa é para o povo um drama ; nas Con- 
stituições do Arcebispado de Lisboa, prohibe-se a 
representação dos Autos da Paixão nas Egrejas : «E 
por quanto dos Autos em que com figuras se repre- 
senta a Payxao de Christo Nosso Senhor se seguem 
muitas indecencias, defendemos sob pena de excom- 
munbão mayor, e de vinte cruzados, applicados para 
a Cruzada e despeza da nossa Relação, que nem nas 
Egrejas, nem nas procissões qm se fazem quinta e 
sexta feira da Semana Santa se representem autos ou 
diálogos da Payooão, nem se introduzam figuras yivas 
para o tal eflfeito. E tudo o que n'ellas se houver de 
representar, seja com imagens de pào, barro e seme- 
lhantes, etc.» (2) Muitas das cerimonias da sexta feira 
da Paixão tem analogias com as que se praticavam 
na paixão de Adónis em Byblos, e em que a Virgem 
da Soledade conserva os traços de Astarte. (3) 

No sabbado da Alleluia, o povo costuma fazer o 
enterro do bacalhdOy ou o enforcamento de Judas. No 
livro de Marianna Baillie, Lisboa in the yars 1821, 
1822, and 1823, lé-se : «As cerimonias da Semana 
Santa, chegaram n'este paiz a um tal extremo de farça 
Ímpia e absurda, que sem se vêr torna-se impossivel 
acreditar, pois até nas mas enforcavam Judas, e 
faziam procissões em que um homem representava 



(i) Almanach de Lembranças para i859, p. 269. 
h) Liv. II, tit. VI, i 1. 

(3) Alfred Maury, Hist. des Religions de la Grece antique^ 
X. ui, p. 222. 



• • 



276 LIVRO 11, CAPITULO lU 

de AbrahSo.» (i) Gosta Gascaes descreve este costume, 
ainda vigoroso por causa das allusões politicas : 

E um Judas pendente 
Na corda dansava 
Ao som da algazarra 
Que a plebe soltava. . • 
Gontou-me a visinha 
Que a festa em Lisboa 
Seu Judas lá tínba. . . . 

A benção do lume novo faz-se no sabbado de Alie- 

laia; (2) sobre o sentido mythico d'esta cerimonia 

escreve Bumouf na Sciencia das Religiões : «Na egreja 

primitiva a cerimonia do fogo e do cirio paschal tinha 

logar no domingo, no segundo nocturno, entre as trez 

e seis horas da manhã ; era na alvorada, porque no 

dia do equinoxio o sol levanta-se ás seis horas. O fogo 

produzido pelo attríto serve para accender o cirio 

paschal ; o diácono vestido de branco pega em uma 

cana que é o vétasa do hymno védico» e na ponta d'elia 

põe trez velas representando os trez focos do recinto 

védico ; accende cada uma d'ellas com o fogo novo, 

dizendo de cada vez : A luz de Christo I Em seguida 

accende o cirio paschal, no qual a cera substituo a 

manteiga do sacrificio dos árias. É-entao que o Ghristo 

apparece com o verdadeiro nome de Agnus, forma 

latina do Agni da índia.» A Paschoa celebra-se nas 

famílias com um jantar lauto ; lê-se no Cancioneiro da 

Vaticana : 

Como eu em dia de Paschoa 
queria bem comer. (Canç. n.* 73.) 

O povo crê que em chovendo no dia de Paschoa 

(i) Ap. Portugal e os Estrangeiros, 1 1, p. 46. 
(2) Na Povoa do Varzim (Yid. Actualidade de 3i de Março 
de i883.) 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 277 

nSo ha nozes n'esse anno (Minho) ; esta mesma crença 
existe na Aliemanha em relação ao dia de Santa Mar- 
garida (i 3 ou 20 de Julho), e em França em relação 
ao dia de S. Medardo. (1) 

No alto Minho e arredores de Monsão, em todas as 
familias mata-se um cabrito na segunda feira imme- 
diata ao domingo de Paschoa. (2) Segue-se o Com- 
pdssoj ou a visita que o parocho faz aos casaes da sua 
freguezia depois da Paschoa ; no Minho chama-se tam- 
bém o Folar j offerecendo-se ao parocho uma garrafa 
de vinho, um pão de ló e uma moeda de prata. Âllu- 
dindo a este uso, diz Viterbo : «Entre nòs comtudo, 
parece serem restos do antigo costume (dos salários 
aos confessores) assim as reconhecenças como também 
os afolares, que na quaresma ou na paschoa se pra- 
ticam.» (3) 

Depois da quaresma, aqnelles que vão ao confesso, 
diz-se que vão na semana dos arrastados (ilha de 
S. Miguel). Na freguezia de Santa Comba dos Olleíros 
havia na egreja um grande chocalho «para com elle 
fazer grande chocalhada aos que seconfessam passado 
o tempo determinado pelas leis do bispado.» (4) 

Lê-se na Descriptim de la Ville de Lisbonne : «Expõem 
algumas egrejas, particularmente em quinta feira da 
Ascenção, canários em gaiolas mui acceiadamente 
enfeitadas com flores e fitas de modo que estes 
passarinhos animados pelo cantar dos padres, não 
interrompem seus cantos e formam um concerto e 
espectáculo assas novo para os estrangeiros.» 

Nas Outavas da Paschoa se celebrava a festa de 
S. Pedro Gonsalves (o fogo meteórico do santelmo) 
«e aquelle dia é o de maior triumfo de todos os pes- 

(1) Rev, germanique, t. xv, p. 9. 

(2) Almanach de Lenibr. para i878, p. 261. 

(3) Elucid., vb.* Abadbngo. 

(4) Almanach de Lembr» para 1859, p. 254. 



278 UVRO 1I9 CAPITULO ni 

cadores, que todos os outros, e em que elles fazem 
maiores gastos e despezas, que em todos os mais.» (1) 
«e andava grande borborinho entre os pescadores de 
Alfama... porque aquelle anno lhe tirara o Arcebispo 
aquellas suas tão antigas cerimonias com que venera- 
vam e festejavam o dia do bemaventurado S. Pedro 
Gonçalves, levando-o ás hortas de Enxobregas, e com 
muitas folias, e de lá o traziam enramado de coentros 
frescos ; e elles todos com capellas ao redor d'elle, 
dançando e bailando. E porque nos não lembra vermos 
escriptas estas cerimonias em alguma parte, o fare- 
mos aqui brevemente. » (Relação do naufrágio da Ndo 
S. Maria da Barca^ 1559; Hist. tragico-maritima» 
t. I, p. 312.) 

S. Marcos (25 de Abril). Na freguezia de S. Marcos 
da Serra (Algarve) os pães levam as crianças travessas 
ao padroeiro da freguezia, e batem-lhe com a cabeça 
no touro que está aos pés da imagem, dizendo : 

Mé senhor San Marcos 

Que amansais bois brabos, 

Araansai-me este filho 

Que é peor qu* a todolos diabos. 

A cada verso segue-se uma valente cabeçada, de 
sorte que a criança atordoada fica mansa. (2) Na fre- 
guezia da Penha d'Aguia ha uma ermida com uma 
sepultura que se diz também ser de um S. Marcos : 
«E' de fé por alli, que tem a virtude de amansar os 
rapazes bravos, que são deitados de costas por espaço 
de uma hora sobre a sua sepultura.» (3) 

Em Alter do Chão festeja-se S. Marcos estrondo- 

(i) Hist tragico-maritima, 1. 1, p. 313. 

(2) Almanach de Lembranças para 1859, p. 331. 

(3) Ibidem, p. 362. 



AS FESTAS DO GAUENBARIO POPULAR 379 

sãmente, por causa das virtudes de livrar os gados 
dos lobos e de moléstias: «Antes da festa vém os 
padres fora da Egreja, e cantando em coro a ladainha, 
acompanham para dentro um novilho, que quatro 
Emfrescidores (irmãos de S. Marcos, e que se têm 
previamente confessado) alli obrigam a entrai^ baten- 
do-lhe com umas varinhas e dizendo : Entra Marcos, 
em louvor de S. Marcos t O novilho entra, chega ao 
altar-mór, e d'ahi volta á porta, pelo mesmo caminho 
que se lhe deixara desimpedido. — Depois da festa 
mettem-se na egreja alguns bezerros, que se oflfere- 
cem ao Santo, transformando-se assim o templo en^ 
um curral.» (i) 

Esta festa corresponde ás Rtibigales, que se cele- 
bravam em Roma, á Deusa Rubigo, para apartar as 
névoas dos campos. Era a metade da primavera, e as 
festas tinham por fim evitar as chuvas. Os anexins 
italianos, hespanhoes e portuguezes, conservam este 
caracter : 

S. Marcu é la lupa de la campagna. (2) 

San Marcos 
Llena los charcos. 

Na província de Cáceres usa-se esta festa do boi- 
marcos, levado ao altar. (3) 

Maio. 01.® dia de Maio é festejado em todos os pon- 
tos de Portugal. O Bé-iUtin era uma festa druidica que 
se celebrava no primeiro dia de Maio, época em que 



(i) Ahnanach de Lembranças para 1858, p. 369. — O mesmo 
se usa em Elvas. Vid. Actualidade, de 8 de Maio de 1883. 
(n.« 104.) 

(t) Pitré, Bibl delle Trad., t. xii, p. 2S0. 

(3) No Folk Lore Betico-extremenho, vem uma extensa de- 
scripção d*esta festa, vid. p. 203, n.« 2, e 297. 



280 UVRO II, CAPITULO III 

começava o anno. O nome céltico de Maio era Cend 
uin, o primeiro mez ou o primeiro tempo. Âccendiam-se 
grandes fogueiras. (1) Âmpère, faUando da Grécia 
moderna diz: cPor toda a parte se celebra o 1.^ dia 
de Maio cantando: — É vinda, é vinda felizmente a 
nossa nympha.» Em nota accrescenta : cEstas gracio- 
sas homenagens á densa primavera perpetuaram-se 
pelo menos até uma data recente, na cidade phocense 
das Gallias: em Marselha no 1.^ de Maio, collocava-se 
sobre altares enfeitados de flores meninos bem vesti- 
dos, e seus companheiros chamavam os transeuntes 
para offerecerem flores á Maia.» (2) Na ilha de S. Mi- 
guel (Açores) festeja-se o Dia de Maio com papas de 
milho e leite como o Beltein das aldéas escossezas, e 
as Palilias romanas. É uma festa solar, vestígio de 
uma sociedade pastoral. Escreve José de Torres, nos 
Fastos açorianos : cQuem ha ahi que entre cantos e 
folgares^ entre o fazer e enfeitar de Maias^ não se 
tenha com toda a cerimonia campestre deliciado com 
fumegantes papas ? Quem ha que não tenha phanta- 
siado vestes surprehendentes e variegadas para vestir 
e mascarar n'este primeiro dia de Maio um corpazil 
de palha ? Quem ha que não sorria, vendo nas Maias 
que occupam as janellas e sacadas, que campêam 
nos balcões e sobre os tapumes das quintas, por onde 
este dia se consomme, uma ingénua diversão do povo 
e tréguas a maiores cuidados?» (3) No Algarve as 
festas do Maio duram trez dias, e em quasi todas as 
casas faz-se uma grande boneca de farrapos, e palha 
de centeio, que se colloca no meio da casa para ser 
vista por quem passa pela rua. Á noite ha dansas em 
roda da Maia. A Egreja misturou com as Maias o mez 



[1) Smith, Hi8t. des Druides, p. 46. 
2) Grèce, Rome et Dante, p. S9. 
[3) Panorama, \. xin, p. i^. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 281 

de Maria ; em Nisa celebram-se as Ladainhas de Maio, 
à maneira dos cantos dos Âr vales da antiga Roma ; 
sae da egreja da Virgem da Graça mna procissão cem 
que o clero, senado e povo ia implorar-lhe a protecção 
para lhe preservar de todo o perigo as suas planta- 
ções e sementeiras.» (1) No Algarve é n'este mez que 
se pagam as promessas á Virgem. É ainda no dia 3 de 
Maio a romaria da Senhora dos Açores, sustentada pela 
camará de Celorico, e á qual Viterbo allude como uma 
cavalhada e ^concurso de vaidade, glatoneria egalhofa.n 
Junto a Vizeu, vestem como Maias varias meninas 
á imitação de Anjos, com coroas de rosa na cabeça e 
azas de giestas como as FlorcUias romanas ; (2) em 
Alvações do Corgo, é um rapaz vestido de giestas, 
cercado de raparigas, que dansa em quanto ellas 
cantam : 

Vedes o Maio, 
Maio, mocinhas I 
Vamos á caixa 
Das castanhinhas. 

Elle lá vae^ 
Elle lá vem 1 
Pelas hortas abaixo 
De Santarém. 

Lemos sobre as Maias em Beja : «Aqui, juntam-se 
as crianças de ambos os sexos, especialmente do femi- 
nino ; enfeitam uma rapariguinha mais pequena, ves- 



(1) Mem. hist, da villa de Nisa, 1. 1, p. 101. 

(2) 



Leite de Vasconcellos aproxima esta analogia da can- 
tiga : 

Apromptae pastores 
Os ramos e flores. 
Que a Cruz do Maio 
Nos chama já. 
Flormdinha 
Que bella está ? 



?82 LiyRO \h CAPITULO IH 

tida de branco, contorneam-Ibe de flores a cabeça e 
o peito, assentam-na em uma cadeirintia, que coUocam 
sobre uma meza egualmei^te ornada e deixam estar 
allí a pobre pequena toda a tarde^ emquanto outras 
sentadas em redor da meza cantam e tocam adofes. 
Logo que alguém passa, levanta-se aquella chusma 
de rapazes e raparigas, e agarrando-se aonde melhor 
podem deitar as mãos, fazem tal gralhada, que quem 
se quizer vêr livre d'ella deve ir prevenido com alguns 
cobres para lb'os deitar. Muitas vezes ainda se não 
está livre de um grupo, já dois ou trez andam pedindo 
para a maia, e não desistem da perseguição emquanto 
os não satisfazem com alguma cousa.» (1) 

«No seu primeiro dia, usam ainda agora entre nós 
os rapazes percorrer as ruas, festejando e acclamando 
uma criancinha enfeitada de flores, a que dão o nome 
de Maio pequenino. Na provincia do Minho põem á 
borda das estradas um menino e uma menina com o 
nome de Maio e Maia^ deitados n'uma camilha de 
flores e verdura, e um prato ao pé para os passageiros 
deitarem a sua esmola.» (2) «No 1.° de Maio devem 
coUocar nas portas e janellas flores de giesta, preser- 
vativo contra o Maio^ que sem elle aleijará os baco- 
rinhos, pintos e anhos (Porto.)» (3) 

Em 1835 escrevia o celebre antiquário João Pedro 
Ribeiro : «na cidade do Porto, no presente anno de 
1835, ouvi ainda festejar as Janeiras, e no primeiro 
de Maio enramar as janellas com a flor de giesta 
amarella, que chamam MaiaSj e nas aldeias não se 
faltou ao costume immemorial de as pôr nas cortes 
dos gados, nos Unhares e nos nabaes, etc. É natural 
que se não faltasse ao mesmo costume immemorial. 



(1) Almanach de Lembranças para i862, p. 196. 
'2) Ibidem, para 1855, p. 209. 
" Ibidem, para 1863, p. 2^. 






ÂS FESTAS DO GALENBARIO POPULÂtl 283 

também na cidade de Lisboa, aonde se fez o Accordão, 
appareceado os Maios pequeninos (em Inglaterra cos- 
tamam ser Meninas) infeitados de flores do campo e 
cercados de rapaziada.» (1) Na reconquista christã era 
no Maio que se faziam as algaradas, e começava a 
guerra contra os Mouros ; Ir ao Maio significava o 
empenhar-se n'essa lucta. Agua de Maio é um conto 
sobre a loucura de todos aquelles que são molhados 
pela chuva d'este mez. 

Na quinta feira da Ascençao (14 de Maio) faz- se em 
Lisboa a romaria da Espiga; o povo vae passear para 
os arredores da cidade, e cada um traz um ramilhete 
com uma espiga de trigo, folhas de oliveira, papoulas 
e boninas, para pela virtude d'esse ramo ter pão em 
casa todo o anno. No Porto chama-se a este dia Quinta 
feira da Hora, e em Lisboa Quinta feira da Espiga. 
Segundo a lenda, saem ao meio dia os passarinhos 
para entoar cantos á Virgem ; uma parlenda popular 
diz: 

Em quinta feira da Ascençao 
Quem nâo come carne 
Não tem coração; 
Ou de ave de penna, 
Ou de rez pequena. (2) 

A festa do Espirito SantOj era chamada outr'ora a 
Paschoa rosada, e na linguagem litúrgica o Pentecoste. 
Adora-se o symbolo phallico da Pomba, e o fervor dos 
divertimentos era tal, que o rei D. Manuel prohibindo 
os Bodos, permittiu que só se conservassem os doEspi- 



(1) Reflexões históricas^ 1. 1, p. 36, not. Na Westphalia em vez 
de giestas emprega-se a sorveira, apanhada na alvorada do 
!.<" de Maio ; na Sologne enramam as casas e os curraes com 
espinheiro-alvar. 

(2) Pedroso, Superst,^ n.° 284. 



284 LIVRO II, CAPITULO III 

rito Santo : «Que nem façam vodos de comer e de 
beber, postoque fora das egrejas sejam, e que digam 
que os fazem por devoçam d'alguns Santos, sob pena 
de todo o que pêra o tal vodo se receber se pagar 
em dobro da cadea per aquelles que o assi pedirem 
e receberem, nom tolhendo porém os nodos do Santo 
Espirito, que se fazem na festa de Pentecoste ; porque 
somente concedemos que estes se façam e outros 
nenhuns nom.» (1) Heitor Pinto descreve alguns dos 
caracteres populares d'esta festa: «A prosperidade 
do mundo é como Império de Pentecoste de aldeã, que 
se costuma em Portugal, ou como o rei da fava em 
França, que não dura mais que um dia ou dois. Um 
lavrador faz-se Imperador, servem-no de joelhos, 
levam-lhe a salva, fallam-lhe por magestade, está 
vestido ás mil maravilhas : acabada a festa, toma os 
vestidos a cujos são, e fica tão aldeão como d'antes, 
tão baixo e abatido como sempre fora.» (2) O padre 
Manuel da Esperança, na Chronica seraphica, diz que 
esta festividade fora instituída pela rainha santa Isabel 
em Alemquer, passando d'ali para Cintra e depois para 
todo o paiz. A festa é uma transformação de velhos 
cultos polylheistas ; a sua introducção ou desenvolvi- 
mento andava ligado ás cerimonias religiosas contra 
a peste. Lê-se nas Memmia^^ resuscitadas da antiga 
Guimarães: «Não foi este o primeiro nem o ultimo 
flagello de tão grande mal que padeceu esta villa (1507 
a 1509) pois no anno de 1489 o havia experimentado : 
por cujo respeito o cabido e camará cercando a vitta 
em procissão com um rolo de cera branca, o levaram 
em oflferta ao Espirito Santo, cuja oflferta se faz todos 
os annos de um rolo do mesmo tamanho, o qual tem 
o feitio da real collegiada com uma pomba em cima, 

(1) Ord. man„ liv. v, tit. 33, § 6. 

(2) Imagem da vida ckristã, t. h, p. 69. 



ÂS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 285 

e a imagem da Senhora da Oliveira, com as armas 
reaes tudo de cera, o que conduzem em andor ornado 
de flores de cera de varias cores. A procissSo leva 
varias dansas...]> (1) Também o padre António Cor- 
deiro na Historia instUana, conta o milagre da Pom- 
binhaj a cujo apparecimento cessou a peste na ilha 
de S. Miguel, commemorando-se o facto com o Império 
dos Nobres, em Ponta Delgada. A conhecida festa do 
Imperador de Eiras, próximo de Coimbra tem egual 
origem ; lê-se em manuscripto local, examinado pelo 
dr. Ayres de Campos : c Consta por tradição antiquís- 
sima entre os moradores doesta villa, que sendo com- 
balida da peste a comarca de Coimbra, todos elles 
com seu parocho entraram a fazer gravíssimas depre- 
caçoes ao divino Espirito Santo, para que os livrasse 
de tão grande estrago ; e como quer que ficassem 
singularmente livres, logo fizeram voto ou promessa 
de em todos os annos elegerem um homem dos melho- 
res do povo, a quem os mais haviam de tributar 
offertas dos seus fructos, para que com o nome de 
Imperador do Espirito Santo festejasse ao mesmo Divino 
nos dias da Paschoa, da Resurreição e Pentecoste...»(2) 
 festa está decahida no continente e vivissima nas 
ilhas dos Açores ; nas margens do Zêzere chamam-Jhe 
Folias do Espirito Santo. 

cEm todas as egrejas estabelecidas nas margens 
do rio Zêzere, desde Cambas até á Guarda, ha um 
antigo e immemorial costume de festejar o Espirito 
Santo, cuja imagem quasi todos tèm em particular 
altar. Consiste a festa n'uma Folia, que é composta 
de trez fciiôes, como lhe chamam, com seus instru- 
mentos, que são uma viola, um tambor e um arco ou 



(i) Padre Torquato Peixoto de Azevedo, op, cit., p. 351 
(2) Ap. Instituto de Coimbra, t xii, p. 43. 



386 UVRO If, GARITULO ÍII 

calhas. — Esta folia, em todos os domingos, que ^ao 
da Paschoa ao Espírito Santo, acompanha os mordo- 
mos da festa, qne s9o dois, e outro intitoiado rei, e 
com a bandeira do Esi^rito Santo percorrem as mas, 
tendo saido da Egreja, onde voltam, cantando saas 
improvisadas cantigas. — Por ultimo ha o jantar para 
o qual cada mordomo em trez domingos oonvidà os 
seus parentes e amigos, e aonde, depois de mmto 
comer e muito beber, os foliSes têm de dizer umã 
catitiga accommodada ao nome e estado de cada 
conviva, tarefa que ás vezes faz suar a testa ao mestre 
da folia, que é o que verseja...» (1) 

Jo3o^ Pedro Ribeiro escreve sobre esta festa popu- 
lar: <É também de esperar que ainda se conserve 
junto a Coimbra a burlesca mascarada do Imperador 
de Eiras, e até ainda a haverá em Lisboa, na Lapa e 
na Esperança.» (2) 

Em 1763, fallando o padre João Baptista de Castro 
no Mappa de Portugal da parochia de Santos, dizia 
o nome da ermida do Senhor Jesus da Via Sacra con- 
tigua á Egreja da Esperança : «hoje da invocação do 
Espirito Santo, onde os naturaes das Ilhas fazem todos 
os annos grande festa. » (3) 

O Espirito Santo é pois a festa característica dos povos 
açorianos ; confirma-o o anexim : A cada canto, seu 
espirito Santo. Diz José de Torres : «Não ha villa, n3o 
ha aldéa, não ha logar, nao ha bairro, não ha fregue- 
zia, não ba rua que não tenha — irmandade do Espi- 
rito Santo... Que de Impérios e Coroações por todas 
as ilhas dos Açores desde a Paschoa da Resurreição 



(i) Almanach de Lembranças para 1866, p. 195. 

(2) Reflexões históricas, 1. 1, p. 36, nota. 

(3) Op. cít , t. II!, p. 429. O padre Rey publicou um folheto 
descripttvo doesta festa reproduzido pelo ar. Ernesto do Canto 
no ArdUvo dos Açores. 



AS FEStAS DO GALIsNDARIO POPULAR S^7 

afté á dòknihica da Trindade I» (1) Consiste á festa em 
taiki gtnpo de iúdividaos constituídos em irmãos do 
E^rito Sahto lançarem sortes entre si, e por estas 
trompete á cada um contribuir com uma pensão de 
tantois alqueires de p3o alvo, ou com certas arrobas 
de ciaime, ou com àlmudes de vinho. Neste sorteio 
entlra a torâa e o sceptro com tima pombinha de prata 
tta ponta, e utàa bandeira de setim vermelho tendo 
bordada a fio de ouro uma pomba com as azas abertas. 
ÂqueHe a quem ^ a coroa fica com ella durante esse 
afnno ^m t^asa, coNocando-a em um altar e obrígan- 
do-se a illumínal-a aos sabbados de todas as semanas 
que vSo (ia Resurreição á Trindade. N'estes sabbados 
è ia porta franca para os bailhos (charambas, sapatéas) 
stò sóim de viola de arame, em redor, homens e 
mulheres diante do sitiai em que está a coroa. No 
doiniftgò em que lia a festa do Império, o dono da casa 
saie piara a missa com quatro fdiões na frente com 
opas e mitras de chita, tocando \iola, rabeca, ferri- 
nbos, 6 o que éeita as cantigas leva uma fogaça de 
álfenim em forma de torre. Âtraz vae uma criança 
vestida de anjo, com a coroa na cabeça, e um grande 
acompanhamento lançando foguetes. Chegados áegreja 
a coroa é posta sobre o altar e no fim da missa o 
padre põe na cabeça da criança a coroa, e volta o 
séquito para casa, onde ha sempre um lautíssimo 
jantair. Ao caoto da riia ha um catafalco enramalhe- 
tado, com uma meza onde se colloca a coroa ; os mor- 
domos do Espirito Santo acompanham os carros de 
bois : uns carregados com cebes de p3o cosido, outros 
com toneis de vinho e outros com rezes mortas, e vão 
percorrendo as mas ent^-egando em cada poi-ta as 



(1) Panorama j t. xiii, p. 190; ^esCripção curiosa mas sem 
críterío ethnologico. 



288 LIVRO II, CAPITULO III 

pensões, que competem a cada mn dos da irmandade. 
Ha também mezas ao longo das ruas com pensões de 
carne, pão e vinho que se dão a cem e mais pobres, 
que vão munidos de bilhetes. Á tarde tiram-se as 
sortes para o anno seguinte, e então sae a coroa a 
outro irmão que é apregoado. Sabido o destino da 
coroa, é ella levada já noite fechada de uma casa para 
a outra, por um rancho de raparigas em cabelk) e 
vestidas de branco, com uma vela accesa na mão 
na qual pegam com um lenço ; sae-lhe ao encontro 
outro rancho de raparigas a receber a coroa, mista- 
ram-se e vão para casa do novo Imperador, onde ha 
charamba até ao dia seguinte. Ha fogo de vistas, 
girandolas, berros, e grossa pancadaria entre os que 
liquidam as suas rixas n'essas noites de santo entha- 
ziasmo. (1) 

cComo muitos se lembrarão, era costume pela Pas- 
choa levantar-se um mastro, com uma pomba no tope, 
ou uma pequena bandeira do Espirito Santo, no meio 
do largo onde havia de ser o arrayal. Foi pouco a 
pouco acabando a festa do Império, e hoje é já mui 
limitado o numero dos logares que a celebram.» 

Ribeiro Guimarães cita a persistência d'este costume 
em Alcabideche, e em Gascaes, festa formada por um 
grupo de negociantes de Lisboa : «Parece que os de 
Alcabideche também vinham a esta romaria, e tinham o 
direito de ir processionalmertíe com o Imperador sdtar 
umpreso.i^ (2) 

Esta festa persistiu apezar de todas as repressões 



(i) Nos CavUos populares do Archipelago açoriamo vem uma 
amostra das cantigas dos Foliões do Espirito Santo. No Alma- 
nach de LenUn^anças para 1869, p. 188, ha uma extensa descrí- 

Eção das Festas do Espirito Santo na villa do Topo (ilha de 
. Jorge) com algumas variantes. 
(2) Summ. de Varia hist.j 1 1, p. 221. 



AS FEStAS DO CALENDÁRIO POPULAR 289 

administrativas nas fregaezias da Lapa, e da Espe- 
rança, considerada como antigo centro de população 
açoriana. 

Ribeiro Guimarães descreve assim estas festas, refe- 
rindo-se a Alemquer : cNo doming:o de Paschoa entrava 
na Egreja do convento o que havia de ser Imperador, 
assistido de dois reis, quatro pagens, e acompanhados 
da nobreza e do povo. Os pagens traziam as coroas, 
uma das quaes fora dada pela própria rainha S. Isabel 
para este acto. As coroas eram postas no altar, e um 
padre, depois, coroava coni ellas os trez monarchas. 
Saiam então acompanhando o préstito da Procissão da 
Resurreição. — De tarde saia da egreja do Espirito 
Santo o Imperador acompanhado de muitas festas, 
trombetas e grande multidão de povo com canas ver- 
des nas mãos ; e adiante iam dois pagens, um com a 
coroa, e o outro com o estoque, e tornando ao con- 
vento era novamente coroado. Acompanhavam o Im- 
perador duas donzellas honestas, que dansavam no 
préstito, e eram damas do Imperador, e por isso se 
lhes dava dote para casamento. Voltava o Imperador 
para a egreja do Espirito Santo, onde offerecia a coroa 
n'um altar, e de novo a recebia das mãos de um 
sacerdote. Depois assentava-se n'um throno com o 
docel, e diante havia foUias e bailes dos nobres e do 
povo. Todos os domingos se faziam estas festas até 
ao anterior ao do Espirito Santo, que se chamava dos 
Fogaréos, porque como as festas se prolongavam pela 
noite, accendiam luzes no arraial. 

cNa véspera do Espirito Santo saia da Egreja do 
convento a procissão do Rolo. O rob eram umas ma- 
deixas de cera branca e benta, que um homem levava, 
ficando uma das extremidades do rdo a arder no 
altar, e que ia estendendo por todo o espaço que a 
procissão percorria, até à egreja de Triana, como cin- 
gindo a villa com o raio^ o qual era milagroso, já sq 
19 a 



290 LiTiio II, GAPrrULo iii 

vô, porqae Uvroa da peste uma vez a povoação s6 
com esieQdei-o pelas ruas. 

cNos tempos modernos o Imperador era sempre e 
é ainda um memno; e este costume procedeu de certo, 
do outro do Bispo ifmocmte, que se fazia na Sé em 
véspera do dia em que a egreja resa dos Santos Inno- 
ceates.» (1) 

Lemos sobre a festa do Espirito Santo em Nisa : 
ca inuandade dos Moços do Espirito Santo — começoa 
logo nos principios da villa, e C(Hisiste na reoniSo de 
alguns jovens lavradores. . . E para lhe offerecerem 
estes cultos, erigiram-lhe uma capella, alevantaram- 
Ihe um estandarte, no alto do qual pozeram um molho 
de espigas e um bolo, emblemas da agricultura, e 
para exprimirem a sua magestade e grandeza, nos 
dias de maior festividade improvisam um imperador, 
vestindo um ntancebo na purpura dos césares, e cín- 
^do-lhe a coroa e o diadema ; e cercando-o e acom- 
paabandoo de espadas em punho, como guarda pre- 
toriana : trez vezes no anno se faz a cerimonia e ajunta 
a corporação ; no dia e procissão do Corpo de Deus, 
no de S. João, e no da festa do glorioso patrono, que 
costuma fazer-se no mez de Septembro ; em todos 
elles tem iogar a festividade do carte dos gailos^ que 
é singular d'este povo, porque não cmsta se repita 
n'outro. 

«Concluidos os officios divinos e tomada uma ligeira 
refeição, correm os mordomos a villa pedindo ás lavra- 
doras as primícias das suas criações de aves domes- 
ticas, para as immolarem como innocentes victimas 
pelo repouso de suas famílias e prosperidade de s^is 
rebanhos : depois de obterem boa porção d'ellas, vcrf- 
vem a casa do alferes, á porta do miai se acha a esse 
tempo atada e preparada uma corda, e levantado um 

(1) Siíimm, de Varia hist., 1. 1, p. 222. 



Aâ FÊStÂS DO GALENDAfttO POPULAR 201 

sólio para o Imperador, que preside a toda a assem- 
blea.... separados e escolhidos os melhores gallos, s3o 
atados successivamente um a um na corda fatal, e 
sacrificados com uma espada por aqueltes que os 
ajustam e compram á divindade que se festeja. É uma 
imperfeita imitação das festas e sacrificios, que os 
romanos annuaimente faziam a Geres, filha de Saturno 
e Gybelle, e deusa da agricultura, que os antigos nos 
transmittiram, e hoje ainda dura, mas os lavradores, 
por mais occupados não são já os festeiros ; por uma 
imperdoável negligencia abandonaram-na aos artistas, 
que com egual pompa e apparato a celebram.» (1) 

£m Thomar, celebra-se a procissão dos Tcíbckiros; 
lemos no jornal A Verdade : c Consta de grande numero 
de aldeãs vestidas de branco, levando à cabeça visto- 
sos cargos compostos de pão bento entrelaçado de 
flores. Segue-se depois um carro carregado de carne 
de vacca eguaimente benta, e precede o cortejo um 
grave e rechonchudo reverendo ladeado por dois mor- 
domos, conduzindo todos trez egual numero de gran- 
des coroas de prata. — Muito foguete, arraial à noite, 
com bazar e rifa, eis de que se compõe esta festivi- 
dade histórica do velho Portugal.» (2) 

Em Matto Grosso (Brazil) celebra-se esta funcção 
segundo o costume açoriano. (3) 

 festa da instituição da Eucharistia, ou do Corpo 
de Deus, não se celebrando em quinta feira maior, 
por ser de penitencia, foi transferida para quinta feira 
depois de Pentecoste, sendo depois effectuada em um 
domingo. É extraordinária a abundância dos symbolos 
pittorescos doesta procissão, cuja ordem e disposição 
se acha em Regimentos emanados do poder real, desde 

(i) José Diniz da Graça Motta e Moura, Memoria histórica 
da notável Villa de Nisa, 1. 1, p. 58. 

(2) Verdade, n.« 84 ([1884) 20 de Junho. 

(3) Moutinho, Noticia sobre a Prov. de Uatto Grosso, p. 21, 



« « 



292 uvRO u, CAPITULO m 

o século XT ; a procissão repetia-se quatro vezes no 
anno : a 2 de Março pelo vencimento da batalha do 
Toro, na quinta feira depois da Trindade, ou a Eucha- 
ristia, na véspera de Nossa Senhora de Agosto pelo 
vencimento da Batalha real, e no dia do Milagre da 
Cera. Em uma Carta regia de D. João n, de 1 de 
Março de 1482, ordena-se que em commemoraçao da 
batalha entre Toro e Çamora, se faça uma procissão 
a S. Jorge e S. Christovam pelo estylo da do Corpo 
de Deus: c sabida da sé — por legares públicos com 
toda a solemnidade e cerimonia, o£Qcios e jogos.» 
Conforme este Regimento de 1482, iam na procissão 
os Carniceiros com hum Touro por cordas^ os Horte- 
lões e pomareíros com carraa^ horta e seus casteUos^ 
as pescadeiras com duas peUas e seu gaiteiro, os almo- 
creves com seus casteUos pintados, carreteiros e esta- 
lajadeiros traserão os trez Magos em sua avença, os 
sapateiros com o seu Emperador com dais Reys muy 
bmi vestidos, os alfayates trazerão a Serpe, os homens 
de armas com as espadas nuas nas mãos e levarão 
S. Jorge muy bem armado com um page e huma Don- 
zeUa para matar o Drago, os tecelões levarão S. Bar- 
tholomeu e um diabo preso por uma cadeia (provinco ?), 
os corrieiros levarão S. SébaMião, os ataqueiros leoa- 
rão S, Miguel, o anjo com sua balança e os Demos ; 
os oleiros levaram Santa Clara com suas duas compa- 
nheiras, os carpinteiros e outros trazerão Santa Calhe- 
rina muy bem arranjada, os ourives levarão S. João^ 
os trapeiros dois cavallinhos fuscos. i^ (1) Muitas Cama- 
rás, como a de Coimbra e do Porto estabeleceram 
regimentos para esta procissão, cujos symbolos per-- 
sistem pela província. Em 1560 a rainha D. Catherina 
cexpediu uma provisão á Camará do Porto, ordenando 
a reforma de certos abusos antigos que se praticavam, 

(i) Annaes das Sciencias e das Lettras, vol i, p. 729-733. 



ÂS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 293 

especialmente, diz a rainha, de se tomarem cada anno 
para a dita procissão cinco ou seis moças as mais 
formosas que se acham, filhas de officiaes mechanicos, 
uma que vae por Santa Catkerina, com sua Donzdlaj 
outra que vae por Dama do Dragoj e outra que vae 
por Santa Clara com duas freiras e muitos Mouros com 
eUaSs que lhes vao fallando muitas deshonestidades, 
e que dois mezes antes do dito dia de Corpus Ghristi 
se occupam em buscar as ditas moças e em as enfei- 
tarem, e que os pães e mães d'ellas clamam que lhes 
tomam as filhas, sem lhes poder valer.» (1) 

Na Description de la Vilk de Lisbofme falla-se da 
pompa d'esta procissão: «As ruas por onde passa — 
estão juncadas de verdura e de flores, e guarnecidas 
de tropas : estão tapadas pelo telhado das casas de 
um lado a outro com um toldo de damasco carmesim ; 
vèem-se ali grandes lustres de distancia a distancia e 
magnificos altares. Âs casas estão armadas com sedas; 
vêem-se às janellas as mulheres mui ricamente orna- 
das, e é prohibído aos homens apparecerem nellas.» 

Vejamos a persistência d'estas cerimonias nas festas 
provincianas. 

Corpo de Deus, em Nisa : «Começava por difierentes 
dansas e folias, em que cada arte e officio apparecia 
com seu engenho para divertir os concorrentes... Do 
Livro das Vereações do anno de 1711, consta que a 
Camará por accordam de 20 de Maio deliberou que 
os chamisseiros levassem uma serpente^ e os acarre- 
tadores de moinhos a figura do Diabo na procissão 
de Corpus Christí, indo esta adiante de todas as mais 
insígnias, para lhe servir de composição e ornato ; e 
que a esta se seguiriam os ceifeiros com outra da 
mesma ordem, indo atraz de todos as tecedeiras do 

(i) Diss. Chronologica, t. iv, parte ii, p. 184 e 201; Memorias 
de Garrett j t. iii, p. 253. 



294 UYRO II» CAPITULO QI 

termo d'esta villa, levando as de cada fregaezia mna 
dansa composta de seis raparigas com mn tangedor, 
para as guiar e conduzir : e cada rancho levava no 
meio o seu estandarte, e recolhia tudo no fim para casa 
do festeiro onde se comia e bebia e dansava e divertia 
até à noite ; a estes arlequins ambulantes seguiam-se 
vários passos da Biblia : Adão apparecia corrido e 
envergonhado junto da cara Eva, coberto de folhas 
de figueira para disfarçar sua nudez ; Âbrahão com 
a espada em punho guiava para o sacrificío o tnno- 
cente Isac, que conduzia elle mesmo a lenha que o 
havia de queimar... um grosso mancebo, montado em 
possante cavallo, adornado com seu capacete com mui- 
tas fitas, couraça, escudo e lança, que manejava com 
destreza, representando S. Jorge, e ia adiante do 
clero fazendo tregeitos e gaifonas; o que provocava 
extraordinária hilaridade, e os motejos dos que o 
presenciavam, que foram taes no anuo de 1694, que 
passaram a escândalo e motim que ia perturbando a 
ordem da solemnidade; e sabendo-o o bispo D. António 
de Saldanha, quando veiu á visita, prohibiu expressa 
e positivamente tal costume, que nunca mais se repe- 
tiu, et€.» (1) 

Procissão de Corpus Christi em Monsao : <0 campo 
da feira, logo de manhã cedo está cheio de povo das 
freguezias próximas, mas especialmente de gallegos. 
Logo que finda a funcçao de egreja... sae a procissão. 
Na frente vae a musica, que se compõe de uma gaita 
de folies, um tambor e um bumbo ; segue-se-lbe a 
coUossal figura de S. Ghristovam, que é levada por 
seis barqueiros. Desfilam depois algumas corporações, 
e apoz, um boi, a que chamam boi bento^ com as pontas 
douradas, e o corpo coberto com um manto de da- 
masco guarnecido de ouro. Atraz segue o carro das 

(1) Mona e Moura, Uem. hist da ViUa de Nisa, 1. 1, p. 120* 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 895 

hervas^ que é dado pelos marchantes. O eanro é todo 
eoberto de biuo e flores, e dentro yão meninos ves* 
tidos de branco com enfeites e fitas vermelhas» can^ 
tando psalmos. Segue a ordem terceira* o clero e o 
pallío. Depois vem S. Jorge. É a parte naais pittoresca 
da procissão. O S. lorge é um ferrador da meâma 
villa, que» depois de se confessar e commiingar, rae 
receber á camará 2)$250 rs. Na procissSo \ae com 
capacete na cabeça^ saia de malha, grevas de aço, 
lança e espada, montado em um fogoso cavallo. Acom* 
panha-a até que se mette na rua do Gastello, ahl volta 
para traz, esporeia o cavallo, e derrubando gente para 
a direita e esquerda, entra no campo da feira em 
procura da Santa Coca para travar combate com ellaé 

<A tal Coca é um monstro em figura de drag2o< 
É de jrcos cobertos de lona, e rodas por baixo, sobre 
as quaes marcha e contra-marcha. Tem azas, pontas, 
e uma grande cauda retorcida. A bocca é de molas> 
e, para que se abra e feche, atam-lhe uma corda por 
que pucham atraz os homens que fazem andar o dra- 
gão para metter medo ao cavallo. Esta lucta de S. Jorge 
com a S. Coca é o que mais embasbaca o povo. Depois 
de muitos assaltos, S. Jorge sempre consegue trans- 
passar o costado do monstro ; e, praticado este feito, 
recolhe-se. Por fim dirigem-se os monçanenses em 
grande numero a Salvaterra da Galliza, onde passam 
em folguedos o resto do dia.» (1) 

«Costuma a Gamara d'esta villa (Feira) no dia de 
Corpm Christh fazer á custa do municipio uma festa 
com procissão em que vae S. Ghristovam. É de roca 
a imagem, e coberta por um saio de damasco verme- 
lho; no seu bojo se introduz um homem, parecendo 

(1) Âlmanach de Lembrafiças para 1867, p. 276. Sobre o Re- 
ffimento da Procissão de Corpos, na Galliza, vid. Biblioteca ie 
MS Tradiciones populares espanoleSj t. nr, p. ii5. 



296 UTRO II, CAPITULO II! 

que o santo, (que tem uns 14 palmos de altura) anda 
pelo seu próprio pé. — Concorre n'este dia muita 
gente a vêr o Santo grande^ que depois da procissão 
è coUocado em frente da casa da camará, onde yão 
muitas pessoas comer diante d'elle sopas de pao e 
vinho, na firme crença de que ficarão por este meio 
livres de fastio. (1) Vão outras depor na mão do santo 
regueifas (ordinariamente de 40 rs. cada uma) as quaes 
são depois propriedade do homem que carregou com 
o santo. Ás crianças costumam aterral-as com o glo- 
bosinho que leva o Menino Deus, dizendo-lhe que, no 
caso de cahir aquella bolinha no chão, se arrasará o 
mundo com chuva. No século passado, mandavam alu- 
gar a Braga umas mulheres, que iam atraz da pro- 
cissão tocando bandurra, fazendo tregeitos e promo- 
vendo o riso, e na frente ia symbolisada uma santa, 
outra mulher com uma espada na mão, fingindo querer 
matar uma serpente, mo\ida por uma pessoa que ia 
encoberta sob o aparelho.» (2) 

João Pedro Ribeiro, alludindo aos Regimentos da 
Procissão do Corpo de Deus, do século xvi, conclue : 
«Apezar de tantas providencias e reformas, ainda 
cheguei a vêr na Procissão do Corpo de Deus, no 
Porto, a Serpe^ o Drago e a sua Dama. Foi preciso 
que o respeitável Bispo D. João Raphael de Mendonça, 
auxiliado pelo Corregedor então actual da Comarca, 
reduzisse a mesma Procissão aos termos do Cerimo- 

(1) «Qoando al^em tem fastio, leva a S. Christovam, perto 
do rio Neiva, um prato de sardinhas fritas e um grande bolo; 
feito isto passa a gastronomia do santo para o doente.» Alma- 
nach de Lembranças para 1863, p 228. 

(2) Almanach de Lembranças para 1860, p. 260. Na Feira de 
anexins, p. 27, aliude D. Francisco Manuel a este costume : 
«Ora, meus senhores, já o nosso gigante tem cabeça : forme- 
mos-lhe o corpo, e sairá na procissão de Corpus, com^ todas as 
demais íigm ilhas gue em tal dia fazem o corpo da p ocissão, 
mas receio que seja o corpo de palha. . .» 



ÂS FESTAS DO CALENDAIUO POPULAR 297 

Dial romano. Hoje resta apenas n'aquella Procissão o 
chamado Estado de S. Jorge... i^ (1) 

Jufúo. — De 1 a 13 de Janho é na Itália a trezena 
de Santo António, em que os lavradores e negociantes de 
cereaes observam com cuidado- o desinvolvimento das 
sementeiras, tratando de tornar propicio o Santo. (2) 

SanJto António é o typo portuguez das sanctificações 
populares ; é adorado como um fetiche contra todos 
os males, e como tal também amarrado, exposto ao 
relento ou deitado n um poço para satisfazer o que se 
lhe pede. Diz o dr. Guimarães, no Sutnmario de Varia 
historia: «Por muitas casas armam thronos onde 
encarrapitam entre flores e muitas luzes o Santo mais 
estimado, etc.» Refere-se ao costume de lhe entrega- 
rem petições escriptas na sua egreja ao pé da Sé : 
fTudo pedem ao santo, até cousas illicitas, até o ani- 
quilamento dos inimigos, até a fortuna alheia. >» (Op. 
cit., I, 12.) Havia uma certa litteratura popular que 
elaborava as tradições de Santo António^ e redigia as 
petições que o povo lhe apresentava, costume por- 
ventura do tempo de Damião de Góes e dos embai- 
xadores venezianos Tron e Lippomani : «Houve, e não 
sabemos se ainda ha, perto da egreja do Santo, uma 
capellista, cremos nós, que redigia e escrevia as peti- 
ções, que logo d'ali iam ser entregues ao Santo. Temos 
á vista as que se acharam em um dos últimos dias, 
e o theor d'ellas e mesmo a letra de algumas faz-nos 
suppôr que ha pessoa que se encarrega do ofiQcio de 
redactor ou escrivão, como se dizia antigamente, dos 
memoriaes. {Ib., p. 19.) O dr. Guimarães resume 
alguma d'essas petições populares escriptas apresen- 
tadas ao Santo : «Uma requerente pede ao Santo pelas 



(1) Reflex. hiity 1. 1, p. 37. 

(2) Pitré, Spettacoli e Feste, p. 271. 



298 LITRO II» CAPITULO IH 

almas de seu pae e de sua tia Maria Dias, que lhe 
alcance casar com quem ella tem no sentido, com o 
seu Luiz.» «Outro requerente pede que o Santo faça 
com que receba uma divida que lhe tem dado muito 
trabalho para haver.» — «Outra requerente pede ao 
Santo que lhe dê uma boa sorte e livre de afflicçoes, 
e que lhe arranje um marido que tenha fortuna e que 
a estime.» «Outra petição... é uma mulher pedindo 
ao Santo que empregue o seu valimento a fim de que 
sua irmã por nome Ànna, regresse a casa, para a 
companhia de sua mãe e irmãs, afastando-se de um 
homem que a traz perdida.» (Óp. cit., p. 20.) Este 
costume acha-se também em Lima, mas empregado 
para o patrocínio da Virgem. 

Lord Beckford, descreve nas suas Cartas a festa 
de Santo António, em Lisboa: «em toda a noite, tama- 
nho era o estrondo do fogo artificial, das labaredas 
estridentes das fogueiras, das gaitadas das bozinas em 
louvor da festa... vi a sua imagem à porta de quasi 
todas as casas, e até das barracas d'esta populosa 
capital, coUocada em altar e adereçada com profusão 
de velas de cera e de flores.» (1) 

A festa de Santo António, em Cabo Verde (S. Thiago) 
apresenta bastantes singularidades : 

«No 1.° dia de Junho saem duas meninas vestidas 
de branco, com grinaldas de flores, levando uma um 
bordão de peregrino e coroa de folha de Flandres, e 
outra uma sacola ou prato branco, pedindo esmolas 
de porta em porta para preparativo da festa. Conse- 
guidas as esmolas ao despontar a aurora do dia 11, 
um homem tocando corneta ou busio, annuncia a 
solemnidade da festa e reúne os irmãos para decidi- 
rem sobre a eleição de novos individues para irmãos 
ou escravos do Santo, e a exclusão de outros que se 

(1) Carta VI (1787). 



j 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 299 

conduziram menos exemplarmente no anno anterior. 
Remiindo uma multid3o compacta de pessoas de ambos 
os sexos, alinham em redor de uma casa formando» 
por assim dizer, uma espécie de assemblea tumultua- 
ria, a qual se divide em duas -classes, uma denomi- 
nada os brancos e outra a que dão o nome de escravos. 

«Concluído este acto, passam a arranjar uma bar- 
raca em forma de capella, ou casa de orações, e ahi 
erigem um pequeno altar sobre que se coUoca a ima- 
gem do santo. O altar é decorado de lenços de seda 
de variegadas cores, de painéis de santos, e de algu- 
mas paizagens. . . A direita e á esquerda do altar 
collocam-se duas raparigas com uma vara na m3o à 
maneira de cherubins. . . No meio da barraca — um 
arco suspenso por cordões em cuja circumferencia 
estão pendentes cachos de bananas, linguiças, pães de 
ló, bolos, etc. 

«Concluidos ritualmente os preparativos da festa 
no dia 14 ou 15 mandam cantar uma missa, para cujo 
acto vão vestidos de uma maneira que se pôde clas- 
sificar extravagante : — A rainha dos brancos e escra- 
vos com uma coroa de lata na cabeça, uma saia 
debruada de fitas encarnadas e um cordão no pescoço, 
em que estão enfiados bolos e frasquinhos de aguar- 
dente ; vae montada n'um jumento, em quanto á frente 
d'ellavão pulando dois homens andrajosos, mascarados 
e com as mãos maneatadas, a que chamam carrascos. 
A distancia magna caterva de mulheres com bandei- 
rolas brancas em cujo centro estão estampadas uma 
coroa e um M, vestidas á similhança das turbas selva- 
gens, vão fazendo continência à rainha, e dançando 
ao som do tambor. Acompanhado de ura numeroso 
concurso de romeiros segue também o rei a cavallo 
n'uma égua, e com um chapéo à maneira dos discí- 
pulos de Loyola. 

«Acabada a missa voltam para casa, onde uma lauta 



300 LIVRO n, capítulo iii 

e opípara coinesana os espera. No dia seguinte ao da 
missa, são convidados os melhores cantores da terra 
a uma ladainha, onde fazem uma bulha infernal. — 

«Cinco dias depois da missa, um escraw é obrigado 
a raptar a imagem e a ir vendel-a a alguma parte. 
Esta imagem tem sempre comprador, porque se acha 
enlaçada de cordões de ouro e outros objectos de valor. 
O producto da venda é applicado a missas e festanças, 
e o raptado tem a restricta obrigação de resgatar a 
imagem a expensas suas. Levam assim consecutiva- 
mente trez e quatro semanas, e durante todo este 
tempo entregues ao ócio e á embriaguez.» (1) 

Dos costumes populares da festa de Santo António 
em Lisboa escreve Teixeira Bastos : <Âs crianças de 
familias pobres armam o throno à porta da rua, e 
desde os primeiros domingos de Maio até ao dia da 
festa, assaltam os transeuntes com bandejas ou pires 
pedindo esmola para a cera do Santo.» (2) 

À festa de S. João Baptista em todos os povos 
europeus está ligada a um phenc«neno astronómico, 
o solsticio do veíãOj em 24 de Junho. O celebre ritua- 
lista Guilherme Durandus, interpretando allegorica- 
mente a festa do Precursor, não pôde occultar o seu 
sentido mythico : «Faz-se girar uma roda, em certas 
localidades, para assim designar que o sol não se pôde 
elevar mais, mas torna a descer no seu circulo, assim 
também a fama de S. João, que era olhado como um 
Christo, diminuiu quando este appareceu. — Alguns 
dizem que é porqm n'este tempo os diam mingtiam, e 
que crescem de novo no natal de Jesus Christo ...» 
E' justamente uma tal concepção primitiva que faz com 
que a festa do solsticio do verão seja conmium a todos 
os povos indo-europeus, (3) e ainda aos povos semi- 

ii) Almanach de Lembranças para 1881, p. 110. 

(2) Annuario das Tradifões port., p. 25. 

(3) Era a festa do Mihirgan dos Persas, segundo Creuzer. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 301 

tas ; o phenomeno é diversamente dramatisado, mãs 
entre os povos europeus toma a expressSo de uni 
Combate do Verão expulsando o Inverno^ (H de Junho) 
ou a sua inversa, a expulsão do Verão pelo Inverno 
(24 de Dezembro.) O sentido astronómico da festa do 
S. João comprehende também uma indicação chrono- 
lógica; nos antigos prazos portuguezes notou João 
Pedro Ribeiro que o anno era sempre contado *de 
S. João a S. João, e no alvará de 1 de Julho de 1774 
chamou-se-ihe anno irregtdar. (1) Em alguns povos 
da Europa este drama do combate do Verão e do 
Inverno está mais ou menos fragmentado ; entre os 
povos slavos é onde se apresenta mais completo, 
correspondendo muitas das suas particularidades a 
costumes portuguezes, profundamente enraizados pela 
dupla influencia germânica e árabe. Por um documento 
da Camará de Coimbra, de 1464, citado por Viterbo, 
se nota a forma de combate : ^cavalhada na véspera 
de S, João com sina e bestas muares. » Em outros povos 
esta cavalgada ficou simplesmente lendária, na Mesnie 
furieuse, que tanto se localisa no solsticio diurno {circa 
horam meridianam) como no solsticio vernal. O Verão 
que expulsa o Inverno, é um mancebo, Wodan, o deus 
germânico também advogado do amor, Adónis, Àthys, 
Gines, S. João ou S. Jorge, Arthur ou o rei D. Se- 
bastião, conforme o mytho primitivo se dissolveu na 
legenda agiologica ou histórica, conservando sempre 
o caracter da sua morte prematura. O porco ou javali^ 
que personifica o Inverno, que se persegue na Mesnie 
HeUequinj era também perseguido na festa de S. João 
Baptista em Braga, com o nome de Conida do Porco 
preto; dirigiam-se as cavalhadas para além do rio 
Deste, em cuja ponte estava umacapellinha de S. João, 
que tinha uma irmandade que organisava a festa, sendo 

(i) Reflexões hist., 1. 1, p. 63. 



302 UVRO u, càprtvw iit 

o mordomo obrigado a criar darante o amio um p<Mrco 
para a montaria doesse dia. Na alvorada de S. Joio, 
depois das cavalhadas iam soltar o porco do alto do 
Picoto, correndo a traz d'elle, e se passava a ponte 
pertencia então á gente da margem, se passava o rio 
ticava pertencendo aos moleiros, (i) Nos costomes 
provinciaes conservam-se quasi todas as formas dra- 
máticas doesta antiquíssima festa solsticial. 

Eis sobre a festa de S. João, em Chaves : <0 capi- 
tão, cavalleiros e pessoas de qualidade, que formavam 
antigamente a Congregação da nobre CavaUaria é 
S. João Baptista, acompanhavam em duas alas a ban- 
deira até ao mosteiro de S. Francisco, e depois de 
ouvirem missa, faziam dentro dos muros da villa esca- 
ramuças, corridas, jogos de canas, forquilha e atUros 
diversos jogos. Depois eram coroados os cavalleiros 
com flores pelo guardião do convento, que recebia do 
alferes da bandeira uma tocha lavrada. Doestas festas 
apenas subsistem as cantigas e o jogo do pilha-trez.» (i) 

Na manhã de S. João, em Roriz, costuma-se ir sau- 
dar o azevinho, para que se compre barato e venda 
caro. (3). 

Na antiga villa de Pedrogam-Pequeno, nas margens 
do Zêzere, celebra-se a festa de S. João com a Mou- 
risca, bailado antigo que se executa pela seguinte 
forma : «São sete ligurões exoticamente vestidos de 
saia com grandes laços de fita, sapato e meia, jaqueta 
apertada com largo cinturão que lhes sobe aos bom- 
bros, e se cruza nas costas e peito, como o correame 
dos nossos soldados, e na cabeça um barrete de forma 

(i) Vid. o desenvolvimento d'estas festas nas Origens poeti- 
cas do ChristiafUsmo, cap. iv. — Os árabes de Hespanba cele- 
bravam esta festividade com o nome de Âlhansara. (Santoral 
hispano-mosarabe, p. 25.) 

(2) Mrmnach de Lembranças para i866, p. 226. 

(3) Bnd,, p. 227. 



ÀS FESTAS DO GÀLENDAIIIO POPULAR 303 

cónica muito enramalhetado de flores. Os dois primei- 
ros tocam bandurra, os immediatos pandeireta, e os 
uttimos empunham compridos thyrsos com um grande 
ramalhete de cravos na extremidade superior. O se- 
ptímo porém destes personagens, distiiigue-se pela 
coroa que lhe descança na cabeça altiva, uma coroa 
de rei ; aos hombros largo chalé pendente á guisa de 
manto ; na dextra ferrugenta durindana, e na esquerda 
um escudo, onde se vè pintado o cordeirinho que 
acompanha sempre o santo precursor. É este o rei 
da mourisca. Com passo grave e magestoso, dirigem-se 
os sete bailarinos á capella-mór, curvam-se ante o 
santo, que n^aquelle dia festival sae do seu nicho. . . 
e a um signal do homem da coroa, que deixa cahir 
sobre o escudo a longa espada, rompe o baile, que 
dura boa meia hora, e que muito se parece com as 
contradanças francezas. Os pandeiros saltam nas mãos 
dos dansantes e ferem os ares de agudos sQns ; o rei, 
de sceptro em punho repimpa-se cada vez mais, e os 
dois das bandurras dedilham as cordas com pericia 
maravilhosa. — A dansa conclue com segunda genu- 
flexão ao santo em forma de despedida, e à voz do 
rei da festa, que fazendo uma pirueta firmado no pé 
esquerdo, brada alto e bom som : Viva meu compadre 
S. João Baptista! No fim da solemnidade religiosa 
repete-se a contradansa no adro da egreja, e de tarde 
em frente da procissão, que percorre as ruas da 
villa.» (1) 

A Festa dos cavalleiros de Óbidos^ tal como a de- 
screve o padre Malhão, é em tudo semelhante á que 
se fazia em Chaves ; em Óbidos, a camará ia collocar 
todos os annos o seu estandarte na véspera de S. João 
no Convento de S. Miguel das Caieiras, de que era 



(1) Âlmanach de Lembrafnças, para 1864, p. 312. 



304 UVRO II, CAPITULO lll 

padroeira. Os camaristas iam de capa e volta, mon- 
tados em cavallos bem ajaezados, e no dia do santo 
voltavam outra vez ao convento, passando o dia em 
merendolas pela mata, e regressavam á villa trazendo 
outra vez o estandarte, flores e canas verdes na mão, 
com ramos de freixo; passavam a porta mourisca j e 
davam trez voltas pelas ruas, debandando a cavalhada 
na praça do commercio. (1) 

João Pedro Ribeiro, allude ás superstições populares 
da noite de S. João : «Entre as mesmas mulheres 
somente é que se tem conservado entre nós immensas 
e variadas superstições, que respeitam à noite de 
S. João Baptista, em tudo idêntico ás que grassavam 
em Hespanha no século xvi, de que testemunha o 
cónego de Pamplona Martim de Aries, e de Allemanba 
o bispo Francisco Náusea do mesmo século. Longe 
porém de mim o caracterísar também as fogueiras 
d'aquella noite por supersticiosas, sem que n'isto 
queira gratiflcar a etiqueta da nossa casa real, em que 
já é antiga e constante esta pratica.» (2) 

Na Beira alta accende-se um facho no cimo dos 
montes (o gaiheiro) ou na ceira das azenhas (a roda, 
que ainda na AUemanha se deixa rolar dos montes.) 
aO facho, como escreve Leite de Vasconcellos, é um 
pouco de lenha em volta de um páo alto. Os rapazes 
quando o vão accender levam musicas de tambores e 
pífaros, e grandes algazarras. O monte é além d'isto 
cercado de pinhas accezas.» 

Nos Açores fazem-se as fogueiras na rua, e os rapa- 
zes saltam por cima das labaredas; o mesmo no 



(1) Almanach de Lembranças^ para 1859, p. 226. 

(2) Reflexões históricas^ 1. 1, p. 40. Em o n.« 11 d'estâs Refle- 
xões, tractâ o íUustre antiquário das Superstições populares, 
iniciando em 1835 este estudo, como se vé muito antes do 
artigo de A. Herculano, no Panorama. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 305 

Algarve e Àlemtejo. Âo saltarem as fogueiras, dizem 
differentes dísticos : 

Fogo no sargaço, 
Saade no meu braço ! 

Fogo na giesta, 
Saúde na minha testa 1 

Fogo no íieito, 
Saúde no meu peito ! 

As fogueiras de S. João, em França, chamam-se 
Chalibandes^ (Poitou) JouannéeSy (Touraine) Bures, 
(Commercy). Escreve Baudry no resumo da obra capi- 
tal de Kuhn : «A fogueira de S. João, sobretudo tem 
um caracter bem accentuadamente solar.» E liga-as 
a «uma antiga festa paga, que parece ter tido por 
objecto conjurar a estiagem, representando o disco de 
Çushna precipitado nas aguas.» (1) 

Lemos sobre a Festa de S. JoãOj em Niza: «os rapazes 
e raparigas preparam e accendem com um regosijo 
inexplicável as fogueiras de rosmaninho e alecrim, e 
depois de accesas, saltam e brincam em roda d^ellas, 
salvando-as, e atiçando-as, e lançando uns aos outros 
innumeras bombas e outros fogos de artificio, com que 
por toda a parte se festeja o Precursor do Messias : 
as moças e as donzellas cantam umas em alegre coro 
acompanhado de pandeiros e almofarizes que tangem 
com certa harmonia e graça, outras em rodinhas de 
muitas e variadas modas, e outras ao som de violas 
e flautinhas dansam os antigos fandangos, que já se 
dansavam em Niza a velha: — As cachopas vão em 
grandes ranchos com seus cântaros pedrados e puca- 
rinhas ás fontes apanhar agua nova, cantando pelo 

(1) Revista germânica, t xiv, p. 372. 

20 U 



306 uYuo u, GÀPmK^o m 

caminho em louvor do Baptista ; e emqaanto aguar- 
dam a vez, repetem-se as rodinhas e os bailes ao 
redor dos chafarizes ; d'oiide voltam de madrugada 
com grandes molhos de alcachofras, que n'esta noite 
soffrem o martyrio, e flores para as capellas com que 
ornam as cabeças...; algumas vao ao depois em logar 
elevado esperar o nascimento do Sol, que n'este dia 
visto através de uma peneira ou crivo, apresenta 
muito vistosas posições ; outras ficam em casa dei- 
tando o seu horóscopo a fim de saberem se o seu 
amante lhes é fiel, ou o destino que as aguarda ; outras 
finalmente escqnd^n em buracos de velhas e antigas 
paredes, ovos de gallinhas pretas postos na ultima 
sexta feira, e vão logo que amanhece tiral-os, espe- 
rando encontrar um formoso diamante, etc.» (1) 

O caracter amoroso do Santo apparece em muitas 
superstições populares. Era Elvas, na capella de S. João 
da Gorujeira, existe uma grade de ferro na qual as 
raparigas mordem para obterem do Santo o milagre 
de casarem cedo. O costume é antiquíssimo, porque 
a grade tem já marcados os signaes dos dentes. 

Em uma Écloga de Sá de Miranda se encontra: 
«MaSana de S. Juan, quando a las flores — Y ai a^gtm 
todos saim. » (2) Nas Constituições do Bispado de La- 
mego, prohibe-se <íqm se colham as hervas, e levem 
a agua da fonte para casa, ou se lave a gente e os 
animaes n'ella, antes do Sol nascer...» Todos estes 
costumes persistem no seu vigor. As ervas são a naar- 
cella, a salva e o sabugueiro, (Penella) cidreira (Caldas) 
ou o Feto realy (3) planta mysteriosa que dà o amor 
e a felicidade. (No Hartz é o springwurzel.) 

(1) Dr. Mattos e Moura, Mem, hisL da villa de Niza^ t. u. p. Ii4. 

(2) Obras, ç. 295. Ed. 1804. 

(3) Na tradição italiana chama-se Lu fettu ffertur) o trans- 
eunte cuja voz se escuta com sentido prophetieo. Pitré, Spet- 
tacoli e Festej p. 297. 



AS FESTAS DO CAL&NBARIO l^OPULAR 307 

Ha nas cantigas populares um thema dithyrambico 
sríbre o sotmo de S. João : 

S. João adormeceu 
Nas escadas do CoUegio; 
Deram as moças com elle 
S. João tem privilegio. 

Na Andaluzia existe uma lenda relativa a este somno, 
qoe para evitar os ruidos das festas no céo (allusão ás 
trovoadas de Junho) o Senhor lhe deu um somno que 
dura trez dias. No Moyen de Parvenir, vêm citadas as 
quatro festas annuaes de S. João : 

La Saint Jean qu'on fauehe ; 
La Saint Jean qu'on tond ; 
La Saint Jean qu'on bat ; 
La Saint Jean qu*on chaufe. 

A primeira é a da natividade, a 24 de Junho, a 
segunda a sua outava a 1 de Julho, a terceira da 
degolaç5o a 29 de Agosto, e a quarta a do evange- 
lista em 27 de Dezembro. 

Sobre os costumes da festa de S. João nos Açores, 
escreve José de Torres : «Enlevo de moços e desin- 
quietos sâo nas ilhas dos Açores as fogueiras noctur- 
nas na véspera do dia commemorativo do Baptista. 
As crianças madrugam para consultarem o destino na 
forma prophetica que tomara a clara de ovo fresco, 
mergulhada no copo de agua exposto ao sereno da 
noite : se é de altar, que prognostique sacerdote ; se 
é de navio que inculque viagens ; se é de leito, que 
diga casamento ; se é de tumba que annuncie proxi- 
midade de morte. — Formosas e nSo formosas cidadãs, 
com bochecho de agua pura, esperam do acaso a sen- 
tença do nome de um cônjuge. Gamponezas armadas 
de varapào e carapuça provincial, acantoadas detraz 



• • 



308 U¥RO II, CAPITULO UI 

da porta comem o ovo primícia da gallínha nova, para 
que o Santo, que nâo é menos casamenteiro que Santo 
António nos horisontes de Lisboa, se dé pressa em 
trazer-lhe o matrimonio e lhes conceda ventura, que 
assim também chamam aquelle primeiro ovo. A alca- 
chofra chamuscada, no refrescar do sereno responde 
a instantes interrogações de amor. As sortes que a 
agua hade dar e abrir... As praias, cujas aguas n'esta 
madrugada tèm privilégios de benção. . . Os rostos 
fazem-se mais formosos e juvenis com a agua sere- 
nada ; aquella que se toma na bica média de certos 
chafarizes entre as onze e a meia noite tem virtudes 
mysteriosas. Com orações cabalísticas, ante mesa de 
alvíssima cobertura, velha paciente espera toda a noite 
o rápido desabrochar da penna que a bdíana no fim 
de sete annos de consorcio com o barbasco procria 
para dar riqueza e felicidade ao que acertar colhel-a 
ou possuil-a. (1) — Se a noite tem encantos, e loas e 
cavalhadas, folgares não menos variados tem o dia. 
De flores e loiros e primícias das fructas do verão se 
adornam varandas e balcões ; as dansas e emmasca- 
radas populares são frequentes.» (2) O Combate do 
Verão com o Inverno é a Mouriscada, auto dramático 
popular, em que mouros e christãos dão relevo his- 
tórico à concepção mythica ; na ilha Terceira o com- 
bate é substituído pelo costume singular da corrida 
de touros. 

Eis a descripção da Alvorada de S. Pedro (Ribeira 
Seca — ilha de S. Miguel) : «No dia do Precursor de 

(1) Pitré, fala doeste costume na Sicília : «Una pia usanza, 
non priva d'interesse, è la raccolta áelpuleu o puleggio {men- 
tha ptUegium, Linn.) nel piorno preciso di S. Giovanni. Questa 

Sianta odorosa conservasi per ben sei mesi alFombra ; la notte 
i Natale si mette nel presepe davanti il Bambino, e a mezza- 
notte in punto rinverde e rinorisce.» Spettacoli e Feste, p. 309, 

(2) Panorama, t. zui, p. 222. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 309 

Christo, 24 de Junho, ao raiar da aurora, um bando 
de homens a pé percorre as extensas ruas da villa, 
tangendo diversos e desentoados instrumentos músi- 
cos, a fim de advertir os que cinco dias depois têm 
de fazer parte da Cavalhada. O dia 29 é esperado 
pelos moradores da villa e seus arredores- com grande 
anciedade. — No largo, em frente da egreja, apinha-se 
uma multidão immensa, confundindo suas vozes des- 
entoadas com o stridor de innumeros tambores, rebe- 
cas, violas e concertínas. Findou a festa na egreja. 
Põe-se a multidão em ordem e desfiUa. 

«Na frente marcha o maioral vestido a capricho, em 
bem enfeitado cavallo ; o rosto do cavalleiro é vendado 
por uma densa mascara ; na cabeça avulta-lhe immenso 
chapéo, ornado de grande numero de cordões de ouro, 
brincos e outras jóias do mesmo metal, que tudo junto 
forma um valor sempre excedente a ôOOíjlOOO réis. 
Seguem-no quinze ouvinte cavalleiros, adornados como 
elle, mas sem mascara. Àtraz caminha a multidão, 
mascarada e a pé; uns conduzmdo uma recua de 
lazarentas e infesadas burras, outras uma parelha das 
mesmas puchando um arado ou uma grade, simílhando 
lavrar a terra, em quanto outros semeam baganha, 
mimosiando ao mesmo tempo as pessoas presentes 
com mãos cheias doesta, lançada com força contra 
todos. Alguns ordinhando as burras offertam do mesmo 
modo o leite aos assistentes. 

«O bando sempre alegre e sempre tocando a sua 
musica monótona e sem variante alguma pulando con- 
tinuamente e recitando strophes, ora picantes e allusi- 
vas a particulares e auctoridades locaes, ora sem 
significação conhecida, dirigem-se a todas as ruas onde 
mora algum ou alguns dos que fazem parte da cava- 
lhada, isto é, dos quinze ou vinte que marcham na 
frente. Chegados que são, passam e repassam cinco 
vezes em frente da casa que vão comprimentar. D'ahi 



310 UYRO n, CAPITULO m 

dírígem-se a outra, e do mesmo modo a todas. — São 
talvez seis horas da tarde, quando o bando alegre 
mas exhausto pelo cansaço tem chegado de novo ao 
largo da egreja de S. Pedro. Âhí dao cinco voltas á 
roda do mesmo, e encan^inham-se para um logar pouco 
distante onde se dispersa, para descansarem de tão 
aturado labor.— O maioral é o representante do Santo 
apostolo ; os outros quinze ou vinte — são sempre os 
Imperadores do Espirito Santo no anuo futuro dos 
diversos Impérios de toda a villa. . . Em tempos não 
mui remotos, as bandeiras dos Impérios acompanha- 
vam o préstito...» (1) Nas crenças populares, diz Hun- 
ziker, tS. Pedro substituiu Donar, e é por esta razão 
que preside ao bom e ao máo tempo.» (2) 

 festa de S. Pedro é uma como continuação da de 
S. João. 

A chamada Festa de S. Pedro (em Gamara de Lo- 
bos — Madeira) : tNa frente iam quatro mancebos a 
cavallo, vestidos á turca, levando cada um uma ban- 
deira hasteada ; em seguida uma dansa composta de 
dez ou doze homens, trajando fatos exquisitos, sobre- 
sahindo uma carapuça guarnecida de muitas fitas, que 
lhe cahíanx pelas costas abaixo ; depois a denominada 
barquinha^ conduzida por quatro homens robustos. O 
enfeite da barquinha, enfeite que ainda hoje dura, 
consiste em pães de assucar, garrafas de vinho, ovos, 
doces, fructas, flores, etc. Apoz isto seguia-se uma 
rede levada por doze pescadores vestidos, diziam elles, 
á semelhança dos Apóstolos. Atraz seguiam confrarias, 
Santo e o pallio, rematando, como é uso, por uma boa 
musica de instrumental.» (3) 

(i) J. C. Abranches, Novo Almanach de Lembranças para 
1883, p. 44. 

(2) Etudes de Mythologie aUemande, (Rev, germ., t. xiv^ p. 14.) 

(3) Almanachde Lembranças, para 1876, p. 129. Na Carta IX, 
de Lord Beckford, descreve-se a festa de S. Pedro em Lisboa. 



AS FESTAS 00 GALENDAAIO POPULAR 3l( 

Mho, — Depois de La Saint Jean qííon fatiche (24 
de Junho) segue-se a outava, ou La Saint Jean qtCon 
tond no 1.** de Julho; a esta parte ligam-se as fogueiras 
d'este mez : «Como faltariam fogueiras no mez de Julho, 
e em festa saloia ?... por mais ardente que vá o estio, 
amo uma fogueira no arraial em véspera de festa, e 
aquelle estourar e chispar dos foguetes.» (1) 

No segundo domingo de Julho é a festa popular de 
Nossa Senhora de Antime. 

Na freguezia de Santa Maria d' Antime, a um quarto 
de légua para o sul de Fafe, celebra-se a romaria 
d'esta Senhora, que é uma pedra tosca (granito meta- 
raorphico, sem trabalho esculptural, a não ser o rosto; 
o mais, pernas e braços são postiços.) O seixo peza 
outo arrobas, e a charola da Senhora, ou andor tam- 
bém outo arrobas. E levada em procissão a Fafe, pelas 
10 horas da manhã, e regressa para Antime pelas 3 
horas da tarde. Eis algumas das cerimonias: «Chegava 
quasi a delírio o afervorado das salvas da Companhia 
de mosqueteiros da procissão, não só na sabida e na 
volta d'ella, mas sobretudo no accommettimento de 
um Castello flcticio, de propósito erigido para dar mais 
realce á funcção e para a tornar mais estrepitosa ; o 
castello a final tomado era abrasado em chammas 
pelos mesmos mosqueteiros, depois de fingido um 
apparatoso conflicto de sitiantes e sitiados e vencido 
a final o Rei Mouro acastellado. 

«No meio de folias e extravagâncias da romaria, 
tem ficado algumas vezes esmagados alguns dos con- 
ductores da Charola da Senhora, os valentões da pro- 
cissão, valentões que se offerecem com antecipação 
de um ou dois annos ás vezes, e que não conseguem 
esta graça especial dos mezarios da Senhora senão a 
poder de supplicas, empenhos e solicitações. Não é 

(1) Herculano, ParocHo ãe Aldêa, 



312 UYBO II, GAPmjLO ni 

todavia a méra ostentação de forças e robustez de 
corpo o que assim faz deprecar a graça de carregar 
com os bonzos da charola aos hombros : é especial- 
mente porque tèm para si os mancebos da localidade 
(Fafe e Antime) não serem bem succedidos nos seus 
cazamentos, se não pegarem primeiro ao andor da 
Senhora. N'esta occasiâo, para elies da maior expansão 
de coração juvenil, costumam coiiocar esses mancebos 
dos banzos os seus ramos de perpetuas na cbarola, 
aos quaes se dá o nome sacramental de pinhas da 
Senhora de Antime. i» (1) 

Chama-se a esta romaria da Senhora do Sol; e quando 
pedem chuva é a ella que se dirigem, o que condiz com 
a crença de ^revolver penedos^ e liga este culto ao 
das Deusas-meretrizes dos charcos : «Em tempos de 
grandes secas, e quando as cearas pedem agua, re- 
correm os habitantes de Foscôa por meio de preces 
à Virgem Nossa Senhora ; juntam-se nove donzellas, 
que é essencial que se chamem Marias, (convocadas 
de ordinário por alguns Manoeis) vão em procissão a 
distancia de meio quarto de légua, a um sitio chamado 
Lameira de Azinhate, e alli voltam de baixo para cima 
uma grande pia de pedra que pezarà trinta arrobas, 
senão mais, regressando depois para casa à espera 
da chuva.» (2) 

.Eis a noticia do Bolo de Pombal : «N'um dos últi- 
mos dias do mez de Julho, percorre as ruas d'aquella 
villa (Pombal) uma procissão de pequeno apparato, 
de que faz parte um immenso bolo de outo a dez alquei- 
res de trigo, levado por uns poucos de homens, e 
destinado a ser distribuido aos devotos como pão 
bento. É cosido por 24 horas n'um forno, onde entra 

(1) J. J. S. Pereira Caldas, ap. Almanach de Lembranças para 
1859, p. 274. ^^ 

(2) Almanach de Lembranças para 1860, p. 160. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 313 

também nm homem, que é o mesmo todos os annos, 
e que se tem confessado e commungado. Pára a pro- 
cissão ao pé do forno que arde todo o dia, e assim 
que se lhe mette dentro o bolo, entra logo em seguida 
o bom do homem, com um disforme e grandíssimo 
chapéo armado e de casaca quinhentista, depois de 
haver mettido na bocca um cravo que tira da m3o da 
Virgem que vae n'um dos andores, dá uma volta á 
roda do bolo, e sáe com passo acceíerado, posto que 
seja velho e de andar naturahnente vagaroso. Muitos 
e estrepitosos foguetes sobem aos ares depois de haver 
o tal sujeito sabido milagrosamente^ são e salvo de 
dentro do forno, e logo recolhe a procissão. 

«A porta do forno é bastante grande para que pos- 
sam entrar por ella, de pé e quasi direitos dois homens 
baixos, alinhados de perfil ; o bolo, quando entra, 
absorve grande parte do calórico ; o homem abaixa-se 
ao andar-lhe em roda, tocando-lhe com as mãos, como 
para o endireitar, e assim se. explica tudo.» (1) 

João Pedro Ribeiro, refere a festa de uma Nossa 
Senhora do Rosário, que era popular no Porto : «Aca- 
bou porém já no Porto outra mascarada em que se 
representava A Corte dei rei do Congo^ com seu rei 
e rainha, e imaginaria corte, com que os pretos se 
persuadiam render culto á sua Padroeira, a Senhora 
do Rosário ; funcção muito apetecida dos rapazes, e 
que durava trez dias de Julho.» (2) 

Sobre a romaria de S. Thiago — 25 de Julho : «Entre 
os abusos médicos que encontrei na cidade de Pena- 
fiel e suas visinhanças, quando em Fevereiro de 1791 
entrei no exercicio de medico de partido, e que ainda 
hoje se conserva, (1838) ha um que merece correcção 



(1) Atmanach de Lembranças para 1860^ p. 267. Yíd. Sanctua- 
rio marianno, t iv, p. 461. 

(2) Reflexões históricas, 1. 1, p. 36, nota. 



314 Limo II, CAPITULO ni 

pelas funestas consequências qne occasiona não poucas 
vezes, algumas das quaes eu bei presenciado. Con- 
siste elle em ir o povo, no dia de S. Thiago, oa a 25 
de Julho, sangrar-se peias bichas do rio Sousa, que 
n'esta sazão costuma ser pouco caudal. É na verdade 
cousa memoranda, mas digna de riso, vêr aqui umas 
pessoas mettidas na agua com as sanguesugas colla- 
das nas pernas, acolá outras com as extremidades 
inferiores todas ensanguentadas, esperando a yedaçio 
do sangue que mana pelas roturas que as bichas abri- 
ram ; n'uma parte alguns restaurando já com vinho 
e alimentos a perda que soffreram pela satígria, u'ou- 
tra caminhando para suas casas deixando vestígios de 
sangue pelos caminhos que pizam. 

«Qual será a antiguidade d'esta pratica, que não 
deixa de também ter alguma parte de supersticiosa, 
por ser somente executada na occasião da festividade 
de S. Thiago, e só escolher para ella aquella parte 
do rio Sousa que banha o terreno pertencente á fre- 
guezia de S. Thiago ? Consultando-se a tradição nada 
se descobre sobre este objecto; mas na Europa por- 
ttigueza, de Faria e Sousa, se encontra : «En la Pro^ 
vincia de Entre Duero y Mino, junto a una Hermida 
de Sant-Iago, que Ilaman de las bichas, ay un rio 
pequeno, que dos á três dias dei ano, vispera e dia 
de aquel Santo se puebla de sunguijuelas, adonde los 
que en romaria enfermos se entran, e ellas subindo 
por elles los muerden e chupan la sangre e salen 
sanos (t m, cap. v, p. 351.)» E por consequência se 
pôde acreditar que esta pratica allusiva já tem pelo 
menos dois séculos de antiguidade...» (1) 

Em 26 de Julho é a romaria de Saraa Anna da 

(1) António de Almeida, Mem. medico-historico-corographica 
acerca do abuso de tomar bixas pelo S. Thiago no Rio Soulsa; 
nos Anruies da Sociedade litteraria portuense, n.® 5, p. 125 
(1838.) 



AS FESTAS BO CALENDÁRIO POPULAR 315 

Oliveira, em barcos pelo rio Douro acima ; tanto na ida 
como na volta dos barcos insultam-se nns aos outros, 
com parouvelias. Garacterisa a devoção o dizer o maior 
numero de obscenidades. Liga-se ao culto hetairista 
de Anah. Em Roma a festa de Anna fazia-se nas mar- 
gens do rio Tibre. 

Agosto. — Por causa da peste de 1599, celebrava-se 
em 5 d'este mez a procissão dos Ferrolhos: «Os rapazes 
que em grande numero acompanhavam a procissão 
(à meia noite) iam pelas ruas do transito batendo às 
portas de todas as casas cujas janellas estavam fecha- 
das, para perturbarem o somno dos moradores pouco 
devotos, resultando d'este repetido tocar no ferrolho 
o nome da Procissão.» (1) 

 23 de Agosto é o S. Barthdomeu da Ponte de 
Cabez. «Esta romaria a S. Bartholomeu é muito que- 
rida das pessoas endemoninhadas. Offerece a roma- 
ria trez espectáculos todos burlescos, que de tempos 
antigos a têm tornado notável e famigerada. O pri- 
meiro é a gritaria infernal e tergeitos mais ou menos 
graciosos, que logo ao avistar a capella faz grande 
numero de mulheres, que se dizem endiabradas, e 
ajffectadas de espiritos malignos t É curiosissimo vêr 
como estas megeras, gritando e esperneando sempre, 
são arrastadas a seu despeito até ao altar do Santo, 
onde, depois de muito gritar e muito saltar, fmgem 
vómitos violentos, que, segundo ellas, sâo o signal 
certo da despedida do espirito que as traz inquietas t 

«O segundo espectáculo é a emulação brutal que 
ali se manifesta entre as províncias do Minho e Traz 
os Montes. Logo no dia 23 à tarde principiam as alter- 
cações sobre qual das duas terá a preeminência ; e 
muitas vezes ha já de tarde cabeças ou braços que- 

(1) Panoramaj t. xif, p. S50. 



316 LIVRO 11, CAPITULO III 

brados ; á noite é cousa certa. A ponte, que de dia 
faz parte do terreno do arraial, fica despovoada de- 
pois do sol posto. Tomam-se posições de um e outro 
lado. Começam grandes altercações de lingua, gritos 
de Viva o Minho t — Viva Traz os Montes ! Andae ao 
SantOy de um lado, Andae á fonte^ do outro, etc. Sôa 
um vivíssimo tiroteio de parte a parte, que muitas 
vezes dura toda a noite, e ha annos em que os bandos 
se aproximam até ao meio da ponte, onde se desen- 
fadam a jogar paulada, facada, pedrada, etc., sendo o 
resultado de tudo muitos ferimentos mais ou menos 
graves e até mortes I 

«O terceiro espectáculo vem a ser a fé supersti- 
ciosa que os romeiros têm com a agua da fonte acima 
dita, a qual segundo a crença, sendo colhida no dia 24, 
antes de lhe dar o sol é antídoto efBcaz contra todas 
as moléstias nao realisadas e remédio efiBcaz para 
todas as realisadas. E por isso no dia 24 logo de 
madrugada (hora em que de ordinário costumam 
accalmar as manobras dos valentões) começa a affluir 
gente de todos os cantos do arraial, e encher na fonte 
as garrafas e cabaças para levarem comsigo, e outros 
a lavarem as crianças affectadas de alguma moléstia, 
sendo parte essencial d'este acto o lançar pelo rio 
abaixo a camisa do enfermo, que por muitos é espe- 
rada.» (1) 

Em Mattosinhos, ha a romaria de S. Bartholomeu 
no dia 24, confluindo ali a gente do campo ao som de 
cantigas ; vão banhar-se com intuito medicinal, crendo 
que cada banho vale por sete. 

Septembro, — Festa de S. Pedro em Niza : Fazem-n'a 
os pastores e creadores de Niza no mez de Septembro «é 
a maior e principal que aqui se faz;» além da parte reli- 

(1) Almafuich de Lembranças para 1860, p. 300. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 317 

giosa c consiste em lauto banquete e jogos, cantares e 
folias e bebidas, que se distribuem a lodos, que concor- 
rem, e sobretudo na chacota, que é a maior solenmidade 
do festim. Ordena-se o préstito pelas 3 horas da tarde 
da véspera em casa do festeiro, d'onde sáe ; vem pre- 
cedido por um tambor, que bate a marclia, e um pi- 
fano ou gaita de folies, que o acompanha, seguem-se 
seis formosas donzellas vestidas no melhor gosto e 
elegância que podem, com pequenas bandeiras encar- 
nadas, e no centro a festeira com o estandarte, e 
depois uma ala parallela de zagaes, com suas casacas 
e calções, e meias brancas e fivellas de grandeza 
patriarchal, que serviram já nos casamentos e bapti- 
zados de sete gerações, que as vão protegendo de 
qualquer avaria ; e atraz delles seis pastores e duas 
respeitáveis matronas com suas saias de chamalote, 
e roupinhas de grandes abas á polka, e pandeiros de 
oietal e soalhas, levantam as cantigas em honra do 
Santo, que o coro todo, composto de muitas raparigas 
da terra, em harmonia e suavidade repete, acompa- 
nhado por violas, que menestréis da villa vao tan- 
gendo : fecha o cortejo outra aia de jovens pastores 
que as vão guardando e defendendo de qualquer aperto 
na grande concorrência que as acompanha e vae se- 
guindo ; e depois de assim ordenado dirige-se á egreja 
do príncipe dos Apóstolos, quaes outr'ora os pastores 
do Tibre ao templo de Pan em Roma, onde canta 
muitas loas e cantigas, que a antiga tradição trans- 
mittiu e ninguém ousa alterar, toca-se o sino, levan- 
tam-se vivas, é victoriado S. Pedro, e no meio do maior 
alvoroço e alegria recolhe tudo á villa cantando e 
folgando... á porta dos pastores é victoriado sempre 
o pendão do Santo, e à das madrinhas descança o 
cortejo, recebendo alguns refrescos que lhe estão 
preparados... pelas dez horas da noite chega ao logar 
d'onde viera ; então o divertimento varia : um lindo 



318 UVRO II, CAPITULO Ul 

fogo de artificio arde... repetidos doces, bebidas e 
tremoços os festeiros mandam servir na rua mesmo...» 

No dia seguinte «repete-se a foncçao em casa dos 
novos festeiros, que recebem a bandeira, e âep(Ns a 
victoriam e conduzem em verdadeira ovação por toda 
a villa, e depois o mesmo préstito e cantigas e folgares 
e banquetes da véspera, e ás vezes com maior appa- 
rato e grandeza, conforme os brios e haveres de quem 
dispende...» (1) 

Tem analogias com a festa de S. Pedro na villa da 
Ribeira Grande, na ilha de S. Miguel. 

Outubro. — A 27 d'este mez é a véspera da festa 
de S. Sim3o e S. Judas ; fazem-se os magmtos, ou 
merendas de castanhas assadas em uma fogueira. Ex- 
plica-se pela festa dos Druidas, denominada o Sam^hin, 
ou do fogo da paz : cEra n'esta época que os Druidas 
se reunião no centro de cada região para pacificarem 
as desavenças entre os habitantes do paiz ; desde a 
véspera apagavam-se todos os fogos que deviam ser 
renovados n'aquelle que accendiam e que os Druidas 
consagravam. Não se concedia fogo áquelle que tinha 
perturbado a paz. . .» (2) A renovação do fogo ainda 
se usa em algumas partes da Escossia, e em inglez 
chama-se-ihe hallow-eve. (3) 

Novembro. — O dia 1 .*^ ou da festa de Todos os Santos 
era denominado nos documentos jurídicos do século xv 
Dia de pão por Deus: «Pagaredes o dito foro em cada 
hum anno em dia de pão por Deus.» (Elucid.) Em 
D. Francisco Manuel de Mello, se lé : «Eu não vi as 
amêndoas^ e já nos convida com os foliares. — Nem eu 



(1) Motta e Moura, Mem. hist, da villa de Niza, 1. 1, p. 82 

(2) Smith, Hist. des Drvides, p. 47. 

(3) im., p. 49. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 319 

O pão por Deus.,.:» (i) Na vilta de Alpedriz os rapazes 
pedem em dia de Todos os Santos o Pão por Deus, 
caBlaoâo : 

Pão, pão por Deus 
Á mangarola; 
£ncham-me o saco 
E vou-me embora. 

Os lavradores dao-lhes merendeiros de tremoços, 
maças e nozes ; se jaao vão contentes, cantam a praga: 

o gorgulho, gorgulhete 
Lhe de no pote 1 
£ lhe não deixe farello 
Nem farellote. (2) 

Os pães chamados darum entre os mithríacistas, e 
marnphúUk pelos romanos, tornaram-se n'estas offertas 
christãs. 

A 2 de Novembro é a festa dos Fieis defunctos ; os 
rapazes em Coimbra, pedem os bdiíúos, bdinhós; 
nos arredores de Lamego vendem-se n'este dia os 
Scmtoros, ou bolo de pão de trigo com ovos. D'esta 
festa nos Açores, escreve José de Torres : «Páo por 
Deus é puramente a esmola que se dá em tenção dos 
defunctos, ou seja no dia próprio ou na véspera; 
esmola a que também a rapaziada se julga com direito, 
e para o que de porta em porta a todos importuna 
voz em grita, com monótona cantilena. Quando o pe- 
dido é infructuoso, costumam ir ao largo da casa 
resnoLungando facécias pouco espirituosas.» (3) Na 

(1) Feira de Anexim, p. 127. — A palavra Viovedevas, na re- 
ligião hindu corresponde pelo seu significado Todos os Deuses 
a Todos os Santos do christianismo. Pie, Enqjclopedia ind,, 
p. 56S. 

(%} Almemack de Lembraoiças para 1^2, p. 332. 

(3) Panorama, t. xiu, p. 364. 



320 UYRO II, GAPITOLO III 

Sicília também se dão estreias ás crianças do dia 2 de 
Novembro, e n'este dia, como nas ilhas dos Açores, 
comem-se favas cosidas. Os costmnes d'este dia eram 
praticados pelas Cdumbaria, ou associações fimerarías 
de Roma, entre as quaes se formou a Egreja. (1) 

Sobre a festa de S. Martinho (H de Novembro): 
fDepois da iutroducção do Cbristiauismo, esta grande 
figura (de Wuotan) com a multidão dos seus attribn- 
tos, foi esmigalhada, assim como uma estatua em 
grande numero de fragmentos. Na Egreja cbrístã, 
mesmo, o deus pagão occultou-se sob as azas do ar- 
chanjo S. Miguel, chefe do exercito celeste. Quasi 
todas as egrejas e capellas pertencentes a S. Miguel 
elevam-se sobre montanhas originariamente consagra- 
das a Wuotan. O S. Miguel càe na época em que, no 
Norte da Ailemanha, se celebrava a festa de Wuotan, 
em quanto que no Sul, onde o verão é mais longo, 
esta ultima coincidia com o S. Martinho. Muitos dos 
attributos de Wuotan couberam em partilha a S. Mar- 
tinho, que possue o cavallo branco, o seu manto^ a 
espada, e que se mostra ás vezes á frente dos exér- 
citos. Os Merovingianos antes de irem para a guerra, 
resavam junto do tumule de S. Martinho, e levavam 
á frente do exercito como um talisman a capa d'este 
Santo. » (ã) No Alemtejo, têm os rapazes um jogo em 
que dizem : 

— Só S. Martinho, 
Tem lá bom vinho ? 
«Rinch' ó diabo 
Mé cavallinho.» 

A primeira parte d'esta quadra é dita por um rapaz 

(1) Vid. As Lendas christãs, p. 33. — No volume antecedente 
vem já tratada esta parte cultual. 

(2) Hunziker, Estudos de Mythologia alterna (Rev. germ,, 
t XIV, p. li.) 



ÀS FESTAS BO CALENDÁRIO POPULAR 321 

a cavallo n'outro, que atira o chapéu a um que está 
na mesma situação ; se o chapéu nâo é agarrado no 
ár aquelle apeia-se e é moutado pelo que o tinha às 
cavaUeiras. (1) 

Nos Açores usa-se a salsada de S. Martinho formada 
de grupos tangendo «latas, chocalhos e cascavéis,» 
indo pelas portas chamar os irmãos borrachos ; usa-se 
um sermão burlesco, com textos de latim macarro- 
nico. (2) O nosso anexim : 

Por S. Martinho 
Prova o teu vinho, 

acha-se também na Itália : 



Pi San Martinu 
Si tasta lu vinu. 

A San Martinu 

Ogni mustu è vinu. (3) 



A 6 de Dezembro é o S. Nicoíáo: «S. Nicoláo é o 
orago de uma das egrejas parochiaes d'esta cidade 
(Porto.) No dia do Santo, é costume antigo dar o 
Abbade da freguezia uma rasa de castanhas, que sao 
assadas n'uma grande fogueira defronte da egreja e 
ahi mesmo devoradas. Os convivas d'esta espécie de 
magusto são de ordinário rapazes sadios, aqui designa- 
dos por garotos. Na tarde d'aquelle dia pedem as cam- 
painhas da confraria, ás quaes juntam outras de fora, 
6 correm toda a freguezia, badalando horrivelmente 



(1) A. Thomaz Pires, Boletim da Sociedade de Geographia. 

(2) Panorama, t. xni, p. 376. 

(3) Pitré, Spettacoli e Feste, p. 412.— Na Allemanha ceie- 
bra-se o S. Martinho como o dia em que acabam as pastagens. 

2i n 



322 LIVBO n, CAPITULO III 

e gritando como desesperados oom toda a força dos 
pulmões : 

Quem dà lenha, 
Ou um pào^ 
Para fogueira 
De S. Nicoláo ? 

Quem dá lenha, 
Ou chamiça, 
Ou a fralda 
Da camisa ? 



«Ora como este pedido, feito por mais de trinta gue- 
las, e com acompanhamento de trezentas campainhas, 
nunca é attendido, os devotos do Santo, por onde quer 
que passem, agarram em quanto podem, e que jul- 
gam próprio para figurar na santa fogueira. Canas- 
tras, cadeiras, bancos, barrotes, tudo, emfim, que 
encontram pelas portas e a que possam deitar a mão, 
lá vae para a festa. Nem sempre lhes sáe barata a 
brincadeira, pois no acto da cobrança são muita vez 
brindados com uma roda de chicote ou de ponta-pés. 
Ainda não é bem liquido o que deu origem a este 
costume antiquíssimo na cidade, mas suppõe-se ter 
sido um legado.» (1). O S. Nicoláo é também cele- 
brado pelas crianças em Slobregât, Panades e outros 
legares da Hespanha, assim como na Itaha. 

A 13 de Dezembro é Santa Luzia. As experiências 
d(' Santa Luzia : «O dia de Santa Luzia, 13 de Dezem- 
bro, representa para o vulgo o mez de Janeiro, o dia 
14 o de Fevereiro, o dia 15 o de Março, e assim por 
diante. Se por exemplo, a 14, pela manhã, esteve o 
céo coberto de pezadas nuvens, se houve alguns chu- 
viscos, em Fevereiro cahirão chuvas regulares. Se o 

{{) A. M. Leon^e, ap., Almanach de Lembranças para 1858, 
p. 3d1. 



AS FESTAS PO CALENDÁRIO POPULAR 323 

diá amanheceu limpo, o sol quente, todo o mez será 
secco. 

«Outra experiência consiste em deitar-se pedras de 
sal ao sereno, em véspera de Santa Luzia. Soii^ pedras 
de sal, coUocadas sobre um plano, representam os 
seis mezes de inverno. Pela manha, a pedra que mais 
se dissolver ao relento da noite, indica o mez mais 
ehuYOso. Estas experiências têm grande influencia sobre 
o espirito dos matutos, a ponto de quando é negativo 
o resultado, alguns abandonarem logo tudo e tratarem 
de emigrar.» (1) Como as experiências de Santa Luzia, 
DO Ceará, temos em Portugal as experiências dos pri- 
meiros sete dias de Janeiro, por onde o povo regula 
qual ha de ser o aspecto meteorológico dos sete mezes 
subsequentes. 

Em Beja, pelo S. João, também se põe doze naon- 
tinhos de sal, em cima de uma taboa que se passa 
pelo lume, com o mesmo intuito de prognostico do 
anno. (2) 

Âs Quendas (Calendas) «designam os doze dias ante- 
cedentes e seguintes ao Natal, nos quaes os supersti- 
ciosos vêem os representantes dos doze mezes do 
anno.» (3) Chamam-se Requeridas os dias observados 
coníi o mesmo intuito em outros mezes. (Baião.) Ha nos 
Açores esta crença localisada nos últimos dias.de 
Dezembro. 

A Festa do O, em 18 de Dezembro, é assim descri- 
pta por Viterbo: «Beberete ou merenda, convite 'que 
se dava nas cathedraes, coUegiadas, e mosteiros em 
cada um dos sete dias antes do nascimento do íitbo 
de Deus ; principiando nas primeiras vésperas da festa 



(í) Historia da Secca do Ceará (1877 a 1880) por Boddlpho 
Theophilo, p. 82. 

(2) Almanach de Lembranças, para 1861, p. 225. 

(3) Leite de Vasconcellos, Revista scientifica, p. 587. 



324 LIVRO 11, CAPITULO III 

da £spectaçao, que lambem foi chamada Festa do 0. 
É porque n'estes sete dias se cantam as sete antipho- 
nas que todas principiam por 0. Do O das antiphonas 
passou o nome para os convites e merendas... Porém 
dos Convites ou Pitangas apenas hoje restam memo- 
rias entre as communidades que vivem no claustro e 
que mais tenacidade mostram em conservar as anti- 
guaUias primitivas. » Viterbo cita um trecho das Memo- 
rias chronologicas dos Prelados de Lamego sobre estes 
banquetes do Natal : <D'antigamente ta gora foi cos- 
tume em esta nossa Sé e Cathedral de se fazerem e 
darem sete OSj ou convites por sete dias antes da 
Festa do Natal ao Cabido e clerezia da dita Sé, de 
vinhos brancos, e vermelhos, e fructas e tâmaras e 
passas: cada hum segundo mais avondosamente podia. 
E como se hi juntava muita gente de desvairadas ma- 
neiras, entre as quaes eram vis pessoas, que depois 
de beberem diziam e faziam muitas enormidades e 
alevantavam arruidos e contendas, que eram azo de 
se seguirem algumas violências...» (i) As consoadas 
do Natal são uma continuação d'estes convites. 

A festa do Natal distingue-se por comidas especiaes 
ou a consoada. No sermão de Santo Eloy, do século vii, 
allude-se ao costume d'estas cêas, que Frei Luiz de 
Sousa descreve ainda em uso no palácio do rpi D. Ma- 
nuel, em 1516. (2) Fructuoso, fallando do capitão 
Simão Gonsalves, morto em 1580, diz : «em todas as 
festas principaes do anuo, havia em sua casa custosas 
consoadasj com ricas fructas e curiosos jogos e actos 
de toda a sorte.» (3) Simão de Castro, allude também : 



Os meus fartes tão perfeitos 
que pelo Natal me dão... (4) 

Elucidário, vb.* O. 

Annaes de D. João III, p. 14. 

(3) Saudades da Terra, p. 299. 

(4) Ratos da Inquisição, p. i43. 



s 



ÂS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 325 

£ se acaso são de mel, 

que são mui bons em tal tempo... 

No Douro e Minho usara-se os formigos ou mechidos; 
no Porto e alto Minho, é costume o vinho quente, e 
em Braga um prato de hervas. Na Madeira fazem-se 
bolos com farinha, pimenta e mel, para dar nos con- 
vites aos afilhados e portadores de oflfertas ; fazem-se 
cuscus, e leva-se de presente a papada aos fidalgos 
ou os pés nas mãos (gallinhas e capões dependurados 
pelos pés.) A matança dos porcos começa pela Senhora 
do O, em 18 de Dezembro. Nos costumes portuguezes 
de Gôa, do século xvii, encontramos as formas com- 
pletas de alguns dos nossos usos provinciaes : 

«Jejuam véspera de Natal, e jantam ao meio dia ; 
mas antes de irem á missa da meia noite pela volta 
das onze horas fazem uma coUação que equivale a 
mna ceia, salvo nao comerem carne nem peixe, mas 
tudo o mais comem e bebem a fartar. As mulheres, 
sobretudo, assim senhoras como jovens, desejam muito 
esta noite, porque, como vão todas á missa, servem-se 
da devoção para gosarem seus amores. Por todas as 
ruas ha n'esta noite lanternas. No dia de Notai, em 
todas as egrejas se representam os mysterios da nati- 
vidade com grande copia de personagens e animaes 
que faliam, como cá os bonifrates, e ha grandes roche- 
dos, e por baixo d'elles homens que fazem mexer e 
f aliar estas figuras como querem, e todos vêem estes 
brincos. Mesmo na maior parte das casas e encruzi- 
lhadas das ruas ha similhantes divertimentos, e faz 
lá n'esta estação melhor tempo que cá pelo S. João. 
Nas ruas, praças e outros logares da cidade ha mesas 
cobertas de bellas toalhas brancas e bem obradas, e 
sobre ellas muitos confeitos, doces secos e bolos, a 
que chamam rosquilhas, de mil feitios diversos, de que 
toda a gente compra para dar mutuamente por con- 



326 LIVRO 11, CAPITULO III 

soada ; e dura esta espécie de feira até passar dia de 
Reis. De noite vao pôr grandes letreiros com estas 
palavras — Anno Bom — acompanhados de musica e 
instrumentos.» (1) 

A universalidade da festa do Natal foi conhecida 
pelos antigos padres da Egreja, que procuravam sepa- 
ral-a dos polytheismos solares d'onde ella deriva. 
Bergier cita estas palavras de S. João Chrysostomo : 
«desde o começo esta festa se celebrou da Thracia 
até Cadix, em todo o Occidente. » Sendo a consagração 
da luz do sol no solsticio do inverno, acha-se : 1 .® No 
Egygto sob o titulo Festurn Osiridis natij ou InverUio 
Úsiridis, fi celebrava-se no dia correspondente ao nosso 
6 de Janeiro. E entre os Judeus era a Festa das Luzes 
ou Kkanu ka, 2." No culto accadico da Chaldêa, cele- 
brava-se com o titulo da Caverna do levante ou nasci- 
mento do sol, no mez que succede ao solsticio de 
inverno (/eWí). Por esta transmissão, entre os Sarra- 
cenos o sacerdote descia a uma caverna (a lapinha 
ou presépio) e saía de là gritando : «A Virgem pariu, 
a luz vae outra vez crescer.» (2) Entre os Phenicios 
existia também no 25 de Dezembro a festa do Desper- 
4ar de Melqarth. 3.*^ Finalmente entre os povos àricos, 
acha-se com toda a importância cultual a festa do 
nascimento do Sol: entre os Hindus é o nascimento 
de Christna, no fim de Dezembro : entre os Persas 
a festa do solsticio de inverno ou Álirrhagan, propa- 
gada a Roma pelos mithriacistas, e celebrada na viii 
calenda de Janeiro, ou 25 de Dezembro, foi chamada 
no Occidente Natalis Solis invicti; na Phocida, no culto 
dyonisiaco, as mulheres, ao grito de Licnites, procla- 
mavam o nascimento de Dyonisos, segundo Plutarcho, 
no solsticio de inverno ; entre os povos germânicos 

(i) Pyrard, Viagem (1601-1611) nas Índias orientaes. 
(2) Lenormant, Origines de VHist, t. i, p. 257. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 327 

esta festa tomou o nome de Juel, e entre os godos de 
JtU. De todas estas proveniências se acham vestigios 
na sobrevivência dos costumes populares, explicáveis 
aproximando-os de qualquer d'estes trez polytheismos 
solares. No dia 25 de Dezembro celebravam os Roma- 
nos o Natalis Sdis invíctij ou o dia do Sol que renasce 
depois do solsticio do inverno ; Baur considera que a 
liberdade e a caridade das saturnaes passaram para 
o Natal, que a Egreja fixou no mesmo dia. Os Árabes 
dão a esta festividade o nome de Id Almilads e à vés- 
pera do Natal o nome de Zailat Almilad. 

A vigilia do Natal faz-se armando presépios on lapi- 
nhasj diante dos quaes se representam CoUoquios, 
Villancicos e Autos pastoris. Muitos d'estes presépios 
armavam-se nas egrejas, e como conta o padre Ma- 
nuel Bernardes celebrava-se «as noites de Natal nas 
Egrejas (como eu vi celebrar em uma) com pandeiros, 
adufes, castanhetas, foguetes, tiros de pistola e risa- 
das descompostas.» (1) O Presépio da Egreja de Be- 
lém era o mais rico : «Imagine-se o pequeno palco de 
um theatro com seus bastidores e bambolinas, e ali 
umas poucas de figuras de madeira, do tamanho 
natural, representando a Virgem, S. Jo^é, os Reis e 
os Pastores, e o Menino n'um berço de obra de talha, 
debaixo de umas poucas de taboas pintadas para figu- 
rarem uma arribana, e juntamente uns mostrengos 
informes representando a vãcca e a mula ; imagine-se 
mais que os pastores estão vestidos á moda da época 
de D. Pedro n, que mandou fazer o presépio, de 
casacos de damasco de. cores jà muito fanadas, de 
cajados na mão, com grandes coUarinhos à saloia, e 
outros de casaca, calças e colletes de pelles de car- 
neiro, também de grandes collarinhos ...» (2) Era 



I 



1) Nova Floreata, t. ii, lit. i. 

2) Ribeiro Guimarães, Snm,, t.iir, p. 34. 



328 LIYRO II, CAPITULO IH 

diante das lapinhas que se representavam os Colloquios 
ou autos hieráticos, que se desenvolveram em musica 
sob a forma de Villancicos. Âs lapinhas, enfeitadas com 
fructas e ervas aromáticas, são um vestígio das Suc- 
coth-Benot; enfeitam-se nos Açores com trigo grd- 
lado, que os gregos também usavam nas festas de 
Adónis. (1) 

A Missa do gallo resa-se de noite ; é ao que na 
Madeira se chama a Missa do Parto, em que toda a 
gente vaga pelas ruas, uns tocando macheie e castOr 
nkolas, outros brandindo foÁnhoSy visitando as lapinhas 
principalmente nas casas onde ha viola, isto é, os bai- 
lados a-la-moda e o da meia-volta. 

Na noute de Natal, na Idanha a Nova, é costume 
queimar-se o C^o, como na Covilhã e em Traz os 
Montes : «Trez semanas antes, ou um mez, da noute 
de 24 de Dezembro, vão ao campo buscar o madeiro, 
que para este fim se acha já cortado, sendo quasi 
sempre escolhido para elle uma das arvores mais cor- 
pulentas. Se o carro quebra, ou os bois cançam, vâo 
outros buscal-o, e por ultimo conseguem trazel-o com 
acompanhamento de chulas e descantes até ao sitio 
em que deve ser queimado, e onde o descarregam, 
saudando-o n'essa occasião com um prolongado vito! 
D'este modo deitam mais dois ou trez nos adros de 
diflferentes egrejas. Chegada a véspera do Natal, logo 
ao cerrar da noute lhes largam o fogo, e depois come- 
çam a malhar n'elles para vèr quem tira a maior lasca, 
e cada uma que se despede é de novo festejada com 
um vito t por quantos se acham prezentes. Dura isto 
até á missa do gallo; e quando esta chega, não só 
têm lucrado os que, cantando e tocando, a esperam 

(i) Alfred Maury, Hist. des Religions de la Grèce antique^ 
t. III, p. 222. — No culto de Mithra existe o presépio e o tourOy 
% no de Ghristna; elle é um pastor ou govinda. 



AS FESTAS DO CALEP«)ARIO POPULAR 329 

em roda do madeiro, como também os que moram 
nas casas mais próximas e vao ou mandam buscar as 
brazas para se aquecerem, quando vêem que as mar- 
lelladas as têm espalhado.» (1) Em Celorico de Basto 
chamam-lhe o Galheiro, em Traz os Montes é o Tra- 
fogtmro, cujos carvões têm poder contra as trovoadas ; 
a estes costumes allude Cascaes, nos versos : 



Pedaços ao madeiro 
Que ardendo é no lar 
Vae este cortar : 
£ o guarda na crença 
Que acceso é defensa 
Qual sóe vela benta, 
Santelmo em tormenta. (2) 



Hunziker considera como um vestígio do culto de 
Frô ou Freyr «os fogos que se accendem nao só na 
Allemanha, como ainda em França, onde ha o tronco 
ou cepo do Nataly com usos supersticiosos que lhe 
ligam...» (3) Na Itália chama-se-lhe o Ceppo^ Souche de 
Nôel (Lorena), Trefoir, Tison de Noel^ Bonche de Noel, 
Cariguié, em França, Yule Clog em Inglaterra. 

Em 26 de Dezembro é a grande cerimonia da En- 
trega do ramo, em Aveiro, nas suas duas freguezias. 
Vão os doze mordomos demissionários da confraria 
do Santíssimo, entregar os ramos, de altura de um 
metro, à porta dos novos eleitos, sendo em todo o 
caminho festejados com foguetorio ; em casa dos novos 
mordomos ha mesa franca, para todos os que lhe vão 
á porta atirar foguetes ou comprimentar o parceiro. 
No dia 27 repete-se a cerimonia na outra freguezia ; 



(i) Almanach de Lembranças para 1864, p. 377. 

Í2) Panorama, t. xu, p. 406. 

(3) Revista germânica, t. xiv, p. i8. 



3dO LIVRO II, CAPITULO III 

I 

as dansas começam no dia 28 e duram até ao dia de 
Reis. (1) 

Festa de Santo Estevam (Travanca de Macedo) a 26 
de Dezembro. Todo o povo se banquçtêa em commum 
na rua, n'este dia em Travanca de Macedo, e em quasi 
todas as visinhanças de uma légua de circuito : «Logo 
que se conclue a funcçao da egreja, dirige-se cada 
um a sua casa, enche um açafate de fructas sêccas, a 
que junta um humilde talher, e com este arranjo vae 
apresentar-se à porta do mordomo. Ali encontra já 
armada no meio da rua uma meza de vinte a trinta 
metros de comprimento, sobre um de largura. O corpo 
d'esta meza é indififeren temente occupado pelo povo, 
e a cabeceira pelas pessoas distinctas da terra ; mas 
este ultimo costume vae caindo em desuso, ainda que 
não de todo. Á excepção das viuvas, todos devem 
tomar parte n'este festim popular ; e aquelle que sem 
motivo plausível não apparece, é qualificado de misan- 
thropo e pouco sociável. Depois de reunidos todos os 
convivas^ vem logo a primeira e ultima coberta, que 
consta de pães centeios, sardinhas assadas, tremoços 
e algum vinho. Toda a polidez e cerimonia são bani- 
das d'esta meza ; aqui exigem-se mais sardinhas, acolá 
grita-se por mais pão, ali pede-se vinho, e fazem-se 
saúdes aos mordomos, etc. 

«No fim d'esta refeição, em que se devorou a baga- 
tella de um milheiro ou mais de sardinhas, vem o 
mordomo com uma laranja espetada numa vardasca, 
e oflferece-a àquelle que tem de servir no anno se- 
guinte : a esta transmissão dç poder, rompem de todas 
as boccas enthuziasticos vivas ao mordomo!. . . tudo 
se agglomera com azáfama em volta àeWe ; dois esfor- 
çados hércules, enterlaçando as mãos formam uma 
cadeira, onde o fazem sentar, para ser conduzido á 

(1) Bernardo de Magalhães, Locomotiva, n.° 94. 



AS FESTAS DO CALENDÁRIO POPULAR 331 

sua habitação ; se tem família, é também conduzida 
em cadeira idêntica, por pessoas de sexo e estado 
respectivo. — Á noite torna-se a remiir tudo em casa 
do novo eleito ; e é então que se realisa o celebre jogo 
do frade, em que mais figura aquelle que mais estrondo 
pode fazer com os socos ; ha também outro, regulado 
por certas leis, cuja infracção (essencial ao jogo) é 
punida com fortíssimas doses de correadas, o que 
promove grande hilaridade em todos, sem exceptuar 
o. réo. Como estes, usam-se outros divertimentos e 
jogos exquísitos, que seria longo enumerar.» (1) 

Nos costumes portuguezes do Natal, existem ele- 
mentos polytheístas do culto de Zagreus, na sua forma 
oi^giastica. A festa do Bispo dos Loucos, na egreja 
medieval é uma persistência doesse culto : «Para agra- 
dar a Dyonisos é preciso ensandecer.» Na Epístola 
aos Corynthios, S. Paulo repete o mesmo pensamento: 
«Nós somos loucos pêlo Christo.i> (i. Cor., iv, 10.) E 
também : «A loucura de Deus é mais sabia do que os 
homens.» {Ib,j i, 23,) A Egreja conservou estes costu- 
mes da sua origem, perdendo a noção da relação 
histórica que a ligou à vida aflfectiva das populações 
polytheístas. Dp costume do Bispo dos Fátuos, em 
Portugal, falia Santa Rosa de Viterbo no Elucidário : 
«Eu, que nos meus primeiros annos presenciei este 
Bispo de theatro, não menino, mas sacerdote, no pri- 
meiro de Janeiro e na solemnidade dos Reis, posso 
dar testemunho à verdade, como o desengano serio 
fez desapparecer d'entre gente religiosa tão desmar- 
cada loucura.» (2) Era especialmente em 27 de Dezem- 
bro esta cerimonia : «Havia na cathedral de Lisboa 
um costume, a que chamavam do Bispo innoceiue, e 
que era o seguinte : Na véspera do dia dos Santos 



(1) Alnuinach de Lembranças, para 1867, p. 379. 

(2) Ed. Inn., t. i, p. 436. 



332 LIVRO II, CAPITULO III 

Innocentes, depois do Natal, quando no officio de vés- 
peras se entoava o versículo : Deposuit potentes de sede, 
(Depoz os poderosos da sua sede) o cantor entregava 
o báculo episcopal ao menino mais moço do coro, o 

3 uai governava o clero até se completar o officio do 
ia seguinte, e saia em procissão com todas as insí- 
gnias episcopaes visitando as egrejas do arcebispado. 
O menino em tudo imitava o bispo, e até dava bên- 
çãos, e isto era uma festa com comes e bebes, e ori- 
ginava rixas e contendas e provocava os apupos do 
povo.» (1) 

Dos costumes dos Açores, escreve Arruda Furtado : 
<os nossos camponezes (ilha de S. Miguel) acreditam 
piamente que os últimos dias de Dezembro são a ima- 
gem fiel dos doze mezes do anno seguinte, e que o 
estado das novidades d'esse anno será regulado pelo 
modo porque cresceram o trigo, o milho e as favas 
que fez germinar, como é costume, dentro de um prato 
para enfeitar o Natal.» (2) 

A personificação do Inverno, em quasi todos os 
povos indo-europeus é a Velha, que em Portugal ainda 
se conhece na metade da quaresma; na Itália, as 
estrêas do Natal são também personificadas na Vecchia 
strina e Vecchia di Natali, e no dia de Reis ou da 
Epiphania, ainda apparece, tendo em Veneza o nome 
de Befana, 

No ultimo dia do anno não ha festa característica 
a S. Silvestre, postoque o seu nome seja immensa- 
mente invocado nas Orações magicas e de medicina 
popular ; depois da noite fechada começam as canti- 
gas do anno novo pelos Janeireiros. 

(1) Dr. Ribeiro Guimarães, Summario de Varia historia, t iv, 
p. 235; ih., t. i, p. 223. 

(2) Materiaes para o estudo dos povos açorianos, p. 42. 



LIVRO m 

TRADIÇÕES E SABER POPULAR 

No livro genial da Sciencia Nova^ iniciou Viço o 
estudo dos phenomenos demopsychologicos, a que elle 
chamou a Sabedoria poética das Nações. As acquisições 
das experiências de cada geração e edade nao se 
perdem, transmitiem-se tradicionalmente, fecundando 
os espiritos para novas descobertas ; ellas constituem 
a base de um consensus moral, em que as paixões e 
interesses se harmonisam, e como synthese especula- 
tiva estabelecem entre as opiniões e os costumes uma 
progressiva conformidade. Esta dependência da tra- 
dição é explicada lucidamente por Gomte pelo seguinte 
facto psychologico : «O espirito humano, mais apto a 
aperfeiçoar do que a crear, não pôde bem assentar 
as suas especulações senão sobre uma primeira exe- 
cução da empreza que elle prosegue.» (1) A esta 
ordem de estudos deram os críticos allemães e ingle- 
zes o titulo de Folk-LorCj sem comtudo entrarem ainda 
na reconstrucção da psychologia do homem primitivo, 
nem dos estados sociaes correlativos, como o presen- 
tira Viço. 

A forma do conhecimento e o caracter das conce- 
pções mentaes são os mesmos, tanto nos espiritos que 
se elevaram á maior capacidade de abstracção, como 
no povo que elabora as suas noções concretas. Pare- 

(i) Système de Politique positive^ t. iii, p. 79. 



334 LIVRO III 

cera talvez um paradoxo, mas nao é, como se vê pela 
bistoria do pensamento humano : As altas especulações 
dos philosophos exercem-se sobre dados objectivos ou 
realidade (Eschola jónica), e sobre elementos stilh 
jectivos ou representações da consciência (Eschola elea- 
tica). Â justa relação de dependência entre estes dois 
elementos essenciaes do conhecimento tem sido o tra- 
balho capital dos principaes pensadores da humani- 
dade. Se examinarmos as concepções populares, vê-se 
que prepondera n'ellas também este dualismo; porque 
as suas concepções s5o formadas pelo syncretismo 
entre a apparencia^ ou impressões recebidas, e a rea- 
lidade percebida através dessas inconscientes modifi- 
cações sensoriaes. 

E por isso que o povo exprime-se sempre por tropas, 
ou a equivalência aproximada e comparativa da lin- 
guagem figurada com que significa noções vagamente 
concebidas. Quando o povo dá ás apparencias da sua 
impressão subjectiva o relevo da realidade, é eatão 
que elabora espontaneamente os Mythos, esboço gene- 
rativo de toda a poesia ; se porém a realidade concreta 
é modificada pelas impressões recebidas, como acon- 
tece com os factos narrados por differentes pessoas 
que simultaneamente os observaram ou os conhecem, 
essa narrativa, também poética, denomina-se Lenda. 
A mente do povo paira n'esta suspensão, em que a 
vibração emocional suppre o estimulo de inteliigencias 
sem interesses especulativos; os conhecimentos, noções 
e concepções populares são pois, segundo a phrase de 
Vicp, uma Sabedoria poética. 

É n'este sentido que comprehendemos n'esta parte 
do nosso trabalho o estudo dos Tropos, Anexins, Adi- 
vinhas, Cantos lyricos e heróicos, formas dramáticas, 
€ontos. Lendas, Relações ou Litteratura de cordel e 
reminiscências da Historia nacional portugueza. 



CAPITULO I 



Modismos, Anezins e Adivinhas 



As formas concretas da comprehensão popular ; oa Tropos, 
como germens da expressão poética : Modismos populares 
portuguezes. Comparações de maior, de menor e de e^al ; 
comparações por differença, por analogia e por plausibili- 
dade.— Comparações communs aos povos occidentaes. — Os 
Aneasins portuguezes: Bases criticas para o estudo dos Ane- 
xins : relação com a concepção mytnica primitiva ; com os 
estados psychologicos rudimentares ; com os costumes ex** 
tinctos ; com os contos tradicionaes e com as superstições. 
—Valor das designações Dito, Ditado, Veroo, Rifão, Ada- 
gio, Aneasim, Exemplo. — Os Anexins conservam a evolução 
morphologica da Poesia.— Fundo commum da tradição Oc- 
cidental persistente nos Anexins.— Os Anexins na littera- 
tura portugueza. — As Adioinhas populares portuguezas : 
A concepção por analogia, e a expressão mythica são evi- 
dentes nas Adivinhas. — Caracter de um saber enigmático 
nas religiões antigas. — Relação das Adivinhas com os Con- 
tos. — Fundo commum do saber enigmático no Occidente : 
Adivinhas comparadas. — As adivinhas populares portugue- 
zas na litterátura. 



Ninguém viu tanto para dentro da elaboração da 
intelligencia e do sentimento humano no seu esforço 
para attingir as formas da comprehensão lógica, como 
Viço ; essa lei moral e histórica formulada e confir- 
mada por Jacob Grimm, que não ha uma única men- 
tira na poesia do povo, foi presentida pelo auctor da 
Sciencia Naca, quando disse : «Os primeiros homens 
dâs nações pagãs tendo a simplicidade e a ingenuidade 
da infância, as primeiras fabulas nada podiam conter 
de falso, e foram necessariamente, como têm sido 
definidas, narrativas verdadeiras.» Aqui a verdade 
não consiste no processo critico de conformidade entre 



336 LIVRO III, CAPITULO I 

O dado objectivo e a sua representação subjectiva, mas 
sim na despreoccupaçSo, desinteresse e falta de intuito 
das impressões subjectivas tomadas como realidade. 
Sem a luz d'este critério foi impossível aos philosophos 
gregos interpretarem o passado, bem como aos eru- 
ditos da Renascença e do século xvin, que não pene- 
traram este estado emocional da razão humana. Sobre 
a natureza sentimental da synthese espectUcUiva popu- 
lar, Comte vae derival-a da nossa própria organisação 
physiologica : <iPor muito real que seja, sem duvida, 
a satisfação que se liga á simples descoberta da ver- 
dade, ella não tem a intensidade bastante para dirigir 
a nossa conducta habitual ; o impulso de uma paixão 
qualquer é mesmo indispensável à nossa débil intel- 
ligencia para determinar e sustentar quasi todos os 
seus esforços.» (1) A linguagem vulgar conserva nos 
seus modismos ou locuções figuradas a dependência 
da forma concreta na actividade mentaL 

Os tropos ou modismos populares, — Depois de apre- 
sentar alguns corolários da lógica poética. Viço escreve: 
«os Tropos... não são, como se tem julgado até hoje, 
uma engenhosa invenção dos escriptores, mas sim 
formas necessárias de que as nações se servem na 
sua edade poética para exprimirem seus pensamentos, 
e estas expressões na sua origem foram usadas no 
sentido próprio e natural.» Quando, para exprimir um 
grande perigo, o povo emprega o tropo : Ver-se em 
camisa de onze varas ^ esta expressão correspondeu em 
algum tempo à realidade da situação em que se vestia 
uma alva até aos pés em forma de saco ao que cami- 
nhava para o supplicio. Desde que existiram situações 
psychologicas e sociaes, a que alludem ainda as for- 
mas figuradas da linguagem nos seus modismos e 

(1) Système de Politique positive, 1. 1, p. i7. 



MODISMOS» ANEXINS E ADIVINHAS 337 

locuções, é também natural que os trc^s sejam redu- 
ctiveis a categorias uDiversaes, e que se encontrem 
nas suas formas pittorescas simultaneamente entre 
differentes povos. Para exprimir relações de autipa* 
thia entre duas pessoas, o povo diz : Como o cão com 
o gato ; em Hespanba repete-se : < Se yeban como per- 
ros y gatos; e na Itália : D' acordo come cane e gatti. (1) 
Para significar que alguém está contente, é natural 
esta comparação entre povos catholicos : Contente, 
como umas Paschoas ; em Andaluzia diz-se : Uás alegre 
que unas Páscoas; na Itália diz-se : Contente come una 
Pasqua; e em França: Jouious coumo VaUduia de 
Pasças. (2) Os Tropos s3o os radicaes poéticos d'onde 
derivam os mythos, as fabulas, os contos, formas apho- 
risticas, as lendas, as imagens e emblemas, as pará- 
bolas e os exemplos. Yico reduziu todos os Tribos a 
quatro typos fundamentaes, que pela sua ordem de 
syncretismo decrescente e lógica crescente, s3o : a 
Metaphora, a Metonymia, a Synedoche e a Ironia. Eis 
como o extraordinário génio discrimina estas grada- 
ções nas ficções racionaes: «O mais brilhante (dos Tro- 
pos) e porisso mesmo o mais frequente e o mais 
necessário é a Metaphora. EUa só é admittida quando 
presta sentimento e paixão ás cousas inanimadas.» O 
que são as concepções do animismo primitivo tão lar- 
gamente estudado por Tylor, senão a consequência do 
exercício inconsciente d'este tropo ? E Viço conclue : 
«Toda a Metaphora é o resumo de uma fabula.» Abun- 
dam as comprovações, como nos mo^&mos: Enfeitar-se 
com as pmnas do pavão, para designar honras inde- 
vidamente apropriadas ; Levar a cruz ao calvário, e 
Pregar aos peixinhos, etc. 



(i) Rodrigues Mano, Quinientas comparacUmes populares 
andatusaSs p. 46. 
(2) Ibidem, n.« Í02-107. 

22 U 



338 UVAO Uly GAt^ITULO I 

A segunda categoria é a Metmyfh;iú: d'ellá di£ 
Vicô, qae o facto de «comprehender a sobstanciâ pela 
sua forma ou accidentes, vem da incapacidade de 
abstrair da substancia os accídeutes e a forma.» E 
oonclue : <os de causa e effeíto são outras tantas pe- 
quenas faimias.* A língua portugneza é riquíssima de 
formas metonymicas; apresentaiemos indistinctamente 
alguns d'esses tropos pittorescos : Jogar com um pào 
de dois biccos ; Dar-lhe a agua peia barba ; Pescar nas 
aguas turvas ; Reiâar contra a maré ; Ir por agua 
abaixo ; Malhar em ferro frio ; Nao vêr toca d'onde 
saia coelbo ; Levar a agua ao seu moinho ; Pudiar a 
braza para a sua sardinha; Tirar nabos do púcaro 
sem se escaldar ; Levar com os pratos na cara ; Aqui 
torce a porca o rabo ; Metter agulhas por alfinetes ; 
Uma 00 cravo, outra na ferradura ; Metter o rabo entre 
^ penicos ; Dar com a língua nos dentes ; As paredes 
têm ouvidos ; Saber o nome aos bois ; Ter cabellos no 
coração ; Ter lume no olho ; Apanhar a talho de 
foice ; Sem metter prego, nem estopa ; Nao pregar 
prego sem estopa ; Pôr tudo em pratos limpos ; Fazer 
cruzes na booca ; Ficar em máos lençóes ; Dar-ihe 
terra para feijões ; Dar as mãos á palmatória ; Assen- 
tar de (|edra e cal ; Pôr o sal na moleira ; Andar o 
carro adiante dos bois ; Andar de candeias às avessas; 
Andar como gato por brazas; Não ter onde cabir 
morto ; Ficar sem pinga de sangue ; Um no papo outro 
no saco ; Por Dà cá aquella palha ; Comer a isca e 
mijar no anzd ; Metter a viola no saco ; Afogar-se em 
pouca agua ; Dar-lhe uma verde com duas maduras ; 
Pilhar com a bocca na botija ; Dar ao diabo a cardada; 
Não cahir em cesto roto ; Dar-lhe o pé e tomar a mão. 
— Assobiar ás botas; Mosquitos por cordas; Agua 
na bocca ; Molhar a sopa ; Sem cunhos nem cruzes ; 
Nabos em sacos ; De faca e calháo ; Ruim de assoar ; 
Culpas em cartório ; Rasgar baetas ; Sangrar-se em 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 339 

saude ; Lamber o beiço ; Comer com os olhos ; Unha 
na palma ; Cabello na venta ; A sopa no mel ; A vêr 
navios ; Levar á parede ; Com pés de lã ; Justiça de 
Mouro ; Caldo entornado ; Dente de coelho ; Estrada 
coimbrã ; Suar o topete ; Metter ferro ; Nariz torcido ; 
Cara á banda ; Gato por lebre ; Sal na moleira ; Papas 
na lingua ; Matar o bicho ; Em papos de aranha. (1) 
Da terceira categoria de Tropos, diz Viço : «A Sy- 
nedoche foi empregada depois, à medida que se elevou 
das particularidades ás generalidades, e que se resu- 
miram as partes para compor os seus todos.» Tal é 
a forma da tendência synthetica que o povo apresenta 
nas suas expressões, e dos seus modos de dizer abso- 
lutos. Com a ingenuidade popular é também compa- 
tível a comprehensão dos contrastes, e por isso Viço 
considera a ironia como um tropo : «A Ironia sô podia 
ter origem em um tempo em que jà se reflectisse. 
Com effeito a Ironia consiste em uma falsidade refle- 
ctida, que toma os visos de verdade.» (2) Na sua 
expressão o povo emprega a forma de comparaçõeSj 
umas vezes por differença como nas Fabulas, outras 
por analogia como nos Contos, outras por plamibili- 
dade como nas Parábolas e Exemplos, elaborando 
assim os themas fundamentaes das Litteraturas ; Usa 
porém na linguagem corrente a comparação espontâ- 
nea de maior, de menor e de eguai, como elementos 
naturaes da equação do raciocínio. Na idealisação poé- 

(1) Na lingua portugueza existe um livro curioso sobre locu- 
ções e giria popular intitulado En/mwidoá^í daLingwi, eArte 
em que a ensina a emudecer para a melhorar, por Silvestre Sil- 
vério da Silveira e Silva (Manuel José de Paiva). Lisboa, 1760. 
Embora sem critério seientifieo encerra este livro materiaes 
muito aproveitáveis. 

(2) Um exemplo de ironia é dizer-se do que caminha a pé : 
Va£ montado tio cavallo dos frades, a que corresponde em fran- 
cez : Aller sur la hacquenée des cordeliers. (Lincy, Proverbes, i, 
p.6.) 



340 LIVRO ni, CAPITULO I 

tica, estas relações comparativas tem mn certo des- 
envolvimento litterario a que se chama imagens; sem 
estas relações imprevistas, e essencialmente pittores- 
cas a expressão poética perderia o seu caracter de 
universalidade, e tornar-se-hia uma exposição lógica, 
ou com o laconismo da sentença ou com a difflasão 
dialéctica. A imagem na sua forma a mais simples é 
um epitheto; no seu maior desenvolvimento toma-se 
um mytho pbilosopbico. 

Alguns investigadores têm explorado este campo 
das Comparações ; Oreste Marcoaldi, na Guida suais- 
tica ddla città e camune di Fabiiano, Mir, no Glossaire 
des Comparaisons populaires du narbormais adu car- 
cassez, Rodrigues Marin no opúsculo Quinientas Cm- 
paraciones poptdares andalusas, e António Tbomaz 
Pires nas QtuUrocentas Comparações populares alentíe- 
Janas, apresentam formas de modismos communs á 
Itália, França, Hespanha e Portugal, que mesmo no 
campo da linguagem espontânea põem em evidencia a 
unidade etbnica occidental. Transcreveremos do tra- 
balbo de Pires as comparações que tem similes entre 
os outros povos românicos : Alta como um pinheiro, 
{Mas alto qye unpino) ; Amarello como a cera, (Jaune 
coume de ciro) ; Arde como a isca, {Arde mas que la 
yesca); Atira-se como gato a bofes, (Lo desea como 
gato a bofe) ; Cego como a toupeira, {Mas ciego que 
un topo ; — Cieco come la taipa) ; Cbora como uma 
Madanela, {Yoró mas que una Madalena ; — Ploura 
coumo uno MatcUeno) ; Claro como agua , {Mas daro 
qu'el agua ; — Schietto come el acqua) ; Como pedrada 
em olbo de torto, {Le bino como pedra en qjo tuerto); 
Corre como uma lebre, {Corre mas que una liebre); 
Diz mais pragas que um arrieiro, {Jura mas que un 
carretero ; Jura coumo un carretiè) ; Direito como um 
fuso, {Mas derecfio que un juso; Dritto come un fuso) ; 
Doce como o mel, {Mas dorse que la mie; Dolce come 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 341 

ilmele) ; Escuro como a noite dos trovões, {Mas escuro 
que una noche e trumos) ; Falia como um livro, {Yabla 
como un libro ; Parla coumo un libre; Parla come un 
libro stracciato) ; Paira que nem papagaio, (Charla 
mas que un papagaio) ; Foge como o diabo, {Fugge 
come il portasse il diavdo) ; Grande como o mar, {Mas 
grande que la má ; Grande coumo la mar) ; Ha de tudo 
como na botica, {Hay de tó como en botica) ; Leve como 
uma penna (Mas ligero que una pluma ; Leggiero come 
unapiuma) ; Lindo como o sol, {Mas bonito queersó); 
Mais branco que a neve, (Mas blanco qu£ la m^te]: 
Bianco come la neve) ; Mais fiel que o c5o, {Mas lear 
que un perro ; Fidel coumo un gous) ; Negro como um 
tição, (Mas ne^rro que un tison) ; Mette-se como piolho 
por costura, {Estan como piojos en costura); Negro 
como um chapéu, (Mas negro que mi sombrero) ; Passar 
como cão por vinha vindimada, {Entrar como perro 
por vifía vindimiada) ; Pesado como chumbo, {Mas 
pesao que er plumo ; Pesant coumo un ploumb) ; São 
como um pêro, {Mas sano que una pêra) ; Tem sete 
fôlegos como os gatos, {Tiene sietebidas, como los gor 
tos) ; Vermelho como um tomate, {Mas colarão que un 
tomate). Das Comparações populares umas derivam de 
velhos mythos, mas já na forma de lendas : Arrastinho 
como a cobras reminiscência do Génesis ; outros des- 
envolveram-se em contos : Como o diabo que vendeu a 
sogra; (1) ou Mais perdido que a vergonha; (2) outras 
sobreviveram aos costumes a que alludiam : Velho como 
a Serpe ; (3) e Como a mãe de S, Pedro. (4) É quasi 
sempre de uma Comparação que nasce o Anexim popu- 
lar, precedido da fórmula: Como dil-o outro. Lê-se 



(i) Marín, Quinientas ComparacioneSj p. 87. 
Í2) Ibidem, n.o 317. 

(3) AtUeffraphia, £1. 174. 

(4) Contos tradicionaes do Povo portuQuez, 1. 1, p. i20. 



342 LIVRO III, CAPITULO I 

em Garcia d'Orla : «e se acerta em uma cousa erra 
em muitas, como quem diz: Uma no cravo e quatro 
na ferradura...» {ColL.fl, 95.) A relação natural entre 
a Comparação e o Anexim, resulta do desenvolvimento 
psychologico da abstracção dos accidentes concretos, 
e de uma maior capacidade de se elevar da particu- 
laridade a uma conclusão geral. 

Os Ânexins portugmzes. — Segundo Aristóteles, no 
seu tratado sobre os Provérbios, «elles são os restos 
de uma philosophia primitiva, conservados, graças â 
sua engenhosa brevidade, através dos maiores desas- 
tres.» Explicando esta passagem, Egger accrescenta 
que Aristóteles achou «a relação entre estas velhas 
fórmulas do bom senso popular com os costumes e a 
legislação dos povos. D'aqui veiu, que os seus estudos 
sobre a constituição dos Estados tinham muitas vezes 
por fim a explicação de um provérbio ; notável enca- 
deamento das pequenas cousas com as grandes no 
pensamento de um philosopho, como na natureza e na 
historia.» (1) Nos anexins conservados no mais elevado 
gráo de civilisação, persistem os vestígios de estados 
sociaes primitivos, e a forma da concepção psycholo- 
gica do homem emocional. Assim como a couvade' foi 
nas sociedades primordiaes a simulação da paterni- 
dade, também a adopção jurídica se fazia symbolica- 
mente mettendo o adoptivo pelo seio, entre o corpo 
e a camisa ; d'aqui o anexim hoje incomprehendido : 

Filho alheio, 
Mette-o pela man^a, 
Sair-te-ha pelo seio. 

D'este anexim diz Ticknor : «tem por fundamento 

(1) Mem, de LiUerature antique, p. 35. 



MODISMOS, ANEXINS E ABIYINHAS 343 

um costume muito vulgar no tempo dos Sete Infantes 
de Lara, e deve ser pouco posterior ao seu trágico 
fira.» O refrem hespanhol era: Entrcde por la boca- 
manga y sácale por el çabezõn, E também : Metedlo por 
la manga, y salirse os ha por el cabezm. O antagonismo 
entre as duas formas sociaes derivadas ou da orgaw- 
sacão da tribu ou da occupação territorial, acha-se 
reflectido ainda nos anexins populares : Ou gente, ou 
fazenda ; e Quem não mente, não vem de boa gente. 
Este antagonismo apparece no aphorismo latino : ^.PMs 
gentem non habet, » A locução usual : Não é da forma 
do meu pé, corresponde á expressão symbolica da 
egualdade civil, que se usava no direito antigo, 
quando a egualdade entre os esposos se manifestava 
mettendo a mulher o pé na bota do marido. Besta 
ainda a locução : Metter o pé no meio alqueire, para 
significar casamento. (1) Esse outro anexim : D' este pão 
não comerei, d'esta agua não beberei, é derivado do 
costume ainda em vigor na Edade media, com o qual 
se fazia a prova do furto pelo ordalio do pão, e pelo 
ordalio da agua amarga, que como se vê pela Biblia 
servia para a prova do adultério. As locuções Pôr a 
calva á mostra, e Pedra de escândalo, são restos da 
antiga penalidade grotesca da decalvação, e do trans- 
porte de pedras prezas por correntes pelas pessoas 
maldizentes. 

Temos um anexim sem sentido desde que se separe 
dós antigos costumes funerários : Quem espera por 
sapatos de defuncto toda a vida anda desccUso, Escrevia 
João Pedro Ribeiro, em 1835 : «Temos um proloquio 
vulgar — Sapatos de defuncto. Não sei se com isto tem 
alguma relação o que encontrei no Compromisso de 
uma Confraria de Coimbra, que regulando o enterro 
dos Confrades diz, que os Sapatos do confrade fica- 

(l) Vide rétro, p. 99. 



344 LIVRO III, CAPITULO I 

riam ao campeiro.» (1) N'estas Confrarias ou irman- 
dades o campeiro era o qne avisava para o enterro 
tocando a campa pelas mas, competindo-Ihe essa gra- 
tificação. (2) Na Escossia este costmiie está decahido 
em saperstiç3o; Walter Scott, traz nos Cantos popu- 
lares da Escossia uma canção que se canta diante da 
pessoa fallecida, e acompanha-a com esta noticia extra- 
ctada de um velho manuscripto : «crêem que é bom 
dar uma vez na vida um par de sapatos a um pobre ; 
esperando que depois doesta vida se é obrigado a pas- 
sar descalso através de uma grande balseira cheia de 
espinhos e matagal, a nâo ser que pelos méritos da 
esmola indicada se nâo resgate d'esta penitencia. Á 
margem d'esta balseira apparece um velho e vos dá 
os mesmos sapatos que em vida deste aos pobres, e 
calçando-vos podeis com elles atravessar os sitios mais 
ásperos sem vos dilacerardes.» (3) O anexim Mulher 
barbuda^ de longe a saúda^ que se repete na tradição 
portugueza, explica-se pela crença referida por Heró- 
doto, de que em um templo perto de Halicarnasso, 
quando crescia barba á sacerdotisa estava para acon- 
tecer uma grande desgraça. 
Nos anexins populares existem fórmulas do mais 

(1) Reflexões históricas, 1. 1, p. 28. — No seu livro Le Pays 
bosque^ traz Francisque Michel o aaexim vasconço : Morto na 
vala, vivo na sala, que se refere ao costume funerário de ban- 
quetes nas famílias anojadas. Jorge Ferreira, traz na Comedia 
Èufrosina, p 45 : A de Çaragoça, que morreu choratido doilos 
aXheios, referíndo-pe ao costume das carpideiras. No Ca/nàO' 
neiro da VaJticana, n.^" 620, ha uma allusão ao costume de se- 
mear o morto : 

Se assim for, por mim podem dizer 
que fui eu a que semeou o sal. 

(2^ Almanach de Lembranças para 1868, p. 363. 
(3) Chants populaires des frontiêres méridionales de VEcosse, 
U IV, p. 49. 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 345 

completo fatalismo, como : Ninguém pôde fugir á sua 
sorte; Tinha de ser ; O que tem de ser vale muito. Éste 
fatalismo dos povos peninsulares era attribuido ao 
elemento ethnico dos Árabes ; é porém um caracte- 
rístico da raça céltica. Diz Smith, na Historia dos 
Druidas: <0 destino, ou a predestinação era um dos 
dogmas favoritos dos Druidas ; ainda boje os Irlande- 
zes e os montanhezes da Escossia seguem geralmente 
esta opinião que os consola na desgraça. Bha sud an 
dan dauch, — isto estava assim decretado para mim, 
— é uma máxima ou provérbio que accalma as suas 
mais vivas tristezas.» (1) 

Yico interpreta a universalidade e similaridade dos 
provérbios, como consequência de um estado social 
primitivo, de que elles sao a ultima sobrevivência : 
«Deve necessariamente baver na natureza das cousas 
humanas uma lingua mental commum a todas as nações, 
a qual possa designar uniformemente a substancia das 
cousas que participam á vida bumana social, e accom- 
modar-se a tantas modificações diversas como as cou- 
sas podem apresentar aspectos diversos. Effectiva 
mente vemos a substancia dos provérbios, que são 
máximas de scíencia vulgar, serem as mesmas entre 
todas as nações antigas, e o seu aspecto variar segundo 
as diversas modificações d'estes povos.» (2) Erasmo, 
Garibay, Caro e outros concordaram provérbios gre- 
gos e latinos com os adágios dos povos modernos. 
Acontece que os anexins adaptam-se a novas referen- 
cias conservando o seu intuito ; assim se diz : Çamora 
não se tomou n'um dia, que apparece na forma : 

Roma e Pavia 

Não se fez n*um dia. (3) 

(i) Op. cit., p. 29. 

(2) Sâencia nova, liv. r, Estabelecimento dos princípios, xiii. 

(3) Francisque Michel, no Pays Bosque, p. 34, traz a forma 
eoskariana : Roma não se fez em uma hora. 



346 



LIYRO in, CAPITULO t 



 parte comparativa em todos os povos românicos 
presta-se a conclusões immediatas sobre a unidade 
da Civilisação occidental, de que estes povos são her- 
deiros e continuadores. Á mesma região geographica 
deve attribuir-se a similaridade dos anexins meteoro- 
lógicos e agricolas, como á unidade catholica os adá- 
gios communs relativos ás festas do Calendário popu- 
lar; as noções moraes, resultando de um mesmu 
consensus em que a sua existência se basêa, expri- 
mem-se com fórmulas idênticas. Esboçaremos aqui 
essa parte comparativa, mais extensamente tratada 
em uma edição critica do Refraneiro portngmz : 



Arco da velha 
Por agua espera. 

Onde quinta 
Ahi trinta, 
Se ao septimo 
Não despinta. 

Janeiro geoso, 
Fevereiro nevoso, 
Março molinhosp, 
Abril chuvoso, 
Maio ventoso 
Fazem o anno formoso. 

(Del, Adágios, 188.) 

Em Janeiro 
Põe-te no outeiro, 
Se vires verdear 
Põe-te a orar, 
E se vires terreair 
Poe-te a cantar. 

Fevereiro coxo 

Em seus dias vinte outo. 

Lá vem Fevereiro, 
Que leva a ovelha e o carneiro. 
(Delic, Ad,, p. i83). 



Arco da mattina 
Empie le molina. 

La lune est périlleuse au eiuq, 
Au quatrain^ six et huit et vingt 



Janvier le frilleux, 
Février ffresilleux, 
Et Mars le poudreux, 
May clair et venteux 
Font Tan et Tom héureux. 

(Lincy, Prot?.^ 375.) 



Gennaro 

Sali *1 monte e mira *1 piano ; 

Puoco vedi, molto spera ; 

Molto vedi, . 

Puoco spera. 



Febreirino corto 
G*os teus dias veinteoito ; 
Si duraras mais catro 
Non paraba can nin gato. 



i 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 



347 



Março Marçagâo, 

De manhã focinho de cão. 

De tarde, tarde de verão. 

Quando troveja em Março, 
Apparelha os cubos e o braço. 



Abril, 

Aguas mil 

Coadas por um funil 

Dia de S. Martinho 
Prova o teu vinho. 

(Del., 190.) 

Por Natal ao jogo, 
E por Paschoa ao fogo. 
(Delic, i89.) 

Casa quanta mores, 
Terra quanta vejas. 

Dá Deus o frio 
Conforme a roupa. 



Quando Deus não quer 
Santos não rogam. 

O negociante e o porco 
Só depois de morto. 

Duro com duro 
Nao faz bom muro. 



Marzo marzan, 

Pola manhan cara de rosas, 

Pola noite cara de can. 

£n Mars quant il tonne 
Chacun s*eii estonne ; 
En Avril s*il tonne 
C*est nouvelle bonne. 

(Lâncy, Prav.) 

Aprile 
Ogni giomo 
Un barile. 

Dés le Saint Martin 
Boy le nouveau vin. 



Depuís Pasques au jeu, 
Depuis Noêí au feu. 



Casa pe quanto o copre, 
Terre pe quanto ne scuopre. 

— Dieu donne le froid 
selon la robbe. 

— Iddio é buon compagno, 
Manna'l freddo secundo i panni. 

Quand Dieu ne veut 
Le Saint ne peut. 

Avaro e puoreo 
buono quann* é morto. 

Duro con duro 
non fa buon muro. 



Tylor, na sua Civilisação primitiva, cita como um 
dos exemplos das persistências tradicionaes os adá- 
gios: «Mesmo quando o sentido verdadeiro d'estes 
velhos provérbios se obliterou no espirito dos homens, 



348 LIVRO III, CAPITULO I 

e que acabaram por não terem sentido algam, ou que, 
apoderados por qualquer ideia moderna elles recebe- 
ram em apparencia uma significação nova, sua trans- 
missão de geração em geração faz-lbes affectar muitas 
vezes antes um sentido mysterioso que um sentido 
absurdo.» (1) Exemplifica com a locução ingleza : Con^ 
prar porco em saco, tão incomprebensivel como a nossa 
locução Comprar nabos em saco. Continua o illustre 
ethnologo: «Recorramos á mesma chave ethnogra- 
phica para os adágios obscuros que nos apresenta a 
nossa lingna. A expressão Um pêlo docão^efX)s mor- 
deu, não era originariamente nem uma metaphora, 
nem um dito picante, mas uma verdadeira receita para 
curar a mordedura de um cão, e que nos fornece uma 
das antigas e numerosas applicações da doutrina ho- 
meopathica, segundo a qual o que dá a doença tam- 
bém a cura. O mesmo dictado se acha nos Eddas 
scandinavos : O pêlo do cão cura a dentadu.it {Hamor 
vai, 138.) O povo portuguez tem o mesmo dictado, 
com o seu primitivo intuito pratico : «A ferida do cão, 
cura-se com o pêlo do mesmo cão. » Gubernatis escreve: 
«quasi todos os provérbios passaram por formas e 
variantes contradictorias, e é por meio d'estas varian- 
tes que podemos achar nos seus elementos a historia 
de um grande numero d'elles que parecem extrava- 
gantes...» (2) E accrescenta como principio: cUm 
provérbio, na sua origem, não foi senão uma simples 
af&rmação, a expressão pura de uma imagem mythica; 
com o tempo, o mytho foi esquecido, mas a expres- 
são subsistiu ; pareceu então que ella se applicava a 
alguma cousa de extravagante, e foi acompanhada de 
um ár interrogativo indicando duvida ; o provérbio 
serviu desde então para referir uma cousa impossível 



fl! 



Op. cit., 1. 1, p. 96. 

Mythologie zodogique, 1. 1, p. 247. 



MODISMOS, ANEXmS E ADIVINHAS 349 

e torna-se um instrumento de ironia. Por este modo, 
muitos provérbios que tomaram um sentido satyrico, 
d3o deviam ser na sua origem, senão ph rases mythi- 
cas afiSrmativas.» (1) Eis um anexim, apresentado no 
Espelho de Casados, que em uma phrase mytbica afflr- 
mativa consigna a subordinação da vida conjugal : 
cTambem d'aqui veo que se disse a ho niotfnho, ou a 
?io mar: que se foram casados não andaram tanto. i^ 
Temos o caso, em que se esquece a pbrase mytbica, 
e fica o sentido irónico ; do anexim Casa de Gonçalo 
eis uma anedocta da sua appUcação : Tendo fugido a 
mulber ao poeta brazileiro Gregório de Mattos, do 
século xvii, disse elle que a tomaria a receber, com 
a condição seguinte: <E todos os filbos que tiver, 
chamar~se-bão Gmçalos, pois a minba casa é uma Casa 
de Gonçalo. > (2) Aqui o sentido irónico estava implí- 
cito na parte mytbica do anexim já obliterado : 

Casa de Gonçalo, 

Onde pôde mais a gcdlvnha qtAe o gallo. 

Com relação aos conhecimentos meteorológicos os 
Anexins apparecem muitas vezes contradictorios, por 
effeito das modificações introduzidas no calendário; 
diz um provérbio toscano : Santa Luda, il piu corto 
di che sia. No anexim portuguez : O que se não fez por 
Santa Luzia, faz-se n'outro dia, refere-se á mesma 
observação consignada no provérbio italiano, de que 
era o dia mais curto do anuo. O dia 13 de Dezembro, 
em que se festeja Santa Luzia, não é o mais curto do 
anuo ; antes da reforma gregoriana este dia correspon- 
dia ao 20 de Dezembro, sendo este o que quadrava 
com o anexim, porque é n'elle o solsticio do inverno. 

(i) Myth. zoologimiej U i, p. 248. 

(2) Introducção a Hist. da Litteratura brazileiraj p. i23. 



3tfO LIVRO ni, CAPITULO I 

Com a reforma do calendário modi6cou-se o facto e 
ficou inalterado o provérbio. Também se diz na Tos- 
cana : San Bamaba, íl piu tungo delia etá. O dia doeste 
Santo é a 1 1 de Junho, o qual antes da reforma gre- 
goriana correspondia a 20 deste mez em que é o 
solsticio do verão. (1) 

Os anéxins tornam-se iniutelligiveis, quando se 
esquece a circumstancia ou o caso particular que lhes 
d«u origem ; lê-se em Garcia dOrta : «já aconteceu 
em Gochim, porque a um elephante deitou um homem 
umas cascas de coco, e Ih'o quebrou na cabeça, guar- 
dou o bom elephante a casca do coco na bocca, e ten- 
do-a guardada n'uma queixada, vendo o homem que 
lhe havia feito a injuria, Uie arremessou a casca do 
coco com a tromba, e depois veiu em uso o rifão, 
(como dizem os castelhanos) dizerem os homens: 
Ainda trago a casca do coco na queixada^ por dizerem 
ainda me lembra a injuria que me fizeram.» (2) Em 
Lisboa diz-se com um tom offensivo e interrogatório : 
Já deu meio dia em S. Paulo ? o que parece explicar-se 
por este dito de Garcia d'Orta : «Ha umas mentiras 
tao grossas* que não é bem, nem merecem ser repre- 
hendidas, senão leixadas passar avante, até que dêem 
doze badaladas, como relógio de meio dia.» (3) É fre- 
quente encontrar-se nos escriptores do século xvi o 
anexim irónico: Ida de João Gomes; na Pratica de 
Oútò figuras, do poeta Chiado, (fl. 3, v.) repete-se este 

auexim : 

Hi, que nunca vos tomds, 
Não hajaes medo que escorje, 
Ida de João Gomes, ser gella» 
Qiie foi de casa de sella 
E tomou nô seu alforge. 



i) Gubernatis, Myth, des Plantes, t. i, p. 210, not. 3. 

2) Colloquio dos Simples e Drogas, fl. o8, v. 

3) lyidem, «t. 224. 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 351 

Um poeta da corte de D. Afifonso v, chamado João 
Gom«s de Abreu, cujas composições se acham no Can- 
cioneiro de Resende, andando diante dos paços de 
Almeirim a cáracolear a cavaito, caiu de uma rampa 
abaixo, d'ònde foi tirado em deplorável estado; os 
outros fidalgos nos versos improvisados ao serão chas- 
quearam-o em vários apodos, e d'aqui se derivou o 
anexim : Ida de João Gomes, foi a cavaiío e veiu em 
alforge^ que sobreviveu á memoria do personagem. 
Outros anexins histM^icos, que perderam este caracter 
pelo e^squecimeuto do personagem a que se referiam, 
são : Ora não sê perca a Casa dos Bicos ^ (1) allusivo 
ás riquezas da casa de Braz de Albuquerque, de que 
ainda existem as minas em Lisboa; e As rendas do 
Quintelta, allusivo a tím antepassado do conde de 
Farrobo. Por isso que se esqueceu a referencia, em- 
pregam-se sempre com um intuito irónico. Outros 
anexins esquecem-se com os factos a que andavam 
ligados ; di2ia-sé no sechlo xvii : Mãos atadas, terras 
abrasadas, porque no processo da inquisição «os que 
coftfessavam de mSos atadas, estando já entregues aos 
padres, é d'estes é o estado mais perigoso, porque 
como jà não hão de purgar pelo tormento as diminui- 
ções, são obrigados a acertar em todos os que jura- 
ram contra elles, sem lhe faltar hUm ; e por isso é o 
adagio: Mãos atadas, terras abrasadas.» (2) 

Os dois anexins : Com o Rei e a Inquisição, chitão I 
e Da Inquisição para o Rei, não vae Lei, representam 
o estado da sociedade portugueza desde o século xvi 
até á inauguração do regimen parlamentar. O segredo 
de Estado e do processo inquisitória! synthetisam-se 
n'essa interjeição archaica chitão t era prohibido fallar 



(1) á volta do mundo, vol. i, 280. 

(2) N&ticias recôndita^ y posthtifnas de las Inquiúdones de 
Eipana y Portugal, p. 94, aiikio 1722. 



i 



352 UYRO III, CAPITULO I 

do rei e julgar-lhe os seas crimes, sob pena de ser 
enforcado por alta traição ; a intolerância religiosa im- 
poz-se com a mesma impunidade. Qaando a auctori- 
dade civil, pelos regalistas, se libertou da subserviên- 
cia do foro clerical sustentado pelos decretalistas, 
essa transformação deu logar á nova synthese apho- 
ristica : Da Inquisição para o Rei, não voe Lei. 

Os provérbios locaes tomam quasi sempre um cara- 
cter satyrico, como reflexo do espirito hostil entre as 
povoações visinbas. O anexim O burro de Vicente, 
apparece em uma satyra politica do século xvi, contra 
os que venderam Portugal a Pbilippe n : 

Chora sobre o mal presente 
os bens que passados são ; 
já foste asno de Balam, 
oje és burro de Vicente. (1) 

D'esta locução Burro de Vicente conta Gubematis, 
que nas armas da cidade de Vicenze figurava um 
burro, e Pádua na sua rivalidade contra aquella cidade 
empalava publicamente um burro, alludindo assim 
aos seus inimigos, resultando doesta affronta o provér- 
bio vulgar. (2) Eis alguns provérbios locaes com 
caracter de uma hostilidade satyrica : 



Serpe, serpente, Beja, 

Ruim terra, Terra é 

Peor gente. Sem sé. 

Nem fé. 

Os de Arrayolos, Nem ponte 

Grande cabeça, Nem fonte. 
Poucos miolos. 



1 



1) Questões de Litteratura e Arte portugueza, p. 267. 

2) Myth. zoologique, t. i, p. 410. 



MODISMOS, ÂNEXINS E ADIVINHAS 353 

Da Arruda, Justiça 

Nem mulher Sem entendimento ; 

Nem mula ; Rapazes, 

Nem vento, Ladrões em todo o tempo. 

Nem casamento ; 

Diz um anexim local» referindo-se ás cheias da 
ribeira de Figueiró, que nasce na MoureUa, entre 
AlpaMo e Gastello de Vide : 

Quando Fiteiro móe os bolos, 
Mal por todos. 

Quer isto dizer, que os moinhos que estão nas suas 
margens, só moem no inverno e primavera, mas se 
acontece moerem no outomno, quando se o£ferecem 
os bolos de Todos os Santos, as terras ficam enchar- 
cadas e improductivas. (1) E allusivo ao excellente 
pescado d'este rio, ha o anexim : 

o peixe de Figueiró 
Quem o apanha^ come-o só. 

Uma grande parte das vezes os anexins s3o dedu- 
zidos de situações descriptas em fabulas e contos 
populares, como : O Lobo e a Golpdha fizeram uma 
conselha ; e pertencendo ao mesmo cyclo dos poemas 
de Renard : Da peUe aUma grande corréa. E estes, 
referidos a fabulas esopicas : Parirão os montes, nas- 
cerá um rolinho (2) ; Pérolas orientaes, aos porcos não 
as kmceis (3) ; Mais vak magro no mato, que gordo no 
prato, allusivo à fabula do Rato do campo e o Bato 



Íi) item. hist. da ViUa de Niza, t. ii, p. 57. 
2) Comedia Eufrosina, p. 27. 
3) Sá de Miranda, Obras, p. 97, 

23 U 



354 LITBO III, CAPITULO I 

da cidade. Na tradi^o popular portugaeza existe um 
conto baseado em anexins. (1) 

A sancção moral funda-se no automatismo do cos- 
tume, como o revela o anexim : Filho és, peie serás, 
como vires assim farás ; outras vezes esse automatismo 
consiste na imítaçlo material de conformação de actos, 
como n'este outro : Se fores a Roma, faze-te romano; 
ou Dize-me com quem andas, dir4e-hei as manhas que 
tens. A sancção moral, no seu maior desenvolvimento 
consiste especialmente na auctoridade ; é por isso que 
as religiões essencialmente dogmáticas ou auctorita- 
rias, quando perderam a sua base mythica, apodera- 
ram-se como campo de disciplina da sancçao moral. 
A auctoridade como não provém da razão, mas de 
uma imposição de perstigio, é reconhecida nos gran- 
des potentados, eniiSm em toda a ordem de superio- 
ridade, como a riqueza ou a sciencia. D'aqui provém 
que é tanto mais fácil de converter em ditos cele- 
bres, ou proverbiaes as palavras banaes de um homem, 
quanto esse homem exercer o mais alto perstigio da 
auctoridade. As máximas, sobretuck) as que tomam 
uma forma philosophica, têm esta origem individual 
e critica ; todos ainda se riem dos Apophtegmas, que 
começam «Ponderava meu tio padre Frei José Supico.» 
Eirtão anexins empregam-se sempre para justificar 
o acto praticado. O grande Vice-Rei da índia Affonso 
de Albuquerque, o caracter mais implacável da nossa 
historia, e de uma determinação resoluta^ acoberta- 
va-se nos seus juizos despóticos com a auctoridaite 
dos anexins ; d'elle escreve João de Barros, nas De- 
codas (Dec. ii, livr. x, cap. 8): «Era sagaz e manhoso 
em seus negócios, e sabia enfiar as cousas a seu pro- 
pósito : trazia grandes anexins de ditos pêra comprazer 
á gente segundo os tempos e qualidades da pessoa de 

(i) Contos tradicionaes do Povo porkiguez, n.« lOK. 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 355 

eada bum.» Ticknor, provando a antiguidade dos 
anexins hespanfaoes, dá a origem histórica d'este 
refrem, que encontramos nos Autos do Chiado, do 
século XVI : AUá van leyes do quieren reyes.^ Allude a 
um facto dos principios do século xii ; debatia-se então 
a questão magna da preferencia entre o rito mosa- 
rabe da egreja nacional de Hespanba e a liturgia 
romana, e o rei Âffonso vi ordenou a prova do fogo 
para se conhecer qual era a liturgia mais santa. De 
facto passaram os dois rítuaes pelo fogo, segundo a 
tradição, e apesar de ter ficado incólume o livro do 
rito mosarabe, Âffonso vi faltou á promessa, dando 
logar assim ao refrem. (Sarmiento, Mem., § 42.) 

Um outro facto histórico deu origem ao anexim 
castelhano: Ni quito rey^ ni pongo rei, allusivo às luctas 
entre Pedro Cruel, e seu irmão bastardo Henri- 
que II. (1) Entre os refrens coUigidos pelo Marquez 
de Santillana, vem este Mata, que el-rei perdoa y que 
se attribue a D. João ii, quando puniu com terríveis 
assassinatos as duas conspirações do Duque de Bra- 
gança e Duque de Yízeu. O anexim : Quem passa o 
Cabo de Nam, ou voUard ou não, proveiu das tentati- 
vas marítimas para a passagem do cabo do Bojador, 
no tempo do infante D. Henrique ; bem c(xno este 
outro : E das ilhas e conta maravilhas^ o que coincide 
com as primeiras relações da descoberta da ilha da 
Madeira e da crença nas Ilhas encantadas, que che- 
garam a ser doadas em documentos dos reis portu- 
guezes. Na Comedia Eufrosina, de Jorge Ferreira, 
vem o anexim Fidalgo francez não inarOem palavra, 
(p. 60) proveniente das falsas relações de Luiz xi 
com D. Âffonso v; a palavra francesismo ficou na lín- 
gua como synonimo de mentira pérfida. 

A designação mais antiga da poesia aphoristíca ou 

(i) Hist. de la Litteratwra espa^la, t. iit. p. 4i8. 



• • 



356 UVBO III, CAPITULO I 

paremiología em Portugal é o Dito e Ditado^ como se 
deprebende da sua relação com o Dit da poesia da 
Edade media. Em mna Carta do século xy sobre a 
conspiração do Duque de Bragança se lè : <e também 
o Dito que diz : Por tua Lei e Rey e Grey morrerás.^ (1) 
Sá de Miranda emprega a mesma designação : 

Lembra-te de um Dito antigo : 
Que enfada muito a verdade. (2) 

Jo3o de Barros diz de Affonso de Albuquerque, que 
elle usava na conversa Anexins de Ditos. Com o titulo 
de Ditos diversos (vulgo Ditos da Freira) publicou-se 
no meado do século xvi uma collecçSo de sentenças 
de especulação individual. 

Na linguagem popular a designação mais frequente 
é a de Ditado ; em D. Francisco Manuel de Mello yem 
ella empregada: <e nao fazer com que me salte o 
fogo nas barbas, que por ver arder as de meus visi- 
nhos bem podia deitar de molho, como lá diz o Dt- 
todo.i (3) 

O povo emprega a locução : Como dU-o outro ; entre 
os Celtas as principaes máximas eram sempre attri- 
buidas ao Sean'ar, o homem do tempo antigo : Mur 
thu' irt an sean'ar, — como diz o homem dos tempos 
antigos. (4) Formulando as máximas moraes, os que 
as citam dão-lhes sempre a sancção do tempo ou do 
uso antigo. 

Assim como o Dito e Ditado, apparece-nos a sua 
forma culta nos escriptores designando as máximas, 
como Verbo e Provérbio. No Cancioneiro da Vaticana 



fi) Ap. Annaes das Sciencias e das Lettras, 1. 1, p. 4i3. 

2} Obras, p. 229. Ed. 1804. 

3) Feira de Anexins, p. i35. 

(4) Smitti, Hist. des DrtUdes, p. 54, not c. 



MODISMOS» ANEXINS E ADIVINHAS 357 

Yêmos que o Vervo era frequentíssimo no fim do sé- 
culo XIII em Portugal : 

Oaç' eu dizer hau vervo agaysado 
Que o B6m e mal sempre na face vem. 

(Canç. n.» 219.) 

De longas vias muy longas mentiras, 
Est' é o vervo antigo veraadeiro. 

(Ib , n.» 979.) 

e porém diz o vervo antigo : 
A boi velho non Ihi cates abrigo. 

(U)., n.» 1162.) 

Em Gil Vicente e Prestes ccmserva-se a designaçSo 
tomada popular já mal comprehendida : 

Diz mn verso (verbo) acostumado 
Quem quer fogo basca lenha. 

(Gil Vicente, Obras, t. m, p. 371.) 

Dizem lá verbos antigos, 
De mãos filhos máos amigos. 

(Prestes, Autos, p. 251) 

Como diz o berbão antigo 
De sengo — ferros de arados. 

(Idem, ib.j p. 365.) 

Os Provérbios de Dionysio Cato, tao conhecidos na 
Edade media, influenciaram também na nossa littera- 
tura paremiologica; el-rei D. Duarte, no LecU Conselhei- 
ro, traduziu este : «Quem teme a morte perde quanto 
vive.» Por outro lado a erudição clerical citando os 
Provérbios de Salomão, vulgarisou esta designação 
aphorística. Nas Cartas, diz D. Francisco Manuel de 
Mello : «contra aquelle antígo provérbio, de que a tor- 



358 UTRO III, CAPITULO I 

menta n3o excede o porte da embarcação.» (1) Depois 
que no século xv se desenvolveu em Portugal a influen- 
cia da litteratura castelhana, a designação de Rifão e 
Refão tomou-se quasi exclusiva ; o verbo rifar signi- 
ficava satyrisar e improvisar sobre um motte, con- 
forme o sentido do Refran castelhano, que era um 
provérbio glosado. Em uma das Cartas sobre o caso 
da traição do Duque de Bragança, vem : <E fallo isto, 
porque me lembra uns riffões que se dizem : Bento é 
o barão...» Garcia d'Orta, nos CoUoquios dos Simpli- 
ces e Drogas emprega-o com o sentido do refrem ou 
estribilho : <e depois veiu em uso e rifão (como dizem 
os Castelhanos) dizerem os homens : Ainda trago a 
casca do coco na queixada;» (2) em toda a primeira 
metade do século xvi usou-se o Rifão, como vemos 
em Gil Vicente, Trancoso e Prestes : 

Nunca ora ouvi um rifão 
Mais sabido e mais usado, 
Que darem todos de mão 
Se jaz o carro entornado. 

(Sá de Miranda, Obras, p. 246.) 

Me faz usar do rifão 
Dae-lhe o pé... 

(Prestes, Autos, p. 212.) 

Gomo lá diz o rifão. 

(Id., p. 317 e 347.) 

Em Trancoso encontramos: «Todos os refoes são 
quasi sentenças.» «Porém, como diz o rifão: A órfã 
não gosa nem o dia da sua boda.» (3) 



(1) Cartas, p. 211. 

(2) CoUoquios, n. S8, y, 

(3) Historias de Proveito e Exemplo, p. 5i e 116. 



MODISMOS» ANEXINS £ ADIVINHAS 359 

Âs relações dos aphorismos com casos anedocticos 
ou históricos em que se applicaram, ou de que foram 
deduzidos, fizeram com que o titulo áeExempío servisse 
para exprimil-os, quando elles eram simplesmente o 
consectario final. É frequentíssimo em Gil Vicente: 

Porque diz o Exemplo antigo, 

Que a amiga e o amigo 

Mais aquenta que o bom lenho. 

(Obras^ t. iii, p. i27.) 

Diz o Exemplo da velha, 
O que não haveis de comer 
Leixae-o a outrem mexer. 

(Ib., t. III, 137.) 

E diz o Exemplo dioso 
Que — Bem passa de guloso 
O que come o que não tem. 

(Ib., t. III, p. 370.) 

 designação de Anexim e Adagio preponderam na 
segunda metade do século xvi ; vemos em Jorge Fer- 
reira de Vasconcellos : «o anexim antiguo, Tu que 
sees na seda, qual me vires, tal me espera.» (I) Usa-a 
também Diogo do Couto, e chamou-se anexirista o 
que applicava ou anexava a cada caso a sua conclusão 
moral ; o anexim é um desenvolvimento do rifão pela 
força da consoante, como vemos por este dito do sé- 
culo XVI : 

Ande eu quente 
E ria-se a gente, 

ao qual se ajuntou ou annexou mais tarde : 

E quem tiver inveja 
Que arrebente. 

(1) Comedia Eufrosina^ p. 7. 



360 UVRO ni, CAPITULO I 

É por isso que na sociedade culta o emprego dos 
anexins era considerado como falta de delicadeza, 
como o recommenda Rodrigues Lobo na Corte na 
Aldeia. D. Francisco Manuel de Mello, nos Apologos 
Dialogaes o confirma : «toda a pessoa polida deve fugir 
que entre o grão limpo das boas palavras, honestas e 
significativas, se intrometta a ervilhaca e joio tf esses 
anexins próprios de regateiras, etc.» (1) Os eruditos 
consideravam os Rifões e Ânexins como despre- 
zíveis» como toda a outra poesia popular ; o Marquez 
de SantiUana, dá à sua coUecçâo o titulo de Refra- 
nes que dicen las viejas traz d fuego; Gil Vicente 
allude também ao Exemplo da Velha: (t. ni, p. 137), 
Jorge Ferreira, diz — Se nâo anda a velha^ anda a 
pedra ; outros anexins referem-se a esta fonte natural 
das sentenças : «Vá a vdha onde tem d'ir, e volte para 
casa dormir.» É d'aqui que deriva esse desprezo dos 
eruditos. 

No século xvu as máximas tradicionaes eram de- 
signadas pela palavra Adagio^ pela influencia culta da 
Itália. Diz D. Francisco Manuel, nos Apologos dialo- 
gaes: cComo aquelle adagio que dizem da panella e 
da pedra : Dá a panella na pedra, mal pela panella. (2) 
cHa no mundo um adagio que diz — quem bem paga 
é herdeiro do alheio.» (3) Diz o padre Manuel Ber- 
nardes : «Uma das excellencias da língua portugueza 
é a copia de semelhantes adágios, tão claros, tão bre- 
ves, e sentenciosos que podem ser uns como cânones 
ou regras da vida económica, ethica e politica ensi- 
nadas pela experiência.» (4) Nas collecções organisadas 
no século xvii pelo padre António Delicado, em 1651, 



í 



i) Op. cít.^ p. 42. 
;p. 159. 



[2 /wa> p. 

(3) Padre Torquato de Azevedo, Memorias resuscitadas, 
p.307. 

(4) Nova Floresta, t. m, p. 383. 



MODISMOS, ANEXmS E ADIVINHAS 361 

e pelo padre Bento Pereira, em 1655, é o titulo de 
Adágios o que as denomina ; os titulos de Aphorismos, 
ApophthegmaSy Máximas^ Conselhos, Pensamentos, Sen- 
tenças apparecem em obras de elucubração individual, 
abandonando a fonte tradicional pela intenção philo- 
sophica. 

A poética dos Aneímns. — A evolução das formas 
poéticas transmittidas da tradição popular para as 
Litteraturas, conserva-se em todas as suas phases 
nidimentares nas expressões aphorísticas. É nos ane- 
xins que se pôde bem determinar os elementos pri- 
mitivos da morphologia poética, quer na forma da 
qtiantidade e do accento, quer no verso, na estrophe e 
na rima. Existem duas bases de metrificação poética, 
a quantidade, nascida da prosa cadenciada e sua con- 
servação no numero oratório, e a accentuação, prove- 
niente da expressão oral subordinada ao canto ou á 
dansa. Os povos semitas não conheceram o verso e 
apenas se elevaram ás formas cadenciadas pelo parai- 
Idismo ; nas antigas fórmulas sacramentaes religiosas 
e jurídicas as palavras subordinavam-se á cadencia 
das tautólogias ou ao effeito de uma aliteração, como 
se observa na linguagem jurídica dos Romanos. A 
quantidade prevaleceu nas litteraturas clássicas grega 
e latina, e a accentuação nas litteraturas românicas 
por causas históricas da elaboração dialectal e das 
suas origens populares. Nos anexins póde-se bem 
determinar ainda o elemento da quantidade implicita 
na prosa cadenciada e no paraUelismo : 



Mal vae á raposa, quando anda aos gríllos; 
É peor quando anda aos ovos. 

Quando ao gavião lhe cae a penna ; 
Também lhe cae as azas. 



362 UTRO m, CAPITULO I 

Quando mais a vaeea se ordenha» 
Maior tem a teta. 

Um j)ae para cem íilhos; 

E nao cem filhos para om pae. 

O parcUlelismo pôde desenvolver-se em numero 
oratório: 

Casa em que caibas ; 
Vinho que bebas ; 
Terra cpianto vejas. 

Manda o amo ao moço ; 
O moço ao gato> 
E o gato ao rabo. 

Por um cravo se perde uma ferradura. 

Por ella um cavallo ; 

Por um cavallo um cavalleiro ; 

Por um cavalleiro um campo, 

E por um campo um reino. 

O parallelismo também se desenvolve na fõrma 
dithyrambica ou litanica, que se conservou nos hymnos 
religiosos. Na litteratura portugueza temos este género 
cultivado por Gregório Affonso, nos seus Arrenegos, 
em Gil Vicente no Arraes da Barca do Inferno, em 
António Ribeiro Chiado, nos Avisos para guardar, e em 
Jorge Ferreira de Vasconcellos. D'este ultimo transcre- 
vemos a seguinte forma dithyrambica dos anexins: 

Guarde- vos Deus 

Da ira do senhor, 

E do alvoroço do povo ; 

De doudos em logar estreito, 

De moça adivinha, 

E de mulher latina; 

De pessoa sinalada, 

E de mulher trez vezes casada ; 

De homem porfioso. 

De lodos em caminho, 

P de longa enfermidade ; 



MODISMOS, ANEXmS E ADIVINHAS 363 

De physico experimentador, 

E de asno ornejador ; 

De official novo 

E de barbeiro velho ; 

De amigo reconciliado 

E de vento que entra por buraco, 

E de hora minguada 

E de gente que não tem nada. (i) 

Nas Orações e parlendas populares de esconjures 
é onde se observa na sua mais evidente clareza a 
forma dithyrambica ou litanica, que chegou até ao 
moderno lyrismo culto ou subjectivo. 

Dentro da phrase cadenciada peloparallelismovão-se 
destacando novas cadencias pela tautologia, ou repe- 
tição do mesmo pensamento por effeito da necessidade 
do rythmo. Ás fórmulas legaes antigas e modernas 
conservam estas tautologia s como perstigio imperativo; 
nos anexíns s3o ellas frequentíssimas e como que a 
base da sua auctoridade de máxima. Citaremos tauto- 
logias a dois termos : 

Sua alma, sua palma. Semeia e cria 

e A'* r •♦ Terás alegria. 

Seu dito, seu feito. * 

Agua o dá, agua o leva. Amores e dores 

Com pao sao bons. 
Quem leve vae, leve vem. 

fnmpr p corar ^^ ^^^^^^ ® ^^^^^^ 

oTomoVco^meçar. ^stá o vencer. 

O mal e o bem Honra e proveito 

A face vem. Não cabem n'um saco. 

Vejamos as tautologias a trez termos : 

Amor, dinheiro e cuidado 
Não está dissimulado. 

(1) Comedia Eufrosina, p. 43. Ed. Farinha. 



364 UYRO m» CAPITULO I 

Amor, fogo e tosse 
A seu dono descobre. 

A par de rio 

Nem vinha^ nem olival, nem ediflcio. 

Azeite, vinho e amigo 
O mais antigo. 

Game, pão e vinho 
Fazem o velho menino. 

Guerra, caça e amores 
Por um prazer mil dores. 

Outubro, Novembro e Dezembro 
Não busques o pão no mar. 

Touro, gallo e barbo. 
Tudo tem cessam em Maio. 

Existem taiUologias a quatro, cinco e seis termos, 
mas essas acham-se hoje exclusivamente nas parlen- 
das infantis chamadas de accumiUação. 

A aliteração^ em que a phrase cadenciada se apoia 
na repetição de um dado som litteral, apparece nas 
formas as mais primitivas da poesia como um desdo- 
bramento em desenvolvimento exomorpho para o sys- 
tema da rima. Nos anexins, como documentos de 
elaboração poética espontânea, acha-se a aliteração 
com um effeito intencional : 

Terra e torrâo Se chot?e, chot7a ; 

Tudo dá pão. Se nera, nete ; 

Que se não faz t^ento 
Quem dá pão dá pào. Não faz máo tempo. 

Fento e ventura Quem íorío nasce 

Pouco dura. Tarde ou nunca se indirei^a. 

De mal o menos. Casa-^e a íeu contentamento. 



O áSiâQ (fado ; 

O vendicío, vendicío. 



Quem se empena e não tem pena. 
Depois se depena e vive em pena. 



MODISMOS» ANEXINS E ADIVINHAS 365 

Desde que da prosa cadenciada conaeça a des- 
tacar-se o verso^ o ouvido popular recorre ás neumas, 
palavras ou syllabas sem sentido para encherem os 
intervallos da accentuaçâo ; taes são homem, na sua 
forma pronominal, cá, diz, etc. No velho Cancioneiro 
da Vaticana vemos alguns anexins receberem a forma 
poética por meio d'estas cunhas : 

mays oy 
huu verv' antigiio, de mi bem 
verdadeyr*, e cá diz assy : 
Quem leva voe, leve x'ar vem. 

(Canç. n.» 713.) 

De longas vyas muy longas mentiras. 
(Canç. n.» 979.) 

E no Cancioneiro de Resende, escrevem D. Martinho 
da Silveira e Duarte de Brito : 

Porqu' a bom entendedor 
Poucas palavras abastam. 

(Op. cit., 1. 1, 441.) 

Dizem que os escarmentados 
Que se fazem dos arteiros, 

(Ib., p. 319.) 

Adiante exemplificaremos o caso contrario, em que 
se dá a dissimulação do anexim metrificado e rimado 
na prosa. Muitos dos anexins pela sua excessiva vul- 
garidade e universalidade abreviam-se ficando redu- 
zidos a simples locuções ou idiotismos de phrase, taes 
como Casa de Gonçalo, Voltas de Andreza, Burro de 
Vicente, Manha de açougue. Asno morto. Gato escaldado^ 
De telhas adma, etc. 



366 UVRO m, capitulo i 

O systema da accentuação base fundamental da 
poética dos povos modernos, é o que predomina na 
poesia aphoristica ; nos antigos povos itálicos apparece 
o verso medido pelo accento em syilabas tónicas, como 
o verso saturnino, e as nossas redondUhas menor e 
maior têm equivalentes na metrificação latina, taes 
como: 

O verso adonicp, que é pentasyllabo ; 

O verso Pherecratiano, heptasyllabo ; 

£ o Glyconio e Jambico dimetrOy que são octosylla- 
bicos. 

A forma trochaica estabelece uma transição entre 
o accento e a quantidade; Quicherat explica a accen- 
tuação românica como derivada do endecasyliabo 
latino, cujos accentos são na quarta e decima syilabas; 
assim ao verso alcaico é equiparado o nosso endeca- 
syliabo commum á Itália, França e Hespanha, e gene- 
ralisado na litteratura na época da Renascença. A 
accentuação estabeleceu-se nas litteraturas românicas 
pelas suas origens populares, da mesma forma que 
os novos dialectos se basearam sobre a persistência 
da vogal accentuada. Todas as variedades do verso 
moderno acham-se nos Anexins, quando principal- 
mente elles se apresentam na forma de epiphonema, 
divisa ou monostychio. A divisa é a expressão concisa 
de um pensamento tomado como norma de acção; 
como Faire sans dire, Nosce te ipsum^ etc. Os Anexins 
em um só verso deflnem-nos os metros mais frequen- 
tes da poética popular; apparecem em versos de 
quatro syilabas, mais como locuções : 

Gato por lebre; 
Voltas d'Andreza; 

OU nos seguintes dísticos : 

Tu que nâo pedes Uma no papo, 

Leva-me ás costas. Outra ne saco. 



MODISMOS, AN£XINS £ ADIVINHAS 367 

Monostychios de cinco syllabas são já mais fre- 
quentes : 

Sae a acha à racha. 
Quem cala consente. 
Quem dá pão dá uâo. 
Chover no molhaào. 
Pérolas a porcos. 
Usa e serás mestre. 

Monostychios de seis syllabas, temol-os em : 

Dar o seu a seu dono. 
Valia faz discretos. 
O sangue não se roga. 
O bem sôa, o mal voa. 
Quanto tens tanto vales. 
Trazer agua no bico. 

O verso septisyllabo ou de redondilha maior é o 
mais espontâneo em todas as linguas românicas ; fai- 
la-se e improvisa-se n'este verso de um modo incon- 
sciente. Os monostychios abundam : 

Dize-me antes que fo diga. 
Ouro é o que ouro vale. 
Quem tem bocca vae a Roma. 
Pela bocca morre o peixe. 
Bocca que diz não, diz sim. 
Quem bem sé não se alevante. 
Quem tem rabo não se assenta. 
Accordar o cão que dorme. 
Não vou lá, nem faço minga. 

Os versos endecasyllabosj introduzidos nas littera- 
turas peninsulares no século xvi, acham-se com toda 
a nitidez e variedade de accentuação nos auexins popu- 
lares, como verdadeiros epiphonemas : 

Mais vêem quatro olhos do que dois. 
Nos mais velhos está o bom conselho. 
O costume faz nova natureza. 
Não vejo mouta d'onde l(^o saia. 



368 UVRO III, CAPITULO I 

Com outra disposição de accentos : 

Honra e proveito não cabem n*um saco. 
Nem tudo o que diz o pandeiro é vero. 
Conhecer culpa é estrada da emenda. 

O verso alexandrino apresenta alguns símiles, pró- 
ximos da prosa cadenciada : 

De muito desejado é dífflcil a guarda. 
De ruge, ruge se fazem os cascavéis. 

Conhecidas as principaes formas do verso, veja- 
mos a sua coDstrucção strophica em parelhas ou dí- 
stico, em terceto ou tríada, na qttadray na quintilha. Os 
escriptores portuguezes desde o século xni até ao 
presente conheceram a metrificação dos anexins popu- 
lares glosando-os nas suas composições; isto basta para 
authenticar esta forma poética, que é consciente e nao 
casual. Na estrophe o verso apparece-nos ora assonan- 
tadOy ora rimado, porém a assonancia é a forma 
exclusiva do povo : 

Palavras sem obras Arca aberta, 

Cithara sem cordas. Justo pecca. 

Amigos e mulas 

Falecem a duras. i»* jt i 

Arde o seco ^^"^ P®*^ ^^^®- 

Pelo verde. 

Qual o tempo A pão duro 

Tal o tento. Dente agudo. 

Quem faz a casa na praça 

Uns dizem que é alta, outros baixa. 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 369 

Rimas perfeitas apparecem com abundância : 

Filho alheio, Quem compra e mente 

Braza em seio. Na bolsa o sente. 

£m que seja tosca De pequena bostella 

Bem vejo a mosca. Se levanta a mazella. 

Quer em jogo, quer em sanha Arrobas não são ^uíntaes. 
Sempre o gato mal arranha. Nem as cousas sao eguaes. 

Excusamos de apresentar exemplos dos disticos 
em outros metros, porque os que acima ficam são os 
verdadeiramente populares. Na forma do distico appa- 
rece o Dialogo^ como o rudimento dramático que dá 
movimento e acção ao pensamento abstracto da moral : 

Diz a abelha : — Traz-me á cavalleira, 
Dar-le-hei mel e cera. 

«Oh minha mãe, que cousa é casar? 

— Chorar, parir e fiar. 

«Gomo criaste tantos filhos ? 

— Querendo mais aos mais pequeninos. 

A forma strophica de terceto ou triada teve um cara- 
cter augurai ; é frequente nos anexins : 

Pouco fel Ama quem te ama, 

Faz amargo Responde a quem te chama, 

Muito mel. Andarás carreira chã (plana). 

Quem me quer bem Quem te não roga 

Diz-me o que sabe. Nem voga 

Dá-m* do que tem. Não lhe vás á boda. 

Nora rogada Se queres que a fruta 

E panella repousada. Mal te não faça 

Não a come toda a barba. Mette-lhe massa. 

24 U 



370 LI¥RO III, CAPITULO I 

Antes que cases Lenha verde 

Olha o qae fazes^ Nem se qaeima, 

Qae não é nó qae desates. Nem aceende. 

A forma da quadra apresenta-se com ama exube- 
rância espontânea : 



Amores Quem te faz festa 

E dores, Nao usando fazer, 

Com pao Ou te quer enganar, 

São bons. Ou te ha mister. 

Aquelle te deu Com arte e com cigano 

Aquelle te dará; Se vive um anno ; 

Mal o haja quem Com engano e com arte 

De seu não ha. Se vive a outra parle. 

Não cries gallinha Em Janeiro 

Hu mora raposa, Mette obreiro. 

Nem créas lagrima De meado em diante 

De mulher que chora. Que não d*antes. 

Março ventoso, 
Abnl chuvoso, 
Maio amoroso. 
Fazem o anno formoso. 



A estrophe em quintilha é também notável pela 
collocação do conceito picante : 



Horta sem agua. Pelo Natal 

Casa sem telhado. Se houver luar 

Mulher sem amor, Senta-te ao lar ; 

Marido sem cuidado Se houver escuro 

De graça é caro. Semeia outdros e tudo. 



A sextilha apparece nos anexins contendo regras 



MODISMOS, ÂNEXINS E ADIVINHAS 371 

OU observações praticas, como os aphorismos da la- 
voura : 

Em Janeiro A festa do Natal 

Sobe ao outeiro ; Atraz do lar ; 

Se vires verdejar, A da Paschoa, 

Põe-te a chorar ; Na praça; 

Se vires terrejar A do Espirito Santo 

Mette-te a cantar. No campo. 

A estrophe de sete versos é puramente accidental ; 
comtudo ainda podemos apresentar um exemplo : 

Estopa avelada, Nem a cunhada, 

Lã crameada, Porque nunca d'ellas 

E farinha coada, Serás bem julgada. 
Não a mostres a sogra 



As outras formas de outava e de decima não são 
populares; nos anexins, depois das formas acima 
exemplificadas, a estrophe dissolve-se na forma dithy- 
rambica, monorima ou emparelhada. 

A dissolução da forma poética nos anexins portu- 
guezes voltando á prosa, começa pela rima e acaba 
pelo verso. Dá-se egual phenomeno com os Romances 
heróicos. Citaremos alguns exemplos : 

Tanto dá a agua na pedra 

Até que quebra, (dissol.: até que fura*) 

Tantas vezes vae o cântaro á bica (á fonte) 
Até que lá fica (até que quebra.) 

Tantas vezes vae o cântaro á fonte 
Que lá deixa a fronte. 

Cunha nova 

Bota a velha fora. (Bota fora a cunha velha.) 



• • 



37SÍ LIVRO III, CAPITULO I 

Em casa de ferreiro 

Peor apeiro. (Espeto de pâo.) 

Cobra fama 

E deita-te na cama (deita-te a dormir.) 

O phenomeno da dissolução poética pôde demon- 
strar-se pela aproximação de formas mais antigas do 
refraneiro hespanhol ; assim lá encontramos : 

El usar 
Hace oficial. 



E nós dizemos : < Usa e serás mestrei» sem a forma 
poética. O mesmo com a divisa : ^Antes quebrar que 
torceria consagrada por Sá de Miranda, e que em Hes- 
panha tem a forma poética : 



Antes quebrar 
Que doblar. 



Este outro : 



No quiero, no quiero, 

Pêro echamelo en el sombrero 



temoI-0 ainda com forma poética : 

Não quero, não quero 
Botae-m'o aqui no capello. 

e dissolvido em prosa : «JV3o qttero, não quero, bo- 
tae-nCo aqui na mão.* O mesmo com este outro ane- 



MODISMOS, ÂNEXINS E ADIVINHAS 373 

xim: ^Sonha o cego qtie vé, porque o deseja; e em 
hespanhol : 

Sonaba el ciego que via 
y sonaba Io qae queria ; 
o yeran Ias ganas 
que de ver tenia. (!) 

Nos Refranes^ coUigidos no século xv pelo Marquez 
de Santillana, vem : 

Dime con quien andavas 
É decir-te-he que hablavas. 

Em Portugal está dissolvido ua prosa: ^Dtze-me 
com quem andas ^ (lidas) dir-te-hei as manhas que tens. » 
E este : <Z)á Dem nozes a quem não tem dentes^i^ cuja 
forma poética traz Santillaua : 

Dió Deus fabas 

Á quien non tiene quixadas. 

E este : « Vcu)-se os anneis e fiquem os dedos ji^ ao qual 
corresponde a forma mais antiga : 

Si se perdieron los aníUos 
Aqui fincaron los dedillos. 

€Mais vaie um toma, que dois te dareh este anexim 
seguiu as transformações da linguagem : Mais vale um 
ávache (Jorge Ferreira), mas ainda assim veiu-nos in- 
completo, como se deprehende da forma colligida por 

Santillana : 

Faré, faré ; 

Mas vale un toma, 

Que dos te daré. 

(1) Rodrigues Marin, Cantos populares espanoleSj U ii, p. i86. 



374 LIVRO III, CAPITULO I 

As allusões e referencias litterarias dos escriptores 
assim como iofluiram para a conservação dos Anexins 
populares, também determinaram certas alterações já 
para as glosas dos seus versos, já acompanhando as 
modificações da linguagem em cada época. A littera- 
tura dos anexins é importante em Portugal e os nossos 
principaes escriptores foram os que mais se aprovei- 
taram d'este rico veio tradicional para opulentarem 
a lingua com locuções fecundas. 

As Adivinhas populares. — A universalidade dos 
enigmas, desde as sociedades mais atrazadas, como 
a dos povos selvagens, até ás altas civilisações, em 
que o povo conserva em uma inconsciência espontânea 
as tradições primitivas, revela-nps que este producto 
da imaginação não nasceu como um divertimento sem 
intuito. O Enigma ou Adivinhação é o exercicio de 
uma linguagem mythica, em que as relações de ana- 
logia são um rudimento de especulação e um primeiro 
estimulo mental ; a somnia das comparações já esta- 
belecidas constituo um saber geral que se transmitte 
tradicionalmente por perguntas de iniciação. Este modo 
de vér applica-se principalmente ás Adivinhações que 
têm paradigmas na triídição de todos os povos. Ha 
no génio popular um trabalho constante em que o 
poder de aproximar analogias se exerce ainda, como 
uma faculdade mental de mythificação. Por isso nas 
adivinhas ainda as mais recentes, o que primeiro se 
observa é uma personificação do objecto material pro- 
posto para enigma, e a relação de analogia mais ou 
menos imprevista ; assim para exprimir o Céo, as 
Estrellas, a Lua e a Noite, formula-se uma adivinha 
(Amarante) : 

Campo grande, 
Semente meuda, 
Menina bonita, 
Loba gadelhuda ? 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 375 

Em muitas adivinhas populares encontra-se a pri* 
mitiva concepção do universo, tal como se acha nos 
monumentos da civilisaçao árica ; para exprimir o Géo, 
as Nuvens, o Sol e o Vento, encontramos uma adivinha 
nos arredores do Porto e em Rezende : 

Curral redondo, Campo redondo, 

Vacas ao lombo, Ovelhas ao longo. 

Moço formoso Pastor formoso. 

Cão ravinhoso ? CadeUo raivoso ? 



Coincide com a concepção védica : o currcU redondo 
é o céo, conforme a impressão que produz em quem 
o observa na sua maior largueza ; vacas ao lombo, 
são as nuvens brancas ou negras, que dão a abun* 
dancia, segundo os hymnos do Rig-Veda ; moço for- 
moso é o sol, o louro Surya, que defende as vacas 
contra o cão ravinhoso, que é o vento que as dispersa 
no espaço, como que roubando-as. Aqui temos a adi- 
vinha, em que o mytho se desenvolveu no sentido 
theologico ; outras vezes a Adivinha é uma acção pra- 
ticada por um heroe por onde manifesta o seu intuito. 
No canto de Gtult^na, dos Eddas, Rauduer é man- 
dado matar por seu próprio pae, mas antes de morrer, 
o filho envia-lhe o seu falcão querido inteiramente 
depenado ; quando Hermannãrick viu o presente que 
lhe mandava o filho, comprehendeu o sentido e disse : 
«Assim como este falcão perdeu as azas com que voava, 
eu perdi o filho que sustentava o meu reino. » Na his- 
toria romana, a resposta muda de Tarquinio decepando 
com o bastão as papoulas mais altas, é uma expressão 
heróica enigmática. O desdobramento de certos mythos 
em Contos, faz com que existam contos baseados sobre 
Adivinhas ; é ao que na Allemanha se chama Rãthsd- 
mãrchm, e d'este género diz Machado y Alvares, que : 
«tanto em Portugal, como em Itália, Allemanha e 



376 LIVRO III, CAPITULO I 

Grécia, como em Hespanha, existem Contos de Adi- 
vinhas...» (1) Por fim a Adivinha basêa-se sobre 
problemas aríthmeticos e equivocos de linguagem; 
assim achamos em D. Francisco Manuel de Mello : 

Se esta cotovia mato 
Faltam-me trez para quatro. (2) 

A forma das Adivinhas é geralmente métrica, como 
elemento indispensável para a transmissão oral; a 
base das analogias é a personificação anthropamarphica, 
e os dados comparativos sao tirados dos objectos que 
correspondem aos vários gráos da civilisação, podendo 
por elles remontar a cadeia da historia. Desde que 
outros problemas preoccuparam a intelligencia hu- 
mana, e que as relações de analogia foram substituídas 
por processos lógicos de analyse, os Enigmas decahi- 
ram do seu fim serio em divertimento de convivência, 
foram elaborados nas litteraturas, passaram das cama- 
das sociáes mais instruídas para as incultas, e trans- 
mittidos automaticamente pelos velhos receberam a 
sympathia das crianças como o estimulo natural das 
suas primeiras especulações da intelligencia. 

Tylor, nas Civilisações primitivas^ reconheceu a rela- 
ção entre o Enigma e o Mytho religioso, citando o 
exemplo do Oráculo de Delphos, que ordena a Temenos 
que entregue o exercito para ser guiado por um homem 
com trez olhos; Temenos interpretou o oráculo tomando 
como guia um zarolho que ia a cavallo. Tylor deter- 
mina este enigma em um mytho scandinavo proposto 
por Odin ao rei Heidrek : «Quem são os dois que vão 
á assemblêa com trez olhos, dez pés e uma cauda? 
— Odin, que é cego de um olho, montado no seu 

(1) Demofilo, Colleccion d' Enigmas, p. 306. Sevilha, i880. 

(2) Feira de Anexins, p. 156. 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 377 

cavallo SkipniTj com outo patas.» (1) A palavra inter- 
pretação^ segundo Viço, é a explicação dada pelo padre, 
o qae leva á inferência, que a constituição sacerdotal 
se baseou em quanto à synthese especulativa em 
explicar os Enigmas com que se velavam por vezes os 
mythos religiosos, ou também as respostas ambiguas, 
allegoricas e capciosas dos Oráculos. 

Os Enigmas acompanharam sempre a vida social 
até tornarem-se themas de litteratura ; da sua gene- 
ralidade resultou essa universalidade com que os 
mesmos enigmas se repetem entre os povos do Occi- 
dente. Strabão fallando dos mineiros turdetanos e da 
superioridade dos seus trabalhos em relação aos pro- 
cessos da Attica, diz que tiravam melhores vantagens: 
«Emquanto estes, na verdade, parecem realisar o 
celebre enigma : Não tiveram o que esperavam ter, e 
perderam o que tinham ? os turdetanos auferem enor- 
mes lucros das suas minas.» (2) Na litteratura grega 
existiam comedias de enigmas, iniciadas por Gratinas, 
por ventura imitando os usos domésticos e os diver- 
timentos dos banquetes. (3) 

A aristocracia portugueza usava certos divertimen- 
tos à maneira de Perguntai, como os Devinalls pro- 
vençaes; na Vida de Manuel Machado de Azevedo, 
cunhado de Sá de Miranda, descreve-se um banquete 
dado em Crasto, indicando algumas perguntas que se 
fizeram á meza. «Qual es el mayor engano? — El 
mundo y la pintura. Qual la mayor salud ? — El tenerla. 
Qual la mayor riqueza? — El desprecialas. Qual la 
mayor pobreza? — Desear riquezas...» No folheto da 
Donzella Theodora, de origem árabe, commum á He- 
spanha e Portugal, ha um certame de Perguntas e 



(i) Civilisations primitives, 1. 1, p. iiO. 
(2Í Geographía, liv. iii, cap. i, § 9. 
(3) G. Goizot, Menandre, p. i41. 



378 LIVRO III, CAPITULO I 

respostas dadas a vários sábios : — «Qual a cousa mais 
pezada do mundo? A divida. — Qual a cousa mais 
aguda? A lingua do homem e da mulher. — Qual a 
cousa mais apressada que a seta ? O pensamento.-7 
Qual a cousa mais dura que o ferro? A verdade...» £ 
curiosa a aproximação d este conto árabe com os cos- 
tumes da aristocracia portugueza no século xvi ; por 
esta relação seguiremos a sua manifestação na litte- 
ratura e na vida popular. No Auto pastoril castáhanoj 
de 1502, traz Gil Vicente uma scena sobre o diver- 
timento das adivinhas : 



Bbâz : Joguemos a adivinhar. 

Lucas : «Que me plaz. 

Braz : Di, companero. . 

Mas comíence Gil prímero. 
Gil : Que me plaz de comenzar. 

Gomenzad de adivinhar. 
Luc: Qué? 

Gil : Sabello has tu muy mal : 

Qual es aquelle animal 

Que corre y corre, y no se ve? 
Braz : Es el pecado mortal. 
Math.: Mas el viento, mal pecado, 

Creo yo que será ese. 
Lucas : Que no es buen juego este ; 

Demos este por passado. (1) 



Na Grammatica de João de Barros, de 1538, encon- 
tra-se esta Adivinha quasi universal : 

Ainda o paenão é nado, 

Já o filho anda por cima do telhado ? 



Ainda não está bem ateado o^ogo, e já o fumo 



(1) Obras, 1. 1, p. 15, 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 379 

atravessa a telha-van dos casaes da aldéa ; na Gata* 
luDha, segundo Milà y Footanals, diz-se : 

Qu'es aixo : El padre no è nato, 

II pare encara no est nat, El njo stà sul tetto. 

Qu el fill ya corra pel terrat ? (i) (Gianandrea, En. 24.) 

D. Francisco Manuel de Mello^ nos Apologos dialo 
gaeSy {^. 7) traz esta adivinha do Relógio, ainda hoje 
popular : 

Todos o crêem En alto vive, en alto mora, 

Nenhum o adora ? En él se cree, y no se adora ? 

(Marin, CarU.^ i, 769.) 

Falta-lhe aqui o começo : Alto está, — alto mora. 
Também nas Cartas familiares^ (p. 339) traz esta outra 
adivinha da Chave : 

Tamanho como um camarão. 
Guarda cem moios de pão ? 

Ainda hoje no Alemtejo se diz : 

Qual é a cousa, qual é ella, 
Que é tamanha d*um ouçáo, 
E guarda cem moios de pão ? (2) 

Este elemento tradicional está representado na 
Litteratura portugueza em um livro extremamente 
raro, que se intitula Passatempo honesto de Enigmas 
e Adivinhações^ por Francisco Lopes ; a primeira edi- 

(i) Demoíilo, Colleccion de Enigmas^ p. 354. Rolland nas 
Devinettes ou Enigmes populaires de laFrance, p. 155, traz outra 
variante; vid. o estudo de Kôhler, no Orient und Occident, 
vol. II, p. 688, e na Melusine, vol. i, col. 200, apontando-se este 
mesmo enigma na Finlândia, na Albânia e na Servia. 

(2) A. Thomaz Pires, Adivinhas portuguezas da tradição oral 
do Alemtejo, n.° 5i; cita uma variante hespanhola, em Rodri- 
gues Marin, n." 627. 



380 LIVRO III, CAPITULO 1 

çao é de 1603, pelo que se pôde inferir que a tradiç3o 
n'elle contida pertence totalmente ao século xvi, em 
que a litteratura tanto se inspirou nas fontes popula- 
res. Nas Adivinhas que se lêem n'esta collecção eru- 
dita, acham-se por vezes formas que se dissolveram 
ou provieram de versões oraes ainda hoje persistentes 
no povo. Comparemos a adivinha dos Alfinetes : 

Somos quinhentos soldados Nao já para pelejar 

De nossas armas compostos, Porque não somos temidos. 

Todos cobertos e armados, Antes de damas queridos, 

Em fileiras ordenados. Que nos põem n'um alto logar 

E n'um campo branco postos. Onde andamos escondidos. 

(Part. i, n.«» 8.) 

Eis como o auctor do Passcdempo honesto se ex- 
plica : «Um papel de alfinetes, tem quinhentos ; todos 
armados, porque são de metal ; e postos no papei, 
que é o campo branco ; em fileiras não para pelejar ; 
nem são temidos, antes as mulheres os estimam e 
põem na cabeça.» (p. 60.) Eis como se repete na 
versão oral do Alemtejo : 

Quatrocentos soldados 
Formados n'um campo branco, 
Nós não somos destemidos, 
Somos das damas queridos, 
Que nos trazem em salvos logares 
D'onde andamos escondidos ? (i) 

Duzentos soldados armados 
No campo grande estão formados ? 

Regimento de soldados 
Todos n'um campo formados, 
De nobres damas estimados 
Postos em altos logares? 

(Porto.) 

(i) A. Tbomaz Pires, Adivinhas do Alemtejo, n.« 58 e 59. 



MODISMOS, ANGXINS E ADIVINHAS 



381 



Entre a forma litteraria de 1603 e a versão oral 
existem versos communs, phenomeno importante para 
o conhecimento da elaboração tradicional. Na adivinha 
do Sal, traz Francisco Lopes as quintilhas : 



Sem ser carne nem pescado 
Sou dentro d'agua nascido, 
E se depois de creado 
For a minha màe tornado 
Serei logo consummido. 



E sem tanger nem cantar 
A todos dou muito gosto, 
Que sem mim não na gostar. 
Mas escondido hei de andar 
Em outro trage decomposto. 



Eis como esta adivinha do Passatempo honesto se 
repete na tradição popular do Sardoal e Alemtejo : 



Venho das ondas do mar 
Nascido na fresquídão, 
Não sou agua, nem sou sol. 
Trago o tempero na mão. (!) 



Eu fui nascido no mar 
Sem ser peixe, nem pescado ; 
Se eu tornar a minha mãe 
Serei logo consummido. 
Eu vivo só n'este mundo 
N^este trajo descomposto, 
E sem cantar nem bailar 
A tudo dou muito gosto. 

Estes factos nos obrigam a transcrever mais algu- 
mas adivinhas litterarias do Pasatempo honesto, antes 
de reunirmos aquellas colligidas das versões oraes 
em todas as províncias de Portugal : 



o DIA E a NorrE : 

Um homem e uma mulher 
Grandes inimigos são, 
Que nunca se podem vér, 
E ambos sem aescansar vão 
Um apoz outro correr. 

Elle é formoso e bello 
Como a folha de uma rosa ; 
Ella nunca pôde vél-o, 
E é tal que lhe põem o sello 
Da mais feia e mais perigosa. 



os BfEZBS : 

Uns certos filhos nasceram 
No mundo sem pae nem mãe, 
Que um mesmo nome tiveram, 
E ao tempo que feneceram 
Logo fizeram seu i)ae. 
Com um só dia, mais oumenos 
Que todos chegam a ter, 
Morrem sem se vôr, pequenos. 
Porque não pôde ser menos 
Para seu pae vir a ser. 



(1) Thomaz Pires, Adiv,, n.« 46. 



3d2 



LIVRO III, CAPITULO I 



A SBMÀNA : 

Cinco irmãs e dous irmãos 
Que sempre um traz outro vem, 
Dão á mãe o nome que tem, 
Porque só d' entre os christãos 
Mana o seu nome também. 
O mais moço que é mais nobre 
Deus em descanso o criou ; 
E o nome antigo dotou 
A outro irmão, por ser pobre 
Seu trabalho o sustentou. 



o ANNO : 

Quatro filhos de um pae são, 
Em nome e ser differentes. 
Alegre um d'elles verão. 
Com uma prima pela mão. 
Verdadeira para as gentes. 

O outro tem nome Des 
Tio é d*alegre dama; 
O outro chorando o ves 
O outro por um tom se chama 
Castelhano ou portuguez. 



o MOVELLO : 

Fiei-me d'uma mulher, 
E por estar confiado 
Foi causa de me perder. 
Que acabei despedaçado 
E cosido em seu poder. 

E quando estava encolhido 
Sem mostrar pés nem cabeça, 
Então mais fui conhecido, 
E foi meu corpo partido 
Como digo, peça a peça. 



o alho: 

Já vistes em muita gente 
Nascerem como eu nasci. 
Do ventre da mãe com dentes, 
E comem-me mil contentes. 
Mas eu a todos mordi. 
Quemnasce assim doesta sorte 
É signal de forte gente. 
Assim nasci eu bem forte. 
Mas não me viram até á morte 
Mais que cabeça somente. 



A predilecção litteraria pelas Adivinhas continuou-se 
além do século xvii ; no livro de Soror Maria do 
Céo, Enganos do bosque, desenganos do rto (1741) vêm 
sob o nome de Adágios uma collecção de trinta e 
cinco enigmas. (1) Eis o da Luva : 

Eu sou um odre de vinho, 
pelo nome e pelo sér, 
se me quereis entender 
na mão tendes o adivinho. 

E explica-se : «Uma luva, é vinho pelo nome, que 



(1) Servimo-nos para esta noticia do artigo do dr. Sousa 
Viterbo, no Commercio portuguez, n.« 277, de 1882 (vn anno.) 



MODISMOS 9 ANfiXINS E ADIVINHAS 383 

acaba em uva, odre pelo ser, porque é de couro, na 
mão está a adivinhação, porque se calça n'ella.> Na 
versSo oral, a luva é objecto de uma adivinha pica- 
resca, cujo género se caracterisa por esta outra que 
Filinto Elisio traz em uma nota das Fabulas de La- 
fontaine : 

Qual é a cousa, qual é eUa ? Un cazador 
Tem o cantar de perdiz, Y no de perdlces, 

Põe a mira ao calcanhar Que apmita a las corvas 

E acerta com o nariz ? Y da en las narices ? 

(Marin, Cantos, i, 334.) 

Assina evolutivamente veiu a corrente litteraria a 
encontrar-se com a tradicional, tornando-se este estudo 
um objecto scientifico, não só pelo critério compara- 
tivo com as versões de outros povos, como pelas con- 
clusões de ethnologia e psycbologia a que conduz. 

Âs Adivinhais têm uma grande vitalidade nos costu- 
mes populares da peninsula ; na Galliza chama-se-lhes 
Acertijos^ nome tomado do sentido certo que se pro- 
cura; no castelhano antigo e moderno são Adivifíanzas; 
na Catalunha e Valência EndevinaUas ; em Ribagorza 
DivinetaSj e nas Astúrias Cosadielles. As Adivinhas 
portuguesas são na sua quasi generalidade variantes 
de typos conaimms aos povos occidentaes. Esboçamos 
o processo comparativo : 

(i) Burro de ferro, (2) Serra na cabeça. 
Albarda de linho, Foueínha no rabo, 

Tiquele, tiquele Adivinha, tolo. 

Com um pausinho ? Que é gallo ? 

{A candea; Minho.) (O gtdlo; Açores.) 



(1) Besta de ferro, (2) Fouce n'o rabo. 
Albarda de linho E serra n'a testa ? 

Tizalle, tizalle Qué cosa e esta? 

Cum garabullino ? (Má., op. cit., p. 342.) 

(Galliza ; Demofilo, 
C(^. d'Enigmas, p. 339.) 



384 



UVRO III» CAPITULO 1 



(3) Campo branco, 
Semente preta, 
Cinco bois 
A uma chavelha ? 

(Papelj tinta, dedos, 
penna.) 

Cinco arados, 
Uma aradeta, 



Terra branca, 
Semente preta? 

(Var., Alemtejo.) 

(4) Branca por fora, 
Branca por dentro, 
Alço a perna 
Metto-lh'a dentro ? 

{As ceroulas,) 



(3) Leira blanca. 
Semente negra. 
Cinco cabezallas 
E unha chavella ? 
(Ib., p. 343.) 

El camp es blanch, 
La llavo' es negra, 
Cinq son eis bous, 
que tiran la relia. 
(Ib., p. 357.) 

Cinch son los bous 
Que Tarada menan ; 
Lo camp es blanch. 
La liava es negra f 
(Mallorca, ib., p. 359.) 

Campo blanco 
Simiente negra, 
Y cinco boyes 
Aran con relia ? 

(Marin, Cantos, 1. 1, 
p. 282.) 

Campo bianco, 
Semenza negra, 
Doi la guarda, 
E cinque la mena ? 
(Itália, Indovinelli de 
Trevigi, n.» 63.) 

Blanc est le champs, 
Moire la semance, 



L*oume qui le semme 
Est de três grant science. 
(França; Rolland, 
Dev,, n* 250.) 

(4) Pêlo por fora, 
Pêlo por dentro, 
Érgom*a perna 
Meto-a n'o médio ? 

(Galiza ; Demofílo, 
Enig,, p. 344.) 

Pelosa de fora, 
Pelosa de drento, 
Alza la gamba 
E mettela drento ? 

(Itália ; Gianandrea, 
Enig. 15.) 

Poil dehors, 
Poil dedans^ 
Leve la jambe 
Fourre la dedans ? 

(França; Rolland, 
n.» 135.) 

Bourrut defora, 
Bourrut dedins, 
Aussa Ia camba» 
Mets la dedins? 

(Languedoc ; Roque 
Ferrier.) 



\ 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 



385 



(5) Quatro na cama. 
Quatro na lama, 
Dois que ]'assistas, 
E um que Tabana f 
(Minho ; O hol) 



Dois pés na cama^ 
E dois na lama ; 



E dois parafusos 
E um que lh'abana? 
(Foz do Douro : id.) 

(6) Mae pequena, 
Pae grande, 
Filho negro, 
Neto branco ? 

(Minho ; Pinheiro e 
sementes,) 



Peu dehore, 
Peu dehens ; 
Lhèbe la carne, 
Hique Ty dehens ? 
(Beam; Lespy, en., xii.) 

Pelludo por fora, 
Pelludo por dentro, 
Viene la garra 
Y se hi fica dentro. 
(Ribagorza ; Dem., íb., 
p. 396.) 

Pelut per fora, 
Pelut per dins, 
Alsa la cama 
E fícalins dins ? 
(Valência ; íb., p. 369.) 



(5) Guatro andantes, 
Guatro mamantes, 
Un quitamoscas 
Dos apuntantes. 

(Andaluzia; Marin, 
Can^o^^ i,p. 203.) 



Guatro terrosas, 
Guatro melosas, 
Dos huixaracans, 
Y un huíxaramoscas ? 
(Ribagorza; ib., p. 382.) 

25 



Dos miras, miras. 
Dos varas, varas, 
Un ventamoscas, 
E quatre mengalas ? 
(Gatalunha; ib., p. 357.) 

Dos pnnxentes. 
Dos mentes, 
Guatre tups, tups, 
Yunventadordemosques. 
(Mallorca ; Demofílo, 
ib., p. 363.) 

(6) Grand père. 
Rude mère. 
Et petit enfant 
Habillé de blanc ? 

(França; Roland, 
Deo., n.« il2.) 

Altos padres, 
Ghicas madres, 
Híjos prietos, 
Blancos netos ? 

(Andaluzia ; Marin, 
Cantos, I, n.*" 464.) 

El pare es gran, 
La maré xica, 
Eis fílls son negres, 
Yls nets son blanchs ? 
(Gatalunha ; Dem., 
p. 355.) 



386 



UYRO III, CAPITULO I 



(7) Uma velhinha 

Muit* encurrilhadinha, 
Encostadinha, 
A umatranquilha? 
Passa, asno, 
Passa é ! 

Adivinha o que isto é ? 
(Minho ; a Passa.) 

(8) Nasce no Monte 

E vem cantar a casa ? 
(Minho: A dobadoura.) 

No mato nasce, 
No mato se cria, 
E vem para casa 
Dar ais com alegria ? 
(Castello de Vide : 
Dobadoura,) 



(9) No alto estás, 
Do alto me miras ; 
Comer me querias 
Mas não poderias ; 
Mas tu irás 
E eu ficarei, 
E tu deixarás 
Onde me meterei ? 

(Minho : A cabra, o 
centeio e o folie.) 

(iO) Uma casinha hranca, 
Sem porta nem tranca? 
(Minho : O ovo.) 

(11) Casinha encarnada 

Sem porta nem sacada ? 
(Alemtejo : A laranja.) 



(7) Unha vélla arrugadinha, 
No cucinounhatranquina. 
Que se Ha bica o senor, 
Non asi o labrador, 
E ben quixera el, á fé, 
Adivina o que isto é ? 
(Galliza; Dem., p. 348.) 

Una vieira gurrumbina 
Tien atrás una tranquina, 
Pasa ye. 

Kl que non adivine burru y é ? 
(Astúrias ; ib., p. 378.) 

Una biejecita 
Muy arrugadita, 
Y en er cu 
Una tranquita ? 

(Andaluzia ; Marin, 
Cantos, f, n.® 471.) 

Quês aixo : 
Una vella arenzadeta, 
Que porta una estaqueta? 
(Catalunha; Dem.,p. 352.) 



Una velleta 
Tota arrugadeta, 
Y abaix té 
Una coneta ? 

(Mallorca ; Dem., 
p. 361) 

(8) N'o monte nace 
N'o monte se cria, 
Cando vem a casa 
Baila com' unha rapaza ? 

(Galliza; Dem., p. 350.) 

(9) D'alto me miras, 
Comerme querias. 
De si salira 
Quen me levará ? 

(Galliza; Dm., p. 350.) 

(10) A que non sabes 

O que é y o que non é ; 
Unha aírexina branca 
Sin porta nin tranca ? 
(Galliza; Bem., p. 350.) 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 



387 



Casinha vermelha. 
Sem porta nem telha ? 
(Alemtejo: A laranja.) 

Casinha amarella, 
Sem porta nem janella ? 
(Ih.: O limão.) 

(i2) Por baixo pinho, 
Por cima linho, 
Ao redor amores, 
No meio flores. 

(A meza, a toalha, e 
comidas,) 

(13) Á meia noite 

Se ergue o francez. 
Sabe da hora. 
Não sabe do mez ; 
Traz esporas 
Nào é cavalleiro ; 
Tem serra 
Não é carpinteiro ; 



Tem picão 
Nào e pedreiro ; 
Cava na terra 
Não ganha dinheiro. 

(Minho : O gálio.) 

Passéa na praça 
Não é estudante, 
Canta de missa 
Sem ser sachristão, 
Sabe da hora 
Mas da morte não ? 
(Alemtejo : O gallo.) 

(14) O que é, que é 
Vae deitado, 

É vem em pé ? 

(Minho : O Cântaro.) 

(15) Altos pendentes^ 
Deu uma risada 
Cairam-lhe os dentes ? 

(Alemtejo : A Romã.) 



Un terrenin de bon, boran, bon, 
Non tien ta^a. nin tampon ? 
(Astúrias; ib., p. 370.) 



Ina granzita 
Plena di pastourita, 
San aucuna finestrita ? 
(Itália.) 



Una iglesia blanca 
Sitt puerta, ni tranca ; 
No entra en ella luz ninguna, 
Ni de vela, 

Ni de sol, ni de luna ? 
(Andaluzia; Marin, 
Cantos, I, p. 374.) 



Una capseta blanca 

Qa' ón obriila. may se tanca ? 
(Mallorca; Dem., p. 360.) 



Qu' est-ce qui est plein, 
E t n'a ni porte, ni fenètre? 
(França; Rolland, Dev., 
n.« 65.) 



(i2) Pino sobre pino, 
Sobre pino fino, 
Sobre lino flores, 
Y ai redor amores ? 
(Marin, n.*» 7i5.) 



388 



LIVHO 111, CAPITULO 1 



Altos picotos 
Cos seus maranhotos, 
Tanto riso lhe deu 
Que lhe cahiu 
O que Deus lhe deu ? 
(Minho : Castanheiro 
e ouriços.) 

(i6) Garças brancas. 
Em campo verdes, 
Co' o bico n'agua 
Morrendo à sôae ? 

(Brazil : Navio sem 
velhas, no mar,) 

(i7) Altas janellas 
Abrem e fecham 
Sem ninguém 
Bolir n*eilas ? 

(Penafiel : Os olhos.) 

(18) Semente preta, 
Terra mimosa, 
Salta a semente 
Fica uma rosa ? 

(Minho : A pulga.) 

(19) Casa caiada, 
Lago d'agua ? 

(Brazil : O Ovo,) 

Casas brancas 
Aguas claras 



Paredes amarellas 

Sem niaguem moiar ii'ellasY 
(Alemtejo : Ovo), 

Menina bonita, 
Saia amareila, 
Casa caiada 
Ninguém entra n'ella? 
(Lisboa : id.) 

(20) Delgada, delgacella, 
Corre villa e Castella ? 

(Mmho : A Estrada.) 

(21) Negra como o pez. 
Agarra como a torquez ? 

(A formiga.) 

(22) Seméa-se ás taboinhas 
E nasce às campainhas? 

(O linho,) 

(23) Semêa-se. aos regos. 
Nunca botam grelos ? 

{As telhas.) 

(24) Semeio latas, 
Nascem cordas, 
E colho bolas ? 

{As abóboras.) 



(17) Dos arquitas 
De cristal. 
Que abren y cierran 
Sin rechinar ? 

(Andaluzia : Marin, 
Cantos, p. 298.) 



(18) (In bichíto muy ligero. 

Que anda por terra pieciosa. 



Y en cada assiento que kce 
Deja sembrada una rosa? 
(B)., Marin, CanUos, 
441.) 



n.< 



(23) De qu' ès acò, de qoe ès acò? 
Una costa laurada 
Que la relia i 'es pas passata? 
(Languedoc; ap. Ferríer.) 



MODISMOS, ANEXINS £ ADIVINHAS 



389 



Semeei taboas, 
Recolhi toneis ; 
Adivinhae bacharéis ? 
(Abobaras,) 

Semearam-se taboas, 
Nasceram papeis, 
Golheram-se toneis. 

(25) Que é que é, 

Que na oocca tem o pé ? 
(A cabaçd,) 

(26) Paealto, 
Mae raivosa, 
Filha saborosa ? 

(A castanha,) 

(27) São trez cousas ; 
Uma diz que vamos, 
Outra que fiquemos, 
Outra que dancemos ? 

{Agu/a, areia, espuma.) 



(28) Altos castellos 
Verdes e amarellos ? 

{Larangeiras.) 

(29) Peqaenacomoumapulga, 
E dá uma orelha 

Que nem uma burra ? 
{Semente de couve.) 

(30) Verdeja como o linho, 
E dà um berro 

Que ajanta todo o poTÍnho ? 
{O sino,) 

Tem só um dente, 
E chama toda a gente ? 
(Idem.) 

Alto mora. 
Chama a gente, 
E fica fora? 

(31) Gabe dentro de umarasa, 
E enche toda a casa ? 

(A luz.) 



(28)- Mochas damas en el castillo. 
Y tcdas TÍsten de amaiillo. 
(Marin, Cant., n.° 462.) 

(30) Una viejá con un diente 
Llamando à toda la gente? 
(Marin, Cantos, n.*kJòi.) 

QQ'-est-ce ooi est haat monte 
Qqí appelle le monde ditout cot67 
(Rolland, Devinettes, 
n.- 274.) 

Qual 'é quella cosa? 
Sotto la pietra pialta, 
Gli stá la muta mata, 



Sorda che non sente 
E si chiamatotta la gente? 
(ColL, Treviffi, n.'» lxvh.) 

Quen c'un dente 
Chama pela gente ? 

((jallíza; Demofílo, 
n.« 345.) 

Una vella ab un dente 
Que fa corre tota gente ? 
(Catalunha; id , ib.) 

(3i) Tamafio com' una armendra. 
Y toa la casa la yena ? 
(R. Marin, Cantos, i, 
287.) 



390 



LIVRO III, CAPITULO I 



Tamanho d*ama bolota, 
Enche a casa até aporta? 

(32) Tem rabo e coração, 
Adivinha tolo que é cão? 

(O cão,) 

(33) No monte se cria, 
E vem para casa 
Dar seimoria? 

(A bengala.) 

(34) Verde como o linho, 
Amarga como o fel, 
E sabe como o mel ? 

(A noz.) 



Correnteza de senhoras 

Qaando ama m6ja. mèjam todas? 
(Airão : As telhas,) 



(37) Altos pirineus, 
Tristes innocentes, 
Deram mna gargalhada, 
Cahiram-lhe os dentes. 
(Alemtejo : Pinha e 
Pinhões.) 



(38) Sem osso nem espinha. 
No calor se empina ? 
(Lisboa : O pão.) 



(35) São muitos visinhos 

Com os mesmos modos, .<«qv 
Quando um erra ^ ^ 

Erram todos ? 
(Os botões.) 

(36) Vinte mil meninas 
N*uma varanda. 
Todas a chorar 

Para a mesma banda ? (40) 
(Alemtejo: As telhas) 



Qual é que é a cousa 
Que já foi vivo, 
E agora é morto, 
Traz cinco vivos 
Dentro do corpo ? 



Mil merilhinhos, 
Mil merilhões, 



Jo ci ho na casa 

Larga com' um' amendala, 
Che rischiaro tntta la cambora ? 
(Ginandrea, Cant. 
march.) 



(36) 
Un cercado 
Bíen arado, 
Bien binado 
Y reja en el no ha entrado ? 

(Marín, Qintos, n."» 604; 
Demofilo, p. 387.) 



Qu'est ee qui 

N'étant pas plus arand qu'uDe amende (39) 

Peut cepandant remplir Una casa hecha de Testidora de animales. 

Tottt un apartement 7 Y habitan cinco hermanos desiguales? 
(Rolland,/)^., u.* i67.) (Marin, Cantos j n.*» 642.) 



MODISMOS, ÂNEXINS E ADIVINHAS 



39i 



Dois peraíitas 
Quatro chantões ? 

(Lisboa : O boi com 
pellos, couros e pernas.) 

(li) Armadinha nova^ 
De bom parecer, 
Nenbum carpinteiro 
A pode fazer. 
Só Deus do céo 
Tem esse poder ? 
(Penafiel : A noz.) 

(42) Que será ? que será ? 
Passa o rio e fica cá ? 

(Penafiel : A espin- 
garda.) 

(43) Que será? que será? 
Pastorinho de páo, 
Sobe ao monte 

A botar o gado ? 
(Penafiel: Pente j cabeça 
e piolhos.) 

(44) Redondinho, redondete, 
Folga a moça 
Quando se ln'o mette. 

(O anel.) 

(45) Parada faz rasto, 

A andar apaga o rasto. 
(Alemquer: Apeneira.) 



(46) Tenho uma caixinha 
Cheia d'ossinhos, 
Não a dou 

Por mil cruzadinhos ? 
(Alemtejo : Bocca e 
dentes.) 

(47) Tem dentes e não come 
Tem barbas, não é home? 

(Alemtejo: O alho.) 

(48) Cinco irmãs 
Todas eguaes, 
Anda uma nua 

A despir as mais ? 
(Alemtejo: Aguihas de 
meia) 

Cinco mulheres 
N'uma rua. 
Quatro vestidas 
E uma nua ? 
(Id., ih.) 

(49) Torcida e lambida 
Epeloc. mettida? 

(Alemtejo : Linha e 
açvlha.) 

(50) No mato se cria 
No mato se corta. 
Ninguém me quer 
Ver á sua porta ? 

(Alemtejo : Caixão de 
defunctos.) 



(41) Archita chiquita 
De buen parecer, 
Nmgun carpintero 
La na podido hacer. 
Si no Dios dei cielo 
Con su gran poder. 
(Andaluzia ; Marin, 
Cantos^ a.« 564.) 



(47) Tiene diente y no come, 

Tiene barbas y no 8S hombre 7 

(Andaluzia ; Marin, 

CaiUo«,n.«502.) 



(50) En el campo íui criado 
En el campo fui nacido, 



392 



UYRO III, CAPITULO I 



(5i) Trez cada vez, 
Sete cada noite 
£ uma cada mez ? 
(Lisboa : Comer trez 
vezes ao dia, dor^ 
mir sete horas, e 
confessar-se todos 
os mezes.) 



(52) Vae para o mato 
Sempre encolhida, 
E quando volta 
Vem estendida ? 

(Porto : A corda do 
carro») 



(53) Campo redondo, 
Ovelhas ao longo ? 
Pastor formoso, 
Cadello raivoso ? 

(Resende : Céo^ nu- 
venSj sol e vento,) 



Campo grande 
Semente meuda, 



Menina bonita 
Cáo gadelhudo ? 
(Amarante: CéOj, estrei- 
tas^ lua e noite,) 

(54) Que é, que é 

Que anda sempre á roda 
£ nunca chesa á porta ? 
{Omoiímo.) 

(55) RedondinhO:, redondào 
Cabe no niiâio 

Do pimpalhao ? 
(O novello,) 

(56) Qual é a cousa 
Qual é ella, 

Mal entra em casa 
Põe-se à janella ? 
(O botão,) 

(57) Q*al é a cousa 
Cal é ella. 
Onde está 

Bem parece ella ? 
(Minho : A cal.) 



Donde ouiera que yo entro 
Todos lloran y supiran ? 

(Marin, Cantos, 
n.« 807.) 



No monte nace, 
No monte se cria, 
Cando ven para casa 
Hay mais choros que alegria ? 

(Galliza : Demofilo, 
p. 349.) 



(52) 
Sai pra fora encollidino, 
£ vèn pra casa estiradino ? 
(Galliza : Demofilo, 
p. 347.) 

(54) 
Anda y anda toito Tano, 

Y no ayega en cá e su amo? 

(Marin, n.« 607.) 

Corre que te corre 

Y nunca traspone ? 

(Idem, n.o 608.) 



MODISMOS, ANEXINS E ADIVINHAS 



393 



(58) Nasce na deveza 
E vem comer 
Comerei ámeza? 

(Minho : A mosca,) 

(59) Todos o tem, 
Ninguém o qaer ter, 
E depois que o vêem 
Não o çiuerem perder ? 

(Airâo : O piolho.) 

(60) Estando o negro negrate 
No seu carrapitate, 
Veiu o vermelhete 

E no cu lhe bate ? 

(Douro : Panella 
ao lume.) 



(6i) Quando não tem agua 
Bebe agua ; 
Quando tem aj^a 
E* que bebe vmho ? 
(Ovar : O moleiro.) 

(62) Nós somos dois irmãosinhos 
Ambos de uma mSe nascidos. 
Ambos eguaes nos vestidos. 
Porém não na condição; 
Para gostos e temperos 
A mim me procurarão ; 
Para mezas e banguetes 
Paliem lácommeuirmão, 
Qae a uns faz perdei o tino 
E a outros a estimação. 
(Rio de Janeiro: Vina- 
gre e vinho.) 



(58) 
Qu é o que nace na debeza 
V6n à casa e come co'a gente â meza? 
(Galliza : Demoíilo^ 
p. 346.) 

(60) 
Er ffiiey moremto 
En ia casa stà, 
La chumaretada 
'Ner cu le da ? 

(Marin,Cflníos,n.°689.) 



Que c*est qui peut et tent. 

Et le Touae blicque blacaue 
Qui tout aroit au cul liirappe. 
Se fait remou?oii chou qui est ens 7 
(RoUand, Dei., n.« 160.) 



De qu'es acò? de qu'es acò ? 
Madamo Ia Negreto 
Puntado sur três cambetos 



E moussu lou Rouget 
Qui li bafo ai quienlet ? 
(Languedoc; Roque 
Ferrier.) 

(6i) Agua bebo 

Porque agua no tengo ; 
Qui si agua tuviera 
Vino bebiera ? 
(Marin, Cantos^n.* SQL) 

Sans eauje bois deTeau, 
Triste eíTet du destín ; 
Mais beaucoup d*eau 
Me fait boir du vín ? 
(Hilaire le Gai.) 

No mi trovo aver acqua, 
No bevo altro que acqua; 
E s*io avessi delFaqua 
Al mio dominio 
Acqua mai no beverei 
Mà sempre vino. 
(Ap. Marin, i, p. 382.) 



394 



LIVRO III, CAPITUiO I 



(63) Uma senhora mui assenhorada 
Aceiada no comer, 
Mastiga e bota fora 
Engolir não pôde ser ? 
{A serra.) 



(64) Estou aqui nc meu cantinho 
Onde todos me vém vér 
Mastigo e boto fora 
Engolir não pôde ser ? 

(O moinho.) 

(65) Uma Viuva presumida, 
Toda de luto vestida, 
E de Flores coroada, 

E do Velho perseguida ; 
Quando o velho a persegue 
Ella faz a retirada. 
(A noite^ as estreitas 
e o dia.) 

(66) Vim ao mundo sem ter pae. 
Minha mãe morreu queimada 
Fiquei uma pobre orfà 
De todos mui procurada; 
Uns para mim se chegam 
Outros de mim se afastam. 

Se buscam onde persiste, 
Antes do terramoto 
Na Patriarca/ assiste. 
(Lisboa : Cal) 



(67) Verde foi meu nascimen^ 
E de luto me vesti 
Para dar luzes ao mundo 
Mil tormentos padeci ? 

(Alemtejo: Azeitona.) 

(68) Capella sobre capella 
Camélia do mais fino panno ; 
Nao adivinhas este anno 
Nem no anno que vier, 
Sô se eu t'o disser. 

(Castello de Vide: Ce- 
bolla.) 

(69) Outo batem na calçada. 
Quatro olham parao céo; 
Um guia a cangalhada, 
Outro toca o chirineo ? 

(Jwnta de bois; pataSj, 
comos j carreiro e moço.) 

(70) Estando a Dona Princeza 
Entre taboas etaboinhas. 
Chova que não chova 

Sempre está molhadinha 7 
(Lisboa: A lingua.) 

(71) Ve^de foi meu nascimento 
E de roxo me vesti ; 
Na cabeça me puzeram 
Uma coroa de rainha; 
De dentro de mim tiraram 
Cento e uma pérola fina ? 

(Lisboa : A romã ) 



(67) Verde fué mi nacimiento 

Y de luto me vesti, 

Y por daile gu^to ai mundo 
Dos tormentos padeci ? 

(Marin, Cantos^ n.<'458.) 

(68) Demofilo, Coll. de Eni- 

gmm, p. 349, uma ver- 
são gallega, 



(70) En una sala 

Stà Dona Úrsula, 
La càtala, la mirala 
La escuchala. 
(Marin^ Cardos, n.° 308.) 



MODISMOS, ÂN£XINS E ADIVINHAS 



395 



(72) 
Soa filho de pães cantantes, 
Minha mfie nlo tinha dentes. 
Kem nenhum dos meus parentes. 
Eq de mim sou todo cal?o. 
Meu coração amarello, 
E o meu rosto é alvo? 

(Alemtejo : O ovo,) 

(73) 
De Roma esta bem perto, 
Uma casa bem ordenada, 
E tem coroa 
É d'aboboda fechada ? 

(Alemtejo : A romãJ) 

(74) 
Anda de buraco em buraco 
Sempre com as tripas arrasto? 

(A agulha e a linha.) 

(75) 
Sou senhora e nfio soberba, 
De espíritos elevados, 
E a muitos homens no munao 
Tenho feito desgraçados : 
Tenho um pae bem conhecido 
De toda a casta de gente, 
Tenho um irmão muito agreste 
Que de mim sempre anda ausente, 
Minha avó, velha enfeitada 
Sem bordão não se sustem ; 
Porque a catem de anno a anno 
Dará tudo quanto tem. 

(Alemtejo : Aguardente, 
Vinho e a Cepa.) 



(76) 
Uma menina entrevada, 
Quando sae vae de carrinho, 
Quando come lança fora. 
Um treme, um ri, outro chora? 
(Alemtejo: A peça de 
artilheria) 

Ali) 
E de carne e não tem carne, 

É de osso e não tem osso, 

Tem um páo no pescoço. 

Tem um olho que lhe chora; 

Adivinha o que é isto agora ? 

(Alemtejo: A borracha 

de vinho.) 
(78) 
Ninguirininhim, coitada, 
Não tem camisa nem fralda; 
Anda por onde anda a gente. 
Quando a matam fica contente. 

(Alemtejo: A fome.) 

(79) 
Para andar lhe ponho a capa, 
È tirei-lh'a para andar; 
Que elle sem capa não anda. 
Nem com ella pode andar ? 
(Porto : O pião e a fieira.) 

(80) 
Toda a gente a pôde ?6r e cansar. 
Mas ninguém vender ou trocar? 
(Porto: A sombra.) 



(74) 
De burato en burato 
Vai co' as tripas arrastro? 

(Galliza ; Demofilo, p. 344.) 

Sauvé, nas Devinettes 
bretoneSj p. 95, traz 
uma vanante fran- 
ceza. 



(79) 
Atar para andar 
Para andar desatar ; 
Para andar me pongo capa, 
Y con ella no puede andar. 
(Marin, Cantos, n.° 757 
e 758.) 



396 



UYRO III, CAPITULO I 



ÀS Adivinhas populares apresentam formas qne 
constituem géneros progressivos ; umas vezes sao 
equívocos de linguagem, bomonymias e duplo sentido 
pendendo para o lado licencioso; outras vezes slo 
problemas numéricos, de somma, de multiplicação 
e finalmente allusSo a contos vulgares. Exemplifi- 
quemos : 



(81) 
Estava para passsar. não passoa, 
Porque passou quem passou ; 
Se nao passasse quem passou 

Tinha passado ; 
Passou quem passou, não passo. 

(O figo colhido por um 
viandante,) 
(82) 
Uma dama tão galante, 
Nos braços do seu amante, 
Com buraco na barriga, 
E as tripas adiante ? 

(A guitarra,) 
, (83) 

Uma meia, meia feita 
Outra meia por fazer, 
Diga-me, minha menina. 
Quantas meias vem a ser ? 

{Metade de uma meia,) 

(84) 
«Quatrocentos guardanapos. 
Seis vinténs em cada ponta, 
Diga-me lá por cantigas 
Em quanto somraa esta conta? 
— A conta está bem deitada, 



Sem alcaide, nem escrivão ; 
Quatrocentos guardanapos 
Quatrocentos pintos sâo. 
(Alemtejo e Brazll.) 

(85) 
Estando o durmo, durmo, 
Debaixo do pende, pende^ 
Vem o curro, curro 
Para matar o durmo, durmo, 
Caiu o pende, pende 
Na cara do durmo, durmo, 
Acordou o durmo durmo. 
Correu atraz do curro, curro. 
Matou o curro, curro, 
E comeu o pende pende. 

(Porto: RapaZy casta- 
nheiro e cobrcu) 

(86) 
Estando doís-pés com pé 
Em cima de trez-pés sem pé, 
Veiu quatro-pés sem pé 
Furta-lhe o pé sem pé; 
Dois-pés sem pé 
Pega em trez-pés sem pé 
Atira-o a quatro-pés sem pé 
^ quebra-the um pé sem pé. 



(86) D. Joaquin Costa, na Poesia popular e^anola, p. 272, 
traz esta adivinha como a ouviu no Pirineu de Aragão : 



Dos peus se comeba um peu, 
encima de três peus, 
va veni cuatro peus, 
y furta el peu ; 



dos peus coge el três peus 
lo hl tira a cuatro peus 
y le rompe un peu. 



MODISMOS, ANEXINS R ADIVINHAS 397 

(87) 
Quem é que foi enterrado Que era virgem quando o guardou? 
Nas entranhas de sua avó, (Minho: Abel.) 

O estado mental que inventou estas formas concre- 
tas de expressão, como os Mythos, os Contos, os 
Ânexins e as Adivinhas, manifesta-se ainda no meta- 
pborismo da linguagem figurada, e no valor que se 
liga ás representações iconographicas dos Emblemas. 
Póde-se dizer que o Emblema é uma Adivinhação para 
quem não está na communhão das ideias que repre- 
senta, e que tende a converter-se em linguagem, como 
a senha, a divisa, o brasão, a bandeira. Tal é a rela- 
ção generativa da arte popular : o emblema de um 
coração atravessado por uma seta, exprime a paixão 
amorosa, e acompanhado de uma chave, a fidelidade 
no amor. Os Emblemas foram usados com intuito 
moral pelos humanistas da Renascença, e ainda hoje 
os R^ms, ou enigmas pittorescos, são as adivinhações 
das classes illustradas ; as charadas, verdadeiros 
phenomenos de persistência ethnica, fazem compre- 
bender como das imagens da escrípta ideographica 
se passou para a escripta syllabica e phonetica, pro- 
cesso em tudo similhante ao phenomeno intellectual 
da noção concreta ou personificada, que se transforma 
em ideia geral e abstracta. Estes productos tradicio- 
naes têm uma grande importância psychologica, indi- 
cando-nos as vias por onde a actividade mental se 
deslocou do estimulo espontâneo das relações de ana- 
logia para a aproximação inductiva, base de toda a 
analyse racional. 



(87) 
Un naquit devant que son père, Sa grand mère depucela, 
Et le quart du monde tua, Revlent au ventre de la mère. 

(Rolland, Dev., n.« 203.) 



CAPITULO II 
Cantigas, Romances e Comedias populares 

As formas universaes das Litteraturas, LyrismOy Epopea e 
Drama, — A Nacionalitteratura considerada como origem 
das obras primas individuaes. — As Cantigas portuguezas: 
Unidade do lyrismo occidental. — As formas mais antigas 
das canções portuguezas : Controbaduras (Serranilbas, 
Muineiras, Villanellas.) — A poesia popular ligada á vida 
domestica : Despiques de conversados ; Epithalamios ou 
cantigas nupciaes, Cantigas do berço e Endexas dos mortos. 

— Cantigas das Festas religiosas : Janeiras e Reis Magos ; 
S. Pedro, S. João, Santo António, Espirito Santo, Paixão, 
Colloquios do Presépio. — Fórmulas dos jogos, dos apodos 
locaes, dos anexins, adivinhas, esconjuros, Neumas e estri- 
bilhos. — Romances ou Aradas populares: Unidade do 
Romanceiro occidental ; Romances communs a Portugal, 
Hespanha, França meridional, Itália e Grécia moderna.— As 
tradições homéricas na região mediterrânea. Plano de clas- 
sificação dos Romances heróicos segundo os themas funda- 
mentaes: Cyclos da Mulher infiel ; da Esposa fiel ; da Mu- 
lher forte ; da Mulher captiva ; da Esposa perseguida. — As 
modificações do Romanceiro segundo D. Francisco Manuel. 
Romances citados nos escriptores portuguezes. — As explo- 
rações criticas d'este veio tradicional.— As Comedias popu- 
lares e as origens do Theatro nacional : A comedia sepa 
rando-se do elemento lyrico, Coros e Bailes de terreiro, 
Mascaras, Dansas religiosas. — Typos cómicos : O Ratinho 

— A Comedia separando-se das narrativas heróicas : Masca- 
radas, Auto de El-rei de Barberia, Rei da Mourama, Auto 
de Ferrabrás e Floripes, — Autos hieráticos : Natal, Loas 
do Cirio do Cabo, Auto de S. Catharina.— Dialogo do Mar- 
tyr S. Sebastião— Origens tradicionaes de alguns Autos de 
Gil Vicente. — Theatro aristocrático : Cavalhada de D. Se- 
bastião — As Touradas.— As Farças : As festas dramáticas 
em Niza — As Malhadas do Centeio no Minho ; os Azeito- 
neiros no Alemtejo e Algarve ; Procissão das Sestas em 
Coimbra.— O theatro prohibido pela intolerância ecclesias- 
tica. 

Antes de receberem o desenvolvimento e fixação 
da forma escripta, as linguas cultas tiveram mn longo 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 399 

período de elaboração oral, de incerteza de sons, de 
divergência dialectal, de superabundância sinonymica, 
até que por circumstancias históricas vieram consti- 
luir-se em disciplina grammatical; correlativamente 
as Litteraturas nacionaes, antes de serem escriptas 
n'essas línguas, tiveram também um período de efflo- 
rescencia espontânea, em que os themas tradicionaes 
se transmittiam oralmente entre o povo e de edade 
em edade, até que foram fixados em obras individuaes 
que caracterisam as épocas clássicas das Litteraturas. 
Nas Litteraturas antigas, o seu período oral só pôde 
ser recomposto incompletamente através dos vestígios 
tradicionaes conservados pelos escriptores ; nas Litte- 
raturas modernas esteve por muito tempo perdida a 
noção d'esta relação mutua do povo com o escriptor, 
mas é fácil determinar ainda hoje na multiplicidade 
das tradições populares os typos fundamentaes das 
Litteraturas que subsistem oralmente. Deve ser este 
o ponto de vista scientiflco na investigação dos cantos 
populares de qualquer paiz. 

As Litteraturas antigas ou modernas, do oriente 
e do occidente, apresentam as mesmas formas ou 
typos fundamentaes uníversaes, que são o Lyrismo, 
a Epopéa e o Drama. Derivam estas formas communs 
da expressão do sentimento de phases sociaes análo- 
gas nas raças superiores ; o Lyrismo nasceu da idea- 
lisação da vida domestica, e desenvolveu-se na esta- 
bilidade do trabalho pastoral ou agrícola, como se vê 
nos Epithalamios ou cantos nupciaes, nas cantigas do 
berço ou Nannarismay nos cantos funerários ou Nenias, 
nos cantos das segadas e das vindimas. Quando um 
culto publico foi o consensus commum d'estes inte- 
resses sociaes, e o governo exercido pela classe sacer- 
dotal se tornou theocratico, a consagração dos actos 
familiares fez-se por meio de hymnos, (de sumnaj a 
boa palavra) como se comprova pela inapreciável col- 



400 LIVRO III, CAPITULO II 

lecç3o do Big-Yeda. Quando a ordem social se baseon 
na actividade guerreira, e as familías ligadas em tribus 
sob chefes militares obedeciam ao poder aristocrático 
ou feudal, os cantos serviram para a idealisaçao dos 
fortes, para a narração das luctas de resistência nacio- 
nal, e produziram-se as cantilenas ou rhapsodias das 
Epopéas da Ghaldêa, da hidia, da Pérsia, da Grécia, 
da Germânia e da França. Quando finalmente o tra- 
balho industrial ou constructivo se substituiu á acti- 
vidade da guerra, que de destrnctiva se tomou em de- 
fensiva, a multiplicidade dos interesses subordinou-se 
à noção de deveres mútuos ; d'aqui as coUisões mo- 
raes que produziram os elementos do Drama, os typos 
individuaes, as situações e a intriga. Âs formas dra- 
máticas correspondem a uma phase social democrá- 
tica, encerrando no seu desenvolvimento todos os ele- 
mentos da anterior constituição, taes como o intuito 
cultual no drama hierático ou Moralidade, o conflicto 
da força heróica no drama aristocrático ou Tragedia, 
e a peripécia do antagonismo dos pequenos interesses 
no drama burguez ou Farça. Ao estudo doestas formas 
universaes transmittid as oralmente tem-se dado o nome 
de Nacionalitteratura. 

As Cantigas populares portugmzas. — O primeiro 
facto que se impõe à observação do investigador é a 
multiplicidade das formas do lyrismo popular porta- 
guez, Ugadas aos actos da vida individual ou social ; 
temos os cantos epithalamicos para celebrar o casa- 
mento, costume commum á Galliza onde tem o nome 
de Regueifas. Em Traz os Montes, o casamento divi- 
de-se em trez actos cerimoniosos, sempre acompanha- 
dos de cantigas ; ao dia em que se escrevem os pre- 
gões^ chama-se ir aos cachos; á festança depois dos 
pregões chama-se levar os parabéns, e á espera que 
se faz aos noivos quando vêm da egreja, obrigando-os 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 401 

passar por debaixo de um arco enramalhetado, cha- 
ma-se deitar os laços. No Cancioneiro popular vêm 
algumas cantigas (p. 133) das que usam n'esta occa- 
sião; já vimos como Fernão Lopes descrevendo o 
casamento de D. João i, falia das «^dana^s filhas d'algo 
e isso mesmo da cidade cantavam indo detraz como ke 
costume de vodas.^ (1) 

Âs cantigas do berço ou de accalentar constituem 
um dos géneros mais bellos do lyrismo do povo, como 
as lullabies do norte, as nannarisma dos Hellenos, e 
as Ninni-nanne da Córsega. 

Em uma cantiga de Coimbra se diz : 

A cantiga do ró, ró 
Minha mãe m'a ensinou ; 
Quando eu estava no berço 
Logo m'a ella entoou. (2) 

N'esta outra cantiga do berço : 

Viste a donzella Maria lavava 

Á beira do rio José estendia, 

Lavando os panninhos O menino chorava 

De seu bento filho. Com o frio que fazia. . . 

acham-se os seguintes versos italianos, do canto Gesu 

bambino : 

Maria lavava 
Guisèppe stennéva, 
Ér su njo piagnéva. (3) 

Dos cantos funerários restam apenas vestígios 



(1) Vide retro, vol. i, p. 251. 

(2) Neves e Mello, Musicas e Cannes populares, p. 228. Vid. 
retro, vol. i, p. 284. 

(3) Rivista de Letterature popolare, p. i75. 

26 II 



402 UVtlO III> CAPITULO II 

históricos, nas Endexas ao Gondestavel e á morte do 
príncipe D. Âfiònso ; comtudo em Santarém ainda se 
usam os cantos fanebres em coro, todas as noites de 
quaresma, em que se pede para a$ (umas. 

Os cantos amorosos sio os mais geraes ; a fòrma 
da quadra presta-se ao improviso, aproveitando qual- 
quer comparação ou imagem. A quadra apparece entre 
os Árabes, os Celtas e os povos germânicos ; no paiz 
de Gaiies tem o nome de Pennítt, no Frioul é a vil- 
lota, na Toscana o Ri^petH, em Hespanha é a Segui- 
diiha e em Portugal é propriamente a Cantiga, Schu- 
chardt achou quadras andaluzas, similhantes no pen- 
samento e forma ás quadras que se cantam nos Alpes 
allemães (Stiria, Gariotía^ Sakborgo^ Tirol e Suissa.) 
Gontam-se aos centenares as quadras conununs a 
Portugal, Gallí2a, Astúrias, Gastella e Andaluzia, o 
que revela a persistência de um fundo tradicional ; 
comtudo este género é principalmente improvisado, e 
em desafio poético a que se chama a desgarrada, 
havendo em geral pelas aldeias cantadores de fama e 
de profissão. 

É admirável a persistência de um typo primitivo 
do lyrisQ»o popular, a que Berceo ch^onava Contro- 
badura, que apparece nos nossos Gancioneiros pro- 
vençaes, com o nome de Serranas ou SerranUh4is dado 
pelo Marquez de Santiílana, a que na Gasconha se 
chama Villanelas, e na Galliea MuvReiras. Estes cantos, 
que se acham intercaUados bastantes vezes nos Attíús 
de Gil Vicente, e em outros poetas que se aproxima- 
ram das fontes populares, como Gastillejos e S. João 
tia Gruz, subsistem ainda em toda a :sua graça em 
Rebordainhos. (1) As formas da Serranilha apparecem 

(1) Vide o estodo d'esta forma no nosso trabalho Scbre a 
Poesia popular de Galliza, servindo de introducção ao Cancio- 
neiro gallego de D. José Perez Ballesteros. 



CANTIGAS, aOMAN€ES E COMEDIAS POPULARES 403 

Da ma rigorosa estructara nos cantos accádícos, tra- 
duzidos por Lenormant, 6 em muitos cantos chineses 
do Chi King, traduzidos por Legge, o que comprova 
a these d'este trabalho em todas as suas particulari- 
dades. (1) Gil Vicente reproduz este typo poético 
^arremedando os da Serra: 



E se porei la majQo em vós, 
Garrido amor 1 

Um amigo que eu havia, 
Mançanas de ouro me envia ; 
Garrido amor. 

Um amigo que eu amava 
Mançanafi d ouro me mandava, 
Garrido amor. 

Mançanas de ouro me envia ; 
A melhor era partida ; 
Garrido amor.» 

(Obr., II, 4Í4.) 



Os primeiros dois versos formaiia o <|ue ainda entre 
o povo se usa e chama Pé de mntíya, Gil Vicente 
indica nos seus Autos muitas canções populares, para 
se repetirem ^a represeolação sc^enica, apontando- 
Ihes apenas o pé de cantiga, por serem muito conhe- 
cidas ; a Farça dos Phymos termina com uma Ensa- 
iada composta dos pés de dififerente^s cantigas. (2) 

Gil Vicente allude a um outro género de cantigas 
populares, a que chama Cantar gtmiado (iii, 143) ; é 
assim denominado da neuma Guay ou Ai, como se 

(i) Este ponto de vista acha-se desenvolvido na Introducção 
ao Cancioneiro portuguez da Vatícana. 
(2) Obras, t. iii, p. 323. 



404 LIVRO 111, CAPITULO II 

usa ainda no Minho, e de que apparece um exemplo 
nítido na cantiga asturiana : 

Ay ! un galan d*esta villa, 
Ay ! un galan doesta casa, 
Ay I él por aqui vénia. 
Ay 1 él por aqui Uecaba. 
— Ay ! diga lo qu' el queria, 
Ay t diga lo qu* él buscaba ! 
«Ay 1 busco la blanca nina, 
Ay 1 busco la nina blanca, 
Que tiene la voz delgadina, 
Que tiene la voz delgada. . . (1) 

Conforme as neumas usadas nas cantigas populares 
assim se constituia um género poético; na Galliza 
chamam-se cantigas de Maiála as que acabam com 
este estribilho; uma composição de Pedr^Ânes Solaz 
é acompanhada do estribilho Lelia, (2) que faz lem- 
brar as Leilas árabes, prohibidas no século xvi por 
Filippe II. António Prestes allude a este género, no 
Auto da Am Maria : 



Moço : Outra letra que mais soa 
de mais levedo fermento 
que essa sei eu. 

Razão : De que intento? 

Moço : Lê, lé, lé Maria Leitôa 

Lé, U, lé para que sois boa. (p. 21.) 

Serei Maria Leitôa 
contra vós, porqae era boa, 
lé, lé, para apanhar ratos. 

(Serrão de Castro, i87.) 



As cantigas em tercetos, a que na Galliza se cha- 

(1) Menendez Pidal, Romancero asturiana . p. !47. 

(2) Canc. da Vat„ n.o 415.) 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 405 

mam de Rtiadas apenas as temos encontrado no Minho; 
os diálogos em descante de desafio oa desgarrada, 
são como ^^ Emhoyadas da Galliza ; os apupos, que 
se podem graphicamente escrever Hihihi I apparecem 
no Alto Aragão com o nome de rmchUido, usados no 
fim dos cantos, e D. Joaquin Costa transcreve-os na 
forma Ijiji! Diz este critico: «Com grande surpreza 
nossa encontrámos nas montanhas de Sobrarbe, junto 
do Sanctuario de San João de la Penha esse grito 
bellico que até agora era património exclusivo dos astu- 
rianos, e que os eruditos remontavam á época céltica 
da nossa historia.» (1) Em quanto ás tradições poé- 
ticas, as Astúrias, Galliza e Portugal formam uma 
perfeita unidade ethnica, como muito bem observou 
Menendez Pidal. 

O Cancioneiro popular está ligado aos sentimentos 
da vida publica, tendo por objecto as festas religio- 
sas ; taes são os Cantos das Janeiras, dos Reis, de 
S. Gonçalo, de S. João, Santo António e S. Pedro, as 
Maias, Passos da Paiam, Espirito Santo, Alvoradas e 
Romarias, Colloquios de Presépio, e Orações para acom- 
panharem todos os actos da vida. (2) As fórmulas poé- 
ticas dos Jogos, Apodos pessoaes e locaes, dos Anexins 
6 Adivinhas, Eseonjuros mágicos e medicinaes e das 
Prophecias, conservam os typos mais vetustos do 
lyrismo popular, em que o verso tem ainda o poder 
maravilhoso do Cármen, e em que as tautologias, ali- 
terações e rimas são empregadas com seriedade. 

Os Romances ou Aravias populares. — Existe entre 
o povo um certo numero de narrativas heróicas em 
verso quinario ou octonario, assonantados, a que os 



(1) Poesia poptUar espanola, p. 174 e 278. 

(2) De todos estes géneros temos apresentado os typos 
príncipaes nas coUeeções por nós colligidas ou publicadas. 



i 



406 LIVRO III, capítulo II 

escriptores deram o nome de Bomances, e a que Da 
linguagem vulgar se chamou Aramas. D'estes Roman- 
ces uns são conununs a todo o Occidenie europeu, 
como Portugal, Hespanha, Provença, Itália e Grécia 
moderna, outros versam sobre factos de historia na- 
cional, e foram pelos antigos chronistas recebidos como 
documentos coevos, ainda hoje de um alto valor len- 
dário. Tanto a palavra Romance como Aravia sâo 
designações anachronicas d'estes rudimentos épicos 
da tradição Occidental muito anteriores á civilisaçâo 
romana e árabe ; o nome de romano contrapoz-se ao 
de bárbaro, e exprimindo uma certa unidade de civi- 
lisaçâo recebida da incorporação romana, a palavra 
Romance veiu a designar as línguas novo-latinas e 
simultaneamente os cantos vulgares. O povo não sabe 
repetir essas narrativas heróicas sem se acompanhar 
de uma melopêa, e como a musica na época do maior 
desenvolvimento dos romances era a dos árabes, como 
vemos pela persistência dos instrumentos, como a 
quitara^ d'aqui a designação de Aravia tirada da sua 
dependência melódica. 

Na Andaluzia, chama-se aos romances populares 
CorriOj Corrido, CarreriUa, (1) Alguns dos cantos 
heróicos occidentaes apparecem nos seus contornos 
nas rhapsodias homéricas, como o notou Lang, e Am- 
pere aproximando a Bella Infanta ou a volta do Cru- 
zado do Regresso de Ulysses. (2) Strabão falia da 
existência de lendas do cyclo de Troya entre os povos 
ibéricos ; e referindo-se ás viagens de Ulysses diz : 
«Não só na Itália se conservam restos e logares d'essas 
historias, senão que na Ibéria existem mil vestígios 

(1) Duran, Rom., 1. 1, p. 177. 

(2) Pittré na tradição popular da Sicília encontrou a lenda 
de Polyphemo. {Rev. des Deux Mondes, i5 de agosto de I87U.) 
Por isto 80 YÔ que fragmentos épicos que entraram nos poe- 
mas homéricos ainda subsistem no Occidente. 



CANTIGAS, ROMANCeS ^ COMEDIAS POPULARES 407 

de taes expedições assim como da guerra de Troya. » 
(L. iii, II, 1 13.) Não quer isto dizer que essas tra- 
dições fossem recebidas pelas colónias jónicas, porque 
a raça jónica que elaborou os poemas homéricos to- 
mou a maior parte dos seus themas de uma raça mais 
antiga, como Lang observa nos vestígios achados entre 
os Chinezes e Oguzes, o que leva a inferir que a 
primitiva população occidental era efifeclivamente mon- 
golóide. 

A forma do Romance explica-se pois pela theoria 
de Lachmann em relação aos poemas homéricos, ou 
à epopêa germânica. De uma época ante-historica 
proveiu-nos um certo numero de Cantos isolados entre 
si, independentes na narrativa que desenvolvem, ape- 
nas com a relação ao cyclo commum de Lendas d'onde 
derivam. É este o período de elaboração espontânea 
da epopêa ; aquelles que repetem essas Canções iso- 
ladas são os Sutas na índia, os Aedos na Grécia, os 
Troveiros ou jograes na Edade media. Succede-se um 
periodo de coordenação systematica feito por outros 
cantores, como os Kavy da índia, os Rhapsodos na 
Grécia ou os Clerc nas Gestas frankas. Os Romances 
peninsulares ou occidentaes são o primeiro rudimento 
das Lendas épicas primitivas, que não chegaram a 
ser systematisadas, porque outros interesses históri- 
cos provocados pelas conquistas romana, germânica e 
árabe, e pelo conflicto de diversas crenças polytheistas 
christã e islâmica, não lhe deram a convergência de 
uma expressão nacional. O facto da unidade d'estes 
themas épicos, ou Romances, foi reconhecido por 
Nigra, Liebrecht e Du Pymaigre, resultando esta con- 
clusão do mais evidente processo comparativo de 
qualquer romance vulgar. É também evidente que as 
situações sociaes e moraes que apparecem n'esses 
Romances, quer sejam portuguezes, hespanhoes, fran- 
ceses 011 italianos, representam um estado de atrazo 



408 LIVRO III, CAPITULO II 

bárbaro, e inferior ao que pela historia se sabe dos 
povos hellenicos, itálicos e célticos. Póde-se aíBrmar^ 
que pela monstruosidade das situações moraes os 
Romances correspondem a uma sociedade barbara, 
inferior ao que se conhece da mais antiga constituição 
de todos os ramos áricos; considerando esses the- 
mas, vê-se que todos elles têm por personagens herói- 
cas mtdheres, circumstancia singular que ajuda a fixar 
a sua origem. Foram creados esses poemas sobre as 
reminiscências de uma sociedade hetairista ; compro- 
va-se isto com os vestígios dos cultos femininos de 
prostituição sagrada deixados por uma raça que oc- 
cupou o Occidente antes dos Árias. É a este fundo 
ethnico que se deve attribuir o elemento proto-semita 
da epopêa hellenica, bem como os Romances communs 
ao Meio dia da Europa. Os poemas de Istar, de Pro- 
sérpina, de Ceres, de Andromeda, de Pasiphae, de 
Phedra, de Medêa, representam a mythificação de 
forças telluricas e successivamente a sua decomposi- 
ção em lendas poéticas na passagem de uma sociedade 
agrícola para a constituição aristocrática ou guerreira 
sob chefes patriarchaes. 

Nos Romances da Sylvaninha^ do Conde Alarcos, 
do Conde da AlUmanha^ do Bmnal francez, do Rico 
Franco, ha um estado de consciência compatível com 
uma civilisação extremamente rudimentar, e as catas- 
trophes excedem as emoções de uma sensibilidade 
delicada. Como a população hispânica, de que resul- 
tou o povo das actuaes nacionalidades peninsulares, 
foi formada pela contribuição de muitas raças diffe- 
rentes, nos Romanceiros acham-se elementos épicos 
de diversas proveniências ; ha assim rudimentos pro- 
priamente áricos, gregos, germânicos, e normando- 
byzantinos. Se houvéssemos de estabelecer uma clas- 
sificação dos Romances populares actualmente colligi- 
dos da tradição oral, na Beira Baixa, Traz os Montes, 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 409 

Algarve, ilhas dos Açores, Madeira e Brazil, forma- 
riamos os seguintes grupos de themas : 

Cyclo da Esposa fiel, que foi desenvolvido nas 
lendas de Penélope : Bella Infanta^ D. Catherina, Náo 
Catherineta, Noiva roubada j O cativo^ D, João da 
Armada, Santa Ceciliaj D, Henrique d'Alencastro. 

Cyclo da Esposa infiel : Bernal francez, Morena, 
Conde da Allemanha, D, Alberto, Flor de Marília, 
Rotnance da Condessa, Moiro atraiçoado. D, Ouliva, 
Mal casada, O soldado; o valor d'este cyclo acha-se 
no desenvolvimento épico do typo de Helena. 

O cyclo da Mulher forte, synthetisado no typo de 
Kudrun : Infantina, Donzella qm vae á guerra. Geri- 
naldo. Filha do Imperador de Roma, Duque de Lom- 
bardia, D. Carlos de Monte* alvar, Lisarda, D, Areria, 
Juliana e Jorge, a Pastorinha. 

Cyclo da Mulher captiva, de que se conhece o 
typo indiano de Sita : D, Gaifeiros, Melisendra, Bran- 
ca-Flor, Senhora dos Martyres, Flora, D. Franco, 
Florbdla, Donzella e o punhal, A Enganada. 

Cyclo da Mulher perseguida e da Esposa desgra- 
çada, de que o typo mais universal é o de Crescen- 
cia : Alferes roubador, Romeirinha, Sylvana, Conde 
Nifío, D. Aleixo, D. Pedro, Hortelão das flores, D. Águeda 
de Mexia, Casamento e mortalha. Conde Preso, Ron- 
cesval. Iria a Fidalga, O Cego, Toureiro namorado, 
Donzella que se finajs amor, D. Hellena, D. Maria, Má 
nova, D. Duardos, Gálantinho, CavaUeiro da Silva, 
D. Rodrigo, Pomba sem fel. (1) Desde que estes ro- 
mances não foram entendidos, ficaram abandona- 
dos ao automatismo popular, adaptando as situações 



(1) De muitos d'estes romances temos publicado mais do que 
uma versão, acompanhada de notas comparativas. Não desen- 
volvemos este estudo, porque está amplamente tratado na His- 
toria da Poesia popular portugueza e Epopêas mosarabes. 



410 UYRO MI, CAPITULO II 

violentas aos novos costnmes sociaes ; assim o que é 
hoje uma referencia ao Brazil, substitue uma remi- 
niscência das Cruzadas, que derivou de uma expedi- 
ção jónica. Os successos contemporâneos foram, como 
acontece com a parodia^ repetindo-se na forma metri- 
ficada, narrativa e dialogada dos successos antigos ; é 
assim que o povo elabora os cantos heróicos. Quando, 
no século xvi, os principaes escriptores portoguezes 
se aproximaram das fontes populares da Litteratnra, 
chamaram Romances velhos aos que andavam na tra- 
dição, e Leira nova aos que se formavam sobre esses 
typos ; diz Jorge Ferreira : «e eu enfadado de certezas 
não vos darei uma palha por um romance velho— » (1) 
E quando no Fidalgo aprendiz, de D. Francisco Manuel, 
vae D. Gil cantar á guitarra a Sylvana e a bifantinay 
diz-lhe a moça: «Uma Letra nova quero» das que 
pertenciam ao género de Romances trovados. Os guer- 
reiros portuguezes na índia, como refere Diogo do 
Couto, cantavam versos de Romances velhos applica- 
dos á situação em que se achavam nas batalhas, e o 
romance Mira Nero da Tarpéa^ era applicado sarcas- 
ticamente a D. Constantino de Bragança, então vice- 
rei. Assim o romance tradicional veiu a constituir um 
género litterario, em que escreveram em Hespanha, 
Lorenzo de Sepúlveda, Juan de la Cueva, Lasso de 
La Vega, Lope de Vega, e em Portugal, Gil Vicente, 
Jorge Ferreira, Prestes, Rodrigues Lobo, D. Francisco 
Manuel , até que esta forma uma vez desnaturada tor- 
nou-se a perder no ditado popular. 

A conservação dos Romances velhos foi devida prin- 
cipalmente ás mulheres ; Miguel Leitão de Andrada 
fallando do Romance do Figueira!, diz : «A qual me 
lembra a mim ouvil-a cantar muito sentida a uma 
velha de muita edade, natural do Algarve, sendo eu 

(i) Aulegraphia, fl. 165^ y. 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 411 

muito menino.» {Misc^ 27.) O primeiro romance por- 
taguez colligido n'este século por Costa e Silya, foi- 
Ihe ditado por uma senhora natural de Gôa ; Garrett 
que iniciou a investigação das tradições nacionaes, foi 
embalado na sua meninice pelos romances que lhe 
cantava uma criada mulata, e os primeiros romances 
que coUigiu, deveu-os, diz elle, ao «obsequioso cuidado 
de uma joven senhora, minha amiga muito de cora- 
ção.» E em outro logar recorda-se : «De pequeno me 
lembra, tinha um prazer extremo de ouvir uma criada 
nossa em tomo da qual nos reuníamos, nós os peque- 
nos todos da casa, nas longas noites de inverno, reci- 
tar-nos meio cantadas, meio rosadas, estas xacaras e 
romances populares de maravilhas e encantamentos, 
de lindas princezas, de galantes e esforçados caval- 
leiros.» Nos Açores completou a sua collecção por 
uma circumstancia fortuita : «Foi o caso, que umas 
criadas velhas de minha mãe e uma mulata brazileira 
de minha irmã appareceram sabendo vários roman- 
ces...» Silva Pereira, em um estudo Da Poesia antiga, 
escrevia em 1845, alludindo aos romances tradicionaes 
portuguezes «os quaes só na bocca do povo se encon- 
tram, e com especialidade na bocca das velhas criadas, 
que muitas vezes costumam cantar ás criancinhas e 
para entreter os rapazes.» (1) 

Na transformação dos velhos Romances, os cavallei- 
ros da época feudal substituiram-se muitas vezes por 
salteadores, idealisados pelo povo por causa da sua 
audácia ; em Hespanha formou-se espontaneamente o 

(1) Revista lUteraria, do Porto, t. xir, p. 121. Nos versos do 
poeta sevilhano Bernardo dei Alcazar, do século xvi, descreve 
a vida da aldéa, indicando este costume das Aravias : 

Tener una esclava mora. 
Que os haòle algarabia. 

Ap. GallardOy Bibl. esp., p. 88, 



412 LIVRO Ifl, CAPITULO II 

cyclo de Romances de Guapos y Yalentones, ou as 
xácaras e xacarandinas, em que são heroes Francisco 
Esteban, Salvador Bastante, Escobedo, Rasgado. Na 
Itália, principalmente Sicília, Nápoles e Toscana, abun- 
dam as Storie dei piú famosi banditi; (1) e na Grécia 
moderna pertencem a esta nova poesia épica os cantos 
do Klephtas, e em Portugal os Fados. 

Conservam-se na transmissão oral alguns Romances 
da historia portugueza, taes como os da Rainha Santa, 
coUigidos no Funchal, Estremoz e Elvas, o CantarciUo 
á Forneíra de Aljubarrota, o Casamento maUogrado 
cantado desde a morte do príncipe D. AflFonso, o ro- 
mance sobre a Batalha de Lepanto ou D. João da Ar- 
mada, o fragmento de romance da tomada de Salsete, 
e o romance sobre o Terremoto de Villa Franca, de 
1522, «Do qual, coipo escreve João de Barros, se fez 
uma cantiga ao modo como acerca de nós se canta- 
vam os rimances de cousas acontecidas.» (2) Ha tam- 
bém romances sobre as lendas de Santo António, dos 
amores de Ignez de Castro, do Conde D. Pedro Me- 
nino, e cantos diologados relativos ao Condestavel 
Nun'alvres, o Cid portuguez. 

Em todos os Romances populares, a parte descri- 
ptiva resume-se quasi sempre em um simples verso ; 
a parte narrativa é apenas a indispensável para col- 
locar a acção, que se passa de um modo objectivo, 
em diálogos. Pelo desenvolvimento natural de qual- 
quer Romance elle converte-se espontaneamente em 
drama, como vemos não só no do Conde de Lusbellay 
de uma versão popular da ilha de S. Miguel, como 
na forma litteraria dada por Balthazar Dias ao romance 
do Marquez de Mantu^a, D. Joaquin Costa observa, 
que o romance com forma dramática conserva-se no 

(1) Rivista di Letter atura popolare, p. 302. 

(2) Década iii, liv. i, cap. 5, 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 413 

Alto Aragão, entre os Bascos francezes, no Tyrol, na 
Bretanha, no Artois e nas Filippinas. (1) 

As Comedias populares. — Como uma creaçao artís- 
tica ulterior às formas estheticas do Lyrismo e da 
Epopèa, o theatro apresenta nas suas origens a dupla 
influencia d'estes elementos. Segundo Valério Máximo 
o drama tinha uma origem hymnica, e segundo Aris- 
tóteles provinha dos episódios da epopêa, e assim se 
explicava a etymologia da palavra Comedia, de komé a 
aldeia, e de komosj o festim. Não se excluem estas 
duas origens, sendo necessárias ambas para estabe- 
lecer por um processo generativo o desdobramento 
das formas do theatro popular. Comecemos pelo ele- 
mento lyrico da comedia ; o seu gérmen é o Coro, 
do qual se destaca uma Voz ou Guia, a que na Grécia 
se chama Ypocrites, (2) que vae respondendo ou aju- 
dando a dar movimento á lenda que se celebra. 

Nas Cantigas em Coro em volta da sepultura do 
Condestavel, também se destacava uma Voz, que 
levantava o canto narrativo, ao qual respondiam Todos: 
€No me digadeSj none, — Qtie santo é o Conde,» e tam- 
bém: <iSancto Condestabre, — Boné português, i» Junta- 
mente com o Coro, o rhytmo é marcado pela Dansa, 
que dá á parte narrativa uma expressão figurada; 
por isso juntamente com o Côrò religioso apparece a 
Dansa hierática subsistindo nos costumes populares. 
Depois da Peste grande, fez-se em 1570 a Procissão, 
que ainda hoje se conserva em Lisboa, com Damas e 
invenções ; na procissão de Corpus usavam-se as Dan- 
SOS dos ofQcios, e Bluteau em um Sermão de 1723 
allude á parte mimica das procissões : «Em Lisboa, 
nas procissões de quaresma, saem uns penitentes 

(1) Poesia popular espanola, p. 200, nota. 

(2) Bumouf, Hist, de la Litterature grêcque, U i, p. 223. 



444 UYRO lU, CAPITULO II 

cercados de tantas espadas tiradas da bainha, como 
em som de batalha...» À Voz, que se destacava do 
Coro é a Persona ou a Mascara, rudimento do typo 
popular ; na Ordenação phiiipptna probibiam-se as 
mascaras nas procissões, (i) 

Já vimos como dos Threnos lyricos provinham as 
festas sepulchraes com caracter dramático ; dos HjDie- 
neos também derivam formas theatraes 4eseAK)i vidas 
peio povo. No Ronumcero dei Cid vem a descríp^ de 
um casamento, com o seguinte &cto : 

Salki Peiayo hecho toro 
€<m un jkmo coiomào, 

Y oiros qtie le van siguiendo, 

Y uoa danza de lacayos. 



Y Pdayo con vejigas 
Fugendo de los mucbaehofi. 



Em um SenmSo de Saiato Eloy, do seoilo th, pro- 
faíbe-se : «Que nas calendas de Janeiro se não re|a*a- 
sentem farças ridicuias, tramfigmrcmdíhse em nèmsHko 
ou em veado novo.T^ Este costuine apparece ainda 
acliialmente no Brazíi, por occasíio da festa do Natal, 
figiurado dramaticamente com o titulo de Bumba meu 
Boi e de Cavallo Marinho. (2) Gelso de Magalhães 
descreve este costume persistente aa Bahia : cU«i 
outro grupo pulava e saltava diainte de um Boi, onjo 
arcabouço era de okadeira, coberto eom pannoe frái- 
tados. » 

Na Revista br<izileira lé-se : «um magote de indi- 
viduos, sempre acompanhados de grande nmilftidie, 
que v3o dansar nas casas trazendo comsígo a fbgtara 
4e nm boi por baixo do qual occiAta^se a figura de 



(i) 
(2) 



Liv. I, tit. 66, g 48. 

Yid. Cantai popuktres de Braaíil, vol. i. 



CANTIGAS, ROMAKCES £ COMEDIAS POPULARES itó 

um rapaz dansador. Ped^n com cantigas licença ao 
dono da casa para entrar. Obtida a licença apresen- 
íorse o Boi e rompe o Coro. O Vaqueiro representa 
s^npre a figura de um negro ou de um caboclo, ves- 
tido burlescamente e que é o alvo das diufas e pilhé- 
rias populares.» <1) O Theatro portuguez recebeu 
fórma iitteraria no monologo do Vaqueiro, de Gil Vi- 
cente. Dos costumes do campo, e das hostilidades 
locaes, desiaca-se o personagem objecto das chufas 
da multidão, que Mem a toraar-se o typo consagrado 
d<e drama popular. Gil Vicente creou este primeiro 
typo da comedia popitlar portugueza, ou o Raiinko, 
o aldeio lôrpa da povoação de Rates, e em geral de 
toda a Beira : 



Muitos namhôs vão lá 

De cá da serra a ganhar, 

E lá ^ vemos amtarj 

E bailar bem como ca. (ii, 443.) 

E Qô mais triste ratinho 

Se eiwhergava mna alegria 

Que agora não tem camiiho. <ii^ 447.), 



Como este typo isolado, oreou-se entre o povo o 
typo ée Doator pedante, de um personagem do tempo 
4e D. João nt, o Ooutor da Mula ruça, e o typo da 
criaéa ladina ou Sirigaita, {^) Aos cantos alternados, 
que deram orifem às Fesceninas ítalíotas, correspon- 
dem os wossos Fdiões ; e ás Dansas mímicas ou Sa- 
tura, ou acompanhadas de canto com mascara, como 
as Atellanas oscas, correspondem as cerimonias do 
enterro das Sestas, -do fim das malhadas e da colheita 
das azeitonas. Antes porém de descrevermos estes 



(1) Rev. brazil., t. i, p. 265. 

(2) Filinto, Trad. das Falmlas de Lafonteane, p. 292. 



416 LIVRO m, CAPiruLO ii 

costumes dramáticos portuguezes, vejamos como do 
desenvolvimento dos typos cómicos tradicionaes nas- 
cea a Comedia dd Arte, em que as situações sâo im- 
provisadas. Da Atellana osca, veiu para a Comedia 
dei Arte o Maccus que se chama PolichineUo, o Pap- 
pus que é hoje o Panlalon, Gasnar ou a Cassandra^ 
Lannio ou o Zannú Manducus ou Croque-ntitaine, 
Desennus ou o Dottore, e Bucco ou a BringéUa, Com 
estes personagens improvisam-se as mais surprehen- 
dentes comedias; nos costumes populares hespanhoes, 
depois do trabalho do campo ou por occasíao dos 
casamentos na Andaluzia, fazem-se os Juegos de Cor- 
tijOs em que se improvisam comedias, das quaes diz 
Lafuente y Alcântara : csolo hay premeditado y con- 
venido el asunto principal y el desenlace ; el dialogo 
y demas incidentes son improvisados por los actores. 
A veces es una relacion ó monologo, õ un sermon 
disparatado, que predica el mas suelto y gracioso en 
el decir, vestido con varias mantas y cubiertas dei 
aparejo, de un burro, y mostrando en lugar de im 
crucifijo un conejo muerto, ó cosa tal.» (i) Já Scali- 
gero notara que entre os Lacedemonios existia egaal 
costume, em que era um thema cómico ou enredo ir 
roubar fructa, e especialmente uvas, o que corresponde 
ainda entre nós ao provérbio pittoresco: O medo é que 
guarda a vinha, como á fabula da Raposa e as uvas 
corresponde a locução : Estão verdes. Vejamos alguns 
dos themas dramáticos populares. Lemos em um jor- 
nal acerca da Procissão da Sesta em Coimbra : <0s 
aprendizes de pedreiros e carpinteiros festejaram no 
dia 15 do corrente, (Abril) o primeiro dia da sesta 
pela forma tradicional. Um rapaz, quasi nu, condu- 
zido em triumpho n'uma padiola, esparge agua com 
uma vassoura e canta modas populares, que sâo acom- 

(1) Cancioneiro popular, 1. 1, p. u. 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 417 i 

i 

panhadas de vivas, entoados pela grande chusma de | 
trolhas, que seguem o andor da sesta. É uma usança 
antiquíssima em Coimbra, e a nosso vér, inoffensiva, 
a nao ser o rapaz do andor que anda sujeito a vários 
perigos. A procissão costuma reaiisar-se do meio dia 
ás 2 horas da tarde e percorre toda a cidade. » A forma 
dramática de Procissão, que o povo usa nas Malhadas 
do Centeio no Minho, e nos Azeitoneiros do Alémtejo, 
é o Eocodium itálico, ou o Sainete hespanhol. 

É ao som de búzios, (como os Tibicinios) que os 
ranchos das Azeitoneiras vêm a Santarém acompanha- 
das de bandeiras enfeitadas com lenços e fitas de cores, 
nos mezes de Novembro a Fevereiro, durante a apa- 
nha da azeitona nos olivaes. O maior desenvolvimento 
dramático deste serviço campestre observa-se no 
Alémtejo : 

cTem muita graça o apanhamento da azeitona e 
acabamento, no concelho de Elvas, se bem que não 
podemos dispensar-nos de dizer, que ha ahi um acto 
a que ninguém deixará de chamar bárbaro. É o arre- 
bolar, do qual adiante trataremos. Ao aproximar-se o 
desejado Dezembro, n3o ha em Elvas uma rapariga, 
não ha em todo o concelho uma tricana que não salte, 
que não pule para alistar-se nos ranchos, que para 
apanhar a azeitona se formam por essa occasião. As 
criadas abandonam a casa onde estavam servindo, e 
desde o principio de Dezembro até ao fim de Janeiro 
subsequente, ou ainda principio de Fevereiro, estão 
os pobres amos á espera de criadas, pois antes d'esse 
tempo difficilmente as conseguem. 

«No dia em que começa a colheita é eleito um 
alferes, uma juiza e uma mordoma em cada rancho. 
A colheita principia. Os rapazes já taludos occupam-se 
em varejar a azeitona, e as raparigas em apanhar a 
que vae cahindo. Durante este serviço reina verda- 
deira alegria entre esta gente. Os ditos exóticos, as 
27 II 



418 UVRO III, CAPITULO II 

graças amorosas roubam-lhes mais attenção do que 
o trabalho. Ha em cada rancho um f&Uyr, homem, qae 
encarregado pelo dono do olival, regula e \igia os 
trabalhos. 

<A certas e determinadas horas do dia, cada uma 
das raparigas e cada um dos rapazes se senta por 
entre as arvores, abre o seu farnel, a que chamam 
panno aviadoy tira d'elle queijo e pao e começa a 
comer, pois é esse quasi sempre o alimento d^aquella 
pobre gente. Ha duas refeições no dia. 

«Impertinentes brinquedos de rapazes, constantes 
esquivanças das raparigas, eis tudo o que acontece 
nas horas de refeição. Mas as travessuras dos rapazes 
nao acabam ainda ahi. Convidam elles as raparigas 
para arrebolar, e se acaso ellas hesitam em acceitar 
o convite, hão de por força ceder. Cada um d'ac|iielles 
latagões corre para aquella que mais lhe enche oolhOy 
enlaça-a, lança-se com ella de rojo, e aí do par que 
ao acaso se encaminha para algum sitio ladeirento... 
£ n'este viver de delicias e de encantos vão atraves- 
sando Dezembro e Janeiro. 

«No dia em que se deve acabar a colheita, e a que 
chamam acabamento da azeitona, as raparigas levam 
para o olival, cuidadosamente enfardados, vestidos e 
fitas de Vadiadas cores, similhando os fatos de uma 
verdadeira mascarada ; e os rapazes conduzem para 
aU um grande numero de archotes, e uma bandeira 
posta em comprida haste. Um pouco antes do sol posto, 
a mordoma e as demais raparigas tratam de enfeitar 
umas ás outras, sendo sempre os melhores enfeites 
privativos da juiza, que pela maior parte das vezes 
deve a sua eleição á circumstancia de ser a mais for- 
mosa. Ao anoitecer, quando tudo se acha disposto, 
começa a procissão. O alferes, rodeado de archotes e 
agitando a bandeira, rompe a marcha em direcção á 
cidade ; a juiza trazendo a mordoma ao seu lado es- 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 419 

qaerdo, segae-o ; o rancho vem em descantes cami- 
nhando atraz. Chegando á cidade, dirigem-se á resi- 
dência do dono do olival, que saúdam com vivas e 
palmas, este apparece, manda abrir-lhes as portas, 
dá-lhes de comer e de beber ; novas palmas e novos 
vivas lh'o agradecem, e em seguida pela mesma forma 
em que vieram, partem para a residência do feitor, 
onde os espera ama bôa ceia. Depois de cear ha baile. 
N'aquella noite nâo deixam a casa do feitor; cantam 
6 dansam ao som de pandeiros, e, chegando o dia 
retiram-se saudosos do melhor tempo que passam em 
todo o anno. 

«É n'aquelles ranchos que muitas inclinações se 
despertam, é alli que muitos casamentos se contra- 
Ctam.» (i) 

No Minho a colheita do centeio é também o assum- 
pto de um drama primitivo. Estende-se a palha na 
eira antes de romper o sol, e vem os malhaaores con- 
vidados de véspera ; postam-se frente a frente quatro 
ou seis de cada lado, e cada qual ao compasso alter- 
nado descarrega o malho de modo a ouvir-se cantar 
a eira muito longe. Gomo este trabalho é feito debaixo 
das fortes calmas de Julho, vem de vez em quando a 
dona da casa com cangirão ou infusa de vinho verde 
dar de beber aos trabalhadores. Rompem os apupos, 
ou vivas inarticulados. Próximo da hora do meio dia, 
alguns trabalhadores a pretexto de irem compor os 
malhos, buscam assaltar a cosinha, ha combate com 
as mulheres que estão em casa, saindo os malhadores 
quasi sempre vencidos e enfarruscados. Depois que 
se acaba a malhada, passéa-se a familia da casa em 
cadeirinha de mãos em roda da eira, e arrumada a 
palha procede-se ao drama do Enterro da Vdha. Arran- 
ja-se um mono de palha, vestido de saias, deitam-no 

(I) Almanach de Lembranças, para 1863, p 316. 



420 LIVRO III, CAPITULO II 

n^oma padiola, e os malhadores levam-no em volta 
da eira, até que correm á desfilada pelos campos ; ao 
lado da velha vae pranteando o viuvo, dizendo chufas 
e respondendo, e assim levanta as gargalhadas. OuU*as 
vezes o viuvo nao quer que vão enterrar a sua t^elfta, 
e foge com ella indo pendural-a no alto de uma cerei- 
jeira. 

As antigas Dyonisiams eram os dramas rudimen- 
tares que nas aldéas se faziam por occasi3o das vin- 
dimas. Gomo os Ludi compitaks de Roma, achamos 
outros rudimentos dramáticos de caracter profano na 
vida provincial portugueza. 

Eis a descripçao das Festas dramáticas em Niza, 
em 1828: «Vinham os ofSciaes artistas muito com- 
postos e preparados com suas jalecas de chita e dro- 
gas de varias cores, calça branca e chapéos de palha 
com muitas fitas e laços, e alguns com mascaras, por 
serem mais vergonhosos, e recatados, em duas filei- 
ras, e os que traziam insígnias e instrumentos no 
centro, todos muito contentes e alvorotados : na frente 
os Alfaiates, com suas réguas e tezouras, e chegando 
ao Rocio, e fazendo uma grande roda, começaram a 
desempenhar o seu papel, que consistia n'uma engra- 
çada contradança e pantomima em roda de um cor- 
tiço, que já alli se achava quando elles chegavam. 

«Para vêr a dansa e gosar o divertimento, foi sa- 
hindo do cortiço uma enorme e feissima aranha, que 
para estar mais á vontade e contente se collocou em 
cima d'elle, e ahi ficou; mas reparando n'ella os dan- 
santes, e sendo os Alfaiates homens de pouco animo 
e valor, nâo poderam continuar a dansa na presença 
de tão asqueroso e repugnante hospede, e trataram 
de o afugentar : vieram todos com suas regoas e 
tezouras alçadas fazendo vários trejeitos e gaifonas, 
mas o peçonhento bicho, apenas os avistou, refugiou-se 
no profundo covil, com o que ficaram vexados e cor- 



tlANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 421 

ridos OS aggressores, que ímmediatâmente retiraram 
a seus logares ; e querendo continuar o folguedo^ 
viram de novo o atrevido insecto, que do alto do 
baluarte os provocava a novo conflicto, que seus inimi- 
gos emprehenderam com egual resultado ; mas tanto 
foram e vieram, que a pobresinha teve de perecer 
yictima de uma cilada que lhe armaram, ficando um 
dos mais corajosos embuscado junto do forte, e cor- 
tando-a depois com a tezoura, quando ella mais se 
ufanava e ensoberbecia de sua victoria. Uma estron- 
dosa acclamaçSo dos circumstantes, e muitos foguetes 
annunciavam o final do divertimento dos primeiros 
artistas. 

«Seguiram-se os Pedreiros, que, em limpas e aceia- 
das padeólas, conduziam os precisos materiaes para 
levantarem e construírem um edificio ; era o cimento 
e argamassa saborosíssimo arroz doce e cremes, e a 
pedra e tijolo eram substituídos por delicados biscou- 
tos e vários doces; começam a obra no meio de grandes 
festejos e folias, e porque mal empregados eram os 
materiaes serem lançados à terra para encherem os 
alicerces, iam-nos mettendo pela bocca dos compa- 
nheiros, que muito lhe agradeciam a lembrança, e 
inmiediatamente lhe retribuíam com egual fineza; tudo 
isto com grande raiva e inveja dos serventes e mais 
rapaziada, que desesperavam de n5o serem contem- 
plados e admíttídos a tão seductora construcção e 
trabalho. 

«Vieram depois d'eíles os Moleiros, que com as mãos 
dadas e os pés unidos no centro, executaram uma 
manobra símílhante á roda de seus moinhos no exer- 
cício de sua profissão ; e em seguida os quinteiros e 
hortelões, que prepararam, adubaram e semearam 
um bello canteiro de hortalice, que nasceu e prospe- 
rou com tal forma, que logo se colheu e plantou no 
mesmo dia. 



422 LITRO UI, CAPITULO II 

«Appareceram depois os Cardoá^es com seas ca- 
vallinhos de canastra e outras invenções que muito 
divertiram e agradaram ; mas os que de todos mais 
seduziram e maravilharam a assemblêa, foram os Sa- 
pcueiros, que conduziam um bosque portátil, figurando 
uma gonia da America, e tão pretos e mascarados 
vinham, que os próprios cafres, mungovienses ou 
negricios não o eram mais. Traziam com elles arcos, 
aljavas e settas, que manejavam com muita destreza 
e propriedade e uma muzica de tambores, gaitas e 
atabales, que tangiam com muita bulha e desharmo- 
nia. Chegada a sua vez ordenaram uma caçada e 
bateram o matto, d'onde saiu uma prodigiosa quan- 
tidade de passarinhos, aos quaes elles atiravam e 
perseguiam ; e depois d'elles muitas lebres, coelhos 
e perdizes, que foram victimas da multidão que os 
apanhou e adquiriu ; mas de todas a que mais diver- 
tiu o auditório foi uma infeliz raposa, que máo grado 
da astúcia e agudeza, que Esopo e Lafontaine lhe 
attribuiram, também succambiu 

«Seguiu-se o mais bello e magestoso espectáculo 
de todo o divertimento. Os Carpinteiros e Ferreiros 
haviam edificado na parte meridional do Rocio um 
pequeno reducto de madeira com suas peças e canhões, 
e o tinham guarnecido com boa e valente tropa esco- 
lhida d'entre os seus, preparada com muitas bombas 
e rodinhas a repellir qualquer ataque ; apesar d'isto, 
os que estavam de fora munidos de algumas peças 
de artilheria ligeira e obuzes emprehenderam o cerco 
e a tomada da fortaleza e correram para ella com 
muito denodo e desembaraço ; defenderam-se os sitia- 
dos com egual coragem lançando sobre os aggressores 
muitos fogos de artificio, que faziam uma vista e eflfeito 
maravilhoso por ser já noite escura ; mas, apezar 
d'isto, a praça foi tomada, e a bandeira nacional appa- 
receu arvorada D'ella, sendo victoriada por todos com 



CANTIGAS» ROMANCES E GOIlfEDIAS POPULARES 423 

muito enthusiasmo e patriotismo, e com a victoria 
acabou a festa n^aquelle dia, fazendo nos seguintes os 
Cavalleiros da villa vistosas cavalhadas e torneios.» (1) 

Na Romaria da Senhora das Neves, no Minho, em 
5 de Agosto, é costume representar-se no terreiro á 
esquerda da capellinha um Auto popular : 

«Apoiado sobre grossas estacas, vestidas de varia 
e interlaçada ramagem, lá se alevanta do ch3o, á altura 
de seis palmos um tablado, onde se recita todos os 
annos o predilecto drama — Ferrabraz e Floripes. 

«Começa já o dia a declinar, e eis que chegam 
quinze cavalleiros (é conta fixa e sabida) escarrancha- 
dos uns em selim, outros em albardão, nos seus buce- 
phalos, e fazendo-os girar meia dúzia de vezes no 
largo, tendo primeiro formado duas linhas como dis- 
postos em campo de batalha, agora os vereis dispu- 
tando-se em oppostos campos. Uma das linhas repre- 
senta os denominados Doze Pares de França com seu 
chefe Carlos Magno ; arremeda a outra um troço de 
Mouros, ás ordens do almirante Balão. Trajam todos 
fardetas, que dizem á moura. O resultado da peleja 
sae favorável aos Pares, que então sobem ao tablado 
e ahi representam seus papeis, seguem-se-lhe os ou- 
tros, e egualmente ahi tem seu papel a magnânima 
Floripes, namorada de Guy de Borgonha ; esforçam-se 
todos para receberem os applausos de que eflfectiva- 
menle os cobrem os espectadores, e termina a festa 
por um segundo combate, em que o almirante mouro 
se finge victima dos Pares francezes, e Floripes com 
seu irmão Ferrabraz ficam em poder dos mesmos. » (2) 



(1) Dr. Motta e Moura, Mem, hist. da villa de Niza, t ii, 
p. 101—104. 

(2) Almanadi de Lembranças, para 1860, p. 370. Da romaria 
de Nossa Senhora do Fayal, a 8 de Septembro, diz Gaspar Fru- 
ctuoso, nas Sandades da Terra ; «vem de dez e doze léguas 



424 LIVRO III, CAPITULO U 

O theatro popular conserva-se nos costomes provin- 
ciaes tal como o achamos prohibido desde o principio 
do século xYi nas Constituições episcopaes. (1) Em 
uma correspondência de Lamego para uma gazeta do 
Porto lê-se : «Com a época das romarias começou a 
época dos entremezes^ em que se mostram n'um tablado 
provisório, burlescos e farsantes, uns pobres homens 
que passam uma vida laboriosa a excavar o solo, inun- 
dados de camarinhas de suor, e com as mãos caleja- 
das sob o pezo do alvião... O entremez nas aldêas que 
circumvisinham Lamego, tem passado n'uma tradição 
oral de geração em geração, perpetuando-se todos os 
annos, accentuando-se nos mesmos dias de festa, e 
modiflcando-se, talvez, pouco na sua essência e na 
sua originalidade. — As obras dramáticas de António 
José.... tém muitos pontos de contacto com alguns dos 
entremezes a que assistimos, pelo menos no caracter 
de alguns personagens, na liberdade de phrases que 
hoje melindram a decência, e na pureza da lingua- 
gem.» (2) Alguns d'estes Autos são clássicos, como 
o de Santa Catherina, de Balthazar Dias, representado 
em S. Christovam de Mafamude, ou o Auto da Paixão, 
do Padre Francisco Vaz ; João Pedro Ribeiro falia do 
Auto do Abbade João, representado em Monte-mór, (3) 
e em D. Francisco Manuel de Mello encontramos refe- 
rencia a elle : «Oh senhor ! Leu alguma vez o Atuo 
dCd-rei Almançor da Berbéria ? — Porque ? — Porque 



por terra mui fragosa, e juntos fazem muitas festas de come- 
dias, dansas e musicas de muitos instrumentos de violas, gui- 
tarras, rabis e gaitas de fole;» (Gap. xviii, p. 99, ed. Azevedo.) 
(i) Não transcrevemos estes documentos para não avolu- 
marem este capitulo ; acham-se na Memoria de Trígoso Vide 
supra, p. 275. 

(2) Correspondência de 4 de Agosto, de i877. (Jornal da 
Mamã, n."" i495, vi anno.) 

(3) Disserta^. Chron,, t. iv, P. u, p. 28, 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 425 

não sei que almas christSs haverá qae aturem a sua 
arenga; em começando, agonia-se-me a alma.» (1) 

Na freguezia de Arcozello da Serra, na diocese da 
Guarda, quando se faz a festa da Senhora da Assum- 
pção, representam-se nas ruas estes quatro Autos 
entremeados de dansas, cuja descripção pertence ao 
auctor do Diccionario abreviado de Chorographia. 

— cDansa das Donzellas : Seis ou oito meninas, 
de oito a dez annos, trajadas com decência, e um 
menino vestido de anjo, na frente, percorrem as ruas 
da povoação, dansando ao som de mal afinada viola, 
e parando de estação em estação, representam uma 
pequena farça allusiva á conversão e baptismo d'a- 
quelles innocentes ; repete cada uma o seu ditOj como 
ellas lhe chamam, e pedem todas ao Anjo que as 
baptise, pois querem abjurar a religião de Mafoma, 
em que foram criadas ; o anjo, depois de breve exhor- 
tação, as asperge com agua que leva em um púcaro.» 
Esta é a feição mais antiga do nosso theatro hierático, 
porque corresponde a uma certa lembrança das rela- 
ções da sociedade mosarabe. 

— cDansa dos Marujos: Oito homens vestidos de- 
centemente com capacetes muito enfeitados com fitas, 
que lhes adornam igualmente o fato, e também guia- 
dos pela indispensável viola, percorrem a povoação, 
representando em diversos legares a farça de serem 
uns pobres marítimos que em occasião de temporal 
fizeram voto de ir em romaria á Senhora da Assum- 
pção festejar-lhe o seu dia ; cada um diz o seu dito 
análogo ao assumpto e dansa-se nos intervallos com 
a maior galhofa e alegria.» Feição característica de 
um povo de navegadores, que no romance da Nao 
CaJíherimta já revelou o seu génio aventureiro. 
— cDansa dos Espingardeiros : São também oito 

(1) Feira de Anexins, p. 61. 



426 LIVRO lII, CAPITULO 11 

OU dez alentados mancebos, que vestidos com o traje 
do seu sexo e com grandes chapéos altos, marcham 
em dous bandos, ao som do tambor, com armas de 
fogo, bem perfilados, tendo cada bando o seu com- 
mandante na frente com espada desembainhada : re- 
presentam os dois exércitos portuguez e hespanhol, 
que em tempos remotos tantas vezes se bateram, sem- 
pre com vantagem dos primeiros, que d'esta vez ainda 
não deixaram a palma aos contrários ; essa tropa corre 
também as ruas, e nos logares que escolhem para dar 
batalha, postam-se os dous exércitos um em frente 
do outro, ha parlamentarios, desafios, e por fim tra- 
va-se a peleja e vencem os portuguezes, vindo o gene- 
ral hespanhol ajoelhar aos pés do vencedor, que lhe 
concede a vida a elle e aos seus. Toda esta farça é 
também representada por ditos^ que cada soldado 
repete, diflferentes uns dos outros, mas análogos ao 
objecto.» Este género dramático é inspirado pela aver- 
são popular a Castella desde o tempo de D. João i, e 
que ainda hoje existe. 

— «Dansa dos Pretos : Oito pequenos de nove a 
dez annos, com as caras enfarruscadas, assim como 
as mãos, pés e pernas, vestidos de vermelho, com 
muitos guizos pelo fato, conduzidos por um guia 
tocando o fandango, fazendo mil caretas e visagens, 
correm todas as estações, e também de quando em 
quando representam a farça de serem escravos mal- 
tratados pelo seu senhor ; faz cada um a sua queixa 
repetindo o seu dito„ pela maior parte cheio de pala- 
vras indecentíssimas, que offenderiam os ouvidos me- 
nos castos em outra occasião, mas n'aquelle dia con- 
sagrado á Virgem, tudo é permittido e applaudidol... 
mas o que é de extranhar... é que todas estas dansas 
acompanham a procissão, indo ora atraz, ora adiante 
do Sacramento, causando até embaraço à marcha e 
regularidade do préstito, com suas evoluções e figuras 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 427 

de dansa.» (1) Esta farça dos pretos é a que melhor 
representa a vida burgueza do século xvi, como vemos 
pelo que descrevem Nicolao Clenardo e Gil Vicente. 
Estes quatro Autos encerram todos os característicos 
da vida do povo, sobre que se devia fundar o drama 
burguez. Quando Gil Vicente começou a escrever, já 
o theatro não podia ser instituição, foi um protesto 
franco, que os seus successores levaram ao pedan- 
tismo litterario. 

Em um artigo sobre as «Palavras e locuções usa- 
das em S. Miguel,» é definida a palavra Mourisca — 
«representação sobre um tablado ao ár livre, de uma 
peça em forma dramática, por homens do povo, com 
vestuário apropriado ao assumpto. Suppômos ainda, 
que as guerras com os mouros, simuladas depois em 
alguns dos seus episódios, aqui na ilha, e em certos 
dias de regosijo publico são a origem d'aquelle nome. 
Foi de rigor o entrar Santos ou Santas na peça como 
o elemento protector e salvador dos christãos. Moder- 
namente as peças representadas tém variado assum- 
pto, sob o nome de Comedias^ com quanto o costume 
histórico que os figurantes vestem continue a ser de 
mouros, ao que elles dizem. 

«As ultimas representações chamadas Mouriscas 
foram, uma, cujo nome ignoro, no logar de Santo Antó- 
nio, na qual o santo orago da freguezia era o patrono 
dos christãos, e outra nas Feteiras, — Fida da Rainha 
Santa Isabel 

«As ultimas comedias foram nos Mosteiros, O Villão 
(dialogo em que todas as freguezias da ilha são jul- 
gadas graciosamente); e na Fajam de Baixo, João de 
Calaes e a Formosa Magalona. 

«Conheci na Fajã de Baixo o sr. Luiz Diniz, falle- 

(1) J. A. d*Almeida^ Dicciomrio abreviado de Choroçraphia 
U I, p. 75, 



428 LIVRO III, CAPITULO II 

eido no anno passado, que foi quem quadrou aquellas 
duas comedias. Quadrar era a expressão que elle 
empregava para significar — pôr em quadras. 

cA Formosa MagaUma, de Luiz Diniz, (que eu li ; 
445 quadras) pouco tem de inventivo, pr(q)rio da ima- 
ginação popular. O que ali achei de mais curioso foi 
o uso tradicional no theatro antigo, da apresentação 
da peça e seu argumento, em algumas quadras que 
iniciam a representação, e a despedida do auctor, 
como fechando. Na Formosa MagcUona ha na despe- 
dida estas trez quadras entre outras : 

Estando a scena acabada 
N*um vivo contentamento, 
Ninguém diz que homem leigo 
Fez este divertimento. 

Se quizerem para o anno 
Aqui se acharem presentes, 
Inda ei-de estudar cousa 
Para irem mais contentes. 

Um pobre homem como eu 
Metter com tanta funcção, 
Devia pelo governo. 
Ter uma gratificação.» 



José de Torres, descrevendo alguns dos mais cara- 
cterísticos costumes das ilhas dos Açores, falia dos 
Autos populares do S. João, conhecidos pelo titulo de 
Mouriscadas : «E as Mouriscadas ? O que é isto que 
tanto fanatisa o povo, e lhe dá praça a ostentar o seu 
tacto plástico, nem sempre dos mais finos ? Sirva de 
exemplar a descripção de uma que ha annos se deu 
no norte da ilha de S. Miguel, no adro da egreja 
parochial do Bom Jesus de Rabo-de-Peixe. O dia e a 
estação lhe desafiam concorrentes a milhares. De uma 
extremidade do adro corre sobre a praça tablado ele- 



CANTIGAS» ROMANCES E GOMEDÍAS POPULARES 429 

vado : é o palco scenico. São moiros scenario e ves- 
tuário ; moiros actores ; moira toda a acç3o e relação; 
a lingua que faliam ainda mais moira e sarracena i 
Tratam ali amores e raptos e consórcios ou combates 
de morte (Qm de tam banalissima frequência em ro- 
mances vulgares e quejandas peças de tíieatro I) e no 
meio da fingida confusão e alarido, o povo ri, applaude 
sem entender, vivorêa o embaraço de actores impro- 
visados. Para que tudo seja singular, até essa espécie 
de drama, versificado a seu modo com variedade de 
metros, é composição de José Raposo Abelha, ho- 
mem desconhecedor até dos rudimentos do ler e do 
escrever, que ao sol dos campos consomme a vida, e 
com a enxada e o arado constrange a terra a resol- 
ver-se em fructos.» (1) Ha certas localidades em que 
o Auto achou uma sympathia geral, e pela sua fre- 
quência produziu a illusão de se julgar que teve ali 
uma origem espontânea. O que vemos com as Atei- 
lanas (do nome de Atella^ capital dos Oscos) dá-se com 
as Mouriscadas; os moradores de Rabo-de-Peixe da- 
vam-se pelos inventores da Comedia, como se vê por 
esta anedocta contada por José de Torres: «N'um 
logar publico de Ponta Delgada, capital da ilha, algu- 
mas pessoas amadoras da arte Uam um drama. Entre- 
mentes acérca-se d^elles um homem do campo, que 
fica embevecido, porque a leitura prosegue. Admiram 
a attenção do homem ; perguntam-lhe se o prende o 
gosto, se sabe o que aquillo é emfim. Responde afiQr- 
mativamente, e conclue: — Se sei o que aquillo ét 
Pudera não ? quando sou da terra em que se inventa- 
ram as comedias. Indagado o caso, era o homem natu- 
ral de Rabo-de-Peixe.» Gil Vicente allude à dansa 
chamada Mourisca, (Ob., t. m, p. 53) e é natural que 
da dansa tornada fallada saisse espontaneamente o 

(i) Panorama, X. xiii, p. 223. 



430 LIVRO líl, GAPITirLO II 

Auto do género das Mauriscadas ; a Dama das Dan- 
zeUaSj na Guarda, participa d'este caracter dramático 
religioso. Nas festas do casamento de D. Maria i, em 
1760, exibiu-se uma «dansa dos oíBciaes da cutellarja 
e carpinteria, asseadamente vestidos com forças mm- 
riscas. » 

Em Yianna do Gastello ainda se representa na Pro- 
cissão da Senhora do Carmo uma dansa chamada do 
Rá da Mourama: «espécie de rusga entre catholicos 
e mouros, os quaes, como era lógico, apanhavam grossa 
pancadaria dos defensores da fé, no meio de muita 
algazarra dos espectadores devotos- Note-se, que para 
que o cunho nacional estivesse ali eíQcazmente im- 
presso, esta contenda era toda obrada em redandilhas 
toantes, misturando-se piedosamente as loas á Virgem 
com as petulantes chufas que os nossos iam jogando 
á soffredora inourisma.» (1) 

No Cirio do Cabo, em que se gasta 1:200^5100 réis, 
uma das partes da festa é as Loas. D'este uso diz 
Ribeiro Guimarães, alludindo aos regulamentos que 
dirigem os mordomos: «Os pontos que os festeiros 
têm a considerar são os seguintes : Composição das 
LOAS, as quaes devem ser feitas por quem o intmda^ 
e o verso tenha melodia e conceito ; — escolha de trez 
Anjos, que tenham boa pronuncia, medição nas pala- 
vras e acção competente. (2) 

«Próximo da ermida da Senhora do Cabo existe uma 
edificação chamada Da Op£ra, que foi construída pelo 
cirio de Lisboa. Tinha este theatro «qia ordem de 
camarotes, que hoje está reduzida a uma galeria ge- 
ral. A caixa é espaçosa e com boas serventias. Teve 
bom scenario e vestuário, mas hoje está tudo velho. 



(1) Correspondência para a Actualidade, em 23 de Julho de 
1877. 

(2) Ap. Símmario de varia Mstoria, i, p. i99. 



CANTIGAS, ROMANCES E COMEDIAS POPULARES 431 

Ha aDDOS ainda, por occasiSo d'alli ir um círio, houve 
representação n'este theatro.» (1) 

«Os festeiros quando vão receber a prata ao Cabo, 
se entram no arraial com musica e anjos, devem antes 
pedir licença aos que estão festejando ; dirigindo-se 
depois ao adro do templo, os anjos recitam Lôas, e 
acabadas estas apeiam-se e vão ao templo fazer oração. 

«O juiz da bandeira que sáe, entrega-a então ao 
seu anjo, e logo os outros anjos recitam as Loas, e 
concluídas estas, o anjo que tem a bandeira vae en- 
tregada ao anjo dos que entram. É esta cerimonia 
acompanhada sempre de copioso pranto.» (2) 

«Nas povoações do transito, ou em algumas que 
também costumam receber a Senhora, pára o Girio, 
e os Anjos recitam Lôas apropriadas. {Id., p. 208.) 

«Os Anjos, na chegada (ao Cabo) recitam os seus 
versos.» (Id., p. 208.) Ha missa solemne, sermão, 
arraial, e fogo de artificio, e ás vezes toiros e cava- 
Ihadas.n {Id., p. 209.) «O Cirio logo que entra no 
arraial do Cabo, dà trez voltas em redor, e no adro 
do templo os Anjos recitam lôas.» Estes costumes ap- 
parecem-nos mesmo nas colónias poituguezas desde 
o século XVI, resistindo a todas as prohibições episco- 
paes, jesuíticas e dos moralistas pedantes. (3) 



(i) Summario de varia Historia^ i, 205. 

(2) Ib., I, 207. 

(3; Os Jesuítas combatiam em Portugal as Comedias popu- 
lareSj como conta Balthazar Telles, na Chron. da Companhia:, 
t. II, p. 235, e no Brazil empregavam as Comedias na catechese 
dos indigenas e nas procissões. Escreve o Padre Fernão Gar- 
dim (1583-1590), sobre a festa de S. Sebastião no Rio de Ja- 
neiro : «Desembarcando viemos em procissão até á Misericór- 
dia que está junto da praia. . . Estava um theatro á portada 
da Misericórdia com uma tolda de uma vella, e a santa relí- 
quia se poz sobre um rico altar emquanto se representou um 
devoto Dialogo do Martifrio do Santo, com cores e varias figu- 
ras muito ricamente vestidas ; e foi asseteado um moço atado 



432 LIVRO III, CAPITULO II 

a um páo. Causou este espectáculo muitas lagrimas de devo- 
ção e alegria a toda a cidade por representar muito ao vivo 
o martyrio do santo, nem faltou mulher que viesse á festa ; por 
onde, acabado o Dialogo, por a nossa egreja ser pequena lhes 



preguei no mesmo theatro. . . » 
NoflE 



íim do século xviii o pessimismo moralista ainda se in- 
surgia contra as comedias populares nos arraiaes e romarias, 
sem comtudo desraigar o costume : «Mas como querem que 
lhes resulte gloria (aos Santos) conciliando-se o povo para q 
no adro de suas Egrejas assista á representação dos progressos 
dei Desden con el Desden, da Vida ae D. Quiacote de la MawAa, 
^0% Amores de Júpiter eAlcmena, guamecendo-se estes pratos 
com um Sermão de vinho, com o Entremez do Velho namorado, 
com o baile da Fofa, e outras ridicularias semelhantes. . . .? 
Dizem que para ser maior o concurso dos romeiros se lhes 
brinda com estes prazeres^ pois sendo este o principal estí- 
mulo que os commove, seja oapplauso mais extenso por mais 
numeroso, etc.» Silvestre Silvério da Silveira e Silva {Traba- 
lhos de Job, i780.) 



CAPITULO lU 

Contos, Lendas, Livros populares, 
e Historia de Portugal na voz do Povo 



o costume popular dos Contos ; as paramy thia na Grécia, as 
Skaski na Hussía, e os Patranheiros peninsulares. Fundo 
commum dos Contos populares feticnistas. — O typo dos 
Contos da Carochinha. — Os Contos polytheistas, de origem 
semita ou anthropopathicos, e de origem árica ou anthro- 
pomorphicos. — As Lendas portuguesas : Enumeração das 
principaes lendas nacionaes.— Elemento poético raramente 
aproveitado na Litteratura. — Os Lioros populares portu- 
gueses : Escríptos aue foram vulgares no século xvi, xvii, 
XVIII e XIX. — Gil Vicente e Balthazar Dias como escripto- 
res populares. — As Sete Partidas do bi/ante D. Pedro ; a 
Donzetla Theodora, Imperatriz Porcina, Carlos Magno, — 
A irmandade dos Cegos vendedores de Folhas volantes.* Os 
Cegos resadores. — Èertholdo, Bertholdinho e Caçasse no ; 
João de Calais e o cyclo do Morto agradecido. — Cosme 
Manhoso ; Corcooados de Setúbal. Catalogo das Folhas vo- 
lantes da Litteratura de cordel. — A Historia de Portugal 
na Doz do Poço : As trez épocas tradicionaes da historia 
portugueza.— Distineção entre Estorias e Caronicas, e en- 
tre Foros e Leis. — A vida dos Concelhos. — O typo popular 
de D. Diniz. — Apodos contra D. Fernando — Acclamaçao de 
D. João I. — A revolta de Lisboa; o typo popular do Con- 
destavel ; Metter lança em Africa. — O Cabo de Nam e a 
Viagem da índia. — Os heroes portuguezes e o poder real. 

— As satyras contra o clericalismo. — A jurisdicção inqui- 
sitorial. — Extincção da nacionalidade portugueza — Os 
Braganças nas cantigas populares : D. João iv, D. João v; 
D. José e o Marquez de Pombal. — O governo de D. Maria i. 

— Regência de D. João vi e governo de Beresford. — A re- 
volução liberal. — Miguelistas e Cabralistas. — A Maria da 
Fonte, e a intervenção estrangeira. Conclusão. 

No esgotamento da sua actividade muscular, o povo 
sente a necessidade de viver pela intelligencia ; d'aqui 
a grande curiosidade em ouvir o que se conta, e 

28 U 



434 LIVRO lII, CAPITLLO III 

de repetir os successos modificados pelas próprias 
impressões, que elle confunde com os factos na sin- 
ceridade da sua alma. Os ditados vulgares : De Umgas 
vias, longas mentiras, e Quem conta um conto aceres- 
centa um ponto, resumem em uma perfeita synthese 
os processos da psycbologia popular. Os Contos sâo 
essas narrativas, que vieram com a migração das 
raças indo-européas, e que apparecem com as mes- 
mas peripécias entre as raças negra e amarella, entre 
os árias e os semitas, e em todas as nacionalidades 
da Europa ; nas longas vias que percorreram desde 
as sociedades selvagens e fetichistas até ás mais ele- 
vadas civilisações, revestiram-se de uma imaginosa 
efflorescencia, uma vez conservando os velhos costu- 
mes sem a comprebensâo do tempo presente, outras 
vezes servindo de norma para transmittir a memoria 
de novas situações. Quer o Conto se tome como uma 
realidade acontecida, quer a presente realidade se 
identifique em um typo noveliesco conhecido, essa 
elaboração popular constituo a creação poética da 
Lenda, donde resultou a fixação da Historia, como 
se vé na relação dos Logographos para com Heródoto. 
O uso dos Contos occupa entre o povo um logar im- 
portante, especialmente nas serocuias da aldèa. Gon- 
zaga, na Lyra xix, da primeira parte da Marília de 
Dirceu, allude a este costume: 

Nas noites de serão, nos sentaremos 
Cos filhos, se os tivermos, á fogueira, 
Entre as falsas historias ^ contares 
Lhes contarás a minha verdadeira — 



Na Grécia certas mulheres tinham a profissão de 
contar contos; eram as Paramythias. Segundo Guthrie, 
na Rússia, as casas opulentas tinham mulheres en- 
carregadas de contar Skaski ou contos para suas amas 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 435 

adormecerem; assim também entre os árabes, as zam- 
bras eram reuniões para ouvir contos, narrados pelos 
rawia, que entre si disputavam o triumpho poético. 
Gil Vicente allude a este costume em Portugal, nos 
versos: «E folgam de ouvir novellas — Que duram 
noites e dias.» Nas aldêas do Minho cbamam-se PcUror 
nheiros os que nas seroadas entretém os circumstan- 
tes com Contos ou Patranhas ; elles mal sabem que 
o tbema que revestem com a sua linguagem impro- 
visada no momento, e que bordam a capricho com 
incidentes casuaes, proveiu de uma remotíssima anti- 
guidade, acbando-se entre os áwaros> como o Conto 
dos dezaseis quintões, ou entre os indus, como o da 
mulher que queria cegar o marido, ou s3o verdadei- 
ramente universaes, como as Trez Cidras do Amor, 
ou o da Gata borralheira. Fiiinto Elisio, tão latinista, 
nâo deixou de impressionar-se com este facto, que se 
tomou um importante problema scientifico ; diz elle : 
«Contem-me Pelle-d^Asno... Conto em França tSo co- 
nhecido, como entre nós o das Trez Cidras do Afnor. » (1) 
E mais: cCom o titulo de Gata borralheira^ contava 
minha mae a historia da Cendrílhom. E nunca minha 
mãe soube francez. > (2) É esta falta de connexSo histó- 
rica que toma surprehendente a universalidade dos 
Contos; Gubernatis consigna a impressão causada pela 
«grande parecença dos Contos sicilianos com uma 
certa serie de contos russos;» (3) este mesmo facto 
foi observado por Pedroso em relação aos contos por- 
tuguezes cujos typos principaes se acham nas collecções 
russas de Afanasiev. Lembrando-nos que os Gregos 
chamavam aos seus contos fabulas lybicas e ethiopi- 
cas, vé-se que esta similaridade da tradição das cama- 



(i) Fabulas, p. 324. 

(2) Obras, t. iii, p. 60. 

(3) Myth. des Plantes, t. ii, p 36. 



436 LIYBO in, CAPITULO III 

das mongolóides da população russa, provém da 
identidade ethnica d'essa outra povoação dos iberos 
conununs a todo o Mediterrâneo. (1) 

Pequeno estudo sobre o Conto da Carochinha. — Na 
linguagem popular existe uma locução genérica para 
significar toda a classe de tradição imaginosa, desde 
a lenda local ou pessoal até á simples parlenda infantil, 
— Historias da Carochinha. De facto os contos ou histo- 
rias da Carochinha são ignorados por aquelles que 
empregam a locução com um certo desdém pejorativo. 
Na Feira de Aneanns, de D. Francisco Manuel de Mello, 
do meado do século xvn, acha-se uma preciosa refe- 
rencia à Historia da Carochinha^ como sendo o feitiço 
e encanto das crianças: 

«—Espere; contar-lhe-hei uma historia. 

— A da Carochinha f 

— Não buscará outra mais cara, que essa é muito 
barata ? 

— Pois digo-lhe, que ainda com a carocha, esta 
historia é o feitiço das creanças. » (2) 

N'este trecho ha dois equívocos seiscentistas, o da 
relação entre carochinha e barata, (contraposição de 
caro com barato) e o da carocha com a mitra de igno- 
minia que a Inquisição enfiava na cabeça dos desgra- 
çados que atirava ás fogueiras. O que nos interessa 
aqui é a referencia ao gosto das crianças por esta 
historia, no século xvii, enlevo ainda vigorosíssimo 
na vida domestica actual. Â Historia da Carochinha, 
apresenta na tradição portugueza diversos estados de 



(!) Nã collecção dos Contos tradicionaes do Povo portuguez 
deixámos estudado este problema nas introducções sobre a 
Novellistica popular ^ e sobre a Litteratura dos Contos popula* 
res em Portugal, e Notas comparativas. 

(2) Op. cit , (edição de Lisboa), p. 8. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 437 

conservação ; em Coimbra a sua primeira parte acha-se 
dissolvida em prosa, tendo o final na sua forma de 
lenga-lenga ainda a estruetura poética ; (1) na ilha da 
Madeira repete-se uma versão inteiramente poética, 
mas um pouco obliterada na sua parte final. (2) Dos 
Açores recebemos algumas versões, entre ellas uma 
mais completa, que publicamos. Em um entremez, 
Récipe de páo, (1792) achamos uma referencia ao texto 
da Carochinha : «está posta todo o dia áquella janella, 
com uma mão sobre a outra, feita a Carochinha, e 
não se envergonha, sendo uma mulher viuva, e estar 
com os penteados tão indignos ao seu caracter.» (3) 
Eis a parlenda tal como anda nas versões insulanas : 



A Oax^oolilnlia 



Era uma vez Passou um porco : 

A Carochinha, — Quero- vos eu ! 

Achou cinco réis «Que comes tu ? 

Ao varrer da cosinha. — Do que Deus deu. 

A Carochinha «Fó, fó, ó porco, 

Poz-se á janella Eu não te quero ; 

A vôr quem queria Melhor marido 

Casar com ella : Que tu espero. 

«Quem quer casar Quem quer casar 

Com a Carochinha, Com a Carochinha, 

Que ella é fermosa Que ella é formosa 

E bonitinha ? E bonitinha ? 



(1) Contos populares portuguezes, p. 1 a 5. 

(2) Romanceiro do Archipelago da Madeira, por Álvaro Ro- 
drigues d^Azevedo. 

(3) Também nos Inéditos de Alexandre de Gusmão, p. 274, 
se U : «Digo que tudo são historias da Carochinha, e que sei 
mui bem o que sei.« 



438 



LIVRO III, CAPITULO III 



Passoa um cão : 

— Quero-vos eu ! 
«Que comes tu ? 

— Do que Deus Deu. 
«Fó, fó, ó cão, 

Eu não te quero; 
Melhor marido 
Que tu espero. 

Vão passando o boi, o gato 
e outros animaeSj e ella 
sempre : 

Quem quer casar 
Com a Carochinha, 
Que ella é formosa 
E perfeitinha ? 

Passou um rato : 

— Quero-vos eu ! 
«E tu que comes ? 

— O bom é meu. 
«A ti, ó rato, 

A ti eu quero : 
Melhor marido 
Não no espero. 

Casaram-se, e elle chama- 
va-se o João Ratão. 

Domingo á missa 
Ambinhos vão ; 
Feijões ao lume 
No caldeirão. 
Viu-se a Carochinha 
Sem leque na mão : 
«Carochinha sem leque I 
Que não dirão ? 
Vae-me por elle, 
Meu João Ratão. 

Chega elle a casa 
Vae ao caldeirão, 
Metteu um pé, 
Metteu a mao, 



Cahiu lá dentro 
O João Ratão. 
Acabou a missa ; 
Carochinha então 
Veiu sem leque 
Nem João Ratão, 
Procura na casa, 
Vae ao caldeirão... 

«Ai meu marido. 
Meu João Ratão 
Cosido e assado 
No caldeirão I 

Pergunta a tripeça 
Do pé do lar : 

— Que tens. Carochinha, 
Que estás a chorar ? 
«Morreu João Ratão 

E eu estou a bradar. 

— E eu que sou tripeça 
Ponho-me a dansar. 

Diz d*alli a porta : 

— Que tens, tripeça, 
Que estás a dansar ? 

— Morreu o João Ratão^ 
Carochinha a chorar, 

E eu que sou tripeça 
Puz-me a dansar. 

— E eu que sou porta 
Ponho-me abrir e a fechar. 

Diz d'alli a trave : 

— Que tens tu, ó porta, 
A abrir-te e a fechar ? 

— Morreu o João Ratão, 
Carochinha a chorar, 

A tripeça a dansar, 
E eu que sou porta 
Puz-me a abrir e a fechar. 
— «E eu que sou trave 
Vou-me quebrar. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPDLARES, ETC. 



439 



Diz d'allí o pinheiro : 
«— Que tens tu ó trave, 
Que te estás a quebrar ? 
— «Morreu o João Ratão, 
Carochinha a chorar, 
A tripeça a dansar, 
A porta a abrir e a fechar, 
E eu trave a quebrar. 
«— E eu que sou pinheiro 
Vou-jne arrancar. 



Vem os passarinhos : 

«Que tens tu, pinheiro, 

Para te arrancar ? 

«-— Morreu o João Ratão, 

Carochinha a chorar, 

A tripeça a dansar, 

A porta a abrir e a fechar, 

A trave a quebrar, 

E eu a m*arrancar. 

«Nós os passarinhos 

Tiramos os olhinhos. 



Elles foram beber agua e 
perguntou a fonte : 



«Porque foi, passarinhos, 
Que tirastes os olhinhos ? 
«Morreu o João Ratão, 
Carochinha a chorar, 
A tripeça a dansar, 
A porta a abrir e a fechar; 
A trave quebrou-se, 
O pinheiro arrancou-se, 
E nós os passarinhos 
Tirámos os olhinhos. 
«E eu que sou fonte 
Vou-me seccar. 



Vieram os filhos do rei 
com os cantarinhos e 
acharam a fonte secca: 

—«Que tens tu, fonte, 
Para te seccar ? 
«Morreu o João Ratão, 
A Carochinha a chorar, 
A tripeça a dansar, 
A porta a abrir e a fechar; 
A trave quebrou-se, 
O pinheiro arrancou-se; 
Os passarinhos. 
Tiraram os olhinhos, 
E eu que sou fonte 
Não havia de seccar ? 
— «E nós, infantínhos, 
Qnebiâmos os cantarinhos. 

Foram os príncipes para 
paiacio e perguntou a 
rainha : 

« — Que tendes, meninos. 
Que quebraes os cantarinhos? 
— «Morreu o João Ratão, 
A Carochinha a chorar, 
A tripeça a dansar, 
A porta a abrir e a fechar; 
A trave quebrou-se, 
O pinheiro arrancou-se ; 
Os passarinhos 
Tiraram os olhinhos, 
E nós quebrámos 
Os cantarinhos. 
«— E eu que sou a rainha 
Ponho-me em fraldinha, 
E o rei com pezar 
Poz o seu cú a assar. 

(Porto, e ilha de 
S. Jorge.) 



HoUywell, nas Nurserey Rhymes, dá a este género 
novellesco o nome de historias de accumulaçao, a 



440 LIVRO III, CAPITULO III 

cujo typo pertencem o conto do Macaca), a lenga4enga 
do Gatinho, e da Formiga e da Neve, (1) verdadeira- 
mente universaes. 

O casamento da Carochinha com o rato ou João 
Ratão, parece absurdo; mas desde que encontrá- 
mos este conto na versão italiana em que o rato se 
chama sorcio e serece, inferimos que existem relações 
entre estes nomes, podendo assim remontar-nos a 
uma tradição mais antiga. Nos Comos e Cançonetas 
infantis de Pomigliano, colligidos por Vittorio Imbriani, 
e publicados em 1877, acha-se este conto da Serece 
ou da Carochinha^ muito similhante á tradição portu- 
gueza. Eis o seu resumo : «Uma velhinha achou uma 
pequena moeda, e depois de matutar em que a gasta- 
ria comprou alvaiade e carmim para pôr na cara, e 
poz-se á janella. Passam diversos animaes (tantos 
quanto se quer) que a pedem em casamento, e ella 
diz-lhes : 

— Deixai-me ouvir a voz que tendes. 

O asno zurra, o cão ladra, o gato mia, o touro 
berra, e assim por diante. A velhinha responde a 
cada um d'elles : 

— ^Vós metteis-me medo de noite. 

Veiu o rato, que se pôz aos ginchos cheios de ter- 
nura. A velhinha casou com o rato, e no dia que ella 
foi á missa deixou-o perto da panella do jantar, re- 
conmiendando-lhe que não lhe tocasse. Quando che- 
gou a casa, não encontrou o marido. Procurou-o por 
toda a parte (aqui abundam as particularidades) e 
acabou por dar com elle cabido morto dentro da 
panella. A dôr da velha é pungente. 

Este mesmo conto acha-se em outras provincias 
italianas. Em Avellino, não é uma velha mas uma gata 



(1) Romanceiro do ArchipeUxgo da Madeira, p. 454, 457, 463 
e 467. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 441 

que casa com o rato ; singular casamento. Na terra 
de Ottranto, a viuva do conto é uma formiga. Existe 
lambem uma versão grega, em que a formiga deso- 
lada se lamenta cercada das suas companheiras, di- 
zendo o texto grego : «E a formiga fica viuva, porque 
aquelle que é rato deve ser guloso, etc.» (1) 

Na versão insulana, o rato é também considerado 
guloso e por isso preferido. Em um lai de Marie de 
França, ha o casamento com uma rata, mas é esta a 
scena principalmente desenvolvida ; por esse lai nos 
remontamos ás suas origens orientaes do Pantcha- 
tantra^ e d'ahi ao elemento mythico d'esta parlenda 
infantil. 

A vulgarisação d'este conto cumulativo é extensís- 
sima; limitar-nos-hemos a indicar as collecções em 
que se acham paradigmas indispensáveis para o pro- 
cesso comparativo. Nos Rondallayre ou quentes popu- 
lares CatalanSj de Mapons y Labros, a Carochinha é 
a Rateia; e nos Contes populaires lorrains^ recueillis 
dans un viUage de Barrois, por Emmanuel Gosquin, 
vem duas versões : a de Pou et Pouce e La petite Sou- 
ris. Além da versão itaUana de Pomigliano, coUigida 
por Imbriani, Giuseppe Pitré, na Fiabe^ Novelk e Ra- 
conti popolari siciliani traz uma outra intitulada La 
gaita e la surci. Gubernatis transcreve na Mythologia 
zoológica, (t. n, p. 51) uma canção infantil relativa ao 
casamento e viuvez da formiga com o grillo, a qual 
termina : 



La formicuecia ando alia festa a il Porto, 
Ebbe la nova che il suo grillo era morto. 
La formiccucia, quando seppe la nova 
La casco in terra, stette svenuta un'ora, etc. 



(1) Marc Monnier, Rev, des Deux-MondeSj 1877 (!.• de no- 
vembro, p. 14i.) 



442 UVRO ni, capitulo ih 

Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bre- 
tagne, (p. 375) allude a uma historia de accumulação 
colligida por Hollywell nas Nursery Rhymes, que 
começa como a nossa historia da Carochinha: €An 
old woman was sweeping her house» etc. 

Nas tradições populares, a Velha é a personificação 
mythica da noite; em um conto de Pomigliano a 
Carochinha é substituida por uma velhinha, assim 
como no inglez de Hollywell, e em portuguez este 
nome de Carocho é synonymo de escuro e negro. O 
Conto decimo terceiro do terceiro livro de Pantcha- 
tanira é o que nos revela o sentido mythico primitivo 
da historia da Carochinha. Eil-o, resumidamente : 

«Sobre a borda do Ganges, banhava-se um asceta 
e começava a lavar a bocca, quando uma Morganha 
(rata pequenina) escapando do bico do falcão lhe veiu 
cahir na mSo. Quando elle a viu pôl-a em cima d'uma 
folha de figueira, acabou os outros actos purificato- 
rios e pelo poder das suas austeridades fez d'ella uma 
rapariga. Levou-a para casa, e disse para a sua mu- 
lher, de quem não tinha filhos : 

— Toma esta menina, e cria-a com cuidado. 

 mulher do asceta educou-a, até que ella chegou 
aos doze annos ; depois disse ao marido que era tempo 
de pensar em casal-a. 

— Dizes bem ; hei de dal-a a um seu egual. Hei 
de fallar ao sol, a vér se casa com ella. 

Yeiu o sol, e disse o asceta para a filha : 

— Aqui tens o sol que alumia os três mundos ; vê 
lá se te agrada. 

— Meu pae, elle é muito quente ; eu não o quero. 
Chama outro que esteja mais alto que elle. 

O asceta disse para o sol: — Quem ha superior 
a ti? 

— A nuvem, porque me encobre. 
Veiu a nuvem ; disse a pequena : 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 443 

— É fria e negra, nao a quero. Dae-me um marido 
maior do que a nuvem. 

O asceta perguntou á nuvem : — O que ha de supe- 
rior a ti? 

— O vento, que me bate e forma em mil farrapos. 
Chamou o vento, para ser marido da pequena. Disse 

ella: 

— Não o quero, porque é muito variável. Chama 
outro superior a elle. 

O asceta perguntou ao vento quem lhe era mais 
superior, e elle respondeu que — o monte, porque o 
retém. 

Veiu o monte ; ella respondeu : 

— Não o quero ; porque é duro e hirto. Dae-me a 
outro marido. 

O asceta perguntou ao monte quem haveria que 
lhe fosse superior ? elle respondeu : 

— Os ratos são superiores a mim, que me furam. 
Depois o asceta chamou um rato, mostrou-o á filha 

e disse: 

— Eu vou-te dar a este. Agrada-te este rei dos 
ratos ? 

Quando a moça o viu, pensou : — Elle é da minha 
espécie.— E cheia de alegria, pediu ao pae que a 
transformasse em rata para casar com elle.» (1) 

Este conto acha-se no Kaíhásaritsâgara^ no Kalila 
e Dimna, no Anwár-i Suhailij no Livro das luzes, no 
Hitopadesa, no Harivansa, no Livro das Maravilhas, 
nos Laís de Maria de França, fabula 64, e ainda na 
Historia do povo judaico de Basnage, como se vê pelas 
fontes achadas por Benfey na sua introducção ao 
Pantchatantra, e nas notas de Lancereau. Por aqui 
se infere a sua transmissão do Oriente para a Europa 
da Edade media e para as tradições populares ; e 

(i) Pantchatantra, trad. de Edouard Lancereau, p. 250. 



444 UVRO III, CAPITULO 111 

quanto mais profundas sao as suas raizes tradicionaes, 
com mais segurança nos aproximamos do seu pensa- 
mento mythico inicial. Gubernatis, na Mythologia zoo- 
lógica, interpreta este conto nas suas relações mythi- 
cas : «Â rata da noite (a carochinha) é a primeira que 
apparece ; o crepúsculo (o falcão, ou os outros ani- 
maes) procura agarral-a ; a noite torna-se aurora ; o 
sol oflerece-se a ella como esposo ; o sol é oflfuscado 
pela nuvem, e a nuvem é dissipada pelo vento ; com- 
tudo, a aurora da noite, a menina, mostra-se sobre 
a montanha, a rata da noite torna a apparecer e a 
menina confunde-se com ella.» (1) Gubernatis conclue: 
«N'este bello mytho, a revolução que se effectua nas 
vinte e quatro horas do dia acha-se completamente 
descripta.» Na parlenda da Formiga e da Neve, da 
tradição popular portugueza, apparece também o sol, 
que a nuvem esconde, a qual é espalhada pelo vento, 
que o muro veda, e que o rato fura. Vê-se que a tra- 
dição se desviou da situação do casamento para o 
encadeamento d'essa outra maravilha popular, a força. 
Na linguagem popular, a Carocha identificou-se com 
a velha na locução : chupado das carochas ou das bru- 
xasy o que acontece sempre de noite. O sentido my- 
thico da parlenda infantil portugueza acha-se na se- 
gunda parte da historia da Carochinha, quando morre 
João Ratão, e é chorado pela natureza inteira, como 
Balder e todos os outros heroes solares. 

A lenda portugueza acaba por o rei não chorar, e 
é por isso como na de Balder, que representa a vaga 
claridade da noite, que João Ratão não resuscita. 

O facto da Velha, dos contos italiano e inglez, ou 
da Carochinha no conto portuguez, acharem a moeda 
ao varrer da cosinha, existe ligado nas superstições 
populares à crença de que na casa em que ha bara- 

(1) Myth, zoologique, t ii, p. 68. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 445 

tas existe dinheiro. Diz Gubernatis, estabelecendo a 
relaç3o mythica com as riquezas: «A rata nunca é 
concebida senão em relação com as trevas nocturnas, 
e por consequência, dando extensão ao mytho, em 
relação também com as trevas do inverno, d'onde 
sabem mais tarde a luz e as riquezas.» (1) 

Esta categoria de contos de accumulação deve-se 
considerar como uma das formas mais antigas da 
novellistica, a que correspondem no lyrismo popular 
as enumerações dithyrambicas das Orações dos Núme- 
ros. Assim como existem cantos aliterados e onoma- 
topaicos para desenvolverem a loquela das crianças, 
(género de traba-lenguds, bespanhol) as historias de 
accumulação perderam totalmente o sentido mytbico, 
conservando nos processos espontâneos da psycholo- 
gia popular o destino lie um exercicio mnemónico. 

As Lendas populares — têm quasi sempre um fundo 
de realidade modificado pelas impressões subjectivas, 
e com a acção do tempo, á medida que o facto deixa 
de ser comprehendido ou conhecido, é tambam alte- 
rado no sentido da plausibilidade. Em Strabão acha-se 
a lenda das Ilhas encantadas, que tanto suscitaram a 
imaginação dos navegadores portuguezes. O Mytho 
das Nuvens, ou as Apsaras indianas, presas pelo Dra- 
gão, e libertadas pelo raio solar ou clava do heroe, 
acha-se na forma de Lenda histórica na tradição astu- 
riana, portugueza e castelhana do tributo das Donzel- 
las que se pagava annualmente aos mouros, e foram 
libertadas pelo auxilio de S. Thiago. O dr. João de 
Barros, no manuscripto das Antiguidades de Entre 
Douro e Minho, cap. 8, conta esta lenda : «ha outro 
costume n'esta comarqua, que é o censo, foro dos 
Votos de Santiago, que paga cada morador doesta terra 

(1) Op. cit, t. II, p. 76. 



446 UYRO III, CAPITULO UI 

e do Reyno de Leão, huma medida de pao e outra 
de vinho ; e os de Leão se pagam ao Arcebispo de 
Santiago e os d'esta comarqua ao Arcebispo de Braga, 
que lhe foram permudados por outros direitos que 
deixou a S. Thiago, e tem nacimento do tempo dei 
Bey Ramiro godo, o qual se levantou contra os Mou- 
ros, e lhe tolheu o tributo que lhe prometteu o rei 
Mauregato, que lhe dava cada anno Cem DmzéUas, e 
por este rei se levantar se quebrou antre elles e os 
Mouros a paz. E houveram batalha onde milagrosa- 
mente appareceu o apostolo S. Thiago. E os Mouros 
foram vencidos, e foi isto anno de E por esta 

victoria se prometteram para sempre ao glorioso apos- 
tolo estes Votos por os subsídios doeste reino de Leão: 
que não tinham então mais os christãos, e tudo o mais 
era de Mouros. Hoje em dia em Galliza, antre a cidade 
de Goruna e Betanços, está hu logar que chamam o 
PeUo Burdello, onde levando os Mouros estas Donzellas 
lh'as tolheram por força certos christãos, e deram 
causa á guerra, e por isto se chama aquelle logar 
Peito Burdello por ser Feito triste e feo.» Com esta 
lenda, inventada sobre um mytho meteorológico para 
justificar o censo pago á egreja, está relacionada a 
nossa lenda poética de Guesto Ansures da trova do 
Figudrál. As lendas repetem-se mudando de época e 
logar, como a do Milagre de Ourique, que deriva da 
tradição do Lábaro de Constantino, e a da Rainha 
Sama, e o Pagem, que é popular na Alsacia, que 
Affonso o Sábio contava como um Milagre da Virgem, 
e que se acha nas collecções orientaes como a de 
Katha sarit sagara. Muitas vezes a explicação etymo- 
logica de um nome dá logar a uma lenda ; Fernão de 
Oliveira explica com a seguinte lenda o nome de 
Aveiro : «Dantes n'essa terra morava hu caçador de 
aves, ao qual como d'alcunha chamavam o Aveiro.i^ 
Viterbo explica a lenda do Bispo Negro, como corre- 



CONTOS, LENDAS» LIVROS POPULAHLS» ETG. 447 

spondendo ao facto de se chamarem monges negros 
aos frades de S. Bento, (1) e regeita a lenda de F\m$ 
Roupinho, ou do milagre da Nazareth. (2) A justa 
comprehensãô do valor poético da Lenda, como uma 
expressão da realidade segundo a impressão de uma 
época, é um dos mais elevados critérios a que se 
elevou a moderna sciencia da Historia ; os velhos chro- 
nistas serviam-se de todas as tradições populares como 
documentos positivos de historia, como vemos na Ghiro- 
nica geral de Affonso o Sábio, e este syncretismo não 
é mais condemnavel, do que a severidade analytica 
quando regeita todos os elementos que a tradição pôde 
prestar à comprehensãô de um successo. Herculano 
aborrecido contra a impudência dos compiladores dos 
falsos-chronicões, despiu a historia portugueza das 
magnificas lendas poéticas que lhe dão vida. Não po- 
dendo estudar as nossas Lendas uacíonaes na sua ori- 
gem e forma, limitamo-nos a indical-as pelos titu- 
los, com que geralmente são conhecidas. São ellas : 
Ilhas encantadas, Milagre de Ourique, Pagem Henri- 
que, Praga de Dona Tareja, Fidelidade de Egas Moniz, 
Fundação de Lisboa, Geraldo Sem pavor. Gaia, Moura 
Saluquia, Traga-Mouros, Dama pé de cabra, Egas Mo- 
niz Trovador, O Bispo Negro, João Soares de Paiva, 
a Torre do Sapo, Tributo das Donzellas ou Guesto 
Ansures, Fuás Roupinho, Martim de Freitas, O solar 
dos Marinhos, Gastello de Faria, D. Branca, Rainha 
Santa, Maria Paes, D. Ignez de Castro, Confissão de 
D. Pedro i, o Castigo do Bispo, Roussada de Bem- 
flca. Beato João de Montemor, a Ala dos Namorados, 
Doze de Inglaterra, Preste João das índias, a Espada 
do Condestavel, Pegas de Cintra, Beato Amadeu, a 
Abobada da Batalha, Estatua do Duque de Coimbra, 

(i) Elucidário, vb.*> Clbhioo, p. 197. Ed. Inn. 
(2) Ihiá., vb.^" Algobaxa, p. 9z. 



448 LIVRO Hl, CAPITULO III 

Morte de D. Guiomar Coutinho, os Amores de Machim, 
Padeira de Aljubarrota, Estatua da ilha do Corvo, 
Quinto Império, Amores de Bernardim Ribeiro, o 
Annel de Benção, Vinda de D. Sebastião, Barbas de 
D. João de Castro, Náo Catherinetta, Obras de Santa 
Engracia e o Callado é o melhor, Pedro Cem. (1) 

A tradição entre o povo não é simplesmente oral ; 
a palavra escripta exerce na sua imaginação um 
enorme perstigio. Está em letra redonda, eis um dos 
mais elevados grãos da veracidade ; FaUar como um 
livro aberto, é o supra-summo do saber, e para con- 
cordar com uma verdade intuitiva e universal têm a 
phrase : É dos livros. Isto nos revela a existência de 
uma Litteratura de Livros exclusivamente do povo, 
que elle conserva como uma das suas mais especiali- 
sadas predilecções. 

Os Livros populares porttigmzes (Folhas-volantes ou 
litteratura de cordel.) — As pequenas nacionalidades 
têm fracos estímulos de actividade, e por isso a sua 
vida politica, industrial, litteraria e artística apresenta 
um poder limitado, que parece á primeira vista uma 
falta de vigor, de invenção e de originalidade. Conhe- 
cida porém a relação dos phenomenos sociaes com o 
meio, immedíatamente se sabe julgar as manifesta- 
ções mais ou menos conscientes d'essa pequena na- 
cionalidade. Em Portugal o povo só começou a ter 
vida politica nos Concelhos, e a par d'essas garantias 
estabelecidas nas Cartas de Foral existiu uma fecunda 
poesia lyrica tão bella que o que penetrou nos Can- 
cioneiros aristocráticos por imitação não tem nada que 
o exceda nos Cancioneiros da Edade media da Europa. 



(i) Estas Lendas são objecto de um volume que publicare- 
mos em tempo, transcriptas na sua redacção mais antiga, com 
estudos sobre a sua formação. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 449 

No século XV começam algmnas regalias parlamenta- 
res em D. João i, e o povo apresenta os seus cantos 
festivos, como os que entoava em volta da sepultura 
do Condestavel, o typo épico da independência portu- 
gueza. (1) No século xvi cria-se a riqueza publica pela 
exploração colonial, e se esse século é o mais fecundo 
da litteratura portugueza, cuja época é conhecida pelo 
nome de Quinhentista, rivalisando quasi com a Itália, 
— pelo seu lado o povo portuguez também teve inte- 
resses moraes bastantes para inspirar uma litteratura 
particularmente sua, com AtUos, ou dramas hieráti- 
cos, com Trovas ou composições épicas e lyricas, e 
com Relações ou pequenas narrativas históricas como 
as bellas descripções dos naufrágios na carreira da 
índia. 

São numerosos os livros populares do século xvi 
em Portugal, mas antes de fallarmos d'elles importa 
notar que os principaes escriptores quinhentistas como 
Gil Vicente, António Ribeiro Chiado, Sà de Miranda, 
Jorge Ferreira inspiraram-se directamente das tradi- 
ções populares; outros, como Trancoso, Bandarra, 
Balthazar Dias, Affonso Alvares, Gregório Aflfonso 
foram exclusivamente os escriptores do povo, os que 
tiveram o privilegio de lhe dirigir o sentimento, de 
impressional-o na sua ingenuidade. O conjuncto d'estes 
livros, que se caracterisam pela sua forma material 
de folha volante^ ou como lhe chamam os hespanhoes 
pliego suelto, forma uma litteratura especial, de uma 
grande importância ethnica e histórica, à qual se dá 
em Portugal o nome pittoresco de Litteratura de cor- 
del, pelo modo como esses folhetos eram outr'ora apre- 
sentados ao pubUco dependurados em um barbante. 
Nicoláo Tolentino de Almeida, que conheceu tão bem 

(i) Fr. José Pereira de Santa Anna, Chron, dos Carm,, 1. 1, 
P. I, p. 466. 

â9 U 



450 UVRO III, CAPITULO III 

a physionomia íntima da sociedade portugueza do 
século xviii, refere-se a esta litteratura de cordel, ua 
satyra do Bilhar: 

Todos os versos leu da Estatua equestre, 
E todos os Carnosos Entremezes 
Que no Arsenal ao vago caminhante 
SÍe vendem a cavallo n'um barbante. 

Apesar de baver passado um século sobre este uso, 
ainda se conservam algumas canastras de folbetos da 
antiga litteratura de cordel na concorrida rua do Ar- 
senal. Bocage, que também teve intimas relações com 
o povo portuguez, que lhe perpetuou o nome em 
lendas picarescas, allude á litteratura popular, quando 
ella era ainda exclusivamente explorada pelos cegos 
por um privilegio real de D. João v : 

Mercenário pregão de cego andante 



Audaz impinge semsabor novella 
Munida de um Bocage altisonante. 



O poeta reagia contra a falsa attribuição de tradu- 
ctor da novdla exemplar de Cervantes, a Ikspanhola 
Ingleza, que os cegos apregoavam sob o nome de 
Bocache. 

Hoje os cegos ainda vendenã relações, trovas e his- 
torias, mas recorrem a industrias complementares 
como a venda de jornaes e cakas de phosphoros. A 
litteratura popular portugueza apresenta trez épo- 
cas : a primeira e a mais fecunda, que revela o yigor 
do povo portuguez, é indubitavelmente no século xvi. 
Nao só os escriptores communicaram com o povo, como 
as obras que o povo adoptou ficaram de tal forma 
radicadas no seu gosto, que grande parte dos livros 
de cordel ainda hoje lidos, como os Autos e Trovcui 



CONTOS, LENDAS, LIVBOS POPUUUIES, ETC. 451 

de Bálthazar Dias, data da ultima metade do âeeulo 
decimo sexto. 

A segmida época apresenta menos fecundidade, 
porque se deu uma invencível concorrência com os 
escriptores hespanhoes, e os escriptores ascéticos 
desviaram o gosto do povo para os sermões, milagres 
e vidas de santos. Restam d'esta segunda época pou- 
cos folhetos populares, e só chegaram ao século xvra 
o Fidalgo aprendiz de D. Francisco Manuel de Mello, 
as coplas anonymas da Menina formosa^ o auto do 
CoUoquio dos Pastores^ de Frei António da Estrella, e 
o Tratado dos Passos de Frei Rodrigo de Deus. 

A terceira época, pela creaçSo da Confraria do 
Menino Jesus, por onde se reservou o privilegio ex- 
clusivo da venda de folhetos aos cegos, foi bastante 
fecunda, mas em geral a litteratura de cordel d'esta 
época, quer no theatro ou nas trovas, foi essencial- 
mente picaresca ; houve bastantes escriptores popu- 
lares, como Alexandre António de Lima, que chegou 
a escrever em plebeísmos e gíria vulgar, António José 
da Silva, que soube crear a baixa comedia com a graça 
popular ou chalaça, José Daniel Rodrigues da Gosta, 
auctor do romance picaresco o Piolho Viajante e do 
jornal Almocreve de Petas, 6 António Xavier Ferreira 
de Azevedo, o auctor da popularíssima comedia do 
Manuel Mendes Enxúndia. 

Depois da vulgarisação dos jornaes extinguiu-se a 
litteratura popular portugueza, e hoje só se lêem os 
melhores productos das trez épocas que esboçámos. 

Existe uma diferença profunda entre popular e Pra- 
dicionalj que importa bem distinguir para comprehen- 
der esta parte da historia litteraria ; em geral as crea- 
ções tradícionaes conservam-se nas versões oraes do 
povo, mas também se conservam entre o povo obras 
litterarias indíviduaes que se não derivam da tradição. 
Muitos dos livros populares pertencem a esta segunda 



• • 



452 LIVRO 111, CAPITULO lU 

classe, porém os mais profundamente radicados no 
gosto do povo são aqaeUes que se inspiram na tradi- 
ção. É por isso que todas as vezes que os escriplores 
se separam do povo as suas obras não tem intuito, e 
tornam-se quando muito uma hábil curiosidade. 

O escriptor que mais profundamente conheceu a 
vida e o gosto do povo portuguez foi Gil Vicente ; por 
mais minuciosamente que se estudem as suas obras, 
ha sempre revelações históricas a descobrir aí. EUe 
converteu o costume popular das representações hie- 
ráticas em bellas composições dramáticas a que deu 
o nome de Autos. Estas composições tornaram- se uma 
necessidade moral da classe burgueza no século xvi, 
e a gente do baixo povo pagava ás crianças da escola 
para as ouvir ler. Diz Jorge Ferreira, na Eufrosina 
(p. 187): «Se escreveis a lavadeira, que falia frau- 
tado, morde os beiços, lava as mãos com farellos, 
canta de soláo, inventa trovas, dá ceitis para cerejas a 
menino da escola que Ua Autos, . . » 

No tempo de Filinto Elysio, especialmente na sua 
mfancia, pagava-se doze vinténs aos cegos para reci- 
tarem os versos da paixão. Alguns Autos de Gil Vi- 
cente foram conhecidos pelo nome que o povo lhes 
impoz, como a Farça de Quem tem fareUos? 

Jorge Ferreira de Vasconcellos, tão verdadeiro na 
pintura dos costumes portuguezes do século xvi, allude 
frequentemente a Autos e trovas de Gil Vicente que 
se haviam tomado populares. Citaremos alguns d'es- 
ses Autos; o da Mofina Mendes, baseado sobre a 
tradição universal da Bilha de azeite» é citado como 
proverbial na Aulegrapbia : «Formosura com vangloria 
dana mais do que aproveita, e as mais das vezes lhe 
corre per davante Mofina Mendes e a boa diligencia 
acaba o que merecimento não alcança.» {Auleg.j ú. 52). 

Os Autos das Barcas do Inferno e do Purgatório 
também foram bastante populares, e ainda no se- 



CONTOS, LENDAS, LITROS POPULARES, ETC. 453 

culo XVIII se imprimiam e representavam ; as folhas 
volantes perdidas entre as mãos do povo dúferem das 
obras impressas sobre o manuscripto pelo filho de 
Gil Vicente. O Atito das Barcas tem duas redacções, 
uma castelhana publicada em Braga em 1539, e outra 
portugueza representada em Lisboa antes do falleci- 
mento da segunda mulher de el-rei D. Manuel. 

Ambas as redacções differem entre si, parecendo 
a castelhana derivada ou imitada do Dialogo de Mer- 
cúrio e Caronte, de Valdez ; esta redacção tem a mais 
do que a portugueza, um Intróito, no qual se allude 
a Lisboa : 

Mia fé os quíero eontar 
No sé que vi en Lisboa, 
Que dicen qae es casa boa. 

Tem a mais do que a redacção portugueza um 
Argumento, em que cita todos os personagens que 
entram no Auto (os mesmos que apparecem na re- 
dacção portugueza) e «Un hidalgo português;» tem 
lá mais quatro quadras moraes endecasyllabas. D. Bar- 
tholomé José Gallardo, no Ensaio de una Bibliotheca 
de Livros raros, cita a redacção hespanhola sem conhe- 
cer o auctor, e traz excerptos das scenas : do Diabo 
com o Fidalgo; — do Diabo com o Onzeneiro; — do 
Anjo com o Frade ; — da Alcoviteira com o Diabo ; — 
do Judeu com o Diabo. 

Na redacção portugueza das Barcas existem varian- 
tes fundamentos, sobretudo no século xvii. Em um 
folheto impresso por Domingos Carneiro em 1620, 
vem uma imitação dos Arrenegos de Gregório Aflfonso, 
criado do bispo de Évora, que Gil Vicente poz na 
bocca do Arraes do Inferno. Os Arrenegos foram a 
obra mais popular do fim do século xv, e acham-se 
no Cancioneiro de Resende de 1516, e nas folhas vo- 
lantes do século XVII ; o poeta popular António Ribeiro 



454 UYBO III, CAPITULO III 

Chiado também os imitou nos seus Avisos para gmt- 
dar. (1) Esse género de trovas saty ricas tem a forma 
dithyrambica, que facilita a improvisação e a adapta- 
ção popular. 

Os Airenegos de Gregório Affonso foram pois imi- 
tados pelo seu contemporâneo, o insigne Gil Vicente ; 
esta imitação, que prova a sua grande popularidade, 
anda junta á folha volante do criado do bispo de 
Évora com o titulo : 

Airenegos dd Karqueird do Inferno, noramente (roTados. 
Por Gil Vicente, de Lisboa 

Pois o rio vae tão mal, Arrenego eu do jogo 

e a barca tão vasia, onde vou escalavrado, 

começo de arrenegar Arrenego do Prelado 

primeiro de minha tia. que se preza de tafuL 

Arrenego da phantesia Arrenego do azul 

de quem mais que amimamou. que esta no meio do olho. 

Arrenego eu do grou Arrenego do piolho 

que voando foi ao céo. que mais que seu dono vai. 

Arrenego de quem morreu Arrenego do relógio 

de medo de uma sardinha. que não sabe que horas são. 

Arrenego da mesinha Arrenego do caravelão 

que faz inchar o doente. que sempre está em secco. 

Arrenego da semente Arrenego do dinheiro 

que não nasce em dois annos. que ganho n'esta viagem. 

Arrenego dos humanos Arrenego da barcagem 

que tem miolo de pato. e do malvado Barqueiro. 

Arrenego do barato E a Lúcifer requeiro 

que me leva quanto tenho que por este arrenegar 

Arrenego eu do lenho me queira logo entregar 

que se faz verde no fogo. a pnminencia do Inferno. (2) 

(i) Citados nas folhas volantes do século xvni com o titulo 
Avisos contra os enganos. Papeis vários, coll. da Academia, 
t. 65, no Escudo apologético. 

(2) Extraídos de uma folha volante impressa em Lisboa por 
Domingos Carneiro em 1649, com as licenças datadas de 4 de 
dezembro de 1620. Consultámos o raríssimo exemplar do 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULABES, ÈTC. 455 

Estes Arrenegos de Gil Vicente não se encontram 
intercalados no Auto da Barca do Inferno^ e devena-se 
considerar como pertencendo áquelle numero de óbra$ 
meúdas, que Luiz Vicente já em 1562 dava coom) per- 
didas. Falta em todas as edições das obras completas 
de Gil Vicente. No Escudo apologético, folha volante 
de 1732, cita-se entre as obras populares o Auto da 
Barca, o Auto da Segunda Barca e o Novo Auto da 
Barca. E no Folheto d'Ambas Lisboas, de 1730, n.® 2 : 
«e até querem governar a Barca do Inferno, etc.» 
Foi na segunda metade do século xvni que acabou a 
popularidade d'este cyclo de Autos hieráticos de Gil 
Vicente. 

Depois dos Autos das Barcas, a tragicomedia de 
D. Duardos foi a obra mais popular de Gil Vicente, 
dedicada ao príncipe D. João, successor de D. ManueL 
e por muito tempo attribuida sem fundamento ao 
infante D. Luiz. Esta tragicomedia pertence ao cyclo 
cavalheiresco de aventuras; traz um romance final que 
o povo portuguez assimilou em versões curiosíssimas, 
tanto em Hespanha como nas ilhas dos Açores, (1) e 
que o próprio Camões conheceu : 

Voyme á las tierras estranas Voyme á tierras estran^eras 
A dó ventura me guia, Pues ventura allá me guia. 

Aut dos Amph. Gil Vicente, 

Na Arte de Galanteria D. Francisco de Portugal 
cita o D. Duardos como uma composição favorita das 
damas da corte; (2) e a sua popularidade chegou 

faliecido Minhava, a quem devemos a commimicação dos 
Autos mais raros daLitteratura portugueza. Na Bíbliotneca do 
Porto existe outro exemplar. 

(1) Vid. Duran, e Cantos populares do Archipelago^ n.° 56 e 57. 

(2) Prestes no Auto dos Cantarinhos, cita-o também : 

Aqui não me pranteis horta, 
Com Dom Duardos e Flérida. 
Porque isso me não conforta, (p. 485) 



456 LIVRO III9 CAPITULO III 

ainda á segunda metade do século xvin, porque o 
D. Dtmrdos vem citado em uma lista de folhas volan- 
tes que se vendiam no Loreto em 1 732. A forma dra- 
mática decaia da lembrança do povo» e ficou apenas 
na corrente da tradição oral o bello romance de Fie- 
rida. No Folheto de Ambas LisboaSj de 1731, (n.® 14) 
cítam-se alguns assumptos populares tratados em uma 
parodia de Academia chamada dos Fleumaticos, e ai 
se lê : «Feita pausa, nomeou o Secretario o primeiro 
assumpto heróico, que foi a heróica acção do Príncipe 
D. Duardos se fingir hortelão para ver e fallar á prin- 
ceza Flérida, como consta do AtUo do mesmo D. Duar- 
dos logo na segunda folha.» Por este mesmo tempo 
o Cavalheiro de Oliveira colligia uma bella versão 
popular do romance de Flerida, que Almeida Garrett 
publicou no seu Romanceiro. 

Resta de Gil Vicente uma obra que foi popular 
durante trez séculos, o Pranto de Maria Parda; já 
no meado do século xvi fallava d'estas trovas na 
comedia Atdegraphia, o primoroso Jorge Ferreira de 
Vasconcellos : «Vós, em pessoa nobre agraduado a 
obreiro, sabe que já competem as padeiras, lee pelo 
Conde Partinoples, sabe de cór as Trovas de Maria 
Parda, e entra per figura no Auto do Marquez de 
Mantua.^ (fl. 12). Cita-as também António Prestes: 

N*uin pintar-lhe Anno bom, 
N*outro Maria Parda (1) 

«Meu compadre N. que tomou por sua conta pro- 
ver-me de todos os Autos de Maria Parda, me soc- 
correu com os villancicos. » (2) 

Junto das Trovas de Gil Vicente vem citada uma 



(1) Autos, p. 32. Ed. Porto. 

(2) D. Francisco Manuel, Cartas, p. 543. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 457 

das obras mais queridas do povo portuguez, o Mar- 
quez de Mantua do cego Balthazar Dias. As trovas 
de Maria Parda figuram na lista das folhas volantes 
que se vendiam no Loreto em 1732, e Filinto Elysio, 
escreve ainda no fim do século xvm : «E foram gran- 
des poetas os que compozeram as Cantigas dos Cegos 
e Autos de Maria Parda,i> {Obras^ t. ni, 3.) 

Hoje nenhuma obra de Gil Vicente subsiste na lei- 
tura popular, porque os livreiros voltaram-se para a 
exploração dos romances francezes ; porém póde-se 
aíBrmar que este grande escriptor renasce para a 
sciencia, que o estuda como a luz mais viva para 
revelar a existência moral da sociedade portugueza 
no século xvl Além doestes escriptos, Gil Vicente tem 
ainda uma communicaçao bem intima com o povo 
pelos romances heróicos que intercalou nos seus Autos, 
pelos jogos, pragas, superstições e locuções prover- 
biaes e fragmentos de cantigas. 

Depois de Gil Vicente foi o poeta António Ribeiro 
Chiado o mais popular pela sua graça franca ; Jorge 
Ferreira diz d'elle : «Em algumas cousas teve graça 
esse escudeiro.» (Aulegraphia, fl. 126, v.) Camões 
também o cita : «e eu por gracioso o tomei ; e mais 
tem outra cousa, que uma trova fal-a tão bem como 
vós, como eu, ou como o Chiado.y> (Pr. da Comedia 
El-rei Seleuco.) Ainda no fim do século xvi Soropita 
referia-se ao poder satyrico d'este poeta popular: 
«mas basta para elles o Chiado, que lhes soube assen- 
tar as costuras.» (Pões. e Prosas^ p. 109.) As obras 
de Chiado são extremamente raras e só se conhece 
o exemplar da Bibliotheca nacional ; apenas se con- 
servaram na tradição a Pratica de três Compadres, e 
os Avisos contra os Enganos, que ainda se vendiam 
entre as folhas volantes em 1732. O seu rival Affonso 
Alvares, criado do Bispo de Évora, foi mais feliz, 
porque dos seus escriptos ainda se conservam domi- 



458 LIYRO III, GAMTULO III 

Dando o gosto popular o AtUo de Santo António e o 
Auto de Santa Barbara^ apesar de serem escriptos <a 
pedimento dos muy honrados e virtuosos cónegos de 
Sam Vicente. » Monso Alvares era mulato, e saíra das 
Ínfimas classes. As obras populares de Affonso Alvares 
e de Balthazar Dias soffreram duros cortes no Index 
Expurgatorio de 1624, que as nao pôde arrancar do 
gosto publico, representando-se hoje mesmo nos tíiea- 
tros ao ár livre pelas aldeias. 

Balthazar Dias, poeta cego, do tempo de D. Sebas* 
tiao, é o escriptor clássico do povo portuguez ; as suas 
obras conservam-se quasi integralmente na leitura 
vulgar. EUe teve o dom de se apoderar da imaginação 
ingénua do povo, e os seus versos nunca são ouvidos 
sem lagrimas ; e merece estas manifestações do sen- 
timento, porque Balthazar Dias soube achar os veios 
auriferos da poesia tradicional ; a Historia da Impe- 
ratriz Porcina, que elle tratou em verso de redon- 
dilha, é a celeberrima lenda de Crescencias que 
occupou a imaginação da Edade media da Europa ; 
no Folheto de Ambas Lisboas, (n.® 25) achamos esta 
referencia: «Canta lindamente per solfa de Tyranno 
amor, aquella delicada xacara que tantas vezes lemos 
no Auto da imperatriz Porcina. i^ Filinto Elysio, tam- 
bém allude nas suas Obras (t. ni, p. 130): 

E contrictas choravam maviosas 

Ao lerem a Divina Fortaleza, 

Ou lendo as maguas, queixas e amarguras 

Da Imperatriz Porcina ou Mangalona ? (1) 

No n.** 2 do Folheto de Ambas Lisboas, descrevendo 

(I) Imperatriz Porcina — Crescencia — Genoveva, são a 
lenda de Merhuma, do Tuti-Namé, (i, 7) cuja relação mythica 
com a Aurora perseguida e libertada é evidente, como o 
prova Gubernatis. {Myth. zooL, i, i31.) 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 4S9 

as conversas populares e os sitios mais frequentados 
na primeira metade do século xvm, enumera as prin- 
cipaes obras de Balthazar Dias, notáveis pelo privi- 
legio das lagrimas: «Lembraram-se das commuas 
conversações d'este género, onde se junta todo o jarra 
de humor peripatetico, como v. g. o Balcão do Livreiro 
de Sâm Domingos, o Adro do Monte, a Ribeira das 
Náos, o Cães da Pedra, o Cano Real aos domingos 
de tarde. Alli se repetem historias que succederam a 
Damadana avó da antiguidade, tão compridas como 
légua da Povoa, alli se traz à memoria a Historia de 
ValdevinoSj a morte da Emperatriz Porcina, e cada 
jarreta d'aquelles quando repete aquellas tristes tra- 
gedias deita tamanha lagrima como punho, sem adver- 
tirem os tolos, que aquillo passou ha muitos tempos, 
e pode ser que seja mentira. Alli se murmura da 
Malicia das Mulheres, dão-se Conselhos para bem ca- 
zar...i> A historia de Valdevinos é o Auto do Marquez 
de Mantua, citado já como popular por Jorge Ferreira 
de Vasconcellos, e do qual coUigiu o Cavalheiro de 
Oliveira uma versão preciosa aproveitada por Garrett. 
Os Autos hieráticos de Santo Aleixo e de Santa Ca- 
therina são ainda hoje representados pelas aldeias, e 
a Malicia das Mulheres tem sido refutada e imitada 
bastantes vezes. N'esta corrente voraz do tempo mui- 
tas obras de Balthazar Dias se perderam ou ficaram 
esquecidas do povo, taes como o romance Retrahida 
está a Infanta, o Auto de El-rei Salomão, o AtUo do 
Nascimento de Christo e o Auto breve da Paixão, devido 
com certeza às prohibições do Index Expurgatorio 
de 1624. 

Apesar dos cortes dados pelos índices Expurgato- 
rios de 1564, 1581 e 1597, a htteratura popular 
do século XVI pôde sustentar até hoje um grande 
numero de folhas volantes, das quaes é a principal a 
Historia de Roberto do Diabo, anonyma. A vida de 



460 LIVRO III9 CAPITULO III 

Roberto do Diabo imprimia-s^e em Burgos em 1509 
com o titulo Vida de Roberto admirable y espantosa ; 
reproduziu-se em 1530 em Alcalá de Henares, e em 
1532 em Sevilha. No Index Expurga tório de 1581 
acba-se a fl. 22 prohibido: Roberto el Diablo. Foi sobre 
o texto hespanbol que se fez a versão portugaeza. 
Tem-se dado a Roberto do Diabo a realidade histórica 
de Robert Curte-Heuse, filho de Guilherme o Con- 
quistador ; diz porém Littré : cGomtudo estas razões 
nao me parecem sufflcientes para que se veja verda- 
deiramente no heroe do romance uma imagem do 
filho de Guilherme.» (1) 

Ainda hoje o folheto do Roberto do Diabo è um dos 
mais lidos do povo portuguez. Citaremos outros livros 
populares prohibidos pelo Index de 1581: Desenganas 
de Perdidos, Gamaliel, e o Lazarilho de TormeSj todas as 
partes^ (fl. 18, v.) fonte de todos os romances picares- 
cos dos séculos xvii e xviii ; Peregrino e Genebra, Perla 
preciosa. Selva odorífera. Selva de aventuras. Tratado 
de Belial, e Trovas deSandarra, D'entre estas obras 
prohibidas somente as Trovas de Bandarra se conser- 
varam entre o povo, e só por si constituem uma vasta 
litteratura. Gonçalo Eanes Bandarra é um dos typos 
mais populares de Portugal e ainda hoje uma grande 
parte da população crê nas prophecias do sapateiro 
de Trancoso. As trovas de Bandarra já eram conhe- 
cidas desde 1531; ellas são para o nosso povo o que 
as Prophecias de Merlim foram para os povos bretãos. 

Depois das Prophecias o livro mais popular é o que 
se intitula Livro das Partidas do Infante D. Pedro. 
De facto o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra e 
digno filho de D. João 1, fez uma viagem aventurosa 
antes de 1428; allude a essa viagem João de Mena 
em uns versos publicados no Cancioneiro de Resende, 

(1) Études sur les Barbares, p. 305. 



CONTOS, LENDAS, UYROS POPULARES, ETG. 461 

e sabe-se por um documento dos archivos de Flan- 
dres, que em 1425 D. Pedro se achava em Bruges: 
cPelo fim de dezembro de 1425, o filho do rei de 
Portugal desembarcado em Ostende, veiu visitar Bru- 
ges, passando por Odenbourg. Demorou-se mais de 
um mez na cidade brugense, onde houve festas por 
sua honra, e além d'outras cousas um torneio sobre 
o Bourg, a 31 de janeiro de 1426. Os nossos Archivos 
nâo dizem de que filho de rei de Portugal (D. João i 
reinava então) se trata, mas é provável que fosse 
D. Pedro, duque de Coimbra.» (1) Camões também 
se refere a esta excursão ao norte. A relação doesta 
viagem do Infante D. Pedro é attribuida a um dos 
seus companheiros de aventuras Gomes de Santo Este- 
vam. Ferdinand Denis revela a existência d'esta rela- 
ção apocrypha mas popular em um folheto que se 
guarda na Bibliotheca nacional de Paiís com o titulo : 
^Lívro do Infante D. PedrOj que andou as quatro Par- 
tidas do mundo. Lisboa, 1554.» Este critico deduz 
que a primeira redacção fosse em castelhano, e feita 
por algum espanhol, em nome de Gomes de Santo 
Estevam, não só porque a primeira edição conhecida 
é a castelhana de 1546, como também nas falias do 
Infante com os vários monarchas que visita dá-se como 
filho de um rei poderoso que conquistou a Hespanha, 
ou como vassallo e parente do rei de Leão. Este opús- 
culo verdadeiramente popular tem sido alterado nas 
successivas impressões, e pertence como livro de 
viagens ao género das MirabUia de MandevíUe, Cubero 
e outros phantasistas. (2) Hoje o folheto tem um titulo 

(1) Emile Vanden Bussche, Memoires mr les relations qui 
existèrent autrefois entre les Flamands de Mandre et les Portu- 
gais, P. II, p. 4. 

(2í NouveUe Biographie universelle, v.° Gomes de Santo Es- 
tevam. Por ventura compilado da Viagem á índia de Hierony- 
mus de Santo Stephano. 



462 LIVBO m> CAPITULO III 

diverso; chama-se as Sete Partidas do infante D. Pedro, 
e proveia essa alteração de andar ligado quasi sem- 
pre á folha YolaDte dos Sete Sábios de Roma, como se 
pode verificar pela edição de Barcelona de 1595: €Los 
siete Sábios de Roma con el Libro dei Infante D. Pedro 
que anduvo las quatro Partidas dei mundo.^ 

Gommentando a estancia 37 do Canto vm dos Lu- 
siadaSy 

Aquelle faz que fâoia illustre flqae 

D*elle em Germânia com que a morte engane, 

escreve Faria e Sousa : cAquel, és Don Pedro, que 
corrió muchas partes dei nmndo, con que dió motivo, 
a que de su peregrinacion se escriviessen cosas que 
pareceu fabulas a quien ha visto poço : principalmente 
un quaderno que vulgarmente se llama Auto do Infante 
D. Pedro. Algunos piensan que el nombre és impró- 
prio, por que piensan, que Auto no passa de significar 
mas de una suerte de comedia. Pêro quien escrivió 
aquel pedaço de historia se devia acordar dei titulo 
de los Apóstolos de Christo, que es Actus Apostoloruta^ 
etc. Assi que el Auto dd Infante quier decir acciones 
suyas : de manera, el titulo está ajustado a lo escri- 
pto.» (1) Conhecemos depois da edição de Paris, como 
mais antiga a edição de Lisboa de 1Ç02, de casa de 
António Alvares. As Partidas do Infante D. Pedro tam- 
bém foram populares em Hespanha, como vemos pelos 
versos de Gongora ; e em Portugal falia d'ellas como 
populares no século xvii D. Francisco Manuel de Mello. 
Filinto Elysio cita também o opúsculo das Sete Parti- 
das tal como falia d'elle Faria e Sousa : cEmquanto 
me lembrar o Auto do Infante D. Pedro que correu as 
sete partidas do mundo. . . » (Trad. de Lafontaine, p. 361 .) 

(i) Comm., t. ni, p. 434. 



CONTOS, LENDAS, UYROS POPULAKES, ETG. 463 

As edições numerosas d'estes folhetos differem todas 
entre si, porque os livreiros tém modificado a lingua- 
gem segundo as épocas, para assim satisfazerem a 
curiosidade do povo. As ultimas edições são do Porto 
e não tem valor litterarío, sendo aliás um monumento 
digno de estudo esta relação de viagem. Á litteratura 
popular também pertenceram no século xvi as rela- 
ções de naufrágios dos galeões da índia, colligidas no 
século passado em àois volumes sob o titulo de Historia 
tragm^maritima, por Bernardo Gomes de Brito ; das 
mais celebres relações é a do Naufrágio do Galeão 
S. João, onde se descreve de um modo shakespea- 
riano a morte de Sepúlveda e da sua formosíssima 
mulher D. Leonor de Sá. Esta relação é anonyma e 
julga-se escripta sob o ditado de Álvaro Fernandes, 
guardião do galeão grande. Nenhuma das Relações de 
Naufrágio existe hoje na corrente do gosto popular, e 
infelizmente acham-se substituídas pela Historia de 
João de Calais, abreviada do romance francez de Ma- 
dame Gomez (née Madeleine Angelique Poisson) ultima 
representação do gosto dos Galpernede e Scudery. (1) 
Também foram populares no século xvi a Écloga do 
Crísfalj de Christovam Falcão, cujos versos appare- 
cem como provérbio nas Cartas de Gamões ; as Tro- 
vas do Moleyro de Luiz Brochado, (2), e as trez partes 
avulsas dos Contos proveitosos de Trancoso ; estes últi- 
mos conservaram-se no gosto pubUco até ao meado do 
século xvni. Perderam-se outras obras bastante que- 
ridas do povo, como o Auto de Braz Quadrado, Gon- 
çalo Chxmbm, as Coplas da Burra, e um grande 
numero de Orações. Foi nas mãos do povo que se 
perdeu a quasi totalidade das Obras mmdas de Gil 

{{) Gh. Nizãfd, HisL de la LUterature de Colportoffe, t. ii, 
p. 408. 
<2) Vid Antologia portugueza. 



464 LIVRO m, CAPITULO 111 

Vicente. Das obras anonymas apenas se conserva ainda 
no gosto do povo o Auto do Dia do Juizo, cNão deve 
esquecer aqui, que na Praça chamada do Pelourinho 
velho estão de continuo assentados muitos homens 
com mezas ante si, os quaes se podem chamar notá- 
rios ou copistas, sem caracter de ofBciaes pubhcos, e 
que n'este exercicio ganham a sua subsistência. Sabida 
que é a ideia de qualquer freguez que chega a elles, 
immediatamente redigem o que se pertende, de modo 
que ora compõem Cartas de amores^ de que se faz 
grande gasto, ora elogios, OraçôeSj versos, sermões, 
epicedios, requerimentos, ou outro qualquer papel, 
em estylo chão ou pomposo.» (1) 

O grande desenvolvimento da litteratura popular 
no século xvi ligado a causas históricas da própria 
nacionalidade, é a explicação clara do esplendor da 
época dos Quinhentistas, comprovando de mn modo 
positivo o pensamento de Frederico Schlegel: «A sepa- 
ração absoluta dos sábios, do vulgo e do povo, é o 
maior obstáculo para os progressos intellectuaes de 
uma nação.» (2) Deu-se esta calamidade em Portugal 
no século xvii ; os escriptores saldos das escolas dos 
Jesuítas eram puros humanistas, e não se preoccupa 
vam com o povo. D'aqui a sua grande inferioridade; 
apenas D. Francisco Manuel de Mello e Francisco 
Rodrigues Lobo conheceram o veio da poesia popular, 
e por isso o seu lyrismo é de uma inquestionável 
superioridade. D'estes dois escriptores restam dois 
Autos o do Fidalgo Aprendiz e Auto da Natividade, 
que foram populares até ao meado do século xvul 

A inferioridade litteraria do século xvn começou 



(1) Viagem de Tron e Limomani a Portugal^ em 1580. (Pan., 
t. VII, p. 83.) Herculano diz que este costume era já notado 
por Damião de Góes na descripção latina de Lisboa. 

(2) HisL da Litteratura antiga e moderna, i, 2. Trad. franc. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETG. 465 

pelo estabelecimento da intolerância catholica do rei- 
nado de D. João iii, e fundação da censara pelo 
Cardeal D. Henrique. A litteratura popular foi pro- 
fundamente atacada, mutilada, probibida, e ainda 
assim subsistem bastantes composições que dominam 
de um modo absoluto o gosto nas classes agrícolas. 
O Index Expurgatorio de 1581 traz esta fórmula pro- 
hibitiva : cQs vendedores de Autos e Cartilhas, nam 
vendam nem comprem para vender outros livros sem 
primeiro os mostrarem ao Revedor : porque algumas 
pessoas escondidamente tem alguns livros que elles 
compram e vendem sem saber o que ha nos taes livros, 
e se seguem d'isso inconvenientes : e ha enformações, 
que nas taes tendas se acham livros suspeitos e pre- 
judiciaes. E os Sollicitadores do Santo OíÔcio visitarão 
algumas vezes os ditos logares e farão saber ao Reve- 
dor os livros que ali se vendem. O mesmo se fará 
dos livros que se vendem nas feiras.» A esta tremenda 
condemnação não escaparam os pobres livros popu- 
lares ou de feiras nem as mais sublimes maravilhas 
de arte como os Luáadas em 1584. 

O tremendo Index Expurgatorio de 1624, organi- 
sado pelo padre Balthazar Alves, da Companhia de 
Jesus, atacou principalmente a litteratura popular, 
alargando a fórmula: «E geralmente quaesquer Autos, 
Comedias, Tragedias, Farsas deshonestas, ou onde 
entrem pessoas ecclesiasticas indecentemente, ou se 
representa algum sacramento ou Acto Sacramental ; 
oa se reprehendem e vituperam as pessoas que fre- 
quentam os Sacramentos e as Egrejas, ou se faz inju- 
ria a alguma Ordem ou Estado, aprovado pela Egreja.» 
(p. 96.) 

Apesar das prohibições d'este terrível Index, alguns 

livros populares radicaram-se no gosto do vulgo, como 

q Auto ou Historia de Theodora donzella. (Ib. p. 96.) 

É de crer que esta redacção fosse a original caste- 

30 u 



466 LIVRO III, CAPITULO III 

lhana ; na primeira metade do século xviii foi tradu- 
zida por Carlos Ferreira Lisbonense com o titulo His- 
toria da Donzella Thwdora, em que trata da sua grande 
formosura e sabedoria. (Lisboa, 1758.) Este celeber- 
rimo conto hespanhol, sobre o qual Lope de Vega 
fundou uma das suas bellas comedias com aqueUe 
instincto do génio que lhe fazia presentir o valor das 
tradições nacionaes, foi continuado em Portugal em 
um outro folheto intitulado : ^Acto de um Certamen 
politico que defendeu a discreta Donzella Theodora no 
reino de Tunes ; contém nove conclusões de Cupido, sen- 
tenciosamente discretas e rhetoricamente ornadas. (Lis- 
boa, 1746 fl., 14 p.) 

Na época em que, o Index de 1624 condemnou o 
Auto ou Historia de Theodora donzella^ também o grande 
escriptor dramático Tirso de Molina, na sua comedia 
El Vergonzoso en PcdaciOj ao pôr na bocca de um 
amante o elogio da sua dama, allude a este typo pro- 
verbial: €iQué Doncdla Téodort^ Segundo Ticknor 
esta pequena novella nao é anterior á conquista de 
Granada, (1) e Ferdínand Denis caracterisa as noções 
scientificas n'ella expendidas como inteiramente me- 
dievaes. (2) A edição mais antiga conhecida pelos 
eruditos Gayangos y Vedia é a de Burgos de 1537, 
in-4.^ gothico, geralmente unida á Historia dei Conde 
Ferran Gonzaíes e á de Los Siete Infantes de Lara, 
impressas no mesmo anno por Juan de Junta. (3) 

A origem litteraria da novella A Donzella Theodora 
é um problema interessante para a comprehensão das 

(i) Historia de la Litteratura espanola, t. ii, p. 353, not. 

(2) Chron, chevalL d'Espaane, t. i, p. 285. 

(3) Estes dois últimos rolnetos entraram também na Litte- 
ratura popular portugueza, e a sua ultima edição é do Porto, 
i863 : Histoiia curiosa da Vida do Conde de Castella Fernão 
Gonçalves, e da$ Façanhas dos sete Infantes de Lara. {Livraria 
popular^ n.* 6.) 



CONTOS, LENDAS, UVROS POPULARES, ETC. 467 

fontes tradicionaes da península, era que o elemento 
árabe é de uma importância fundamental apesar de 
todos os esforços da reacção catholica. Nicoláo António 
diz que passa por auctor da novella um aragonez cha- 
mado Al forno, (1) e Latassa colloca-o entre os escri- 
ptores aragonezes ; (2) Gayangos propõe uma conje- 
ctura plausível identificando este Alfonso com Pedro 
AlfonsOj judeu natural de Huesca, chamado Rabbi 
Moseh, que se converteu ao christianismo recebendo 
no baptismo o patronymico de Alfonso por ser padri- 
nho o rei de Aragão D. Affonso o Batalhador. Pedro 
Alfonso é o celebre auctor da Disciplina clericalis, 
formada de contos traduzidos do árabe para latim ; 
de facto existe também uma redacção árabe do conto 
da DonzeUa Theoãoraj e os vestigios de uma traducção 
latina ainda se conservam nos nomes latinos dos doze 
signos do Zodiaco ; a versão castelhana seria por ven- 
tura feita depois da tomada de Tunis em 1535, com 
variantes fundamentaes como as que exigem uma 
adaptação a novos usos. Assim a conjectura toma-se 
quasi uma realidade; diz Gayangos: «Não ha que 
extranhar que chegando ás mãos de Alfonso o origi- 
nal arábico da Historia da DonzeUa Theodora o tradu- 
zisse em latim, alterando-o, e que mais tarde a obra 
latina se vertesse em castelhano com variantes maio- 
res. Devemos accrescentar a isto, que o conto arábico 
tem todas as formas assim como o estylo próprio d'esta 
classe de obras populares; e que o exemplar que 
possuímos se attríbue a obra de Abu Bequer Al-war- 
rac, celebre escriptor do segundo século da Hégira, 
e auctor de outros contos e tratados do mesmo estylo ; 
isto fortalece a suspeita mesmo de que a obra poderia 

(1) Bibliotheca Nova, 1. 1, p. 9. 

(2) Bibl. ant. de Escriptores aragonezes, t. ii, p. 364. Ap. 
Ticknor. 



• * 



468 LIYBO III, CAPITULO lU 

ter sido traduzida para latim e vertida depois para 
castelhano. (1) 

Gayangos traz uma exposição abreviada do argu- 
mento da redacção árabe da Donzella Tfieodora, cujo 
titulo é : Historia da Donzella Theodora e do qtie a^con- 
teceu com um astrólogo, um ulenm e um poeta na corte 
de Harún Ar-Raxid. (2) Eis o argumento: «Um opu- 
lento mercador e droguista de Bagdad comprou uma 
escrava de tenra edade, e a educou com particular 
esmero, ensinando-lbe não só os trabalhos e prendas 
próprias de seu sexo, se não também as sciencias mais 
abstractas e recônditas, sendo tal a sua disposição e 
tão grandes os seus progressos, que com grande bre- 
vidade chegou ao ultimo grào de perfeição e sabedo- 
ria. Andando o tempo, o mercador, que tinha pela 
sua escrava e pupila o amor mais terno, viu-se redu- 
zido á miséria em consequência de uma especulação 
arrojada que lhe arrebatou de uma só vez todas as 
riquezas. N'estes apuros decidiu-se, depois de ter 
consultado a sua própria escrava e a seus amigos e 
parentes mais próximos, a ir offerecel-a ao Califa, e 
utilisar-se na sua necessidade do preço que por ella 
lhe desse. Para este fim vestiu-a com as suas melho- 
res roupas, adornou-a com ricas jóias, e tendo soli- 
citado uma audiência apresentou-se com ella na corte 
do Califa, expoz o motivo que ali o trazia, os vários 
dotes que adornavam a sua escrava, as sciencias que 
possuia, e concluiu pedindo por ella dez mil dinheiros 
de ouro (dez mil dobras de bom ouro vermelho, diz 
a relação castelhana.) O CaUfa assim que viu Theo- 



(1) Historia de la Litteratura espanola, t. ii, Adiciones y No- 
tas, p. 557. 

(2) Quissat chariat Tudur gua ma cana min haditsiha maâ- 
munachem, gua-l-âalem gua-u-nadJmm fi hadhrati Harun Er- 
Haxid. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 469 

dora, ficou muito cativado da sua formosura ; porém 
parecendo-lhe exorbitante o preço que o mercador 
pedia por ella, propoz sujeital-a a um exame rigoroso, 
oflferecendo pagar por ella as dez mil dobras pedidas 
se saisse bem da prova, e no caso contrario dar só 
mil, preço que lhe pareceu justo e razoável. Acceite 
a proposta pelo mercador, Harún Ar-Raxid mandou 
logo vir à sua presença um celebre Doutor e poeta 
chamado Ibrahim (a novella castelhana chama-lhe Abra- 
ham o Trovador), o maior letrado dos seus reinos, as- 
sim como a outros dois, um grande theologo e mora- 
lista, philosopho, e o outro mestre nas sete artes 
liberaes. Todos trez foram vencidos pela discreta Don- 
zella na disputa ou Certamen que na presença do Califa 
e da sua corte se entabolou, resultando por ultimo, 
que este nao só pagou por ella as dez mil dobras pedi- 
das, senão que por um d'aquelles rasgos de generoso 
desprendimento que os escriptores árabes se compra- 
zem tanto a attribuir-Ihe, renunciou à escrava e pre- 
senteou com ella o mercador.» (1) 

Depois d'este argumento extraído por Gayangos, 
este illustre arabista conclue que é a mesma situação 
da novella castelhana, substituindo-se alguns detalhes 
accidentaes, como o mercador de Bagdad pelo merca- 
dor christão e inverosimil de Hungria ; a coUocação 
da scena em Tunis, então popular pela conquista de 
Carlos v; o nome de Harún Ar-Raxid é substituído 
pelo typo lendário de Miramolin Almanzor, das chro- 
nicas hespanholas; as questões theologicas e meta- 
physicas da religião mussulmana modificadas nas fór- 
mulas análogas do catholicismo. As questões scientifi- 
cas tem a mesma ordem que na redacção árabe. É 
possível que a redacção castelhana de 1537 fosse 
conhecida em Portugal pela circumstancia de também 

(1) Op. cit, p. 554. 



470 LIVRO III, CAPITULO III 

havermos tomado parte na aventura cavalheiresca da 
tomada de Tanis ; apesar da transformação catbolica 
da redacção latina de Alfonso, ainda o Index de 1624 
entendeu devel-a prohibir. Este folheto é um dos mais 
vigorosos nas leituras populares, e reproduz-se annual- 
mente. Em geral os nossos livros populares deriva- 
ram-se de Hespanha, como temos visto pelo Marquez 
de Mantuas Historia de Carlomagno (Alcalá, 1570), 
Roberto el-Diablo, Donzella Theodora^ o Conde Fernão 
GonsalveSj Sete Infantes de Lara, e a Historia da for- 
mosa Magalona. 

Esta ultima novella pertence á influencia do romance 
francez sobre as litteraturas da península ; foi, segundo 
Victor Leclerc, escripta primitivamente em provençal 
no século xiv por Bernardo de Trèves, e diz-se que 
aos quatorze annos de edade Petrarcha retocara o 
texto. Loiseleur des Longchamps cita um manuscripto 
do século XV com o texto de — Pierre de Provence et de la 
belle Maguelonne (de fl. 60 a 109. — Ap. Essai sur les 
Fables indienneSj p. xxxvi da Description des Ms.) A 
edição mais antiga que se conhece em Hespanha é a de 
Sevilha, de 1519, com o titulo La Historia de la linda 
Magalona^ fíja dei rey de Nápoles, y dei muy esforçado 
cavallero Pierres de Provença, O livreiro Jacob Crom- 
berger, allenião, trabalhava em Portugal por 1521, e 
portanto é de crer que esta novella se vulgarisasse 
desde o segundo quartel do século xvi ; é ainda hoje 
um dos livros do povo mais apetecidos. (1) Filinto 
Elysio cita-a com o nome que lhe deu o povo. Formosa 
Mangalona. 

A parte original da Litteratura popular do século xvii 
é menos fecunda ; era impossível a victoria contra os 
índices Expurgatorios e contra a invasão castelhana. 

(i) A ultima edição é ado Porto de i859 (Livraria do povo 
n.M2.) 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC 471 

Ainda assim alguns d'esses opuscalos conservaram a 
saa popalaridade até ao fim do século xvin. No folheto 
intitulado Escudo apologético, de 1732, cita-se o Auto 
da Fortaleza; a este mesmo se refere Filinto Elysio 
{Obras, t. iv, p. 236) : 

E contrictas choravam maviosas 
Ao lerem a Divina Fortaleza. . . . 

Em uma nota accrescenta: «Certo Auto impresso 
que começa : 

A fortaleza divina 
Grandemente aqui tremeu. 

«Nunca o li (quando era pequeno,) a minha mãe e 
a sua comadre Maria Antónia, que lhe não escorres- 
sem as lagrimas em pinga, etc.» Filinto refere-se aqui, 
bem como o annuncio do Auto da Fortaleza ás coplas 
em redondilhas, que vem no capitulo ii do Tratado 
dos PassoSj que se andam na Quaresma, pelo padre 
Frei Rodrigo de Deus, guardião do Convento de Nossa 
Senhora da Arrábida, natural de Bretiande, junto a 
Lamego. Impresso em Lisboa, por Pedro Craesbeck, 
1618; acham-se a fl. 35 a 60 e começam: 

A fortaleza divina Aos discipulos mandou 

Grandemente aqui tremeu, Que o esperassem aqui, 

A alegria dos Anjos E vigiassem por eUe 

Muito aqui se entristeceu. Emquanto foi orar ali, etc. 



Os versos não primam pela belleza, mas incuti- 
ram-se no gosto do povo fanatisado pelas via-sacras 
e bandeiras da santa doutrina. O Colloquio dos Pas- 
tores de Frei António da Estrella, onde se imita a lin- 
guagem popular, é um Auto digno representante da 



472 LIVRO ni, CAPITULO m 

escola nacional de Gil Vicente ; Filinto ainda o cita 
nos versos : 

E eu fiii um d'esses 
Que no Auto dos Pastores e mais outros 
Fiz meu papel a gosto dos visinhos. 

{Obras, t. iv, 236.) 

Esta parte da litteratara popular completava-se com 
os espectáculos dos presépios, a que pertence também 
a manifestação semi-popular das Loas : 

Ou c'os Zagaes, c'os Reis se compozeram 
Do nosso Redemptor na fausta Aurora 
Lendo Loas, que no Natal divino 
Em tempos mais singelos que os de agora 
Diante de presépios mui vistosos 
Representamos já. 

(Filinto, Ib.) 

O Fidalgo aprendiz, de D. Francisco Manael de 
Mello, o Auto do Cazeiro de Alvalade, e algumas Sylvas 
de Francisco Lopes Livreiro conseguiram populari- 
sar-se chegando até ao meado do século xvm. As 
Coplas ou Trovas da Menina formosa, (1 ) que começam: 

Menina formosa 
Dizei de que vem 
Serdes rigorosa 
A quem vos quer bem, 



foram bastantes vezes glosadas, e a sua forma em 
redondilha menor, sympathica ao ouvido popular, fez 
com que se vulgarisassem a ponto de serem citadas 
como allus3o proverbial Entre os escriptores do sé- 
culo XVII o que teve o tino de fazer-se querido do povo 

(1) Vid, Antologia portugueza. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 473 

foi Francisco Lopes, cujas quintilhas devotas foram 
assimiladas pelo povo em romances populares, como 
o MUcígre de Santo António e a Princeza de Leão. (1) 

A litteralura popular apresenta-nos no século xviii 
um phenomeno de revivescência importante ; não só 
se conservam no gosto do povo os velhos auctores 
das folhas volantes, Gil Vicente, Affonso Alvares, Bal- 
thazar Dias, Gomes de Santo Estevam e Gonçalo Fer- 
nandes Trancoso, como também novos escriptores 
surgem dotados d'esse segredo magico de se fazerem 
ouvir pela alma ingénua da multidão : taes são pela 
sua ordem António José da Silva, Alexandre António 
de Lima, Diogo da Costa, José Daniel, António Xavier 
e Jeronymo Moreira de Carvalho. Alguns dos velhos 
Autos que se liam desde o século xvi em hespanhol, 
como o Roberto el Diablo, prohibido uo Index de 1381, 
e o Auto ou Historia de Theodora, donzella, prohibido 
no Index Expurgatorio de 1624, foram novamente 
traduzidos, como para acabar a sua perfeita assimi- 
lação popular. Em 1733 publicou Jeronymo Moreira 
de Carvalho a folha volante com o titulo ^Historia do 
grande 'Roberto, duque de Normandia e Emperador de 
Roma, em que se trata da sua conceição, nascimento e 
depravada vida, por onde mereceu ser chamado Robei^o 
do Diabo, e do seu grande arrependimento e prodigiosa 
penitencia...^ Em 1735 Carlos Ferreira Lisbonense 
satisfaz a curiosidade publica traduzindo, como Mo- 
reira, a Historia da Donzella Theodora, seguindo-se- 
Ihe em 1745 o Acto do Certamen politico da Donzella 
Theodora, que suppômos original portuguez. 

Assim como alguns livros populares francezes, como 
a Formosa Magalona, nos vieram por via de Hespa- 
nha, repetiu-se esse mesmo itinerário com relação á 
Historia de Carlos Magno, traduzida por Jeronymo 

(I) Floresta de Romances, 



474 LIVRO III, CAPITULO Ul 

Moreira de Carvalho da redacção castelhana de Nicoláo 
de Piamonte. Este livro, que é ainda hoje o mais lido 
e reproduzido em Portugal, foi pela primeira vez 
publicado em Sevilha em 1525, quarenta annos depois 
da publicação do seu original francez que se intitula 
Conquétes du grand Charlemagne, (1) O titulo d 'esta 
primeira edição é « Cario Magno. Historia de empera- 
dor Cario Magno, y de los Doze Pares de Prancia : e 
de la cruda batalla que two Oliveros con Fierabras Rey 
de Alexandria, hijo dei grande Almirante Balan. Sevi- 
lha, impressa por Jacob Comberger, a 24 de abril de 
1525.» Existem outras edições de Sevilha de 1528, 
1534, 1547, 1548 e 1549; a edição de 1570 traz um 
prologo interessantissimo^ onde não só se ailude ás 
fontes francezas da novella, como também ao anctor 
da versão : «Por ende, yo, Nicolas de Piamonte, pro- 
pongo de trasladar la dicha escriptura de leguaje fran- 
cez en romance castellano, sin discrepar, nin anadir, 
ni quitar cosa alguna de la escriptura franceza. » (2) 
Segundo Gaston Paris, que conhece admiravelmente 
o valor poético das Gestas carolinas, apesar do favor 
que este hvro encontrou na peninsula considera-o 
máo, (3) não tendo influencia na litteratura. 

A Historia de Carlos Magno, foi conhecida desde 
muito tempo em Portugal, reimprimindo-se em Lis- 
boa, por Domingos Fonseca em 1615, em folio de 
trinta folhas a duas columnas, e em Coimbra em 1732, 
em in-8.® A traducção de Jeronymo Moreira de Car- 
valho, comprehende duas partes, a primeira impressa 
em Lisboa, em 17!á8, e a segunda em 1737, segundo 
a auctoridade de Innocencio. No prologo da edição de 

(1) Gaston Paris, Histoire poétique de Charlemagne, p. 214. 

(2) Reproduzido nas Addiçôes e Notas da trad. de Ticknor, 
Hist, de la Litteratura espan,, t. i, p. 524. 

(3) Op. cit., p. 2i5. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC 475 

Nicoláo de Piamonte, de 1570, diz-se que a obra é 
dividida em trez livros ; Jeronymo Moreira misturou 
na sua segunda parte as ficções de Boiardo e Ariosto 
com o syncretismo das Gestas, desviando-se da obra 
hespanhola. Em 1745 appareceu uma Verdadeira ter- 
ceira parte da Historia de Carlos Magno, em que se 
escrevem as gloriosas acções e victorias de Bernardo dd 
CarpiOj e de como venceu em batalha aos Doze Pares 
de França^ escripta por Alexandre Caetano Gomes 
Flaviense, presbytero do habito de S. Pedro, graduado 
nos sagrados Cânones, protonotario apostólico e natu- 
ral da praça de Chaves. Estas trez partes andam em 
dois volumes in-8.® pequeno da impressão de Simão 
Thadeu Ferreira, e com a erudição pedante das chro- 
uicas hespanholas misturada com as ficções italianas ; 
a parte de Caetano Gomes é a mais disparatada : 
«Para servir de divertimento e diversão do somno nas 
compridas noites de inverno» é que elle comprehendeu 
a «copia resumida das grandes acções de Bernardo 
dei Carpio» conservando apenas o nome de Carlos 
Magno no titulo da obra, e começando pela historia 
da creação ab ovo. Como a obra grande não podia che- 
gar a todos, fez-se um resumo em folha volante inti- 
tulada : d Historia nova do Imperador Carlos Magno e 
dos Doze Pares de França : contém a grande batalha 
que teve com MalcOj rei de Fez a qual venceu Reinai- 
dos de Montalvão j e dos muitos trabalhos que este pade- 
ceu por traição de Galalão, sendo sempre leal, constante 
na Pé, e melhor dos doze Pares. Lisboa, 1789.» A his- 
toria mais volumosa era conhecida pelo nome de Car- 
los Magno commentado, e o resumo era extraido dos 
Nove da Fama. Nicoláo Tolentino, nas suas salgadas 
quintilhas, refere-se á leitura predilecta do nosso povo: 

Iremos vêr no outro lado 
Onde acaso os olhos puz 



476 Lnuo III, CAPITULO iii 

Em qaarto-grande estampado 

Saiu novamente á luz 

Carlos Magno commentado. (1) 

Á irresistível tendência para o gosto picaresco não 
escapou o cyclo de Carlos Magno, apparecendo uma 
folha volante da Vida do façuTÚoso Roldão^ em duzen- 
tas e onze quadras, tratando os seus feitos como tram- 
polinices de vagabundo. (2) Do cyclo de Carlos tam- 
bém saiu um Auto popular, que não chegou a vulga 
risar-se, pertencendo á immensa collecção das come- 
dias de cordel. 

Em um folheto de 1732 intitulado Escudo apologé- 
tico contraposto aos golpes do descuida) critico^ se acha 
uma importante enumeração dos principaes opúsculos 
quft no principio do século xviii constituíam a líttera- 
tura de cordel ou os Livros populares portuguezes : \ 
«Aqui se acham o Auto e Colloquio do Nascimento^ o 
Auto de Sardo Aleixo, o Auto de Sardo António, o Auto 
de Santa Barbara, o Auto de Santa Catherina, o Auto 
de Santa Maria Egypciaca, o Auto ou Vida de S. João 
de DeuSj o Auto do Dia do Juizo, o Auto da Barca, o 
Auto do Fidalgo aprendiz, o Auto das Padeiras, o Auto 
do Cazeiro d' Alvalade, o Auto da segunda Barca, o 
Conselho para bem casar, o Pranto de Maria Parda, 
o Infante D: Pedro, o de D, Duardos, o Tratado dos 
Passos, o Lazarilho de Tormes, os Avisos contra os 
Enganos, a Pratica de trez Compadres, o Tratado das 
Lições da Espada preta, as Trovas da Menina formosa, 
a Magalona, o Marquez de Mantua, ou Valdevinos, a 
Emperatriz Porcina, a Malicia das Mulheres, o Terre- 
moto de Roma, a Ousadia do menino morto, o Novo 
Auto da Barca, o Auto da fortaleza, e outras curiosi- 

(1) Ed. das Obras de Tolentino, por J. de Torres, p. 239. 

(2) É de 1790. Vimol-o na Bibliotheca do Porto. 



CONTOS, LENDAS, LIVHOS POPULARES, ETC. 477 

dades. » Eram estes os folhetos que se vendiam pen- 
durados em barbante pelas paredes do Loreto. (1) 
Todos estes livros de cordel são conhecidíssimos, e 
algmis d'elles, dos principaes escriptores portuguezes 
do século XVI e xvii, ainda se conservam no gosto 
do povo. 

É do meado do século xviii, o folheto da Padeira 
de Aljubarrota^ tradição da historia nacional accommo- 
dada ao gosto do vulgo por Diogo da Gosta ; segundo 
Barbosa Machado, este nome é supposto, e Innocencio 
por um antigo catalogo de livros que consultou na 
Academia das Sciencias, diz que era um mestre de 
grammatica chamado André da Luz ; o folheto publi- 
cado em Lisboa, em 1743, intitula-se Auto novo e 
curioso da Forneira de Aljubarrota^ em que se contem 
a vida e façanhas doesta gloriosa matrona, O Auto é 
uma relação alambicada e conceituosa, mas ainda assim 
as edições para o povo repetem-se ; (2) esta tradição 
nacional foi também tratada em um poemeto em cinco 
cantos (61 p. in-8.** pequeno oblongo) pelo cônsul 
portuguez em Hamburgo em 1806 José Anselmo Cor- 
rêa Henriques. O povo ama as lendas e sanctificações 
locaes ; pertencem a este género o Auto de S. João 
de Deus, com o titulo ; Gloria de Monte-Môr^ ventura 
de Granada, em S. João de Deus — de Luiz da Rocha, 
senhor de Thomar. Lisboa, 1754 ; e a farça do Abbade 
João, de Francisco de Pina e Mello, que annualmente 
se representava em Monfce-Mór-o- Velho. Este velho 
Auto ficou inédito, e sabemos da sua existência por 
João Pedro Ribeiro, que diz: « representa va-se annual- 
mente a farça (do Abbade João), que dizem ter sido 



(1) Vid. este opúsculo na collecção de Papeis Vários ^ da 
Academia das Sciencias, t. 65. 

(2) Possuímos a edição do Porto de 1856 (N.* 20 da Livra- 
ria do Povo.) 



478 LIVRO III, CAPITULO III 

composta pelo celebre Pina, do século passado, natu- 
ral da mesma villa.» (1) Muitos Autos conservados 
tradicionalmente altera ram-se na linguagem, como o 
que começa : Herodes, monarcha angustio^ etc. Alexan- 
dre António de Lima, da Academia dos Occultos, 
escreveu n'este estylo cartas e versos, bastante curio- 
sos, conhecido pelo nome de giria alfamista. 
" As tradições nacionaes deviam constituir o thema 
dos livros populares, se os nossos escriptores compre- 
hendessem a sua missão ; as formas rbetoricas e o 
pedantismo erudito tirava ás suas relações a simpli- 
cidade ingénua que lhe daria a vulgarisação. A Po- 
ãma de Aljubarrota apresenta estes defeitos, mas 
subsiste ; a tradição dos Doze de Inglaterra íicou igno- 
rada do povo. Em 1732 pubUcou Ignacio Rodrigues 
Védouro uma folha volante imitando as formas de 
chronica com o titulo : Desafio dos Doze de Inglaterra, 
que na corte de Londres se combateram em Desaggravo 
das Damas inglezas,..if> (2) Depois das Partidas do 
Infante D, Pedro seria este um assumpto da sympa- 
thia popular ; o folheto ficou esquecido por causa da 
sua forma pedantesca, e a primitiva relação do sé- 
culo XV vista por Faria e Sousa ficou inédita e per- 
deu-se. Sobre a existência de uma pequena Chronica 
dos Doze de Inglaterra é cathegorica a aíTirmação de 
Faria e Sousa : «Yo quando no huviera visto un papel 
antiguo deste sucesso le tuviera por verdadero forço- 
samente...» (Commmt. dos Lus,, cant. vi, est. 43.) 
Existiu em Lisboa por 1749 uma associação de 
Cegos com caracter de irmandade religiosa, a qual 
tinha o privilegio da venda exclusiva das Folhinhas, 
Historias, Relações, Reportòrios, Comedias portugue- 
zas e castelhanas. Autos e Livros usados; intitulava-se 

({) Dissertações chronologicaSj t. iv, P. ii, p. 28. 

(2) Bibliotheca da Academia das Sciencias : E. 423—26. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULÂU£S, ETC. 479 

Irmandade do Menino Jesus dos Homens Cegos, sita 
na egreja parochial de S. Jorge em Lisboa, e depois 
na egreja parochial de S. Martinho. D. João v deu 
uma Provisão, de 7 de janeiro de 1749, estabelecendo 
os privilégios da irmandade e nomeando-lhe um juiz 
conservador, e cominando a multa de GOjJÍOOO réis, 
metade para os captivos e metade para a confraria, 
a todos aquelles que violassem o privilegio dos Cegos* 
O prologo que precede a Provisão é interessante : 

«Dom João etc, Senhor de Guiné, etc. Faço saber 
que o Juiz e mais oiQciaes da Mesa da Irmandade do 
Menino Jesus dos Homens Cegos, sita na Parochial 
Igreja de Sam Jorge d'esta cidade, me representaram 
por sua petição que elles tinham o seu compromisso 
e accrescentamento approvado por mim e pelo Ordi- 
nário, como se mostrava pelo instrumento que junta- 
vam, do qual se mostrava as penas que impunha 
aquelles cegos, que, sem serem Irmãos da dita Irman- 
dade resassem pelas portas ou vendessem papeis avul- 
sos, como também aos de vista ; e para melhor au- 
gmentarem a dita Irmandade, pois o não podiam fazer 
senão das esmolas que lhes davam os devotos que os 
mandavam resar, e dos papeis que vendiam, porque 
dos mesmos Irmãos haviam muitos, que não só por 
si vendiam papeis e Hvros, que lhes era permittido 
o venderem, mas os mandavam vender por seus mo- 
ços, e em tendas que tinham por sua conta, no que 
lhes causavam grande prejuiso, e para o evitarem 
recorriam a mim para ordenar que um dos Correge- 
dores do Civel da Corte fizesse ir à sua presença os 
Irmãos, que pela Mesa dos Supplicantes lhe fossem 
nomeados, e também os de vista que costumavam 
vender pelas ruas, ou em tendas do Terreiro do Paço, 
e lhes fizesse a todos assignar termo, e aos Cegos 
de não venderem papel algum senão em uma só parte, 
e que sendo em mais o não poderem fazer sem pri- 



480 UYHO III, CAPITULO III 

meiro o requererem á Mesa dos Snpplicantes, e lhes 
serem impostas as penas do Compromisso, e que o 
Corregedor nomeado as fizesse executar todas as 
vezes que pela Mesa lhe fosse requerido, sem que 
fossem ouvidos em cousa alguma, e que os de vista 
não podessem vender papel algum dos que pertenciam 
aos Supplicautes, e isto se entenderia somente n'este 
Patriarchado, e não em mais parte alguma, e repu- 
gnando algum, fosse preso. Pedindo-me lhe fizesse 
Mercê mandar passar ordem na forma sobredita.» (1) 

Nas folhas volantes do século xviii acham-se bastan- 
tes annuncios das tendas dos cegos ; reproduzimos 
algumas linhas que vem na comedia o Viajante : cNa 
mão de Romão José, homem cego, na esquina da casa 
dos Padres de S. Domingos, no Rocio, voltando para 
a praça da Figueira, se acharão as comedias seguin- 
tes...» E noutros folhetos: «Casa de Joaquim de Pina, 
Mercador de Livros, assistente nas Casas dos Religio- 
sos de S. Domingos com a frente para o Rocio, na 
escada n.** 3.» Por ventura era um de vista, que per- 
tencia à Irmandade dos Homens Cegos ; os livreiros 
das folhas volantes andaram sempre em lucta com os 
cegos: «Ainda em 1820 houve Resolução do Desem- 
bargo do Paço, mantendo os Privilégios da Irmandade 
do Menino Jesus dos Homens Cegos, que sempre foi 
muito favorecida dos senhores reis d'estes reinos, como 
diz a consulta.» (â) Âs Escadas do antigo Hospital de 
Todos os Santos, o Lorelo, e a arcada do norte do 
Terreiro do Paço eram as principaes tendas dos Ce- 
gos, onde estavam os folhetos, como diz Tolentino, e 
também a cavallo n'um barbante. 

Tolentino criticando um escriptor de folhas volan- 



(1) Reproduzido do Summario de Varia Historia, t. iv, p. 58, 
do Dr. Ribeiro Guimarães. 

(2) Dr. Ribeiro Guimarães, Ibidem, 



CONTOS, LENDASi LIVROS COPULARES, ETC. 48l 

tes, na sua satyra do VeUio, descreve o typo do cego 
andante, o propagador da litteratura de cordel : 

Enfastiados freguezes 
Juram que este auctor é louco ; 
O Cego grita seis mezes ; 
E à noite, raivoso e rouco, 
Conta os mesmos entremezes. (1) 

Pela Provisão de 7 de janeiro de 1749, se vô que 
os Cegos pediam o privilegio de só poderem resar 
pelas portas os que pertencessem á Irmandade do 
Menino Jesus. Âs Orações populares s3o um rico capi- 
tulo doesta litteratura de cordel, e embora prohibidas 
em todos os índices Expurgatorios, ainda no século xvni 
eram uma boa fonte de receita, como diz Filinto Eiy- 
sio, fallando das regateiras que ouviam a «Paixão, que 
na queresma lhe iam cantar os Cegos por doze vin- 
téns.» {Obras, t. m, p. 130.) No Entremez dos Cegos 
enganados citam-se differentes Orações : 



i.« Cego : Mandem-me resar, senhores, 
A Oração de Santo Anselmo. 

3.^ Cego : E a mim mandem-me resar 
A do Santo Nicodemus. 

1.* Cego : Mandem-me, mandem-me resar 
A de S. BartholomeUj 
Que tem por uma cadéa 
Todos os demónios presos. 

2.* Cego : Ha quem me mande resar 

Da virgem Santa os Mysterios, 
E tudo mais que a Cartilha 
Nos manda resar aos Cegos. 

{Musa entretenida,) 



(i) 06i*fl», p. 261. 

31 n 



482 uvRO ni, capitulo in 

É e8ta uma das partes mais vivas da poesia tradi- 
cional, 6 como espécimen das mais puras é a Obra 
da Creação colligida de um mendigo portuguez no Rio 
de Janeiro. Existem bastantes folhas volantes com 
Cantigas devotas a S. João, S. Pedro, S. Gonçalo de 
Amarante, que se vendiam e recitavam por occasião 
das festas populares doestes Santos, entre os quaes 
era S. Martinho um dos mais picarescos por ser o 
patrono da confraria dos bêbados. 

As Folhas volantes tornaram-se quasi exclusivamente 
litterarias, pelos assumptos palacianos e particulares 
que os poetas tratavam ; s3o numerosas as collecções 
de folhetos em verso e prosa impressos por occasião 
da morte da princeza D. Francisca Benedicta, por 
occasião da subida da Passaróla do padre Lourenço 
de Gusmão, pela morte de D. João v, pela Elevação 
da Estatua Equestre, pela morte do príncipe D. José, 
pelo nascimento do príncipe D. António, etc. Estes 
folhetos não penetraram no povo, que continuou lendo 
as antigas obras dos seus poetas favoritos, Gil Vicente, 
Balthazar Dias, Aflbnso Alvares, D. Francisco Manuel, 
Francisco Lopes, e admittindo com diiliculdade as 
composições que lhe apresentavam á sombra da cari- 
dade dos cegos. 

Para explorarem a vulgarlsação dos. folhetos, os 
livreiros reproduziram algumas composições litterarias 
sem destino popular, mascarando-as com o nome de 
Auto oii de Historia ; assim appareceram em folha 
volante as outavas do quinhentista António Ferreira 
a Santa Comba dos ValleSj com o titulo : A Formosura 
do Campo. A Fíor peregrina dos montes. Historia de 
Sa0ã Comba dos Valles. Com o titulo de Auto das 
Lagrymas ée S. Pedro^ publicaram-se em folha volante 
umas outripis outavas de Diogo Bernardes ; o livreiro 
Francisco Luiz Ameno publicou com o titulo de Auto 
dos Novíssimos do Homem uns versos endecasyllabos 



CONTOS, LENDAS, LIYBOS POPULARES, ETC. 483 

soltos de Jeronymo Corte Real, com diminuto valor 
poético ; finalmente com o titulo de Auío de Adão appa- 
receu um resumo popular em prosa por José da Cunha 
Brochado, dos factos da creaç3o segundo o Génesis. 

Nem somente nos versos de Filinto Elysio encontra- 
mos a prova da popularidade da Écloga de Albano e 
Damiana^ de João Xavier de Mattos ; na comedia de 
cordel Os curiosos punidos j diz um personagem : <ea 
aprendi de cór em dois dias e meio a Écloga de Albano 
e Damiana, e a repetia a umas visinhas da escada, 
com tal graça que todas diziam : a rapariga é o demó- 
nio.» Em Filinto se lê: cComo também n'outra éra, 
depois (tinha eu trinta por quarenta annos) saberem 
as regateiras de cór as oitavas da Écloga de Albano 
e Damiana...Ti {Ob.s t. m, p. 130.) Tendo Filinto nas- 
cido em 1734, a época em que algumas obras litte- 
rarias entraram na corrente do gosto popular deve 
fixar-se aproximadamente por 1769. 

De um catalogo dos folhetos que se vendiam em 
1783 no logar de Jo3o Henriques, no principio da rua 
Augusta, encontramos citadas as seguintes folhas vo- 
lantes que formam a melhor parte da lítteratura de 
cordel da ultima metade do século : 

Historia nova de João de Calais, dos grandes traba- 
lhos que padeceu e a fortuna que teve depois. — Historia 
da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador de Roma, 
e suas virtudes e trabalhos. — Historia da Princeza Ma- 
galona, e seus amares e trabalhos. — Historia de Roberto 
do Diabo, que depois mereceu por sua pemtencia ser 
chamado Roberto de Deus. — Historia do Marquez de 
Mantua, que conta a morte que elle fez dar ao fiiho do 
Imperador Carlos Magno. — Historia verdadeira acon- 
tecida no Algarve a D. Pedro e D. Francisca. — Historia 
de Reinaidos de Montalvão, um dos Doze Pares de 
França. — Livro do Infante D. Pedro de Portugal, que 
correu as sete partidas do mundo. — Vida e famosas 



• • 



484 LIVRO m, CAPriTLO ni 

acções do cdfbre Cosme Manhoso, 3 partes. — Amas de 
Santo AleixOs Santa Genoveva, Santa Catherína, do Dia 
do Juízo, da Paixão, de Jesu Christo, de Santa Bar- 
bara, e todas as qualidades de Comedias e Entreme- 
zes; Astúcias subtilíssimas de Bertoldo. Por este mesmo 
catalogo se nota que a influencia hespanhola começava 
a ser substituida pela influencia franceza, como se vè 
pela versão dos Contos de Voltaire e das comedias de 
Molière; porém de tantos folhetos só entraram no 
gosto popular formando parte da litteratura de cordel 
o Cosme Manhoso, as historias de Bertoldo, Bertoldi'- 
nho e Cacasseno, a historia de João de Cedais, e os 
Trez Corcovados de Setúbal. 

Depois d'estas obras entraram ainda na corrente 
da leitura popular o Auto de Santo António, e a farça 
de Manuel Mendes Enxúndia por António Xavier Fer- 
reira de Azevedo; contra ellas protestava a índole 
biliosa e cheia de inveja do padre José Agostinho de 
Macedo, como contra as comedias de Nicoláo Luiz 
protestara, até certo ponto com razão, o erudito Ma- 
nuel de Figueiredo. As obras de outro escriptor popu- 
lar José Daniel Rodrigues da Costa, taes como o PiUho 
Viajante, Almocreve das Petas e Barca da carreira dos 
tolos foram bastante lidas, mas não entraram na cor- 
rente da vulgarisaçao. 

Apesar da sua origem estrangeira, os typos de Ber- 
toldo, Bertoldinho e Cacasseno tomaram-se proverbíaes 
entre o povo portuguez ; elles pertencem a essa ge- 
nealogia de lõrpas com relâmpagos de bom senso, 
que vêm desde Esopo até Sancho Pansa; o povo 
conhece-os e ama-os. A forma de dialogo, como os de 
Marculfo e Salomão, é sanccionada pela tradição da 
Edade media ; o nome de Bertoldo tem suas analogias 
com o nome ou typo popular do velho anexim francez ; 
<I1 est bon que Berthol boive, si la bouteille est sien- 
ne» colligido por Gomes de Trier no Jardin de Bécréíh 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 485 

tion, do século xvl (1) Foi no fim do século xví, que 
o escriptor popular bolonhez Giulio CesareCroce escre- 
veu as Astmias de Bertoldo^ na forma com que se 
vulgarisaram em francez, allemão, hespanhol, portu- 
guez e grego moderno. Importa conhecer alguma 
cousa da personalidade de Croce ; nasceu em Perficeto 
em 1550 e morreu em 1620. A sua profissão de can- 
tor ambulante dava-lhe um conhecimento profundo da 
alma popular, na sua ingenuidade, graça e descon- 
fiança. Às obras de Croce acham-se coilígidas em qua- 
tro volumes (1598, 1617). A importância que a Itália 
ligou sempre aos seus dialectos, fez com que alguns 
escriptores bolonhezes se aproveitassem deste thema 
popular de Croce, compondo um grande poema sobre 
Bertoldo, Bertoldinho e Cacasseno, em verso heróico, 
e com notas e magnificas estampas ; cooperaram n'este 
poema os dois Zanotti, Barufaldi, Zampieri e outros, 
commentando a obra Giovanandrea Barotti juntamente 
com outros, acompanhando-a com o retrato do creador 
Croce. A publicação d'este poema não deixou de influir 
na vulgarisação do thema primitivo, e os exemplares 
d'esta edição luxuosa que temos visto em Portugal, 
não foram extranhos ao conhecimento d'este cyclo de 
facécias italianas. As edições portuguezas trazem no 
frontespicio <ítraduzida do idimna italiano em portti- 
guez;if de facto os titulos coincidem com os originaes 
como os vemos citados em Brunet e no catalogo La 
Valière : 

Astutie sottilissime di Bertoldo, dove si scorge un Vil- 
lano, accorto e sagace^ il quale dopo vari e strani acci- 
denti á lui intervenuti, alia fine per il suo raro et actUo 
ingegno vien fatto huomo di corte e régio consiglieroj 
opera nova e di grandissimo gmto, di Giulio Cesare 

(1) Livre des Proverbes {rançais, de Leroux de Lincy, t. ii, 
p. 29. Ed. 1843. 



486 UYRO m, CAPITULO ni 

Groce, cm figure... 1620. A esta facécia seguiu-se-Ihe 
uma outra, que se acha em volume junta com a pri- 
meira (Yid. Catalogo La Yalière, n.^ 10:667) com o 
titulo : Le piacevdi e rídiculose simplicitá di BertoldinOj 
HgliwÂo dk già astuto e accorto Bertoldo con le sottile 
ed argute serUenze ddla Marcdfa, sua madre... 1620, 
ia- 12. A estas duas facécias seguiu-se uma terceira 
parte, ajuntada por Camillo Scaligero, intitulada as 
Aventuras de Cacasseno; na versão portugueza intitu- 
lasse Vida de Cacasseno^ filho do simples Bertoldinho, 
tiao do astuto e sagaz Bertoldo. (1) As referencias mais 
antigas que conhecemos doestas trez facécias italianas 
s3o de 1 783 ; s3o ainda os folhetos mais lidos pelas 
nossas aldèas. (2) 

A Historia de João de Calais (3) é um dos folhetos 
mais apetecidos pelo nosso povo ; foi escripto origi- 
nariamente em francez por madame Gomez (Magda- 
lena Angélica Poisson, filha do celebre actor Paulo 
Poisson) casada com um hespanhol D. Gabriel Gomez 



{{) Livraria popular, n.<» 33. Porto, 18S7. 

Í2) Sobre Croce e as facécias de Bertholdo, vide Bmnet. 

(3) Fomos accusados de não ligarmos o conto de João de 
Calais ao cyclo novellesco do Morto agradecido estudado por 
Kôhler, na Germânia, vol. iii, p. 199, o por d'Ancona, ad^Romania, 
vol. III, p. 191, e nos Studi ai critica estoria letteraria, p. 354; 
e bem assim de nào termos aproximado a abreviação portu- 
gueza da versão n • xix dos Contes popidaires lorrains, de Cos- 
n* i ; e de não termos consultado Benfey, no Orient und Occi- 
j vol. I, p. 322, e vol. ii, p. 174, e vol. iii, p. 93; e de nos 
não termos aproveitado das notas de Benfey na sua edição do 
Pantchatantra, vol. i^ p. 221, e vol. ii, p. 532, e da noticia bi- 
bliograpbica do Zeitschrifte fiir romanische Pkilologie, de 1878. 
Com os trabalhos magistraes de Benfey e de Kôhler é fácil 
simular uma vasta erudição sobre estes assumptos, e por isso 
limitamo-nos a transcrever do Literaturhlath fiir germanische 
und romanische Philologie, de 1881, n/> 11, p. 412, aquillo que 
sem prevenções alheias á sciencia pôde ser utílisaoo n'estes 
estudos. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 487 

por quem se apaixonara ; o hespanbol apresentára-se 
como fidalgo, nadando em riquezas, e Madame Gomez 
achou-se diante da realidade de uma profunda miséria* 
recorrendo ao lavor da sua penna para subsistir e su- 
stentar o marido. Esta vida da auctora de João de 
Calms já é um curioso romance; madame Gomez 
lançou-se a escrever comedias, tragedias, novellas* 
contos, romances sentimentalistas, orientaes, allego- 
ricos, históricos, emfim em todos os géneros, fazendo 
reviver o estylo de Scudery e de Galprenède. As suas 
obras formam dezenas de volumes, chegando algumas 
das suas tragedias a terem grandes successos como 
Habis, tragedia em verso em cinco actos representada 
em 1714, e alguns dos seus contos a adquirirem o 
máximo da vulgarisaçao, isto é^ a formarem parte da 
Bibliotkèque bku, como leitura predilecta do povo fran- 
cez. O pequeno conto de João de Calais faz parte de 
uma vasta coUecção intitulada Cem Novellas Novas, 
(8 vol. Paris, 1735-1758) e d'ai saiu para a coUecção 
d'Epinal, e para a Bibliotèqm bleu de Desoer. Este 
pequeno conto, um pouco alambicado, tem alguns tra^ 
ços que o deviam tornar popular ; fanda-se sobre as 
luctas contra os piratas argelinos e nas aventuras ma- 
rítimas das ilhas incógnitas, conhecidas em França 
pela relação de Bettencourt. A vulgarisaçao de João 
de Calais em Portugal explica-se não só pelo mesmo 
interesse das relações de aventuras dos captivos pelos 
piratas, mas especialmente porque a parte principal 
da historia se passa em Portugal ; João de Galais salva 
duas damas captivas dos piratas, e uma d'elias, Gon- 
stança, com quem casa, é filha do rei de Portugal ; e 
quando um dia veiu a Lisboa, como trazia o retrato 
de sua mulher na camará do navio, o rei veiu a conhe- 
cer que era o de sua filha, soube que estava viva e 
depois de vários incidentes declarou-o príncipe e her- 
deiro do throno portuguez. O traductor da Historia 



488 LiYHO m, CAPITULO in 

de João de Calais alteroa esta feição da redacção de 
Madame Gomez, sabstítuindo o porto de Lisboa e o 
reino de Portugal pelo porto de Palermo no reino de 
Sicilia ; o príncipe D. JoSo, rival de João de Galais, é 
também substituido pelo príncipe Florimundo. Oatras 
alterações existem que tornam o caracter de João de 
Calais mais extraordinário, e em geral a traducção 
portugueza é totalmente paraphrastica. Existem duas 
redacções francezas, a de Epinal, que Charles Nizard 
considera como mais sensata, e mais abreviada do 
texto original, e a edição de Paris (1849, in-12, de 
36 p.) que traz a declaração de <irevue et corrigée par 
un acudémicienT^ e é maisdigressiva, achando-se «estra- 
gada por uma affectação de estylo poético incompatível 
com a vulgaridade do assumpto.» (1) A lição portu- 
gueza, embora derivada da fonte mais pura, também 
soffreu por causa da redundância rhetorica do tradu- 
ctor paraphrasta. O folheto continua a ser lido, e as 
edições succedem-se ; pertence á classe d'aquelles 
opúsculos de que os livreiros dizem : «Vende-se como 
canella.» Visto que conhecemos já a auctora do João 
de CalaiSj resta terminar-lhe a sua biographia ; viuva 
do fidalgo Gomez passou a segundas núpcias com um 
tal Bonhomme, fallecendo em 1770. (2) 

«Não ha muito, que colligimos da bocca de uma 
mulher analphabeta, que declarou tel-a ouvido na sua 
infância a uma companheira que também não sabia 
ler, uma versão da celebre historia de João de Calais, 
que muito recentemente entrou no nosso paiz graças 
a um dos numerosos folhetos da chamada — Littera- 
tura de cordel — historia que na sua forma litteraria 
representa a appropriação de um conto popular per- 
tencente ao cyclo do Morto agradecidos mas que apesar 

(i) Histoire des Livres populaires^ t. ii, p. 411. 

(2) Nouvelle Biographie generale, de HoeíTer, t. xxi, p. 161. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 489 

de ter vindo modernamente por mn canal erudito para 
o nosso paiz, está hoje t3o assimilada pelo povo, que 
poderia, se não fossem as coincidências demasiada- 
mente numerosas entre o conto popular e a sua re- 
dacção litteraria, suppôr-se aquelle existente na tradi- 
ção oral já antes do conhecimento d'esta ultima.» (1) 
As origens tradicionaes de João de Calais é que nos 
explicam a facilidade e profundidade da sua vulgari- 
sação em Portugal ; um facto análogo se dá com os 
versos da Viola de Lereno, de Caldas Barbosa, que o 
povo brazileiro assimilou na sua tradição oral, não 
pelo mérito d'essas cançonetas, mas por ellas conser- 
varem as formas tradicionaes typicas da Serranilha 
galleziana representada na Modinha brazileira. 

A Historia jocosa dos trez Corcovados de Setubals 
Lucrécio, Flávio e Juliano j onde se escreve a equivocação 
graciosa de suas vidas, é um dos contos populares 
portuguezes com raizes tradicionaes bem profun- 
das ; (2) na Bíbliothèque bleu é conhecido com o titulo 
de Histoire des trois Bossus de Besançon, d'onde parece 
ter-se derivado immediatamente para a versão portu- 
gueza. Este conto oriental acha-se introduzido na cor- 
rente litteraria nas Notte piaccevole de Straparole 
(Nott. V, fab. 3,) com o seguinte summario: uBerthaud 
de Valsable teve trez filhos, todos trez corcundas e de uma 
mesma feição, um dos quaes se chamou Jambon e foi 
pelo mundo á busca da suu ventura; e tendo chegado 
a Roma foi morto e lançado no Tibre com outros dois 
seus irmãos. if Loiseleur des Longchamps analysa as 
origens orientâes d'esta tradição nas Parábolas de 
Sendabar, na Historia dos Sete Sábios, e apresenta um 



(i) Gonsiglieri Pedroso, Mythographia, Positivismo, t. ir^ 
p. 456. 

(2) Temos à vista a edição do Porto, de 1857 (Livraria do 
Povo, n.» 22). 



490 LIVRO m, CAPITULO lII 

conto resamido do hebraico por Mr. Pichard simi- 
Ihante á l)istoria dos trez corcovados. (1) A tradição 
oriental foi versificada pelos troveiros francezes, no 
fabliau de Durand, do século xui, intitulado Les trois 
BossuSs e no fablían de Hugues Piancèle, Estourmi. 
Da corrente franceza passou para a Itália, e da 
redacção de Straparole para os Contos tártaros de 
Gueulette ; apesar de determinado um grande numero 
de paradigmas ainda não estão estudadas as origens 
mythicas d'este conto universal. Â redacção portu- 
gueza traz a declaração €esmpta por um curioso lis- 
hcnense,^ e é de tal forma amplificada e cheia de 
contrasensos, que só o sabor tradicional do conto é 
que o podia tornar popular. 

A Vida e formosas Acções do celebre Cosme Manhoso^ 
cm qu£ se relata a stm ambição^ trabalhoSj misérias e 
logros em que caiu^ é uma semsaborona relação de 
um gallego sórdido e lorpa, tal como se encontra 
representado nas comedias de cordel do século xvul 
Não tem o minimo vislumbre de valor artístico, e tende 
a ser esquecida. (2) 

Muitas das obras das litteraturas peninsulares ver- 
sam sobre a situação vulgar mas sempre interessante 
dos captivos christãos em Argel, Fez ou Marrocos ; as 
composições mais bellas de EspineU Cervantes, Mattos 
Fragoso, emfim as novellas, os livros ou pliegos suel- 
tos, os romances tradicionaes fazem vibrar o senti- 
mento com as continuas bistorias dos captivos rapta- 
dos pelos piratas nas costas de Portugal e de Hespanba. 
Esta situação era mantida pelo systema clerical, que 
pela sua influencia no governo de Hespanha e de Por- 
tugal, não consentia que se fizessem contractos diplo- 
máticos para salvaguardar as costas maritímas dos 

(i) Essai sur les Fabíes indiennes, p. 157, nota. 
(2) Livraria popular, n.» 21. Porto, 1837. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 491 

dois paizes, por isso qae jalgavam indigno de gover- 
nos catholicos entrarem em contracto com os inimigos 
da Fé. Foi no governo de Carlos m, animado pelo 
espirito francez, que os interesses clericaes foram 
submettidos aos interesses da nação, e em 1782 Flo- 
ridablanca fez um tratado com a Turqaia, d'onde 
resultou o termo das guerras de religião entre esses 
dois estados; em 1784 eflfectuou-se a paz de Tripoli, 
em 1785 com Argel, e em 1786 com Tunis. Foi assim 
que acabou a tremenda pirataria do Mediterrâneo, e 
que as ricas povoações do litoral começaram outra vez 
a serem habitadas, pela segurança de que não seriam 
mais investidas. Doesta forma deixou de funccionar a 
ordem religiosa dos Trinitarios, que se estabelecera 
para tratar exclusivamente da redempção dos captivos; 
e por seu turno acabou a Arca da Piedade, para onde 
convergiam as multas judiciaes e as apprehensões 
físcaes destinadas a essa remissão. Durante muitos 
séculos, a pirataria do Mediterrâneo foi uma fonte de 
receita para os estados maurescos, e um motivo de 
popularidade para o clericalismo que alimentava essa 
espinha na desorganisação económica de Portugal e 
de Hespanha. (1) Bastou um simples acto de bom 
senso pratico para acabar com essa perturbação social 
permanente. O folheto popular da História de D. Fran- 
cisca do Algarve^ representa na litteratura popular 
portugueza esta propaganda sentimental, que se re- 
flectia em adhesão ao obcecado clericalismo. 

No HyssofpBs Diniz allude ás leituras populares no 
século xvm : 

O Bastos, n'este instante, homem versado 
Na lição de Florinda e Carlos Magno, 
Quer metter seu bedelho. . . 

Ed. Ramos Coelho, p. 140, f, 8. 

(1) Bttckle, Historia da Civilisaçao em Inglaterra; cap. i do 
tomo n: A civilisaçao em Hespanha. 



492 UYRO III, CAPITULO III 

Refere-se aos Infortunios-tragicos da Constante Flo- 
rinda, do padre Gaspar Pires Rebello, de 1665 : 

Lembra-me a mim, que sendo inda estudante 
Do Bacharel Trapaça e Peralvilho 
De Córdova as Historias portentosas 
Ouvi lér (por signal que por ouvil-as 
Na classe pespeguei valentes gazios) 
A um clérigo visinho, bom poeta. . . 

Id., p. 189. 

Pertencem estes dois livros à classe dos romances 
picarescos do século xvii, cuja moda teve mais recru- 
descência em Portugal no século xvin, como vemos 
pelo Piolho viajante, de José Daniel. As Aventuras dd 
BachiUer Trapaza^ de Solorzano são de 1637; O Peral- 
vilho de Cordovaj é uma continuação de Matheus da 
Silva Cabral (n. 1666), natural de Setúbal. 

No poema heroicomico O Desertor^ de Silva Alva- 
renga, de 1774, citam-se alguns livros, então de lei- 
tura corrente : 

Por baixo está de Sam Patricio a Cova, 
A Imperatriz Porcina^ e quantos Autos 
A miséria escreveu do Limoeiro 
Para entreter os cegos e os rapazes. 



Junto d'estes livros da litteratura de cordel figuram 
o Bacido Pastoral, em que abundam os contos popu- 
lares, e o Peregrino da America, de Nuno Marques Pe- 
reira, espécie de novella allegorica pelo estylo de 
Bunyan. 

Depois dos catálogos de 1731 e de 1783, por onde 
vimos quaes eram os principaes folhetos da litteratura 
de cordel, resta-nos apresentar o catalogo da Livraria 
poptdar do Porto, de 1863, por onde se verá a per- 



CONTOS, LENDAS, UYROS POPULARES, ETC. 493 

sistencia de certos escriptos dos trez séculos anterio- 
res, na época actual : 

Àuío da vida e milagres de Santo António de Pádua ; 
— Auto da muito dolorosa Paixão de N. S. Jesus 
Christo; — Auto do Dia de Juiso; — AtUo de Santo 
Aleixo j filho de Eugénio, Senhor de Roma ; — Auto de 
Santa Catherina; — Auto de Santa Genoveva, princeza 
de Barbante ; — Auto de Santa Barbora; — Auto novo 
e curioso da Padeira de Aljubairota, por Diogo da 
Costa ; — Astúcias subtilissimm de Bertoldo, vilão de 
agudo engenho e sagacidade ; — Confissão geral do Ma- 
rujo Vicente; — Historia do Imperador Carlos Magno 
e dos Doze Pares de França; — Historia do Grande 
Roberto, Duque de Normandia e Imperador de Roma; 
— Historia da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador 
Lodonio de Roma ; — Historia da princeza Magalona, 
filha de d-rei de Nápoles e do nobre e valoroso cavai- 
leiro Pierre, Pedro de Provença; — Historia da Donzella 
Theodora, em que se trata da sua grande formosura e 
sabedoria; — Historia verdadeira acontecida no reino 
do Algarve; — Historia de João de Calais; — Historia 
jocosa dos trez Corcovados de Setúbal, Lucrécio, Flávio 
e Juliano; — Livro do Infante D. Pedro, o quãl andou 
as sete partidas do mundo. 

No meio doesta lista clássica acham-se citados outros 
folhetos modernos, traduzidos ou macaqueados sem 
inteilígencia, como Secretários de amantes. Linguagem 
das fiares. Diabo com botas, e outras cousas que o povo 
regeíta, e a que nao dá a consagração dos seus risos 
e das suas lagrimas. Este género de litteratura tem 
andado abandonado á especulação insciente dos livrei- 
ros ; e os escriptores que possuem ainda a veia de 
António José ou de José Daniel, fazem romances de 
brazileiros para a burguezia ou reclamos de touradas. 
É de crer que a litteratura de cordel ficará circum- 
scripta a esses velhos folhetos, porque o povo já pro- 



494 UVRO m, capitulo iii 

cara orientar-se com os acontecimentos do dia; e 
n'este caso já é tempo de collígir em uma edição 
critica esses ingénuos documentos da vida moral do 
povo portuguez. (1) 

A Historia de Portugal na voz do povo. — Assina como 
o povo sem ter communicaçSo com os tiomens de 
letras possue a base fundamental de todas as littera- 
turas, — a tradição, que transmilte com respeito, e 
de que se serve para exprimir as emoções do grande 
combate da vida ; assim como, sem relação com os 
philosophos que formam os complicados systemas me- 
taphysicos, o povo também alcança noções geraes, que 
constituem pelos anexins esse conjuncto a que se cba- 



(1) Garrett com a sua grande intuição artística não se pejou 
de lér os Livros populares portuguezes, e foi assim que desco- 
briu a belieza poética do Marquez de Mantua, de Balthazar 
Dias, introduzindo-o no seu Romanceiro: «Eil-o que se apéa 
de seu clássico barbante em que tantos annos cavalgou, e des- 
pindo o papel-pardo em que o embrulhavam os cegos e ven- 
dilhões de nossas feiras, vem o nobreMarquez de Mantua tomar 
o seu logar entre os mais venerandos e antigos romances do 
cyclo de Carlos Magno. Sua nobre origem bem sabida é e bem 
manifesta : franceza ou provençal Sem profundar nenhuma 
d*estas questões contento-me de sacar do lixo da Feira da La- 
dra esta bclla relíquia da nossa litteratura popular e roma- 
nesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre Marquez 
de Mantua, embora me criminem e escarneçam os supereiiio- 
sos académicos de todas as academias reaes e não reaes d*este 
mundo.» (1) Garrett protestaria mais eloquentemente ainda se 
com o seu grande tmo artístico organisasse a litteratura dos 
Livros populares portuguezes. Somente em 1865 é que encetá- 
mos a primeira tentativa para este trabalho em um pequ^io 
artigo intitulado Da Litteratura de cordel, (â) sendo impossível 
até hoje obter os meios typographicos para darmos uma edição 
critica e tão necessária doesta parte da Litteratura portugueza. 



íii 



Romanceiro, t. iii, p. 193. Ed. 1851. 
iNo Jornal do Commerdo, de Lisboa. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 495 

ma com certa graça píttoresca a philosophia de San- 
cho ; assim consequentemente apesar de separado do 
exercício da soberania nacional pelo absolutismo mo- 
narchico, explorado pelo centralismo administrativo 
como matéria coUectavel, esmagado pelos exércitos 
permanentes para os quaes fornece a chair a cânon, 
estupidecido systematicamente pelo clerícalismo que 
faz da pobreza de espirito uma virtude, ainda assim 
o povo também vae fazendo a historia do seu tempo, 
que umas vezes perpetua em grandes epopêas, em 
lendas locaes, e, nao poucas vezes, em protestos vigo- 
rosos, a canção politica, o pasquim revolucionário, a 
satyra mordaz, que nunca mais esquece. 

No povo portuguez faltam as epopêas nacionaes, 
esses productos orgânicos das grandes raças,— o que 
se explica pela exiguidade do nosso território e pelo 
facto tardio da nossa independência politica ; as lendas 
locaes não receberam forma escripta, e foram-se sub- 
stituindo pelas santificações com que a egreja se ligou 
á vida dos pagi ou povoações ruraes ; as garantias 
municipaes, a independência dos Concelhos, foram 
absorvidas pelo poder real, e sob a pressão de um 
despotismo secular, e sob o regimen da intolerância 
calholica, o povo portuguez compoz a sua historia com 
refrens sarcásticos, que como outros tantos protestos 
correspondem á evolução da Nacionalidade portUgueza. 
É por isso que os pasquins políticos abundam na tra- 
dição oral portugueza, e por elles se pôde conhecer 
como este povo fez a sua historia. (1) 

O ingénuo, mas profundo chronista Fernão Lopes, 
consultava as tradições, a que elle chamava Estorias; 
o trabalho erudito consistia em subordinai -as ao nexo 



(i) Ha um estudo análogo ao nosso com o titulo A historia 
da Rússia commentada pelo Povo, por BèlloíT. (No Messager his- 
torique, artigo na viu lívraison.) 



496 LIVRO Ilf, CAPITULO III 

material da successão do tempo, que elle definia : pôr 
as estorias em caronicas. O povo abstrae do tempo, e 
visa só á relação moral entre o homem e os factos. 
No povo portuguez ha a recordação de trez épocas 
históricas geraes, que lhe servem de orientação no 
passado ; sao ellas O tempo dos Mouros^ O tempo dos 
Affonsinhos, e O tempo dos Francezes. Cada uma d'es- 
tas épocas corresponde a determinada realidade histó- 
rica ; a primeira é uma como antiguidade ante-dilu- 
viana, a segunda como uma edade homérica, e a 
ultima é o ponto de partida da vida politica moderna. 
Sob os reis D. ÂiTonso i a D. Monso ni a sociedade 
portugueza organisou-se pelo estabelecimento dos Fo- 
raes reconiiecendo a independência dos Concelhos ; é 
crivei que sob o despotismo monarchico essas liber- 
dades locaes fossem designadas irrisoriámente como 
uma cousa do tempo dos Affonsinhos. 

Ha nos documentos outras datas populares, como 
o Anno mdo, nome dado ao anno de 1124 em que 
houve fome e peste ; Quando a noite foi dia, isto é, 
1220, em que houve um grande eclipse. (1) No Nobi- 
liário cita-se como data a Lide do Porto; no século xv 
cita-se o anno das Fomes do Alemtejo, em 1496; o Armo 
do catarro^ nome dado ao de 1557; (2) o de 1569 
ou da Peste grande, e o Tempo das alterações, antes 
da morte do Cardeal-Rei. 

E assim como na expressão do sentimento humano 
o povo só conserva os grandes eífeitos da realidade, 
os contornos geraes a que raramente se elevam os 
génios apesar do seu profundo subjectivismo, assim 
na historia só conserva as linhas com que destaca os 
caracteres das individualidades. Os grandes historia- 
dores procuram retratar as épocas aproveitando-se 

(1) Viterbo, Elucid, vb.» Dia Noite. 

(2) Annaes das Sciencias e das Letiras, 1 1, p. 302. 



CONTOS, LENDAS, UVROS POPULARES, ETC. 497 

doestas syntheses espontâneas do povo ; e n'este pro- 
cesso são conformes Fernão Lopes e Froissart por 
uma intuição admirável, ou um Michelet e Agostinho 
Thierry pelo conhecimento do determinismo psycho- 
logico. 

Em uma canção do Cancioneiro da Vaticana acha-se 
este verso que resume a lucta da independência local 
contra a invasão da jurisdicção real : Tal Concelho tal 
campana. (1) O Concelho tinha as suas leis consue- 
tudinárias, a que dava a forma escripta nas Cartas de 
Foral, da mesma forma que a plebe romana reduzira 
o jus incertum ás Doze Taboas segundo a tradição da 
democracia grega ; aqui as Cartas de Foral, como se 
vè pelo seu vigoroso symbolismo juridico, davam a 
fixidez da escripta às garantias primitivas dos homens- 
livres germânicos atacadas pelo desenvolvimento do 
feudalismo, e mais tarde pela constituição das monar- 
chias independentes, que operaram o renascimento 
artificial do direito romano. 

Entre estas duas formas de legislação existiu um 
antagonismo, que se reconhece nas duas designações 
de Foros e Leis, como se vê nas Memorias avulsas de 
Santa Cruz de Coimbra, a propósito de D. Âffonso 
Henriques : <E per tanto tempo senhorezase e regese, 
tanto foy o seu cuidado de accrescentar em a onrra 
do regno, que ante de sua morte emcomendou a seu 
filho que fezesse as Jeo? e foros, que visse que com- 
priam pêra boo regimento do reyno, mostrando que 
em toda sua vida nunqua tevera tempo ocioso em que 



(1) Um anexim hespanhol esclarece o sentido social d*este 
verso ; D. Joaqain Gosta, na obra Poesia popular espanola, 
p. 48, traz : 

Ganizar y Yillarejo, 

Gran campana y ruin concejo. 

32 n 



498 UYBO nh CAirruLO m 

as podesse fazer.» (1) O fazer foros consistia em man- 
dar redigir as garantias consuetudinárias dos Conce- 
lhos, com os quaes a realeza se fortalecia contra a 
prepotência senhorial; de sorte que as Cartas de 
Foral não s3o uma generosidade regia, mas um reco- 
nhecimento da independência dos Concelhos por neces- 
sidade das circumstancias. Assim a differença entre 
as Leis e os Foros corresponde a essa dififerença Am- 
damental do direito na Edade media da Europa, o 
direito ou estatuto pessoal e o direito ou estatuto terri- 
torial, O direito romano, para as povoações que foram 
subjugadas pela invasão germânica, mas que ficaram 
com a sua legislação e costumes, tomou-se o dii^eiio 
pessoal; o direito germânico, applicando-se áquelles 
que nao escolhiam legislação alguma, mudara de cara- 
cter tomando-se territorial. (2) Os Foraes encerram 
e estatuto territorial ; fóra das fronteiras do Concelho 
acaba a garantia do individuo, bem como não existo 
a criminalidade dos actos ahi praticados. O desenvol- 
vimento da jurisdicção real, em que a monarchia vae 
fazendo reviver o direito romano, ataca lentamente a 
autonomia local ; assim as instituições populares, já 
perturbadas pelos barões, já pela realeza, são defen- 
didas pela revolta, e é o sino que toca a rebate para 
chamar o burguez ou o vilão á defeza das suas fran- 
quias. Aqui a independência popular mede-se pela 
resistência, e é isto o que significa o verso : Tal Cim- 
celho, tal campana. (3) 

As Cartas de Foral foram redigidas emqnanto a 
realeza precisou defender-se contra os barões ; desde 

(i) Mon, hist, Scriptores, fase. f, p. 23. 

(2) Giraud, Hisi. du Droit Romain, p. 39i. Paris, 1847. 

(3) O caracter de extrangeirismo, que a realeza conservou 
ao reunir sob a sua soberania os Concelhos ou Behetrias por- 
tuguezas observa-se na designação também extrangeira j&/ Rey, 
já notada por Fernão de Oliveira. Vide retro, vol. i, p. 13, nota. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPCLillIES, ETG. 499 

que ella se tornou independente, atacou as garantias 
foraleiras, primeiramente pelo renascimento do direito 
romano, applícado nos tribunaes e glossado nas Uni- 
versidades, depois pela formação de um código geral, 
em que sob a mesma auctoridade se unificaram os 
direitos locaes. Até D. Affonso ni é que se redigiram as 
Cartas de Foral ; e a sua omissão completa no remado 
de D. Diniz, coincidindo com a formação dos nobilia^ 
rios, ou da nobreza por foro de d-rei, com a applica- 
ção das leis romanas nos tribunaes, e com o ensino 
erudito do direito romano na Universidade de Coimbra, 
revela-nos que a monarchia entrava no seu período 
de independência absoluta. 

O grito Á que á'el Rei, que o povo ainda profere 
nas afflicções, corresponde á preponderância do foro 
real e da sua justiça sobre a vindicta pessoal e a jus- 
tiça privada. 

A constituição politica de Portugal entrou em bases 
novas, em que o direito se tornou um regalismo, isto 
é, as garantias foram substituídas pelas regalias ; esta 
profunda alteração, implícita inconscientemente nos 
documentos, acha-se na voz do povo, nos versos con- 
servados por Duarte Nunes de Leão : 

i) El-rei Dom Diniz 

Fez tudo quanto qoiz ; 
Porque quem dinheiro tiver 
Fará tudo o que quizer. 

No romance da Rainha Santa, da tradição da Ma- 
deira, vem o verso referente a D. Diniz : E éUe fez 
quanto quiz. (1) E na Arte de Furtar, (p. 342) lê-se : 
cEntão manda el-reí D. Diniz, o que fez quafUo quiz...^ 

Em D. Pedro i pôde ver-se até onde foi levado o 

(i) Romanceiro do ÂrcMpelago da Uàdeiray p. 29. 



• • 



500 UYRO ni, CAPITULO in 

arbítrio da anctoridade reaU apesar dos mais sinceros 
intuitos de justiça ; o facto d'essa auctoridade irre- 
sponsável leva à alíucinação e á immoralidade, como 
se vé nos imperadores romanos e nos autocratas da 
Rússia Tem D. Fernando acham-se as consequências 
d'essa irresponsabilidade, que produziram a revolução 
popular de Lisboa, e a entrada do terceiro estado na 
constituição politica sob D. João i. O povo que soflfreu 
as invasões castelhanas provocadas pelos desvarios 
de D. Fernando que chegou a estar cercado em San- 
tarém, atacou-o nos seus amores dissolutos em um 
Rifam de escambo, que Fernão Lopes traz na sua 
Ghronica : 



2) Exvollo vai, exvollo vem 

De Lisboa para Santarém, (i) 



Este pasquim histórico conservou-se tão profunda- 
mente na tradição oral, que o achamos em duas va- 
riantes : 

Tolo vae, 
Tolo vem, 
De Lisboa 
A Santarém. 



E esta outra applicada ás luctas constitucionaes de 
1832 : 

D. Pedro vae, 
D. Pedro vem ; 
Mas não entra 
Em Santarém. 



A vida popular, que se revela na revolução que deu 
o throno a D. João i, conhece-se também em um 



(i) Chromca de D. Fernando^ cap. 36. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 501 

grande desenvolvimento de poesia e no grito de accia- 
mação : 

3) Real, real ! 

Pelo Mestre de Avis 
Rei de Portugal. 

Esses cantos sSo uma participação directa da his- 
toria. Fernão Lopes, descrevendo a revolução de Lis- 
boa, traz este canto do povo, em que celebra os actos 
da sua grande justiça : 

4) Esta es Lixboa fidalga, 
fifiralda y leixalda ! 

Si quisíerdes camerOy 
Qual dieran ai Andero ; 
Si quísierdes cabrito 
Qual dieran ai Arcebispo. 

Era este o grito da nossa Jacqueríe; na Chronica 
anonyma do Condestavel, (cap. 37) também se acha 
um caqto popular de despeito, com que Vasco Pires 
de Camões ataca os que se declararam a favor de 
D. João I, por não o subornarem como elle queria para 
entregar a alcaidaria de Portel. 

Mas assim como o povo tinha os gritos de impre- 
cação contra os traidores, também tinha os descantes 
de glorificação, como vemos nas varias seguidilhas 
coliigidas dos manuscríptos de Azurara, em que do 
Condestavel Nuno Alvares Pereira se ia formando de 
um modo espontâneo o typo heróico do Cid portuguez. 
O povo cantava á porta do convento do Carmo, onde 
o Condestavel se refugiara como o bom cavalheiro da 
Edade media, essa canção que começa : 



5) O santo Condestable 
Em o seu mosteiro, 



902 UYBO m, GAPITUM) Hl 

0á-]|O8 soa 8ôpa> 
Mail-a sua roupa, 
Mail-o seu dmheiro. 

Tanto estes versos, como as outras seguidilhas que 
o povo dos arredores de Lisboa cantava dansando em 
vQita da sepultura do Gondestavel> acham-se colligí- 
dos na Chronica do convento do Carmo, d'onde os 
extrahimos para o nosso Cancioneiro popular (p. 9 
a 13.) 

Ck)m o governo de D. João i, o eleito do povo, rei 
pelo mandato da soberania da nação e nâo pela irri- 
sória investidura da graça de Deus, começam as expe- 
dições militares da Africa e depois o grande cycio das 
descobertas marítimas. O povo portuguez perpetuou 
essa actividade fecunda ; Azurara, na Chronica do conde 
D. Pedro de Menezes, traz este dito do cavalheiro Go- 
mes Freire, proferido na Cabeça de Almenara : 

6) — Oh noite mà. 

Para quem te aparelhas ? 
«Para os pobres soldados 
£ pastores de ovelhas. 
— E os homens do mar 
Onde é gue os deixas ? 
«Esses ncam mettídos 
Até ás orelhas. 

Azurara, Cbristovio A13o de Moraes, na Pedatura 
Lusitana, e o dr. Alexandre Ferreira, nas Memorias 
históricas das Ordens militares (p. 189, cap. 2, § iv) 
trazem apenas os dois primeiros versos ; na tradição 
popular encontrámos ainda persistente o resto d'este 
canto em que o povo portuguez pintou a sua vida 
nacional nas expedições militares e descobertas marí- 
timas, porque o cavalheiro Gomes Freire usou-o como 
provérbio, e Azurara apenas o indicou como muito 
conhecido. Na tradição do povo circularam outros 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. S03 

anexins ou provérbios tirados da sua nova sit«aç3o 
histórica, como Metter lança em Africa^ e africanadasj 
e este que demarca o começo da actividade marítima 
IJU) infante D. Henrique : 

7) Qnem passar o cabo de Nam 
Ou tomará ou não. (I) 

Quando no século xvi já faltava gente para equipar 
as armadas da carreira da índia, tocava-se um tam- 
bor pelas ruas de Lisboa, para chamar os aventurei- 
ros ao alistamento na Casa da índia ; o povo acompa- 
nhava o rythmo d'esse rebate da Nau de Viagem, com 
o anexim ainda corrente no século passado : 

8) Quantos irão, Á índia mais vão, 
Que não voltarão. Do que tomarão. 

Quando os navegadores p(H*tuguezes recebiam em 
premio do seu amor à pátria a injustiça brutal do 
egoísmo monarchico, como se viu no rei D. Manuel, 
era corrente entre o povo este anexim, que João de 
Barros consignou nas Décadas : 

9) Dos néscios leaes 

Se enchem os hospitaes. (2) 

Confirmaram-no com as suas desgraças Duarte 
Pacheco, António Galvão, Affonso de Albuquerque, 
Fernão Mendes Pinto, Camões, e tantos que eterni- 
saram o nome portuguez. 

Sá de Miranda falia com a sua alta severidade moral 



(1) J. de Barros, Dec. i, cap. 4. Foi passado em 1433 por 
Gil Eannes. 

(2) Década ui, liv. 9, cap. i. 



504 UVRO III« CAPITULO 01 

doeste mercantilismo do século xyi, em qae a provin- 
cia se despovoava convergindo para Lisboa, e em qae 
a ambiçio das riquezas orientaes fazia desvairar todas 
as cabeças ; mas a nossa decadência nao começoa por 
aqui, veiu-nos da invas3o da auctoridade civil pelo 
clericalismo. O povo comprehendeu-o claramente ; em 
uma quadra picante, ataca-se o bispo da Sé da Guarda, 
D. José de Mello, por causa dos seus escândalos com 
uma dama chamada Mesquita : 

10) O Bispo qae deixa a Sé 
Por se metter na Mesquita, 
M ooro foi e mooro é, 
Pois d'ella se não desquita. 

Na Vida do infante D. Duarte por André de Rezende, 
acba-se também o começo de uma canção contra o 
papa Clemente vn, que o príncipe mandou inteirom- 
[)er, mas que nos revela que o povo sabia contra quem 
tinha de reagir : 

11) Padre nuestro en cuanto Papa, 
Sois clemente sin que os cuadre ; 
Mas reníego yo dei padre 

Que ai h|jo quita la capa. 

E quando a intolerância estava reduzida a systema 
de governo, e a Inquisição ultrajava a humanidade 
com o canibalismo em nome da unidade das crenças, 
o povo resumiu em um rifão sarcástico todas as iniqui- 
dades do prc»cesso do Santo OfBcio : 



12) Damel-o Judeu, 

Que eu t'o darei confesso ; 
Deíxa-me fazer o processo 
E julguel-o o seu pae. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETG. 505 

A atonia da consciência nacional fez-se sentir na 
impossibilidade de resistência contra as absorpções 
do jugo castelhano; o cardeal D. Henrique, o primeiro 
inquisidor geral portuguez, foi o instrumento passivo 
com que os jesuitas nos entregaram ao nosso inimigo 
natural. Quando em 1580 se achou de repente extin- 
cta a nacionalidade portuguéza, o povo cantava pelas 
ruas de Lisboa e em Santarém essa cantiga, que ficou 
na historia como o único grito da consciência de uma 
nação que se escravisa : 

13) Viva el-rei D. Henrique 
No inferno muitos annos. 
Pois deixou em testamento 
Portugal aos castelhanos. 

Ficámos sob o jugo do terrível Filippe ii, que ob- 
teve pela espada o que o servilismo da nobreza ven- 
dida lhe não pôde entregar; o povo conheceu o homem 
que assassinava o seu próprio Qlho, e fez-lhe este 
epigramma, que encontrámos em um cancioneiro ma- 
nuscripto do fim do século xvi : 

14) Lo dei Princepe fiie cierto ; 
De la Reina está encubierto : 
Del Marquês no ay que dudar. 
Que El-Rey lo mando matar. 

 intolerância religiosa, pelas fogueiras do Santo 
OflQcio, e o despotismo monarchico pelo garrote, paci- 
ficaram este povo ; esses dois poderes abusivos enten- 
deram-se como se entendem os grandes facínoras. O 
povo fez um anexim, que pinta esse accordo : 

15) Com Rei e Inquisição 

Chitão! 



{Í06 LlVflO IH, CAPITULO III 

Chitão, quer dizer : Silencio t Não joignemos os seus 
actos. Mais tarde, quando o poder real se emancipoa 
do clericalismo, o povo celebrou esse desaccordo, a 
que se deve a liberdade moderna, n'este outro ane&im: 

16) Da Inquisição para o Rei 

Não vae Led. 

Por fim fez-se a revolução de 1640, em que o povo 
portuguez saccudiu o jugo castelhano, dirigido pelo 
tino politico do grande cidadão João Pinto Ribeiro. O 
povo não conhece este heroe nacional^ mas também 
não glorifica D. João iv, como o fazem estultamente 
as commissões patrióticas do 1.^ de dezembro. 

Das guerras da independência entre Portugal e 
Flespanha em 1640, cantavam esta cantiga os povos 
da fronteira : 

17) La guerra en Portugal 
ha sido muy sanguina, 
mas san^e mea un polk)... 
cuando tiene mal de orina. (i) 

O povo fez o confronto do governo dos Filippes com 
o do começo do despotismo e ambição bragantina. Esta 
animadversão popular contra os Braganças apparece 
também em uma quadra allusiva ao casamento de 
D. Serafina, filha da Duqueza de Bragança D. Cathe- 
rina, com o primogénito da família de Escalona : 

18) La que aspiro a la corona 
Gon tan altas persuneiones, 
Baixo tantos escalones 

Que vino á ser Escalona, (2) 

(1) Nicoláo Dias y Peres, El Folk Lore Betico ExtremenOj 
p. 204. 
(2; Ap. Rebello da Silva, HisL de Portugal^ t. iii, p. 191. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 507- 

Em uma carta dos jesuítas de 1641, que se con- 
serva DOS manuscriptos da Academia de Historia de 
Madrid, acha-se este pasquim popular contra D. João iv: 

19) Bom Rey teemos 

Boa Reyna e bons lolantes ; 
Mas o governo 
Peor que dantes. (1) 

O povo referia-se ao abandono das colónias do Bra- 
zil aos hollandezes, e á entrega de Bombaim aos in- 
glezes ; e sem formular o seu juizo sobre a devassidão 
de Affonso vi e o crime de D. Pedro n, synthetisa a. 
evolução histórica de todo o reinado de D. João v, 
retratando-o n'esta quadra epigrammatica : 



20) Nós tivemos cinco Reis 
Todos chamados Joões ; 
Os quatro valem milhões, 
O quinto nem cinco réis. 



E OS amores escandalosos d'este monarcha com uma 
mulher casada, D. Luiza Clara de Portugal, que os 
nobiliários dão como a celebre Flor da Murta^ foram 
também satyrisados n'essa outra cantiga : 

21) Oh Flor da murta, 
Raminho de freixo ; 
Deixar de amar-te, 
É que eu te não deixo. 

Por occasião do terremoto de 1755, attribuiu-se ao 
Conde de Oeiras, o celebre dito : Enterrar os mortos 

(1) M. leçajo suelto, n.<> 1, fl. 818, vuelto ; ap. Fernandes de 
los Rios, Mt Mission, p. 90. 



508 UVRO ni, GAPITCLO Itt 

e cuidar dos vivas t synthetisando assim a sna energia : 
cEsta resposta ... n3o foi do ministro, mas sim do 
illustre general Pedro de Almeida, Marquez de Âloma^ 
a quem el-rei fez a pergunta e que respondeu : 

22) Sepultar os mortos^ 
Cuidar dos vivos 
E fechar os portos.» (1) 

Da posição omnipotente que conservou o Marquez 
de Pombal usando a cbancella real de D. José» dizia 
o poYO : 

2S) Rei áo tomo, 

Pombal no throno. (2) 

O reinado de D. José sob a acç3o exclusiva do Mar- 
quez de Pombal, esse que segundo a voz do povo tinha 
cabdlos no coração, é apreciado por um meio indirecto, 
comparando-o com os abusos e insensatez do inUÂeran- 
tismo do reinado de D. Maria i ; assim perpetuou-se o 
anexim : 

24) Mal por mal, 

Antes o Marqaez de Pombal. 

E exprimindo o juizo sobre a reacção da corte de 
D. Maria i, que destruia systematicamente as reformas 
do Marquez de Pombal, chegando até á estultícia de 
mandar tírar o medalhão do ministro do pedestal da 
estatua equestre substítuíndo-o pelas armas de Lisboa, 
que são um navio, o povo fez esse outro refrem : 

25) Adeus Portugal, 
Que te vás á vella. 

ri) Panorama^ t. iii^ p 140. 

(2) Ref3ista da Sociedade de Instrucção, vol. n, p. 163, not 2. 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 80Ô 

Do governo de D. Maria i, corria a seguinte satyra, 
alludindo a seu marido D. Pedro iii, Cardeal Cunha, 
Arcebispo de Thessalonica, confessor, Marquez de 
Angeja, presidente do erário, Visconde de Villa Nova 
de Cerveira, Martinho de Mello e Ayres de Sá: 



26) O neffocio se propõe ; 

Duvida el-rey meu senhor, 
Atrapalha o Confessor, 
Anseja a paear se oppõe; 
Nada a Rainha dispõe, 
Maninho marra esturrado, 
Ayres não passa de honrado, 
E o Visconde em conclusão 
Pede nova informação. 
Fica o negocio empatado* (i) 



O príncipe D. José, que seguia as ideias adminis- 
trativas do Marquez de Pombal, morreu repentina- 
mente; e o príncipe D. Jo3o, depois do Arcebispo 
Confessor ter governado este paiz à custa da desor- 
ganisaç^o mental de D. María i, tomou conta das redecu 
do governo, como então se dizia, porque o povo era 
considerado a besta de carga. O povo retrata o prín- 
cipe regente D. João vi, n'este celebre pasquim : 

27) • Nós temos um rei, 
Chamado João, 
Faz o que lhe dizem, 
Come o que lhe dão ; 
E vae para Mafra 
Cantar canto-chão. 

Quando D. João vi se prestou a ser instrumento 
passivo da Inglaterra reagindo contra o blocus conti- 
nental de Napoleão i, provocou a invasão dos exercito^ 

(i) Panoramaj vol. xi, p. 3. 



510 LfVRO III, CAPITULO III 

francezes em Portugal sob o commando de Jonot ; a 
dynaslia de Bragança fora deposta em um artigo da 
gazeta oíficial, e já o general Janot estava em Abran- 
tes aquartelado, e só D. João yi ignorava tudo o que 
se passava ; o povo fez-lhe esse celebre epigraimna, 
que hoje se repete como provérbio : 

28) Quartel general em Abrantes, 
Fica tudo como de antes. 

De facto ficou tudo como de antes, porque o rei 
paternal abandonou o seu povo fugindo para o Brazil 
com as riquezas da coroa e com os dinheiros dos 
cofres da nação, indo viver vida de Sardanapalo no 
palácio de S. Ghristovâo, mandando ensinar musica 
aos pretos para abrilhantar a sua capella, e enviando 
decretos para Portugal. Junot foi celebrado em muitas 
cantigas populares cheias de impropérios. (1) A nação 
tendo resistido aos exércitos francezes do Império, 
viu-se sob um jugo mais duro, esse protectorado inglez 
exercido pelo marechal Beresford, contra o qual foi 
preciso uma revolução nacional, a celebre revolução 
de 1820, em que Manuel Fernandes Thomaz egualou 
o vulto sublime de João Pinto Ribeiro. 

A deplorável situação em que Portugal se achava 
sob o dominio de Beresford, que collocara no exercito 
portuguez somente a officiaíidade ingleza para operar 
um golpe de mão quando lhe fizesse conta, explica as 
tentativas de movimento nacional, como a de Gomes 
Freire. O terrível marechal inglez abafara toda a von- 
tade de independência com sangue, com a execução 
de Gomes Freire, e as forcas do Campo de SanfAnna. 
Quando todas as vozes estavam caladas, e o marechal 
inglez recebia plenos poderes do Rio de Janeiro, foi 

(i) Vide Cancioneiro poptãar. 



CONTOS, LENDAS, UYROS POPULARES, ETG. 51 i 

a VOZ do povo que lançou para a historia o seu appello 
de justiça. Em 1817 appareceu este curioso pasquim, 
que a Intendência da policia recolheu immediatamente 
para não irritar os nossos fieis aUiados: 

29) — Quem perde Portugal ? 
«O Marechal. 

Quem sancciona a lei ? 
«O Rei. 

Quem são os executores ? 
«Os Giovernadores. 

Para o marechal — Um punhal. 

Para o rei — a lei. 

Para os governadores os executores. (1) 

Beresford não contente dos seus poderes discricio- 
nários que já empregara, foi ao Rio de Janeiro impe- 
trar de D. João vi uma lei draconiana ; quando regres- 
sou já lhe não foi possivel o desembarque. 

A revolução de 1820 fortalecendo-se com o princi- 
pio da soberania nacional realisou o pensamento da 
voz do povo em 1817: Para o rei a ki, vindo D. João \i 
a jurar a constituição de 1822. 

Formaram-se as cortes constituintes de 1822, era 
que a soberania da nação foi outra vez proclamada ; 
D. João VI depois de ter perdido a esperança de obter 
dos governos reaccionários da Europa uma intervenção 
armada contra as cortes constituintes, regressa a Por- 
tugal, desembarca em desmaios, jura tremendo a 
Constituição de 1822, e depois de achar-se de posse 
do poder executivo rasga-a e restaura o absolutismo 



(i) Archivo da Intendência da Policia, Livro xvi, fl. 271 (15 
de janeiro de 1817). Citado também por Barros e Cunha, na 
Historia da Liberdade em Porlugaí, i, p. 2d3. 



812 UYRO m, GAPItlJLO líl 

em 1823, fugindo para Yilla Franca de Xira. O povo 
lançoa na historia este traço profando, em dois versos 
eloquentes que se repetiram como pasquim : 

30) Povo, alerta ! 

Que o rei deserta, (i) 

Já se conhecia o alcance da deserção para o Brazil ; 
a deserção para Yilla Franca veiu também a produzir 
essa longa serie de desastres que vão de 1826 a 1833, 
em que o povo comprou á custa de sangue no cerco 
do Porto a sua liberdade. 

Nas luctas da independência do Brazil, cantava-se : 

31) Luiz do Rego valoroso 
Sete campanhas venceu; 
Na outava de Goyana 

Luiz do Rego esmoreceu. (2) 

Depois de ter desmembrado o Brazil do dominio 
portuguez, e de ter perdido pela necessidade de uma 
abdicação o novo império, D. Pedro outorgou a carta 
constitucional de 1826, fonte dos grandes desastres 
por que tem passado esta nacionalidade. D. Pedro fez 
regressar seu irmão D. Miguel da corte de Yienna de 
Áustria, confiando-lhe a regência do reino na meno- 
ridade de sua filha D. Maria da Gloria, em quem tinha 
abdicado a coroa portugueza. O povo cantou então 
esta cantiga : 

32) D. Miguel chegou á barra 
Sua mie lhe deu a mão : 
—Vem cá filho da minha alma, 
Não queiras constituição. 

(1) Policia secreta, p. 77. 

(2) Na Historia do Brazil-Reino, por Mello Moraes, p. 93, 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 5i3 

A terrível Cariota Joaquina, representante do par- 
tido apostólico de Hespanha, tinha reagido sempre 
contra as garantias constitucionaes, e conspirava até 
contra a vida do marido para restaurar o absolutismo. 
D. Miguel era o instrumento passivo doesta megera de 
Queluz, e sob seu impulso é que se operou a retirada 
para Vilia Franca, e o attentado da Abrilada. Quando 
regressou a Portugal em 1828, apresentou-se como 
pretendente do absolutismo, tomou conta do governo, 
dissolveu o parlamento, declarou-se absoluto, e fez-se 
jurar rei pela convocação phantastica dos trez estados 
segundo o antigo regimen. 

Os constilucionaes não consideravam D. Miguel 
como filho de D. João vi, liem mesmo de D. Pedro, 
Marquez de Marialva, e motejava-se : 



33) Nem de Pedro, 

Nem de João, 
Mas do caseiro 
Do Ramalhào. 



Começaram as perseguições contra os liberaes, ao 
som do hymno : 

34} Rei chegou. Rei chegou. 
Em Belém desembarcou 1 
Aos malhados não fallou. 
Realistas abraçou. 

Âs localidades apodavam-se n'esfa lucta entre o 
absolutismo e o constitucionalismo : 



35) Oh Braga fiel. 

Oh Porto ladrão. 
Que sempre quízeste 
A Constituição, 

33 n 



14 LIVRO in, Gia>rruLO m 

Em 1829 a cabeça de Victorio Telies de Medeiros 
Vascoacellos, um dos enforcados da Praça Nova, 
3i levada para Coimbra, e espetada n'um poste de- 
ronte da casa do seu amigo João Lopes de [Sousa, 
ia praça de Sansão ; ali lhe pozeram o pasquim cani- 
lalesco : 

36) Defronte de mim está 
Quem me deu chá. 

Rodipiavam os cacetes contra os queixosos do pre- 
urio miguelino, organisaram-se as alçadas e arvora- 
•am-se as forcas. Foi a violência das repressões, os 
;equestros, os assassinatos que provocaram a união 1 

lo partido liberal sob os interesses dynasticos de J 

). Pedro. O povo viu mais claro do que os liberaes, l 

jomo se deprehende d'esta cantiga : 

37) Entre Pedro e Miguel 
Ninguém metta o seu nariz ; 
Pois se Dom Miguel é rei 
Foi Dom Pedro qae o quiz. 

Depois de largos trabalhos da emigração em Ingla- 
terra e França, é que os liberaes se aproveitaram de l 
am núcleo de resistência na Ilha Terceira convergindo I 
para ali. As noticias das primeiras victorias da liber- I 
dade consolavam os que estavam sob o regimen da ' 
forca ; quando chegavam essas noticias favoráveis, os I 
partidários de D. Miguel corriam as ruas desancando 
com desespero os liberaes que encontravam. O povo 
consignou essa pagina negra da nossa vida politica no 
anexim «do tempo de rara felicidade»: 

38) Chegou o paquete, 
Trabalha o cacete. 



CONTOS, LENDAS, UTROS POPULARES, ETG. SI5 

Da vinda de D. Maria da Gloria para a Europa, 
<}izia outra cantiga : 



39) Quando do Brazil partia 
Princeza de Gram Pará, 
Seu pae lhe metteu no dedo 
Um annel de piassá. 



Era o annel de piassá o emblema do liberalismo, 
e fabricavam-no os presos políticos da Relação do 
Porto. 

Os homens livres que tiveram a força de supplantar 
o absolutismo no cerco do Porto, que remiram com 
o seu sangue a liberdade de Portugal, tinham direito 
a formularem em uma constituinte as bases politicas 
da nova vida nacional. D. Pedro não o quiz assim, e 
entendeu que todo esse heroismo fora uma homena- 
gem á sua pessoa, com o fim de restaurar essa de- 
plorável carta de 1826, em que o rei é que concedia 
á nação a liberdade que lhe convinha. D'aqui um gér- 
men permanente de revoluções contra os ministérios 
de resistência, instrumentos cegos do paço que reagia 
contra a soberania nacional. A revolução de 1836 pro- 
veiu da necessidade de restabelecer os principies da 
revolução de 1820 ; Manuel da Silva Passos, o elo- 
quente tribuno, revelou-se á altura de um Fernandes 
Thomaz. Mas a carta de 1826 tornou-se então um 
fetiche para alguns homens de boa-fé, que como par- 
tido sob a denominação de cartistas apoiaram o paço 
contra a nação. Bem cedo os que eram homens de 
bem reconheceram o ludibrio em que haviam cabido, 
e não quízeram acompanhar as consequências do mo- 
vimento reaccionário ; os que foram até ás rebelliões 
militares, e á chamada dos exércitos estrangeiros 
contra Portugal, denominaram-se cabraiistas, do nome 
do ministro favorito. 



% % 



516 LIVRO in, CAPITULO ni 

Em 1846 fez-se um movimento popular espontâneo 
contra o estado de violência em que o governo pes- 
soal coUocara a nação; chamou-se a revolução da 
Maria da Fonte. N'esta agitação dos espíritos ouviu-se 
um hymno cuja musica é tanto senão mais bella do 
que a Marselheza. O hymno da Maria da Fonte é o 
grito revolucionário de Portugal, torna a insurreição 
contagiosa. O povo celebrou a sua resistência n'esles 
versos : 

40) A Maria da Fonte 
Tem uma fâca na mão, 
Para matar os Gabraes 
Que são falsos á nação. 

O estribilho ou coro é cheio de audácia : 

Eia ! avante, portuguezes, 
Eia I avante, sem temer; 
Pela santa liberdade 
Triumphar até morrer. 

Foi este hymno que acordou segunda vez a nação, 
quando a rainha deu o golpe de estado de 6 de outu- 
bro de 1846, faltando a todos os seus compromissos ; 
assim formou-se de repente no Porto a Junta da Patu- 
léa, e essas outras juntas revolucionarias que vence- 
ram as tropas da rainha e chegaram a proclamar a 
sua destituição. A Junta de Santarém era uma das 
mais fortes, e contra ella partira o marechal Salda- 
nha, que fora um dos que preparou a restauração do 
absolutismo em 1823 ; Saldanha nada pôde fazer, e 
o povo perpetuou-lhe a fraqueza n'essa cantiga iró- 
nica : 

41) Saldanha para cima, 
Saldanha para baixo ; 
Mas elle não passa 

Do Cartaxo, 



CONTOS, LENDAS, LIVROS POPULARES, ETC. 517 

Os que defendiam a dictadura de Gosta Cabral 
mofavaín das queixas de todos com o anexim : 

42) Andam no trigo os pardaes, 
A culpa é dos Gabraes. 

Mas a fraqueza só se toma forte pela traição ; as- 
sim aconteceu com o pedido de intervenção armada, 
reclamada pela rainha D. Maria ii contra Portugal 
em 1847. 

 este crime allude a cantiga alemtejana : 

43) Se não fossem as Nações 
Accudir á Rainha, 
Adeus Saldanha 

Que te faziam em farinha. 

O general hespanhol Mendes Vigo em uma procla- 
mação mandava-nos entrar na ordem, sob pena de 
nos castigar. A nação entregou-se ao arbítrio da rea- 
leza, e os políticos reconciliados com o paço leva- 
ram-na até ao ultimo gráo da inconsciência, e depois 
fizeram o que bem quizeram. Eis aqui a causa da 
actual decadência, de que a nação só pôde sair quando 
acordar do marasmo em que a conservam. O povo está 
mudo, e por isso não se lê no futuro ; pelo conheci- 
mento do seu passado vê-se que tinha uma forte indi- 
vidualidade ethnica, com que resistiu á incorporação 
dos Estados peninsulares, e fortiíicando-se pela ex- 
pansão colonial, assignalou-se na historia pela circum- 
ducção do globo. 



FIM. 



índice 



LIVRO n 

CRENÇAS £ FESTAS PUBLICAS! 



CAPITULO I 
Bases criticas da Hierologia 



Pag. 



Importância ethnica e histórica das Superstições 
populares. — Estados mentaes e sociaes em que 
•se elaboram ou -persistem as superstições.— O 
ponto de vista de Hume, e sua applicaçao por 
Buckle ao caracter supersticioso dos povos pe- 
ninsulares. — Coordenação histórica das Super- 
stições em : Cultos mágicos propiciatórios se- 
cundo o typo accádico, e Cultos mágicos escon- 
juratorios, segundo o typo egypcio.— Persistên- 
cia de ura fundo tradicional de superstições da 
Chaldéa transmittído á Grécia; a Roma, aos Ára- 
bes e populações da Edade media.— Nova inter- 
pretação das Fórmulas marcellicas, e a região 
da Aquitania como centro de irradiação das tra- 
dições occidentaes.— As vinte outo Fórmulas do 
palácio de Ninive coincidem ainda com as su- 
perstições actuaes.— O Chaldaismo no século xi, 
e sua dissolução na Feiticeria. — Importância da 
descoberta dos hieroglyphos para a comprehen- 
são d*este problema 7 a 44 



520 ÍNDICE 



CAPITULO n 

Superstições populares portuguesas 

A concepção espontânea das Divindades malévo- 
las : A matéria em acção : os Asuras e os Agou- 
ros.— Restos doestas concepções na linguagem 
usual.— Classificação dos Agouros : das Pe(fias, 
das Plantas, dos Animaes, do Fogo, do Tempo, do 
Dia e da Noite e das Estreitas.— Dos Agouros da 
Casa, das vestimentas, das comidas e bebidas. 
— • Agouro das pessoas^ do nascimento, dos na- 
morados, das mulheres, das crianças. - Agouros 
dos Sonhos, dos Mortos, das Vozes, dos Núme- 
ros, e dos objectos de uso.— Superstições deri- 
vadas de uma Religião chtoniana, ou de Prosti- 
tuição sagrada : Lameiros e bordas de rio.— Pe- 
nedo dos casamentos e o Filho das hervas. — Ca- 
racter chtoniano do culto de S. Marcos e de Santa 
Anna.— Fontes Santas, Montanhas sagradas.— 
As Thiasas e o Sabbath nocturno. — Superstições 
provenientes de um culto phalico ou lunar : A nga, 
o Canto do Cuco, caracteres phalicos em S. Gon- 
çalo.— O asno e as favas— As mandragoras.— 

— Superstições sobreviventes de um Polytheisnw 
sideral, ou solar: Entreabertos e Homem das 
Sete dentaduras (Sol que declina); Canto do gallo, 
Lobishomem (Sol que desponta); Cavallo branco 
e Cavallinhos fuscos.— Tributo das Donzellas.— 
As Entidades magicas e malévolas : Tanglo-Man- 
go, Provinco, Tanso, Trasgo, Tartaranho, Fradi- 
nho, Estrugeitante, Pezadello, Breca, Coouro, 
Jans, Escholar das Nuvens, Hiram, Olharapos, 
Fadas, Mãe d'Agua, Anão, etc— O pessoal ma- 
gico popular : a) Os Esconjuradores dos Espiri- 
tes.— Fórmulas magicas portuguezas. — b) Os 
Curandeiros e a Medicina popular. — Braços e 
pernas offerecidos a Santos.— Hervas magicas. 

— Cura das hérnias, cobro, parto difflcil, dadas. 

— Fórmulas magicas para talhar cobros, fogo 
louro.— Semeadores da peste em Portugal.— c) 
Pessoas de virtude: Os Reis e os Padres.- Ora- 
ções contra o quebranto e para acompanhar os 
actos quotidianos,— Os Bentos e os Benzilhões. 



índice 521 

Pag. 

*- Os AdívinhÕes.— As Prophecias nacionaes, e 

a vinda do rei D. Sebastião 45 a 248 

CAPITULO ra 

As Festas do Calendário popnlar 

Necessidade do computo chronologico na vida so- 
cial.— O anno lunar e o anno solar ; meios em- 
piricos da sua concordância. — A Egreja adopta 
o anno lunar, e o povo conserva nas suas festas 
os my thos solares.— Restos do Calendário romano 
no catholicismo.— Janeiro : Os primeiros doze 
dias ; os Annos boinos: Janeiras e Janeireiros ; o 
Aguinaldo. — Janeirinhas da Foz do Dão.— Os 
Reis e S. Gonçalo ; Dar o nó. — Santo Amaro e 
as Sebastianas.— AsFogaceirasde Viila daFeira. 

— Fevereiro: A Candelária; o S. Braz.— Março: 
S. Bento; a Festa do Cuco, em Famalicão.— 
Abril : Dia dos Enganos ; o Boi-Marcos, no Al- 
garve.— Queimar os Compadres e as Comadres. 

— O Entrudo ; Caça aos Gramosilhos ; Dia de 
Cinza ; Serração da Vftlha e Queima do Judas. 

— Os Passos de Lamego : a Paixão e Enterro ; 
Folares e Reconhecimentos : Gallo das Trevas e 
Vella Maria — Ascençào, Cordeiro Paschal; Ben- 
ção do lume-novo ; Semana dos arrastados. — 
S. Pedro Gonsalves.— O Compasso, nó Minho. — 
Maio e Junho: As Maias ; Ladainhas de Maio, em 
Nisa. — A Espiga.— Espirito Santo; Bodos e Im- 
périos ; Procissão dos Taboleiros ; Imperador de 
Eiras : Rolo de cera.— Santo António.— Corpo 
de Deus ; Boi bento. Carro das hervas ; Santo 
Grande. — S. João ; Cavalleiros de Óbidos ; Mou- 
riscadas ; Porco preto, em Braga. S. Pedro. — 
Julho : Fogueiras saloias — Senhora de Antime. 

— Bolo de Pombal. — Agosto : Procissão dos 
Ferrolhos. — Romaria do Cabez. — S. Bartholo- 
meu. — Septembro: S. Pedro de Niza.— Outubro: 
S. Simão. — Novembro : Todos os Santos, e o Pào 
por Deus. — Fieis Defunctos S. Martinho.— De- 
zembro: S. Nicoláo. Santa Luzia. — Corte do Cepo 
do Natal; Festa do O. — Natal: Presépios e Lapi- 
nhas ; Trigo grellado, Rosquilhas, Missa do gallo; 
Céa do Natal e Consoadas; Fartes; Bispo dos Lou- 



822 índice 

Pag. 

cos, Bispo iBUOcente.— Galheiro ou Trafogueiro. 
—Santo Estevam.— Entrega do Ramo, em Aveiro. 

— As Qaendas e Requendas.— Fim do Anno. .. 249 a 332 

LIVRO IH 

TRADIÇÕES E SABER POPUIJUl 

CAPITULO I 
Modismos, Anexins e Adivinhas 

As formas concretas da comprehensao popular ; os 
Tropos, como germens da expressão poética; Mo- 
dismos populares portuguezes. Comparações de 
maior, de menor e de egual ; comparações por 
diíferença, por analogia e por plausibilidade. — 
Comparações communs aos povos occidentaes. — 

— Os Anexins portuguezes : Bases criticas para 
o estudo dos Anexins : relação com a concepção 
mythica primitiva ; com os estados psychologicos 
rudimentares ; com os costumes extinctos ; com 
os contos tradicionaes e com as superstições. — 
Valor das designações Dito, Ditado^ Vervo^ Rifão, 
Adagio, Anexim, Exemplo, — Os Anexins conser- 
vam a evolução morphologica da Poesia. — Fundo 
commum da tradição occidental persistente nos 
Anexins. — Os Anexins na litteratura portugueza. 

— As Adivinhas populares portuguezas : A conce- • 
pção por analogia, e a expressão mytbica são evi- 
dentes nas Adivinhas. — Caracter de um saber 
enigmático nas religiões antigas.— Relação das 
Adivinhas com os Contos. — Fundo commum do 
saber enigmático no Occidente : Adivinhas com- 
paradas. — As adivinhas popukres portuguezas 

na litteratura 333 a 397 

CAPITULO II 
Cantigas, Romances e Comedias popnlares 

As formas universaes das Litteraturas, Lyrismo, 
Epopea e Draw^a.— A Naeionalitteratura consi- 



índice K23 

Pag, 
derada como origem das obras primas indivi- 
duaes. — As Cantigas portuguezas : Unidade do 
lyrismo occidental. — As formas mais antigas das 
canções gortagaezas : Gontrobaduras (Serrani- 
Ihas, Muineiras, Villaneilas.)— A poesia popular 
ligada á vida domestica ; Despiques de conver- 
sados ; Epithalamios ou cantigas nupciaes, Caa* 
tigas do berço e Endexas dos mortos.— Cantigas 
das Festas religiosas: Janeiras e Reis Magos; 
S. Pedro. S. João, Santo António, Espirito Síuito, 
Paixão, Golloquios do Presépio.-- Formulas dos 
jogos, dos Apodos locaes^ dos anexins, adivi- 
nhas, esconjures, Neumas e estribilhos. — Ro- 
mances ou Aravias populares: Unidade do Roman- 
ceiro occidental; Romances communs a Portugal, 
Hespanha, França meridional, Itália e Grécia mo- 
derna.— As tradições homéricas na remo medi- 
terrânea. Plano de classificação dos Romances 
heróicos segundo os themas mndamentaes: Gy- 
cios da Mulher infiel : da Esposa fiel ; da Mulher 
forte ; da Mulher captiva; da Esposa perseguida. 
— As modificações do Romanceiro segundo 
D. Francisco Manuel. Romances citados nos es- 
criptores portuguezes. — As explorações criticas 
d'este veio tradicional— As Comedias populares 
e as origens do Theatro nacional : A comedia se- 
parando-se do elemento lyrico, Goros e Bailes 
de terreiro, Mascaras, Dansas religiosas. — Typos 
cómicos : O Ratinho. — A Gomedia separando- se 
das narrativas heróicas : Mascaradas, Auto de 
El-rei deBarheria, Rei da Mourama, Auto de Fer- 
rabrás e Floripes,— Autos hieráticos: Natal, Loas 
do Cirio do Gabo, Auto de S. Gatherina.— Dia- 
logo do Martyr S. Sebastião.— Origens tradicio- 
naes de alguns Autos de Gil Vicente.— Theatro 
aristocrático : Gavalhada de D. Sebastião. — As 
Touradas. — As Farças : As festas dramáticas 
em Niza — As Malhadas do Genteio no Minho ; 
os Azeitoneiros no Alemtejo e Algarve ; Procis- 
são das Sestas em Goimbra.— O theatro prohibido 
pela intolerância ecclesiastica ....•,...., 398 a 432 



{i24 índice 



CAPITULO ffl 

Contos, Lendas, Livros populares, 
e Historia de Portugal na vos do Povo 

Pag 

O costume popular dos Contos; as paramythia na 
Grécia, as Skaski na Rússia, e os Patranheiros 

f peninsulares. Fundo commum dos Contos popu- 
ares fetichistas.— O typo dos Contos da Caro- 
chinha.— Os Contos polytheistas, de origem se- 
mita ou anthropopathicos, e de origem árica ou 
anthropomorphicos. — As Lendas portuguezas : 
Enumeração das principaes lendas nacionaes. — 
Elemento poético raramente aproveitado na Lit- 
teratura.— Os Livros populares portuguezes: Es- 
criptos que foram vulgares no século xvi, xvir, 
X VIII e XIX.— Gil Vicente e Balthazar Dias como 
escriptores populares — As Sete Partidas do In- 
fante D. Pedro; a Donzella Theodora, Imperatriz 
Porcina, Carlos Ma^no,— A irmandade dos Cegos 
vendedores de Folhas volantes.— Os Cegos resa- 
dores. — Bertholdo, Bertholdinho e Caçassem ; 
João de Calais e o cyclo do Morto agradecido. — 
Cosme Manhoso; Corcovados d£ Setúbal Catalogo 
das Folhas volantes da Litteratura de cordel.— 
A Historia de Portugal na voz do Povo : As trez 
épocas tradicionaes da historia portugueza. — 
Distincção entre Estoiias e Caronicas, e entre 
Foros e Leis.— A vida dos Concelhos.— O typo 
popular de D. Diniz. — Apodos contra D. Fer- 
nando — Acciamaçào de D. João i. — A revolta 
de Lisboa; o typo popular do Condestavel; Metter 
lança em Africa.— O Cabo de Nam e a Viagem 
da índia. — Os heroes portuguezes e o poder real. 

— As satyras contra o clericalismo. — A juris- 
dicção inquisitorial. — Extincção da nacionali- 
dade portugueza. — Os Braganças nas cantigas 

Sopuiares : D. João iv, D. João v ; D. José e o 
[arquez de Pombal. — O governo de D. Maria i. 

— Regência de D. João vi e governo de Beres- 
ford. — A revolução liberal. — Miguelistas e Ca- 
bralistas. — A Maria da Fonte, e a intervenção 
estrangeira. Conclusão 433 a 517 



índice analytico 



ADÁGIOS. — Vol. I : Como synthese ethnologica, 20, 43, 69, 
70; Fogo e Logo, 84; Trabalhar como mom^o, 92; Vento 
de Hespanha, 94; Roupa de Francezes, 96; Framengos à 
meia noite, 98; Comer cardos, 114; Puchar a braza para 
a sardinha, ii5; Cheirar ao alho, ib.; Quem não trabuca, 
117; Enganar a fome, 119; Andar no cambão, 140; Plan- 
tar batatas, 145; Casamento em terça feira, 180; A terra 
lhe seja leve, 187; Pagar as favas; Ir á fava, 209; Casa- 
mento e mortalha, 228; Ficar para tia, 233; Filho alheio, 
236; Levar com o saco nas pernas, 254; Adágios jurídi- 
cos, 255; Pedra de escândalo, 258, 262; Mudar o pelouri- 
nho, 259; Sem eira nem beira, 261; Tirar palha; Por dá 
cá aquella palha, 269; Velho e relho, 374. 

Vol II. — Comer com os olhos, 25; relativos ao gallo, 80; 

Década em cabeça de asno, 83; relativos á casa, 106; Paço 
da Mãe Joanna, 131; Vestir a pelle de lobo, 157 ; Velho 
como a serpe, 163 ; Anda o Diabo á solta, 191 ; A cada 
canto seu Espirito Santo, 286; Burro de Vicente, 352; Quem 
conta um conto, 443; Relação dos anexins com os estados 
sociaes, 342; sua explicação, 343, 344; Língua mental uni- 
versal, 345; Comparações dos anexins occidentaes, 346; 
— históricos, 351, 355; locaes, 352, 353 ; —Vestígios de 
Contos, 35i; Synthese moral, 354; Dito e Ditado, 356; Ver- 
bo, Verbão, 357; Refrem e Rifão, 358; Exemplo, Anexim, 
359; Abreviação em locuções, 365; Dissolução da forma 
poética, 371, 373. 

ADIVINHAS —Vol. ii : Sua universalidade, 374 ; Concepção 
mythica das cousas, 375; Problemas, 376; Adivinhas nos 
antigos povos peninsulares, 377;— na aristocracia portu- 
gueza, ib.; — nos livros litterarios, 378-9-80-81-82-83 ; 
Comparações das principaes adivinhas poj^ulares, 383 a 
396; Persistência nas classes cultas, 397; Objecto das Adi* 
vinhas; Candéa (1); Gallo (2); Papel^ tinta, aedo9 e penua. 



826 índice analytigo 

Í3); Ceroulas (4); Boi (o); Pinheiro e sementes (6); Passa 
7); Dobadoura (8); Cabra, centeio e folie (9); Ovo (10); 
jaranja (ii); Limão, id.; Meza toalha e comida (12); O 
gallo (13); Cântaro. (14); Romã (15); Castanheiro e ouri- 
ços, ib.; Navio sem vellas (16); Olhos (17); Pulga (18); 
Ovo (19); Estrada (20); Formiga (21); Linho (22); Telhas 
(23); Abóboras (24); Cabaça (25); Castanha (26); Agua, 
areia, espuma (27); Larangeira (28); Semente da couve 
(29); Sino (30); Luz (31); Cão (32); Bengala (33); Noz (34); 
Botões (35); Telhas (36); Pinha e Pinhões (37); Pão (38); 
Luva (39); Boi, pellos, pernas e pontas (40); Noz (41); 
Espingarda (42); Pente, cabeça e piolhos (43); Annel (44); 
Peneira (45); Bocca e dentes (46); Alho (47); Agulhas de 
ipeia (48); Linha e agulha (49); Caixão do defunto (50); 
Comer, dormir e confessar-se (51); Corda do cano (52); 
Céo, nuvens, sol e vento (53); Moinho (54); Noveilo (55); 
Botão (66); Cal (57); Mosca (58); Piolho (59); Panella ao 
lume (60); Moleiro (61); Vinagre e vinho (62); Serra (63); 
Moinho (64) ; Noite, estrellas e dia (65) : Cú (66); Azei- 
tona (67); Cebolia (68); Junta de bois (69); Lingua (70); 
Romã (71); Ovo (72); Romã (73); Agulha e linha (74); 
Aguardente e Vinno (75); Peça de artilhería (76); Borra- 
cha de vinho (77); Fome (78); Pião e fieira (79); Sombra 
(80); O Figo colhido (81); Guitarra (82); Metade da meia 
(83); Problema (84): Rapaz, castanheiro e cabra (85); Pro- 
blema (86); Abel (87). 

AGOUROS — ^Vol. II : Definição, 17; Relação com o animismo; 
18; Persistentes desde o século viu, 57; Arte de agoura- 
ria, 76; no século xiv, 77; dos dias da semana, 50, 51; dos 
namorados, 99; do casamento, 101; da gravidez e do parto, 
ib.; das crianças, 102 a 106; da casa, 106; dós objectos da 
casa, 108; das roupas de uso, 100. Vid. Superstições. 

AGRICULTURA — Vol. i : Celleiros communs, 50; Cabaneiros, 
112; Milho, 113; Bracé, 114; Bessadas, 114, 137; Popula- 
ção rural na península, 120; tradição technica dos Ára- 
bes, 121; Queimadas, 123; Silos ou Celleiros subterrâneos, 
124; Atamorras, Matmorras, e Masmorra, ib.; na ilha Ter- 
ceira, 125; Noras e Onias, 126; Alcacel, 126; Debulha de 
trigo, 126; — do centeio, 127; Carros de duas rodas, 127; 
Medidas agrarias, 128; Grade, Engaço, ib.; Cultura do Mi- 
lho, 137; do trigo e centeio, 129; trigo durazio, 131; Abe- 
^ão, 134; Manajeiros e Maltezes, 135; Mangra, 136; Alfara, 
ib.; Milho maiz e de maçaroca, 136; Deitar as milhas, 138; 
Andar no Cambão, 140; Cultura da vinha, 141, 142; Fru- 
ctas, 143. 



INDlGfi ANALYTICÔ 827 

Vol. ii: Colheita das nozes, 277; divertimentos nos traba- 
lhos agrícolas, 416; Azeitoneiras de Santarém, 417; Apa- 
nha da azeitona no Alemtejo, ib.; Malhadas do Centeio no 
Minho, 419. 

ALIMENTAÇÃO —Vol. i : A bolota, 44; dos porcos e burros 
com sardinha, 80; nos diíTerentes districtos administrati- 
vos, 118; vegetal, 131; Glandes de carvalho, 113; Bilhós, 
Milho cosido, ib.; Favas cosidas, 114; Berças, ib.; Boroa, 
ib., 157; Cardos, 114; Comer à lareira, 115; Badulaque, 
Persigo, Alho, Ajpeguilho, Castanhas da Beira, 115; Horas 
de comer, 116; Caldo, 157; Governar o pão, 170; Bodos, 
215; Mustella, 116; Vicera, ib. 

— ^Vol. ii: Comidas da Paschoa, 277; Folares, 277, 318; Ma- 
gustos e Pão por Deus, ib:; Bolinhos e Santoros, 319; Con- 
soadas do Natal, 322, 324, 325 ; Banquete com caracter 
social, 330. (Vid. Funkraes.) 

AMULETOS —Vol. i : Entre os Esquináos, 43; Como de car- 
neiro, 139; Ferradura de mula, 139. 

^Vol. ii: Figa, 29, 41, 91, 122, 139; Ferro, 27; A imagem, 

37, 116; Nomina, 41; Medidas, 41,87; Bentinhos, 41; Si- 
gno Saimão, 41, 92, 198; Espelho e Vara, 41; Meia lua, 50, 
105; Cunhas de pedra, 65; Dinheiro de grelha, 73; Flor 
de penna, 72; Braço do Senhor de Matosinhos, 87; San- 
selimão, 92, 105; Fita encarnada, 87; Mão de finado, 92, 
93 e 138; Trez vinténs furados, 105; Dente de lobo. Ar- 
gola, 105; Letra redonda, 20, 448; Bengala ou bastão ru- 
nico, 167; Camisa de soccorro, 167; Chavelho, 184; Roda 
de Santa Catherina, 188; Evangelho de S. João, 196; Cal- 
deirão, 200; Trempe e tripeça, 199; Bacia com agua, 202; 
Candêa de S. João, 202; Vintém de S. Luiz, 237; Conta 
benta, 238; Sorteias de virtude, 237; Ramos de palmeira, 
271; Penna de boliana, 308; Feto real, 306; Concepção dos 
amuletos, 47; Ceraunias, 65. 
ANIMISMO —Vol. i: A alma representada n'uma pomba, 193; 
Arvore sepulcral, ib.; Pezagem das almas, 206; Almas 
penadas, 220; Almas do outro mundo, 223; Alma por her- 
deira, 223; Poderes malévolos, 223; Fallar alma em al- 
guém, 224; Evocação de uma alma, ib.; Balborinhos e 
Almas perdidas, 225; Besbrinho, ib.; Zorra de Odeloca, 
226; Procissão dos defunctos, ib., etc. 
Vol. 11 : O animismo entre os selvagens, 17; O outro mun- 
do, 23; Almas de Mestre, 89; Alma separada do corpo, em 
pomba, 89; Almas penadas, 23, 171, 18i; Ter alma, 23; 
Zorra de Odeloca, 89. 
ANTE-HISTORIA — Vol. i: Habitações lacustres, 11; Punhaes 



528 índice anâlytigo 

de pedra, ib.: Amuletos em forma de coração, íl:.; Cotellos 
de bronze, 12; Silex da época miocene, 42; Cidades lacus- 
tres, 44; ; Hachas de bronze do Alemtejo e Algarve, 44; 
Planaltos artificiaes e Penedo de escorregar, 49; Git^uiias 
ou Acitanias, 50 ; Dolmeu da villa de Redondo, 58 ; Ma- 
moas e Antellas, iiO; Montículos do Yalle de Ancora, 188; 
Enterro na época neo-lithica, 184; — Vol. n: Penedo Mouro 
e Eira do Mouro, 63, Geraunias, 65. 

ANTHROPOLOGIA —Vol i : Caracteres das raças primitivas 
persistentes em França, 14; — na Itália e Grécia, 15; — 
na Allemanha, ib.; Systema de Waitz, 25; Relações com 
a Historia, segundo Edwards, 40; Conservação dos cara- 
cteres pbysicos, 4i; Raça dolicbocephala do Occídente da 
Europa, 42; Barba ruiva, 45; Hereditariedade dos caracte- 
res, 46; Estatura portugueza, 48; Celta, seu orgulho nacio- 
nal, 47; Revivescência no Portuguez, 51; Celtas na çenin- 
sula, 53; Jonios, 54; Romanos e Germanos, ib.; Invasão dos 
Árabes e creação do typo Mosarabe, 57; Schema das Raças 
da Hespanba. 63; — sua persistência na povoação actual, 
120; Portuguez e varidade de seu typo anthropologico, 39; 
pé pequeno, 47; orgulbo nacional, 47; differenciação de 
dois typos fundamentaes, 46; nariz de cavallete, 51; génio 
imitativo, ib.; — amoroso, 52; belleza das mulheres de 
Aveiro até Vianna, 54; Mosarabes, 55; Saloios, 59; Sepa- 
ração entre Portugal e Hespanba, 64 a 67; Mulheres de 
Avintes, 76; Caracter do povo, 122; sua mendicidade, 123; 
Região lusitano-Extremenha, 298. 

Vol. ii: Contraste da aptidão mental coma religiosa, 11, 12. 

ASTROLOGIA —Vol. i : Tramontana, 82; Carreiro de S. Thia- 
go,206. 

Vol. II : Eclipses, 23; Terror dos eclipses, 50, 57, 59; Sol- 

sticios, 52; A sina, 55; Desastre e Astroso, ib.; Restos de 
Astronomia hebraica, 56; Luas, 66. — Astrologia em Por- 
tugal no século xiv, 66, 67; Horóscopos, 68; Estrellas ca- 
dentes, 69; Poder das estrellas, ib.; Signaes no céo, 112, 
114; Horas abertas, 148; Pino do Meio dia, 143; Solsticio 
diurno, 149; Estações, 252. 

BENZILHÕES -Vol. u : Seu caracter, 187; Saludadores, ib.; 
differença dos Sortilegos, 191; poderes, 192. 

BOTÂNICA —Vol. i: Arvore do Natal, 23; Moliço, 77; Ensaião, 
78; Fava do mar, 82; Couve, 117; murciana, 123; Alca- 
parras e espargos, 126. — Botânica maravilhosa, 174; 
Erva de Nossa Senhora, ib.; Feitelha, ib.; Moliana, ib.; 
Azevinho, 175; Cypreste, 193; Favas, ervilhas e fegões 
f^nerariosi 208. 



índice ANALYnCO 82Ô 

Vol. n : Relações da vida vegetal com a humana, 19, 74; 

Babosa, ib.; Ervas de S. João, 52; Arruda, 54, 75; Plan- 
tas magicas, 56; Florestas sagradas, 57; Erva pinheira, 69; 
Planta anneira, ib.; Figueira phallica, 70, 71, 138; Laranja 
para dar fortuna, 74; Fçito phaliico, 38; Junco verde, 70; 
Zimbro, 71; Alecrim, Oliveira, 71; Azevinho, 72, 160; Fun- 
cho, Rosmaninho, Boliana, 72; Solaneas, seus poderes 
mágicos, ib ; Mentrasto, Orgevão, Sabugueiro, Sempre 
Verde, 75; Favas, 83; Rosa de Jericó, 101; Erva fadada, 
125; Loureiro, 128; Ardegaria, 13o; Mandráculas, 136, 
137; Vides, 178; Trovisco, 232; Feto real, 406. 

CAÇA —Vol. i: Com furão, 69, 72; Cães da Serra da Estrella, 
ib.; Pedir com pelle de lobo, 70; Apeiro de caça, ib.; 
Aduas, 71; Alienaria, na tradição, ib.; Armelas com vis- 
co, Naças, Costellas, 73; Abuizes, 74; Cabras do Suajo, 
ib.; Festas religiosas da caça, ib.; Montaria do Porco pre- 
to, 75. 

^Vol. ii: Caça furiosa, 53, 152; aos Gramosilhos, 268. 

CALENDÁRIO —Vol. u: Sua origem social, 251; restos do 
Calendário polytheista no christão, 252; Vid. Chrono- 

LOGIA. 

CANTIGAS— Vol. i: Fados, 62; Funerárias ou Nenias, 19i; 

sua origem, 19o; costumes funerários a que alludem, 218; 

Epithalamicas ou dos Noivados, 250; do berço, 284, 285; 

da Bahia, 399. 
Vol. n : Voceros e Endexas, 57; Janeiras, 111; Maias, 112, 

281; Santo António, 138; Janeireiros, 255; Aguinaldo, 256; 

S. Gonçalo, 260; Procissão dos Passos, 27z; do Espirito 

Santo, 285. — Como o lyrismo nasceu da vida domestica, 

399; Cantos de casamento, 400; do berço, 401; Serranilha, 

402; Pé de cantiga, ib.; Cantar guaiado, 403; Leilas, 404. 

Vid. Poética. 
CASA —Vol. i: Resume a vida publica, 9; Reboco, 48; Casas 

redondas, llO; em Citania de Briteiros, ib.; Colmo, Berga, 

Bergança, Cardenha e Palhoça, ib.; Alcheria, 112; Casas 

isoladas, ib.; Mudança de habitação, ib.; Altura das casas, 

156; Muro francez, 156; DiíTerença das construcções, 158; 

Aspecto das casas, 163; Azulejos, ib.; Relação do lar com 

a familia, 179. 
^Vol. n: Transição da vida domestica para a vida publica, 

6; Livrar a casa dos raios, 65; Janella-com ensaião, 72; 

Defumar a casa com alfazema, 75; Agouro ao sair de casa, 

78; Dono da casa, 89; Seus agouros, 106. 
CASAMENTO —Vol. r. Sua forma religiosa, 181; por coemptio 

e rapto, 228; Regimen do matriarcado, 229; União tempo- 

34 a 



á 



530 índice analytigo 

raria, no Bouro, 230; Morganheira, 232; Gohabitação dos 
Saloios, 233; Virgindade ignóbil, 233; Gollaços, 234; Esco- 
lha do marido pela mulher, em Yermoil, io.; Polyandría, 
234; Casamento em Bomfim, 235; Dote, 236; Regimen pa- 
triarchal, 236; Couvade entre os Iberos, 236; nos usos pro- 
vincíaes, ib.; Endogamia, ib.; Sacrifício à Gommunidade, 
237, 238, 239; Direito de pernada, 237; Casamento em 
Braffa e Thomar, ib.; em Manteigas, Peral, e Villa da Fei- 
ra, 238; Rapto da noiva, 239; Dote no regimen patriar- 
chal, 240; OíTerta de mulas, 241; Compra de corpo, 242; 
, Cohabitaçao, 243; Exogamia, 244; Correr á pedrada, 244; 
Furtar a mulher, 245; Combate em Miranda do Douro, 
245^ Patrulhas e Manadas, 246; Confarreação, ib.; Preli- 
bacao no paço, 247; Cerimonias religiosas no casamento, 
248; Ofiertas no casamento, 249; Trajos do casamento, 
ib.; Deitar trigo, 250; Ramo nupcial, ib.; Cantos nupcíaes, 
251; Superstições do casamento, 253; Levar com o saco 
nas pernas, 2o4; Simulação do casamento no jogo da Con- 
dessa, 335. 

Vol. u: Sobre o futuro de um casamento, 52; Prognostico 

pelo cantar do cuco, 81; Superstições dos namorados, 99; 
Santos casamenteiros, 117* usos nupcíaes na festa dos 
Reis, 257; na festa de S. Gonçalo, 259; Metter o pé no 
meio alqueire, 343; Actos no casamento em Traz os Mon- 
tes, 400; Festa de um casamento, 414. 
CAVALHADAS —Vol. i: Nos casamentos, 87; a Fama, Vénia 
e Corrida do Gallo nas festas religiosas. 260; de S. Sebas- 
tião, 261: Festa do Cuco, em Famalicão, 265; Touro por 
cordas, 292; Cavalhada de S. João, 301; Corrida do Porco 
preto, 301; Cavalhada de S. Pedro, 309. 

^Vol. n : Cavalhada de D. Sebastião, 248. 

CHRONOLOGIA — Vol. i: Base no trabalho da lavoura, il9; 
Dia martes, 171; Semana da mulher preguiçosa, 176. 

rVol. n : Mez incompleto, 36; Mez lunar e a semana, 50; 

Dias aziagos na semana, 51; Observação dos dias e horas, 
52^ Hora do meio dia ; Horas abertas, 53; Dias do mez 
aziagos, 54; Janeiro, 111; Pino do meio dia, 150; Meia 
Noite, 151; Terça á noite, 159; Dias mágicos, 201; Mez, 
base lunar chronologica, 250: Anno lunar e solar, sua 
concordância, 250; Dias fastos e nefastos, 251; Lunes e 
Martes da semana poiytheista, 252; Anno irregular, 
301. 
CIVILISAÇAO OCCIDENTAL— Vol. i: Seus diflferentes focos, 
35; marcha na península, 69; Unidade nos cantos, vu: na 
raça, 8, 42, 52,^299. 



índice analttigo 531 

Vol. n: Ideia de Charrière, 31; Unidade nas Superstições, 

42; nos Romances, 407. 

GOMRDIAS —Vol. i : Nas malhadas do centeio, 137; nas cavas 
das vinhas, 142; na conetruoção das casas, 159; Panto- 
mima funerária, 197; Jogo em forma dramática, 335; Pa- 
radas ou Estados, 399. 

Vol. 11 : Caracter dramático das Orações magicas, 39; 

Bumba meu Boi, e Gavallo marinho, 59, 257, 414, Forma 
dramática na Medicina popular, 233; Cavalhada de S. Se- 
bastião, 248; Queimar os Compadres e as Comadres, 268; 
Caça aos Grambosinos, 268; Correria da Morte, 268, 269; 
Serração da Velha, ib.; Figuras dramáticas na procissão 
de Passos, 273; Autos da Paixão, 275; Enforcamento de 
Judas, íb.;Maio pequenino, 282; Formas theatraes da Pro- 
cissão de Corpus, !!92; Figuração da Escriptura sagrada, 
294; Estado de S. Jorge, 297; Combate do Verão e do 
Inverno, 301; Rei da Mourisca, 302; Alvorada de S. Pedro, 
308; Mosqueteiros da Procissão de Nossa Senhora, 309; 
Corte do Rei do Congo, 313; Chacota de S. Pedro, 317; 
Salsada de S. Martinho. 321; Presépios, Lapinhas e Collo- 
quios do Natal, 327; Cepo do Natal, 328, 329; Entrega do 
Ramo em Aveiro, 329; Enterro das Sestas, 415, 416; Apa- 
nha da Azeitona, 417; Malhadas do Centeio, 419; Parada 
dos Officios, 420; Ferrabrás e Floripes, 423; Entremezes 
nas romarias, 42^í; Dialogo de S. Sebastião, 431; Vida da 
Rainha Santa Isabel, 427; o Villão, íb.; Formosa Magalona, 
427; Rei da Moirama, 430; Loas, 430, 431. 

COMMERCIO —Vol. i : Feiras, 171; Feira da Ladra, 173; Feira 
de Março, 173; Feira dos Moços, ih.; Feira do Rocio, 376; 
Capellistas, ib. 

Vol. II : Leilões das offertas aos santos, 261, 262; Feira de 

Santa Brízída, 263. 

CONTOS —Vol. I : Peixe que dá fortuna, 75; Palácios destruí- 
dos, 44; Petit Poucet, 189; Arvores que vertem sangue, 
194. 

Vol. ii: Mão de gloria, 92; Vestígios de Contos nos Ane- 

xins, 341, 353; Contos de Adivinhas, 375; Universalidade 
dos Contos, 434; Patranheiros do Minho, 435; Trez Cidras 
do Amor, e Gata borralheira, 435; Similaridade dos contos 
russos, sicilianos e portuguezes, 435; Contos da Carochi- 
nha, 436; estudo comparativo, 440, Í41; seu sentido my- 
thico, 444. 

COSTUMES— Vol. T : Sua transformação, 20; classificação syn- 
thetica, 36, 37; unidade segundo as relações anthropolo- 



• • 



532 índice analytico 

gícas, 34; Reacção catholica contra os costumes árabes 
na península, 62. Yid. Ethnologia. 

CULTOS — Voi. i: Influencia das invasões tártaras nos cultos 
mágicos, 17: forma orgiastica no christianismo, ib.; Culto 
das montannaSj 49; das cavernas, ib.; Peixes salvadores, 
75; Deusa Mama, 82; dos mortos, 180, 214; no casamento, 
248; hetaírista, 230; Tocar adufe em Fevereiro, 252. 

Vol. u : Cultos decahidos, 6; da Chaldéa e do Egypto, 14, 

15; Revolver penedos, 26, 6Í0, 312; Prostituição sagrada, 
36; hetairismo do culto lunar, 52; Adufe, 57; Charcos, 
culto chtoniano, 65; Semente de Feito, 70; Junco verde, e 
as Hastílias phallicas, 70; Cortar junco, 71; Mandragoras, 
resto do culto chtoniano, 72; Cantigas das meretrizes à 
Boliana, 74; Porta dourada, 107, 128; Pedras e lameiros, 
117; Elusia, 118; Caracter religioso dos Charcos, 118^ 119, 
126; Martha, deusa da prostituição, 120, 121, 122, 123; 
precede no occidente o culto da Virgem, 124; Filho das 
ervas, 126; Parentesco pelas mães, 125; Annah, no occi- 
dente, 127; Montanha sagrada, ib.; Ciúto phallico, 132; 
Vale de Cavallinhos. 165; Preponderância do culto phal- 
lico, 168; Pães phallicos de S. Gonçalo, 259. 

DANSAS —Vol. I : Sua origem ibérica, 50; Zambras e Leilas 
árabes, 61; Mourisca, ib., 386, 391; Funerárias, 194; Dansa 
da Morte e a Procissão dos defunctos, 226; Batuque nos 
casamentos, 241, 400; Caracter religioso da dansa, 384, 
389; DiíTerenciação nacional, ib.; Fados, 385, 402; Baylia, 
386; Baixa, 395; Villão, Chacota, 387, 388, 390; Tordião, 
388, 395; Tiro-liro, 389; Chacoina, 389, 391; Meninos Ín- 
dios, 390, 398; Dansas nas festas dos Santos, 390; Saram- 
beque, 392; Alta, Pavana, Galharda, Pé de Chibáo, 394, 
395; Sarabandas, 396, 397; Allemã, 396; Xacaras, Çapa- 
teado, 397; Talheiras, Quicumbis, 398; Ciganas, Cajadi- 
nhos. Fofa, Arrepia, 432, 400; Fandango, 399, 401; Outa- 
vado, 400; Chiba, 400; Bahiano, ib.: Balhos, 402; Cana 
verde, Pésinho, Chula^ ib.; Retorta, Í07. 

^VoL n : Fosquinhas, 165; Dansa com as bexigas, 191; 

Dansa a S. Gonçalo, 259; do Espirito Santo, 287 a 289; 
Charambas e Sapatéas, 287; Mourisca, 302; Fandangos, 
305; A-la-moda e Meia volta, 328; Dansa religiosa, 413; 
com caracter dramático, 424; Dansa das Donzellas, 425; 
dos Marujos, Espingardeiros e dos Pretos, 426. 

DEMOTICA —Vol. i : Systematisação dos elementos descríptí- 
vos daEthnographia, 26;Demopsychologia, 27; Hierologia, 
28; Nacionalitteratura, 31 a 34; Ethologia, 34, 64. 



índice analytico 833 

DEVOÇÕES— Vol. I : Escorregar pela pedra, 49; Bodos, sua 
oricem, 51; Guardar o domingo, 270. 

Vol. n : Voltas em roda da Pedra leital, 63: Procissões 

a Outeiros e Penedos, 64; Foliões do Espirito Santo, 119; 
Devoções a Santo António, 210; 211; Pernas e braços oflfe- 
recidos a Santo Amaro, 260; Cercar a egreja com rolo de 
cora, 263, 284, 289; Queimar candôas, 263; S. Marcos e 
os rapazes travessos, 278; Cartas a Santo António, 298; 
Peditório para S. António, 300; Fogueiras a S. João, 304; 
Mancebos dos Banzos, 312; Bolo de Pombal, 312; Trigo 
grellado, 332. Vid. Fontes Santas e Romarias. 

DIREITO —Vol. I : Foraes, vi; Furto de caldeira, 49; Malados, 
84; Behetrias, 84, 110; Pendão e Caldeira, 85; Villares e 
Casaes, 110, 125; Malhom, 110, 258; Sino corrido, 113; Ca- 
saes e Caserias, Encortijadas, 120; Mesta, ib.; Usos e Cos- 
tumes, 121; Tunginus ou Tanganho, 125; Sepultura dos 
justiçados, 188, 189; Divisão annual das terras; 142; Ado- 
pção, 236; Osas e Luetuosa, 240; Compra de corpo, ib.; 
Arras. 242; Camera çarrada, 242; Estatuto territorial, 
256; Ázylos, 256, 257, 265; Visinhança e Companhia, 257; 
Irmandades, ib ; Pelourinhos, 258; Justiça de Monte-Mór, 
260; Justiça de Fafe, ib.; Justiça do Rei, 261; Penalida- 
des : Derrubar as casas, 261; Salgar o chão, ib.; Enterrar 
o assassino com a victima, 262; Montar ao revés da sela, 
263; Calça ou saco de areia, 265; Vindicta pessoal, 265; 
Combate judiciário, 266; Cabello atado, 267; Desnudação, 
268; Albergues, 268; Talha de fuste, 269. 

^Vol. II : Dar a comer para saber um furto, 116: libertação 

de um preso, 267; Formas da Adopção, 342; Foros e Leis, 
sua differença, 497; Caracter estrangeiro do titulo de El- 
Rei, 498. 

DOENÇAS —Vol. II : No século xvi, 215; seu caracter sagra- 
do, 213; Quebranto, 217; Achaques de ár, 218; Chagas ou 
Fogo louro, 219, 222; Quebraduras, 220 e 229; Desloea- 
duras, 220; Fluxo de sangue, ib.; Dôr de dentes, 221, 234; 
Fogagem, 221; Vertoeja, ib.; Erizipola, 224; Zipla, 225, 
228, 331; Queimaduras, 227; Espinhela cabida, 228; Fogo 
do àr, 231; Maleitas, 232; Sangue pelo nariz, 234; Febres, 
233; Peito aberto, Braço deslocado. Verrugas, Impigens, 
234; Azia, Terçogo, Inguas, 235; Aphtas, Farfalho, Alpor- 
cas, Insulação, 236; Carne quebrada. Nervo torto, 237; 
Quartas, Aíflacto, 238. Vid. Medicina. 

EMBLEMAS —Vol. ii ; Pomba phallica, 283; Corvo e Pombi- 
nha, 287; Bandeira do Espirito Santo, 288; Coração e cha- 
ve, 397; Relação com as Adivinhas, ib. Vid. Symbolos. 



53 i índice ANALrnco 

ENTIDADES DEMONÍACAS - Vol. i : Genius loci, ou divin- 
dades poliãdes, i6; Tanso, 98; 207; Tanganhão, 125; Ho- 
inem-bom, 305; Tatro-Azeiteiro, 98. 

Vol. II : Tatro, 170; Tanso, 184; Homem-bom, 136, 177; 

Pezadcllo, 20, 110; Diabo, 21; suas formas, 181, 172; Pban- 
tasma, 23; Avanteema, 172; Demónio do Deserto ou En- 
treaberto, 36, 148, 155; Fadas marinbas, 36; Homem das 
sete dentaduras, ib., 149; Fadas de Mãe, 63; Mouras en- 
cantadas, 64, 125, 182; Martha anão dina, 65; Cão tinhoso, 
84, 129; Porco preto, 86; Lobishomem, 85, 148, 155; Par- 
dalo, 180; Velha da égua branca, 158; Clíapéo de ferro, 
90, 152, 458; Sombra e Solombra, 95, 171; Escolar das 
nuvens, 9^, 151, 190; Homem das calças vermelhas. 110; 
Maria Padilha, 133; Harut e Marut, 139, 197; Montenegro 
(Monkir Nekir), 140; Rosemunho, 151, 155; Pretinho do 
barrete encarnado, 152, 155: Gavallinhos fuscos, 164; Jans, 
170; Balborinlio, ib.; Maria Molha, Maria das Pernas com- 
pridas, 170; Insonho, 171, 180; Medo, Cousa Ruim, Coca, 
Coca Loba, Farronca, Ar Máo, 171; Papão, Gallinha preta 
com bácoros, Almazonas, Mão de ferro. Galgo negro, Col- 
ni(*,a, Í71; Cão prelo, Í72; Tanglomango, 172, 176; Dian- 
gras, 174; Fado corredor, i80; Peeira e Lobeira, 180; Tras- 
gos, Fradinhos da mão furada, íb.; Mãe d*agua, 182; Olha- 
rapos, Olhapim (Cyclope), Í82; Caipira, 184; Tartaranho^ 
Tardo e Trado, 185; Escolarão, Tergeitador,Esturgeitante, 
Madre Celestina, Pedro Botelho, Flamazão, Mafarrico, Pe- 
dro de Malas Artes, 190; Previnco ou Probinco, 191; Santa 
Coca, 295. 

ESCONJUROS —Vol. I : Para afugentar a passarada, 139; Con- 
tra o nevoeiro, J40; Para os mortos não voltarem a este 
mundo, 222; Para evocar uma alma, 224. 

—Vol. II : Esconjuro das Favas, 132; Para lançar fora espi- 
rito maligno, 146; Para atar a perna ao diabo, 191; Evo- 
car alma, i 94; Palavras de encantamento, 193; Oração para 
matar, 195; Para fazer mal, ib. Vid. Fórmclas e OraçQbs. 

ETHNOLOGIA —Vol. i : Observação no conjuncto das socie- 
dades, 2, 10; Relação com a Psychologia e Sociologia, 3; 
Caracteres nacionaes, ib* Methodo comparativo, 4; Auto- 
matismo nos Costumes, 6; Presente explicado pelo pas- 
sado, 6, 8; Meio social, 7; Persistência dos costumes, 9; 
Acção do meio cósmico, 10; Regressões a costumes atra- 
zados, i4; Razão das instituições politicas, 16; Isolamento 
dos povos, 17; Sobrevi venci as de costumes atrazados, 18, 
21; Homem emocional, 19; Ideias de Steinthal e Stuart- 
Mill, 24; Estado agrícola e pastoral, 29, 55; Regimen da 



INBIGE ANALTTIGO 835 

maternidade oa hetairísta, 28; Familismo e Cantonalismo, 
30; Concelhos e Behetrias, 55; Fim da Ethnogenia. 192; 
Gynecocracia, 234; Influencia do sexo e da edade, 272; a 
Mulher na dínerenciação dos costumes, 273; Gonservan- 
tismo dos velhos, 274; Funcções especificas ou automa- 
tismo, 294; Imitações dos actos sociaes, 295; Coordenação 
synthetica dos Costumes, 36. 

— Vol. II : Synthese aíTectiva, 5 ; especulativa, 333, 433 ; 
Camadas sociaes definidas pelas Superstições, 9; Selva- 
gismo, Barbarismo e Paganismo, 18 ; Condições para o 
Sobrenaturalismo, 46; Influencia das commoçoes sociaes, 
111; Methodo no estudo das Superstições, 114. 

FESTAS —Vol. I : S. João, seu sentido solar, 43; Corpo de 
Deus, 74; Montaria ao Porco preto, 75; Correr o Montujo, 
ib.; Ascençào, ib.; Lanço da Cruz, 76; Véspera de Entru- 
do, 138; Dia de Finados, 209; Maias, 377; cias Ref^ateiras, 
ou de S. Gonçalo, 39i: Tarasca de Corpus Chrísti, 393. 

^Vol. II : Festa da espiga, 26; Natal, 54, 55, 148; Trevas, 

54; S. João, 58, 72, 73, 148, 160; Maio, 58; S. João e Natal 
resto do culto sideral, 66; Santo António, 69; Matança dos 
porcos, no Natal, 85; Procissão do Con)o de Deus, 161; 
Destino social das festas, 250; Estréas do Armo bom, 254; 
Annos boinos, Janeiras e Janeireiros, 254 e 255; Agui- 
naldo, 255; Dia de Reis, 257; Visita das lapinhas, 258; Pe- 
ditório das Janeirinhas, 258; S. Gonçalo, seu culto phal- 
lieo, 259; Fama, Vénia e Corrida do Gallo, 260; S. Amaro, 
260; Varrer dos Armários, ná Madeira, 261; S. Sebastião, 
ib.: Fogaceiras, 263; Senhora das Candéas, 261; S. Braz, 
264; S. Bento, 265; Dia das Petas, 266; Entrudo, 267; Ra- 
mos, 268; Semana santa, 271; Gallo das Trevas, 271; Vella 
Maria, 272; Trevas, ib.; Passos, ib.; Enterro, 274; Com- 
passo e Reconhecenças, 277; S. Pedro Gonçalves, 277; 
S. Marcos, 278; Boi Marcos, 279; Enfeitar as Maias, 280; 
Maio pequenino, 282; Bodos do Espirito Santo, 283; Império 
de Pentecoste, 284; Folia do Espirito Santo, 285 a 289; 
Procissão do Rolo, 289; Corte dos Gallos, 290; Festa dos 
Taboleiros, 291; Corpo de Deus, 291; S. Jorce, 294; Carro 
das ervas, 294; Santa Coca, 295; Santo Grande, 296; Santo 
António, 297: S. João, 300; Cavalleiros de Óbidos, 303; 
Galheiro, 304; S. Pedro, 309, 310; S. Thiago, 313; Santo 
Anna, 314; Procissão dos Ferrolhos, 315; S. Bartholomeu,. 
315; S. Pedro de Nisa, 316; S. Simão e S. Judas, 318; Fieis 
defunctos, 319; S. Martinho, 320; S. Nicolào, 321: Santa 
Luzia, 322- Festa do 0, 323; Natal, 324* Missa do Gallo, 325; 
Galheiro, 329; Santo Estavam, 330; Bispo Innocente, 331. 



836 índice analttigo 

FONTES SANTAS — Vol. ii: Prohibidas desde o século vii, 57; 
Caracteres cultuaes, ii9; Bordas dos rios, 130; Agnade 
Má-Martha, 130; Fonte de leite, 237; de S. Bartholomeu de 
^ Cabrez, 316; Rio Sousa, 314. 

FÓRMULAS MARCELLICAS —Vol. ii : O seu texto, 32; Inter- 

S rotação de Grimm, Zeus e Pictet, 33; Pertencem á re^ào 
a Aquitania, 33; Aproximação das fórmulas accádicas 
da Ghaldéa, 34, 35; Persistência da Magia accádica nas 
, Superstições portuguezas, 36. 

FORMULAS MEDICINAES —Vol. u : Reza dos feitiços para 
toda a doença, 217; Para o achaque de ár, 218; para cha- 
gas, 219; para curar quebraduras, 220, 229; para o fluxo 
de sangue, ib.; para dores de dentes, 221; para a vertoeja 
e fogo louro, 222; para o cobrello^ 223; para a erizypela, 
224, 225, 227, 231; para escaldaduras e queimaduras, 227; 
para talhar bixo, 228; para espinhela cabida, 228; para o 
fogo do ár, 231; para sezões, 232; para verrugas, 233; im- 
pigens, 234: azia, 235; aphtas, 236; insulação^ 237; invo- 
cação a S. Gonçalo, 259. 

FORTUNA— Vol. n: Modo de a obter, 72, 74; Modo de a tirar, 87; 
quando crescem muito as unhas, 93; noz de trez quinas, 109. 

FUNERAES —Vol. i : O Loguo, 110; Mamôas, Antellas e Dol- 
mens, ib., 184; Relações dos ritos funerários com o casa- 
mento, 178; Systematisação dos ritos funerários, 182; Morte 
dada aos velhos, ib.; Ajudar a morrer, 183; Despenadei- 
ras de Nisa, 183, 214, 227; Despenhação dos velhos, 183; 
Assassinato voluntário, 226; Tirar o travesseiro, 227; Po- 
ços seccos, 185; Incineração, 184: Tripúdios, 184, 194; In- 
numação, 185; Poço dos Negros, 187; Montículos funerá- 
rios, 187, 188; Antmhas, 187; Montes Gaudios ou Fieis de 
Deus, 188; Atirar pedras á sepultura, ib.; 189, 219; Cruz 
na sepultura, 190; Arvore sepulcral, 191, 193; Pinheiro 
funerário, 194 ; Cantos fúnebres, 195 ; Bradar sobre fina- 
do, 197; Voceros, 199; Pranto, 200, 213; Cerimonia official 
do pranto, 200; Carpideiras, 201, 203; Formas de lucto, 
203, 204; Içar bandeira branca, 204; Sete badaladas, 205; 
Dinheiro de cruzes, ib.; Passar o carreiro de S. Thiago, 
206; Funeral dos reis, 207; Banquetes, ib.; Obradas, Ban- 
quete commemorativo, 208; OíTertas aos meninos, 210; aos 
parochos, 211; Anho ou annejo, 211; Os anojados, 212; 
uuisa e Esteira, 212; Semear o morto, 212; Dansar ao 
anjinho, 214; Banquetes sobre as sepulturas, 215, 216; Pe- 
dir para as almas, 217; Bodos, sua origem, 219; Supersti- 
ções dos mortos, 220; Forma insulana de semear o morto, 
222; Requerer alma, 223. 



índice analttico 837 

Vol. II : Restos do rito ftinerario nos carvões e cinzas dos 

Dolmens» 63; Sapatos de defuncto, 343. . 

GARANTIAS —Vol. i : Franquias, 63; Sino do Concelho, 87; 
Picota e Pelourinho, i8i: Ghilde ou banquete em conunum, 
215; Irmandades, ib., 343; Foro e Fará, 235, 256; Aldéa, 
268. 

Vol. n : Classes sociaes representadas na procissão de 

Corpus, 292; Banquete em commum, na Travanca, 330; 
as Garantias substituídas pelas Regalias^ 499. 

GUERRA —Vol. I : Duello, 14; Guerras privadas, 16; Hostili- 
dade das povoações, 19; Guerrilhas, 54, 83; Emboscadas 
dos Luzitanos, 83; Almenaras, 84; Dias de luctas, 85; Jo- 

Í[OS guerreiros dos Luzitanos, ib.; Bafordos, Aléos, 86; Va- 
entoes, ib.; Arcabuz e Chuço, 87; Castros, Castrellos, Cam- 
pos e Campellos, 110. 

HISTORIA DE PORTUGAL — VoL i : Endexa á morte do rei 
D. Diniz, 196; à do príncipe D. AfTonso, 198, 199; Cantos 
na sepultura do Condestavel, 199, 206; Casamento da in- 
fanta D. Leonor, 243; Casamento de D. João i, 251; Can- 
tigas ao embarque de D. Sebastião para a Africa, 408. 

Vol. u : Influencia dos terremotos no caracter do povo, 12; 

Sonho do infante D. Fernando, 98; Derrota de Alcácer 
kibir, 111, 169; Batalha do Toro, 161; Ir ao Maio, 283; 
Romances relativos à Historia de Portugal, 412; D. Diniz, 
499; D. Fernando, 500; Acclamação do Mestre de Aviz^ 
501; Revolta de Lisboa, ib.; O Condestavel, 502; Expedi- 
ções de Africa, 202, 203; Ingratidão dos reis, 503; Proces- 
sos do Santo Offlcío, 504; Cardeal Rei, 505; Assassinatos 
Sor Philippe ii, ib; Guerra da independência, 506; D. 
oão, IV, 507; D. João v, ib ; D. José e o Marquez de Pom- 
bal, 508; Corte de D. Maria i, 509; D. João vi, ib.; Entrada 
dos francezes, 510; Protectorado de Beresford, 511; Villa 
francada, 512; Luctas de D. Pedro e D. Miguel, 512; Ma- 
ria da Fonte, 516; Intervenção armada estrangeira, 517. 

HOSTIUDADES —Vol. i : De raça : Typo ruivo, 45; Morte aos 
estranffeiros, 89; Berlengucnes, ib.; Ladino, Grego, Go- 
thico. Mouro, 92; Sarrasina, 93; Rabudos, 95; Francezis- 
mo, 96, 355; Franchinote, ib. — Locaes : Serranos e Ribei- 
rinhos, 45, 68, 90; Montanhões, 69; Os de Alemquer, 90; 
Chanter pouille, 91; Rabellos e Carecas, 92; Gallego, 93; 
Chamorros, 95; Alfacinhas, 99; Tripeiros, 99; Apodos a 
Lisboa, 99; Coimbra, Aveiro, 100; Povoações do Alemtejo, 
101; do Algarve, 102; Beira e Douro, ib.; Os da Lourinhã, 
106; Ratinhos, 106; Vianez, 252; Apodos nos Casamentos, 
239. — Hostilidades dos offlcios: Alfaiates, Sapateiros, 



538 INBIGE ANALTTICO 

Ferreiros, 106; Trolha, Caldeireiro, Pedreiro, 107; Bar- 

qaeirosj ib.; Moleiros, ib.; Leva a gata, 138; Fadistas, 216; 

— Hostilidades nominaes : Antão, Anna, Augusto, 107; 

Joio, José, Luiz, Riu, 108. 
— «-^Yol. ii: Hostilidades na festa dos Reis, 258; Perguntas 

pelas Endoenças, 275; Serpa, Arrayolos, Beja, Arruda, 352; 

Apodos em forma dramática, 427; Braga e Porto, 513. 
IBEROS— Vol I : Sua expansão no Occidente, 34; Passagem 

£ela Africa para a Europa, 42; o problema dos Fullahs, 
3; Conciliação das ideias de Huxtey, 42; Differencíacão 
dos dois typos ibéricos, 44; Persistência de usos celtioe- 
ricos, 46; Acitanias ou povoações dos Ausci, 50; Dansas 
ainda actuaes, 50; Celleiros communs, ib.; Duplicidade do 
elemento ibérico, 52; descriptos por César, 56; Ideia de 
Paul Broca, ib.; Cidades ibéricas, 109; Tecelagem, 167; 
Couvade, segundo Strabão, 236. 

VoL u : Culto dos Betylos, 48; Homogeneidade entre Aqui- 

tanios e Iberos, 173. 

INDUSTRIAS LOCAES —Vol. i : Cambas, Zangas, Molinhei- 
ras e Picameis, 114* Potes de barro, 121; Cubas, ib.; Pe- 
quena industria, 145; Situação do operário, 457; Rendas, 
166; Flores de pennas, ib ; Bragal, 167; Baetas e retinas, 
ib.; Teares, 168; Cotíns, ib.; Linha de Guimarães, 169; Lãs, 
ib.; Padaria, 170; Trabalho na pedra, 155; Canteiros, 156; 
Muro francez, 156; Trolhas, i58; Páo de fileira, Construc- 
ção naval, Cordoaria, i59; Louça de páo, 160; Concas, 
Camélias, palitos, obras de vime, 160; Croças, 170; Barro, 
mfusas, 161 ; Púcaros de Extremoz, 161 ; Louça preta, 
162; Louca de Coimbra, 163; Azulejos, 163, 164, 165; Mo- 
saicos e Embrexados, 166; Chancas, 170; Fiação portu- 
gueza, 340; Modistas, 381; Serrelharía, 154; Ferrarias, 155; 
Candéas de ferro, prego batido, fechaduras, ib.; Nomes 
árabes dos offlcios, 62; Redes, 78; Salinas, 81; Lanifícios, 
133; Alternância das industrias, 144; Minas, 145 a 147; 
Ourivesaria, 148, 151; Filagrana, 150; Systema de Asso- 
ciação operaria, 453; Cordão de ouro, 153. 

INSTRUMENTOS MÚSICOS— Vol. i: Guitarra, 62, 404, 408; 
Adufe, 252, 386, 405; Flauta, Trombeta, 385; Citolom, 386, 
405; Castanholas, 391; Rabeca, 403; Charamella, ib.; Gaita 
de capador e de folies, 404; Campainhas, 405: Laude, 406; 
Enxabeba, 406; Viola de arco, 407; Berimbao, 408; Tim- 
bales e Menestrins, 408; Zabumba, Ferrinhos, Çanfonha, 
409; Vacas, ib. 

. Vol. n : Adufe em Fevereiro, 427; Viola, rabeca e pifaro, 

255; Soalhas, 286; Machete, 328; Castanholas, 328. 



IN9ICE ANALTTIGO S39 

JOGOS — Vol. I : Naipes, 62; Corridas de touros, 86; Serra ma- 
deira, 124, 358; Jogo das Visinhas, 277; do Sino^ 287; 
Psychologia dos jogos infantis, 294; Elementos de classifi« 
cação 295; Jogos da rua, 296; Formas religiosas dramáti- 
cas e judiciarias, 297; Processo comparativo, 297, 298; 
Gabra-cega, sua universalidade, 299; Almolina, 301; Dou- 
te-lo vivo, 303; Dedos para o àr, 306; Conversa dos dedos, 
310; Pímpolhinha, 311; Jogos numerativos, 312; Yassou- 
rinha, 313; Páo quente, 316; Sola Sapata, 316; Queimado 
ou Senhor Villio do Cabo, 317; Viuvinha, 319, 348; Galdir 
e Galdar, 319; Quatro cantos, 320; Caracol, 320; Palmas 
e palminhas, 322; Põe aqui pillinha o ovo, 323; Bichinho 
ffato,323; Arre burrinho, 324;Punho,325; Cadeira de mãos> 
326; Santeiro, ib.; Mão morta, 327' Pedrinhas de taixoso, 
327; Estopinbas, 328; A cavallo, n um páo, ib.; Pé de Gal- 
linha, o Homem, 329; Adivinha quem te deu, 330; Esta- 
los, Annel, ib.; Tirar palha, 332; Abbadessa, Castello de 
Bímberimbello, 332; Aqui está a corda^334; Silencio, 335; 
Condessa, 335; Condessínha de Aragão, 338; Trebelhos, 
Bafordo e Tabolado, 345; Malham, Pião, 349; Badalassa, 
Pega-chuna, 348; Cubre^ fitelho, 348; Jaldeta, Conca, Sar- 
rilho, ib.; Dinheiros seccos, 349; Torrelha, Dados fêmeas, 
Vacca, Butir, Porca, Curre-Curre, Aléo, 346; Panellinha, 
347; Malha, ib.; Bilharda, 347, 357; Pira, 348; Bola, 349; 
Marralha^ ib.; Tintínini, 350; Pato, Canas, Argolinha, Da- 
mas, 350; Xadrez, 351; Naipes, 352, 353, 354; Toque em- 
boque, 355; Tourinhas, ib.; Martim Cortez, 356; Passari- 
nho á orelha, 356; Escondidas, 358; Abraços, Corriola, 357; 
Bisca coberta, Truque, ib.; Gamão, 358; Arrenegada, ib.; 
Serra madeira, 358; Paj^agaío, 359; Botão, 360; Lista de 
outros jogos populares^ 361; Trepar cordas. Tomos de 
meza, Salto real, 387. 

Vol. m: Formas religiosas, 179; S. Martinho, 320; Jogo do 

Frade, 331. 

LENDAS— Vol. i: Cidades subvertidas, 44; Ilhas encantadas, 
53; Bei Arthur e D. Sebastião, 75; D. João, 226; Torre de 
D. Sapo, 240. 

Vol. II : Do homem na lua, 55; da oliveira, 71; do trovis- 
co, 72; dos tremoços, ib ; de S. Vicente, 76; de S. Isabel, 
109; Tributo das Cem Donzellas, sua origem mythica, 125, 
445; do rei Arthur, 150; do Bom Homem, 180; da Espada 
do Gondestavel, 183; de Merlim, em Portugal, 238; Ilhas 
encantadas, 27, 181, 239; descrípção deBozmital, 240; Ilhas 
brancas, ib.; Tradição de S. Brendan, e das Ilhas empoa- 
das, 241; da Antilia ou Sete Cidades, 241; D. Sebastião 



840 índice analttico 

S4t; Lendas troyanas, 406; Formação das lendas, 434; 
Enumeração das lendas históricas portaguezas, 446, 447. 

LINGUAGEM — Vol. i : Docnmento eihnologíco, 23, 40; Topo- 
nomastico, 53; representa a cultura material, 57, 59; Ves- 
tígios árabes, 60,61; Adrí, seu sentido, 191; Philologia 
generativa, 274; Gestos, 275; Intonaçoes, 277; Interjeições 
universaes, 279; Onomatopéas, 281, 282, 283; Linguagem 
infantil, 284; Imitação dos sons, 287; da marcha dos sol- 
dados, 286; Parodia da intonação das rezas, 288; Vozes 
dos animaes parodiadas, 289; Lenga-lengas, 292; Girias, 
293; Trabalenguas, 290, 291; Neumas, 292. 

—Vol. II : O assobio, 28; Elaboração oral da linguagem, 398; 
Formas figuradas da linguagem popular, 336; Compara- 
ções conununs ao Occidente, 337, 340; Modismos portu- 
^ezes, 338; relação com os Contos e Anexins^ 341. 

LITTERATUR A POPULAR — Vol. i : Epopôas solares, 30 ; 
Origem dos cantos lyricos, 33, 56; Serranilhas e Aravias, 
58, 6L 

^Vol. II : Livro de S. Cypriano, 160, 161; Vida de S. Bom 

Homem, 179; Imperatriz Porcina, 193, 458, 459; Trovas 
de Bandarra, 243; Litteratura prophetíca, 248; Adivinhas 
na litteratura, 377, 378; Formas universaes da Litteratura, 
399; Dupla origem do Theatro, 413; Coro com forma lyrica 
no theatro, ih.; Origem tradicional do Theatro portuguez, 
415; Typos naòionaes. Ratinho, Dr. da Mula Ruça, Siri- 
gaita, 415; Formas improvisadas da Comedia, 416; Forma 
épica no theatro, 423; Dansas agonistíc^s, 425; Mourisca- 
das, 427, 428; Litteratura de cordel, 448: suas épocas his- 
tóricas, 450; Autos de S. Catharina, 424; da Paixão, do 
Abbade João, de El-rei Almançor de Berbéria, ib.; João 
de Calais, 427, 463, 486 a 488; Formosa Magalona, ib., 
473; Roberto do Diabo, 459, 460; Sete Partidas do Infante 
D. Pedro, 460, 461, 462; Cartas de amores, 464; Obras lit- 
terarias tomadas populares, 452 a 457; Irmandades dos 
Cegos vendedores de Folhas volantes, 479; Orações dos 
Cegos, 481; Catálogos das Folhas volantes do século xviii, 
483; Origem italiana de Bertoldo e Bertoldinho, 484, 485; 
Trez Corcovados de Setúbal, 489; Vida de Cosme Manhoso, 
491; D. Francisca do Algarve, 491; Garrett comprehendeu 
o valor da litteratura popular, 494. 

MEDICINA —Vol. II : Sua origem magica, 15; Santos medici- 
naes, 22; Agua das três marés, 26; Aguas santas, ib.; Suc- 
ção, 27; Rachitismo, 37; Cobro e cobrello, ib ; Ervas de 
S. João, 53; Contra a esterilidade, 61; Modo de ter leite, 
61; Cura dos argueiros, ib.; das doenças de olhos, 62; In- 



índice analytico 541 

fluência dos penedos nas curas, 62; Trez voltas em redor 
do altar, 64; Poder da estrella para curar, 69; Contra o 
hysterismo e febres, 75; Contra os bruxedos nas crianças, 
ib.; Fogo do ár e Ar máo, ib* Corações de aves, 80; Para 
despertar somnolentos, 82; Bafo de cão, 85; Barro das 
bilhas de Estremoz, 9i; Pôr a mâo, 9i; Contra a dor das 
retortas, 101; Fazer a molleirinha ou a Estopada, 102; 
Dadas no peito, 105, 177; Contra o somno trocado e ver- 
mes, 106; Mordeduras de cães damnados, 113; Lameiro 
virgem, 118; Hérnias scrotaes, 130; Cura das Cambras, 
135; Contra sezões e febres, 163; Virtude medica dos réis, 
185; Lombrigas, 186; Fervedouros, 187, 233; Pós pestífe- 
ros, ib.; Cura dos Feitiços, 203; Procissão contra as pestes, 
284, 289; Tradição da Medicina egypcia, 213; Curar com 
palavras, 216; Benzeduras, 217, 218; Cura de quebranto, 
217; Benção com folhado sabugueiro, 219,221; Raminhos 
de cacordia, 225; Ardegaria para a eryzipela, 225; Acin- 
tro, ib.; Talhar a toupa, 228; Maleitas, 232; Coser pé, 233; 
Cabejj^a de morto, 337; Panno dotrado, ib.; Enganar as 
maleitas, ib.; Bichas de S. Thiago, 314; Banhos por S. Bar- 
tholomeu, 316; Pello do cão, 348. 

METEOROLOGIA -Vol. i : Santelmo, 79; Vento gallego, 95; 
Nevoeiro ou Tatro azeiteiro, 98; Orvalho ou Mangra, 135; 
João das Calças queimadas, João Preto. 141. 

Vol. II : Arco da velha, 26; Cinza espalhada ao vento, 66; 

Prognostico de vento, 82, 87; Nevoeiro, sua personifica- 
ção, 160, 170; Chuva, ib.; Santelmo, 171, 277- Prognósti- 
cos de Janeiro, 253; de Fevereiro, pela Candelária, 264; 
Trovoadas de Junho, 307; Experiências de Santa Luzia, 
322; Quendas e Requendas, 323, 332; Meteorologia dos 
Anexins, 349. 

MODAS —Vol. I : Regressão a costumes selvagens, 17; Mandil, 
361; Rebuço, 362; Barrete, ib.; Cuia e Mantilha, 363; Bra- 
gas, ib.^ Coroca, Galochas, Chapim, 364; Capotilha, Ca- 
chouceira. Chamorros, 365; Tranças, 366; Arrecadas, Bi- 
chas, Arriei, 367; Espelho de latão, 371; Trajos do sé- 
culo XIV, 367; do século xv, 372; Relho, 374; Picote e bu- 
rel, 375; Traios do século xvi, 375; Gorras, 374; Abanico, 
376; Trajos do século xvii, 376; Guardinfantes, Verduga- 
dins. Capinhas^ 377; Cosméticos, 378; Donaires, Merina- 
ques, ib.; Regalos, Bengalas, Leques, 379; Sinaesno rosto» 
380; Trajos do século xviir, 381; Zuarte, Lustrina, 382; 
Capote e lenço, ib.* Tratamentos cerimoniosos, ib. 

MUSICA —Vol. I : Lundum chorado, 397 ; Fados, 407; Gosto 
do povo pela musica, 408. 



542 ÍNDICE ANALYTICO 

MYTHOS— V(^. I : Personificação do Sanlelmo, 79; da Couve, 
117: do Milho e Centeio, i30; do Trigo, ib.; da Aveia, 131; 
do Nevoeiro, 140; dos Sinos, 287; dos Dedos, 310. 

Yol. II : Definição do Mytho, 8; Relação com as Supersti- 
ções, 9; Boliana, 72; do Fogo e da Penna de Boliana, 73, 
75; Mytho do Burro, 82; solar da Serpente, 125; Fogo ce- 
leste ou Paramantha, 132; Soma ou Hom, 136, 176; Sol- 
sticio diurno, 148; Meia noite, 151; do Lobishomem, 155; 
Noite e Inverno, 155; do Fogo e Vara de condão, 159; S. 
Jorge, 162* Bom Homem, 177; Mytho solsticial da Serra- 
ção dá Velha, 269; de Adónis^ na Sexta feira da Paixão, 
275; Mythos vedicos, na benção do lume novo, 276; Mytho 
solsticial na festa de S. João, 300; Wuotan equiparado a 
S. Miguel e a S. Martinho, 322; Relação do Natal com o 
solstício, 326; A concepção mythica nas Adivinhas, 374, 
375; das Trevas nocturnas, 445. 

NOMES —Yol. I : Maria, seu poder para afugentar a passarada, 
139; para lançar a semente á terra, 138. 

'— Yol. u : Horóscopo dos nomes, 24; Ncnnes provenientes do 
totemismo, 25; Schem, ou nome secreto de Deus, 40; João, 
41, 229; Maria, 41, 230; Bento, Custodio, Custodinho, I^- 
cio, 108; Nomes dos doentes citados no curativo, 220; 
Manuel, 230. 

NÚMEROS —Yol. ii: Sete, 89, 142; Badaladas do sino, 101; 
O septímo filho, 104; Treze á meza, 109; Poder reliffioso 
dos números, 141; Nove, 143; Contar para traz, 145; a 
Gematria, ou reducção das letras a números, 243. 

ORAÇÕES —Yol. I : Para levedar o pão, 171; Cantar a Moliana, 
174; do Azevinho, 175; da Laranjinha, 175. 

^Yol. II : Rythmicas, 79; à lua Nova, 49; Invocação ao Sol, 

54; da Pedra de Ara, para ser amado, 62; para quando 
cae uma Estrelia, 69; Oração de Martha, 71; da Estrella 
fremosa, ib.; para cortar o Trovisco macho, 74; Contra o 
pio do corvo, 79; prognostico do tempo pelo gato, 82; En- 
salmos do Asno, 83; Oração para ser amado, 84; contra 
as moscas, 88; contra a má olnadura, 93; para os maledi- 
centes, 94 ; a S. Zacharías para adivinhar as vozes, 96 ; 
para reconciliar namorados, 100; para tomar affavel o na- 
morado, ib.; para o parto difficil, 102; para a criança fal- 
lar, 103; para nascerem dentes a criança, 105; para des- 
enguiçar a criança, 104; para esconjurar o espirro da 
criança, 105; para desalgar a casa, 106; para benzer a 
casa, 108; para ficar boa a fornada, 109; de s. Martha para 
prender o coração, 122, 123, 124; de S. Anna, 127. 128; 
para ligar duas pessoas, 134; para as Cambras, 135, 136; 



« índice analttico 843 

Oração dos Numeros, 142, 146, 147; Oração de S. Custo- 
dio, 147, 216; da Emparedada, 193; para as Cartas de 
tocar, 197; de S. Arasmo, 201; para curar feitiços, 203; 
Oração ao Anjo da Guarda, 204; à Virgem mãe, z05; para 
o deitar da cama, 205, 206, 207; para defender a casa, 208; 
para um grande perigo, ib.; contra as trovoadas, 209; para 
achar cousas perdidas, 210, 211, 212; a S. Christovam, 210; 
contra os cães damnados, 212; Cegos rezadores, 481. 

ORDALIOS — Vol. I : Combate judiciam, 86, 266; Andar sobre 
brazas, 263; a Porca de Murça, ib.; Ferro quente, 263. 

Vol. II : Agua amarga, 343; Ferro caldo, 113. 

PACTOS demoníacos — Yol. ii : Perder a sombra, 21; Co- 
vas de Salamanca, 24; pelas trez pedras, 60; Petra Fetal, 
65; Sangria no dedo minimo, 94; Apregoar demoninhados, 
116; Senzalas, 129; Sabatb, 131; Bruxas, 198. 

PALAVRAS MAGICAS— Vol. u: Desconhecidas, sua força, 
32, 38, 215; Malfazeja, 37; Sua origem, 39; Relação da 
Grammatica com a Nigromancia, 67; Artimanha, ib.; Vir- 
tude das palavras^ 112; Palavras retomadas, 148; seu 
poder medicinal, 215, 216. 

PASTOS — Vol. I : Deambulação dos gados, 132; origem da 
Mesta, ib.; Alfeire, ib.; Doeiras, 133; Queijos, 144. Vid. 

AgRICUIíTURÀ 

PEDRAS PHALLICAS —Vol. i : Origem ante-historica, 232. 

Vol. ir. Pedra da calçada, 60; de ára, 60, 62, 118; Revol- 
ver penedos, 60, 118; Penedo dos casamentos, ib.; Conta 
leitai, Arguerera, andorinha, ib.; Pedras cavalgares, 64; 
Ceraunias ou pedras de raio, 65; Pedra comprida, 117; 
Frades 118 

PELOURINHOS —Vol. i : Seu sentido politico, 258; Genius 
loci, 259; Comparação com os francezes^ 259. 

Vol. ii: Petrasntas e Picotas, 32. Vid. Garantias. 

PESCA —Vol. I : Por mulheres, 76; Redes, Acederes, Enxaque- 
ques. Chinchorros e Tartaranhas, ib.; Companhas, 77, 78; 
Pilado, 77; Quinhões, 78; Bois puchando rodes, 80; Quali- 
dades de redes, 81; Marroteiros e Mamotos, ib.; Galeões, 
Barcos de bocca aberta, 82; Hostilidade da classe, 107; 
Barinel, 159; Varinas, ib.; Barcos moliceiros, 159. 

PESa^OAS DE VIRTUDE— Vol. ii: Gémeos, 28; Hereditarie- 
dade dos poderes mágicos, 43; Velhas, 53, 189; Fetalista, 
65 ; Mestras, 68 ; Corcunda, 94 ; Coxo, Vesgo, Calvo, 94; 
Signaes dístinctivos, 97; Nascer n'um fole, 102: Septimo 
filho, 104; Chorar no ventre da mãe, 106, 186; Veedores, 
112; Adivinhação pelas Crianças, 119; Menino d6 dez aa- 
noa, 127; Noaeurs d*eguillettes, 135; Loucos^ 185; ReiS| 



844 índice ANALTnCO 

185; Padres, innãs de clérigos, 186; Garagos, Bentos, 186; 
Saudadores, 187, 218; Meninos virtuosos, 187; Cegos reza- 
dores, 192; Mulheres de virtude, 199; Adivinhões, 248. 

POÉTICA POPULAR — VoLi: Leis rythmicas, 255; Neu- 
mas, 292. 

^Yol. II : Quantidade e Accento, 361; Parallelismo, 361, 

362; Tautologias, 363 ; Aliterações, 364; Transição da 
Quantidade para o Accento, 366; Neumas 365, 404; Re- 
dondilhas, 366, 367; Endecasyllabo popular, 367; Aleian- 
drinos, 368; Assonancia e Rima, 368, 369; Formas stro- 
phicas, 369 a 371; Origem da quadra, 402* Serranilha, sna 
origem ibérica, 402; Pé de Cs^tiga, 403. Yid. Litteratcra. 

PODERES MÁGICOS - Yol. ii : Máo olhado, 90; do Dedo po- 
legar, 93; Degradar sombras, 95; Saber se uma pessoa é 
viva ou morta, 96; Andar às vozes, 96; Roupa do marido 
da parturiente, 101. Yid. Pessoas db virtude. 

PROPHÉCIAS — Yol. ii: Acerca do Encoberto, 239; sobre 
D. Sebastião, 241; Trovas de Bandarra, 243, 244; sua in- 
fluencia na revindicação da nacionalidade, 245; Interpre- 
tação das Trovas, 24/. 

QUINTO IMPÉRIO —Yol. ii : Como esta ideia politica se tor- 
nou, popular, 246. 

RELIGIÕES —Yol. ii: Sua relação com as Superstições, 6; 
Fetichismo, 10, 47; Totemismo, 25, 56; Synthese religiosa, 
segundo Yarrão, 14; Religião solar, 15, 51, 52; lunar, 48, 
Atheismo espontâneo, 46; Manituismo, Sabeismo, 48; Po- 
lytheismo dos árias e semitas, 57; Prohibição do culto lu- 
nar e solar, 59; Con^o da Sé de Lisboa, resto do fetichis- 
mo, 76; Porca de Murça, 85; Relação das Religiões com 
as Mythologias, 166; Perseguições aos Judeus, 169. 

ROMANCES —Yol. i : do Conde Ninho, 193; Maravilhas do meu 
velho, 201; Dona Infanta, 202; Casamento mallogrado, ih.; 
Toureiro namorado, 204. 

Yol. II : D. Ausenda, 125; do Figueiral, 124; Silvana, 1C7; 

D. Pedro Menino, 89, 181; Filha Maria, 181; Santa Isabel, 
185, 499; Nào Catherinetta,425; Conde Lusbella, 412; Dom 
Duardos, 455; A evolução da forma épica, 400; Caracter 
do Romanceiro occidental, 406; Formação dos Romances, 
407; Classificação dos Romances seguindo os themas épi- 
cos, 409; Formação ou adaptação dos Romances a novos 
successos, 410; Acção das mulheres na conservação dos 
Romances, 411; Aravia, seu sentido entre o povo, 406, 411; 
Romances de Guapos no Occidente, 412. 

ROMAIUAS —Yol. ii : Seu intuito cultual, 238: a S. Gonçalo, 
259; da Espiga, 283; de Antime, 311; de S. Thiago, 313; 



ÍNDICE ANALYTICO 545 

de S. Anna áa Oliveira, 3i5; de S. Bartholomeu, 315; da 
Senhora das Neves, 423; como época dos Entremezes, 424; 
da Senhora da Assumpção, 425; Girio do Cabo, 430; Co- 
medias nas Romarias, 432. 
SONHOS — Vol. II : Forma de sortilégios, 97; Modo da sua 
interpretação, ib ; Comparação com a credulidade fran- 
ceza, 98. ii2. 

SORTES — Vol. II : Seu caracter maléfico, 39, li6; Scopulo- 
mancia, 140; Números, seu poder, 141; Adivinhar pelas 
mãos, 168; Vér em espelho, 187; Bolo do sacrifício, 199; 
sorte da peneira, 211; da noite de S. João, 304.— Philtros 
amorosos, 82, 113^ 115; Ligar homem e mulher, 116, 134; 
Bolo ou pão phallico, 133. 

SYMBOLOS Jurídicos —Vol. i: Provenientes do passado, 7; 
Coroa, 13; Vara, 13* Estudo de Grimm. 25; Osculo de paz, 
90; Pomba funerária, 193; Adopção, 236; Formação dos 
Symbolos, 254; Marco salgado, 262; Cabellos soltos ou 
atados, 267; no Casamento, 343; Stipulação, 269; parte 
symbolica na Procissão de Corpus, 269. 

Vol. ii: A independência dos Concelhos, e a Campana, 497. 

SUPERSTIÇÕES— Vol. i: Definição por Tylor, 21; das Ahnas 
penadas, 43; Bastão runico, 63; Deitar as milhas, 138; 
Esconder a ferramenta, 158; Alfinetes na mortalha, 206; 
Defunctos e ritos funerários, 220, 221; Apparições e Bal- 
borinhos, 225; Procissão dos Defunctos, 226; Casamen- 
tos. 253. 

Vol. II : Causas das Superstições, 7; Processo scientifico 

do seu estudo, 8; Critério ethnico e psychologico, 9; Ter- 
ror do desconhecido, 10; Aspectos da natureza, 10, 11; 
Exacerbação inquisitorial, 13; Superstições da Chaldéa e 
do Egypto entre os povos modernos, 14, 15; sua passagem 

Sara o Occidente, 16, 29 a 31; Carantulas, 24: Encruzilha- 
as, 25; Classificação das Superstições, 29; Origens acca- 
dicas, 36; Systema de coordenação, 43; Mostrar dinheiro 
à Lua nova, 49; Superstições provenientes de um culto 
solar, 52, 54; Dias aziagos, 54, 55; Poderes dos astros, ib.; 
das Plantas, 69 a 75; das Aves, 76; das pessoas e seus 
actos, 93; dos Sonhos, 97; da Casa, 106; aos objectos de 
uso, 108; da comida, 109; das roupas, 110; Superstições 
do século XV, 111; do século xvi, 115; Superstições judai- 
cas entre o povo, 169; da festa dos Reis, 259; Agua de 
Maio, 283; da noite de S. João, 305, 307. 
TALISMANS —Vol. ii : Cinco réis à porta, 106; Dente ou ba- 
raço de enforcado, 116, 138; Espada que mata homem. 
Cabeça de Saludadores, 116; Mandraculas, 137; Cartas de 

33 n 



o4() índice analítico 

tocar, (39, 150, 196: Contas, i5i; Vara de Condão, de Ave- 
leira, Cacheira, i59, 160, 161. 

THEZOUKOS—Vol. ii: Ideia ligada aos Menhir e Dolmens, 
63; Carvão em logar de thezouros, ib.; Lançar varas, 116; 
Fixar o thezouro desencantado, 149; Caracter mythico do 
thezouro, 159; Pecus e Pecunia, ib.; Ritual para descobrir, 
160; Haveres do tempo dos Mouros, 183. 

USOS — Vol. I : Tatuagens, 70, 363; Orelhas furadas, 70; Usos 
sem relação com os costumes, 12; Cortar os dedos, 83; 
Signaes na cara, 380. 

Vol. u : Tatuagem, 28, 188; Mancebias, 131. 

ZOOLOGIA POPULAR— Vol. i : Urso, 74j Cabras do Suajo, 
ib.: Montujo, 75; Porco preto, ib.; Furão, 69, 72; Lobo, 70; 
Falcão, 71; Atum, 77; Carneiros, 133; Zorra da Odeloca, 
226. 

— : — Vol. II : Auspicies, 56; Aves de agouro. Corvo, 76; Gallo 
negro, Pombos, Gallinha, 80; Cuco, 81, 131; Gato preto^ 
Pega, 81; Burro, 82; Cão, 84; Lobo, 85, 157; Porco, ib.: 
Cavallo, 87; Sapo, 87; Aranhas, ib.; Baratas, Centopéa, 
Grillo, Mosca, Formigas, Borboletas, 88 ; Basilisco, 89; 
Serpentes mythicas, 125; o Cão, 137; Canto do Gallo, iõí: 
Cobras douradas, 159; Dragão, 162. 






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